quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um ano e tanto

2010 não foi um ano qualquer. Grandes mudanças aconteceram. Anos de perdas e de ganhos, de montanha russa emocional e, certamente de muito aprendizado.

Trabalhei bastante, mais do que gostaria e menos do que poderia. Quem sabe se algum dia eu ganhe na loteria e pare de trabalhar, é verdade que minhas probabilidades são muito reduzidas considerando o fato de que eu não jogo, acho que esse cálculo nem meu amigo Rogério que é estatístico conseguiria fazer.

Trabalhei na igreja até meados do ano. Parei temporariamente. Pretendo voltar assim que me queiram de volta, não me entendo como um cristão se não estiver trabalhando. Agradeço meus alunos que continuam sentindo saudades das minhas aulas.

Minha militância inclusiva se manteve. O ritmo foi um pouco menor mas continuei batendo pernas para falar a respeito de um mundo onde todos os seres humanos sejam considerados seres e humanos e onde a educação seja de fato um direito indisponível.

Conheci pessoas novas nesse meio. Me encontrei com outras que só conhecia pelas telas de computadores. Me surpreendi com o empenho e a luta de muitos. Me decepcionei com a postura de alguns, mas nada que me tirasse do sério.

Os blogs andaram bem até o começo de Junho, depois entraram em férias e voltaram no final de julho num ritmo bem mais leve. As mudanças pelas quais passei bagunçaram um bocado a minha cabeça. Não sei se vou voltar a escrever no ritmo insano que escrevia, mas também não pretendo parar.

Os filhos cresceram, em tamanho e amadurecimento. Dou graças a Deus por ambas as coisas.

Não reclamo dos "amigos" que perdi. Eles apenas revelaram que tipo de pessoas que eram, que vivam em paz.

Por outro lado comemoro os amigos que se mantiveram e aqueles que na hora que eu realmente precisava apareceram sem que eu esperasse.

Não preciso citar nomes, tanto uns como outros sabem em que categoria se encaixam.

2011 marca o começo de uma nova década, a segunda do milênio. Certamente será um ano de muitas novidades e outras conquistas.

Vamos à luta.

Um abraço carinhoso a todos que me acompanharam até aqui, conto com vocês

Fábio

PS: você me pergunta...e o coração? Bem, como diria Drummond: "...o coração continua..."

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Para o levantamento de muitos

“Eis que esse menino está destinado tanto para a ruína como para levantamento de muitos....e para ser alvo de contradição, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lucas 2 :34-35)


Quando o menino Jesus foi apresentado no templo, ele encontrou o velho e piedoso Simeão que falou as palavras acima a seu respeito. Palavras doces para os que crêem, palavras duras para os que não entendem o seu sentido.

A cada Natal eu me impressiono como essa contradição fica mais aparente. Como alguns entendem essas palavras e como tantos se distanciam do sentido da comemoração, a ponto de muitos dos cartões que eu recebo, analógica ou digitalmente, sequer mencionarem o Natal, limitando-se a desejar boas festas.

Para essas pessoas, o final do ano vai ser só mais uma oportunidade de comer e beber, talvez ganhar presentes. Talvez só um momento de desejar que 2011 seja melhor.

Nós também desejamos que 2011 seja melhor para vocês todos, que seja o ano em que aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de encontrar Jesus Cristo possam fazê-lo e que a manifestação do seus corações e dos seus pensamentos possa ser aquela que demonstre que foram levantados para a vida.

Fábio Adiron, Samuel e Letícia

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Crítica teatral

Alguns autores buscam em sua vida real ou imaginária os temas para desenvolverem suas produções artísticas. Esse fato é mais ou menos perceptível a cada novo texto e varia muito de autor para autor.

Por outro lado, existem escritores que conseguem extrair de fatos corriqueiros todo um edifício ficcional que beira o delírio lisérgico.

Esse é o caso da nova obra do teatrólogo galês Oso von Bach, o monólogo "Uma mulher exaltada", atualmente em cartaz no teatro da Aldeia Circular.

A protagonista, interpretada magistralmente pela atriz Elisabeth Bell estrutura-se sobre uma série interminável de pequenos fatos e cada uma das reações ensandecidas da personagem.

A forma como von Bach cria situações absurdas alterna momentos hilariantes e deprimentes. Nem na mais profunda alucinação de uma mente corroída por ácidos nefelibáticos tais situações beirariam sombras de uma existência factual.

O auge da peça e da interpretação de Bell acontece no momento em que ela descreve como se exaltou quando encontrou um cílio do marido caído dentro do box do banheiro e como o convenceu a passar goma arábica nos olhos antes de cada banho para que tal fato nunca mais se repetisse.

Seres como a mulher exaltada de von Bach certamente não existem e, se existissem, viriam de outros planetas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A tupida antologia de Novembro

A regra do jogo é simples. Leia os comentários que foram publicados no blog no mês passado sem voltar aos textos originais. Para cada um deles imagine a sua própria história:



O que vc fez com as coitadas das rosas?

ele tenha terminado morrendo por causa de uma glicemia alta

muita estranha essa geleia...

será que terei o mesmo fim?

Sem querer estragar a beleza da mitologia celta, mas vou resignificar minhas palavras

continuo seguidor fiel das tuas traições

acho que meus neuronios ainda estão embriagados

mamãe também é gente!

Esse post foi inspirado na minha enxaqueca, pode confessar!

eu já ouvi essa orquestra de pulgas amestradas,lá na Praça da Sé...faziam fundo musical,pra uma pregação sobre o livro de Jó...

E vai saber quem elas tinham mordido antes né?

Fiquei zonza, de olhos esbugalhados e nó na língua...

Será que dizem isso ser careta?

Isso é o que acontece com quem confia demais

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novo golpe na praça

Seus amigos não acreditaram quando ele disse que estava deixando sua casa. Não que achassem que ele fosse feliz com Raquel, mas sabiam que ela nadava em dinheiro, como que Ronaldo iria perder esse boquinha, pior, de forma voluntária?

Quando casaram ninguém achou que ele estivesse aplicando o golpe do baú*, Ronaldo não era milionário mas também não era nenhum pé rapado. Raquel era proprietária de uma indústria muito bem sucedida. Quando abriu a financeira para vender seus produtos no crediário ficou mais rica. Quando um banco estrangeiro comprou a financeira e a indústria ela ganhou o suficiente para viver lautamente as próximas 31 encarnações.

Claro que Ronaldo foi beneficiário da fortuna de Raquel. Conheceu o mundo, passou a frequentar os melhores restaurantes, só viajava de primeira classe ou de aviões particulares, tinha até um helicóptero para levá-lo onde quisesse, na hora que quisesse.

Nada disso seduzia Ronaldo. Ele não aguentava mais viver cercado de seguranças armados, não tolerava o puxa saquismo nas festas, nem o assédio de quem sempre tinha um ótimo negócio para lhe propor ou vender. Além disso, depois de enriquecer, Raquel nunca mais lhe dedicara a mesma atenção e o amor de Ronaldo foi arrefecendo até acabar.

Quando os amigos perguntaram quanto ele ia levar na separação ficaram ainda mais perplexos. Ele não ia levar nada, não queria nada que o lembrasse da vida de luxo. Ia pegar a mochila que tinha desde os tempos de mocidade, colocar as roupas que coubessem nela e ia embora. Não sabia para onde, nem como. Mas era um idealista, ia em busca da felicidade.

De fato, dias depois estava em todas as colunas de fofoca dos jornais, a socialaite Raquel tinha sido abandonada pelo marido. Ninguém, nem os melhores amigos sabiam do paradeiro de Ronaldo. E ninguém nunca soube que ele tinha se instalado numa pensão num vilarejo do interior do estado, casara de novo com uma moradora local e nunca teve nada além do que coubesse na sua mochila.

Por isso, até hoje, quando se fala de golpe do baú, sempre alguém lembra que também existe o golpe da mochila, praticado por seres românticos e felizes.

*Um baú é uma caixa retangular, geralmente de madeira, com tampa convexa e coberta de couro cru. Costumam ser grandes e fundos, podendo transportar uma grande quantidade de roupas e objetos. Era muito utilizado pelos nobres nas suas viagens. Pessoas ricas tinham muito o que carregar consigo, daí a origem do termo golpe do baú, ou seja, uma pessoa que se casa com alguém muito rico, apenas interessado nas suas posses.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Caparidáceas

Ele sabia que aquele era o jantar da sua vida. Não poderia cometer nem um erro, nem um deslize.

Depois de muito tempo ele finalmente tomara coragem de convidá-la para jantar na sua casa e, surpreendentemente, ela aceitara o convite.

Justo ela que sempre lhe pareceu ser a estrela inatingível. Até o seu melhor amigo tentou dissuadí-lo de qualquer tentativa. Era areia demais para seu caminhão.

Dormiu muito pouco nas noites que antecederam o encontro. Noites em busca de pratos perfeitos, testando e retestando as receitas. Recorreu a um sommelier para escolher os vinhos.

Nada. Nada podia dar errado. Nada.

Quando ela chegou a mesa da sala parecia um restaurante de luxo. Louça inglesa, taças de cristal tcheco, talheres de prata e guardanapos bordados a mão.

Serviu a salada de endívias com queijo de cabra e amêndoas com um vinho suave. A carne assada com um molho de alcaparras, acompanhada de risotto milanese e de um borgonha valente, mas macio.

Não se arriscou na sobremesa, preferiu comprá-la na doceria mais famosa da cidade e serviu-a com Sauternes.

Conversaram muito a noite toda. Inclusive sobre os pratos que ela queria saber como tinham sido feitos. Ela tentava disfarçar, mas estava encantada.

Meses depois, já namorando firme ele sugeriu de repetir aquele primeiro jantar. Ela disse que tudo bem, mas pediu que ele não usasse alcaparras...

Descobriu que ela odiava alcaparras.

Perguntou por que ela não tinha falado nada naquela noite. Ela deu um sorriso maroto. Ele entendeu tudo. O amor superou até as alcaparras.

Olhou apaixonado para ela e prometeu um jantar sem alcaparras. Ela olhou no fundo dos seus olhos e lhe disse:

" - Ah...só mais um detalhe, as facas ficam à direita do prato..."

domingo, 12 de dezembro de 2010

O melhor caminho

" - ZYD456, a sua Rádio Tráfego (não confundir com tráfico que é sempre um mau caminho) indicando os caminhos menos péssimos para se deslocar na cidade. Patrocínio exclusivo da Norte Oceânia - "Não há turba que me perturbe" e apoio inestimável da CET - Companhia do Engarrafamento do Trânsito, sem a qual essa rádio não existiria.

Abrimos nossos microfones agora para os nossos ouvintes. Conte de onde você vem e para onde vai, e nós te ajudamos a chegar. Na linha está o Astrogildo. Fala Astrogildo, onde é que você está encalacrado..."

" - Oi cara...preciso de ajuda. Eu estou indo de Guarulhos para Santo Amaro, peguei a Marginal Tietê e o trânsito está fluindo bem demais, será que não pode me dizer como é que eu faço para pegar um engarrafamento?"

" - Astrogildo, o melhor caminho é exatamente esse marginais Tietê e Pinheiro até a ponte João Dias, está tudo livre, em 15 minutos você chega lá..."

" - Mas eu não quero chegar em 15 minutos, não tem um caminho pior? Não tem nenhum acidente de moto na 23 de Maio ou na Washington Luiz?"

" - Astrogildo, eu não estou entendendo, você quer pegar congestionamento?"

" - O pior que tiver...por favor...

" - Bem... eu não estou entendendo, mas capotou um caminhão de óleo diesel na Avenida do Estado, quem cair lá vai passar a noite toda parado..."

" - Perfeito...vou voltar e pegar a ponte das Bandeiras..."

" - Mas me explica por que quer passar a noite preso no trânsito..."

" - Ah...é simples, o tanque do carro está cheio, mas eu não tenho um tostão para pagar nem um drive-in, e preciso de uma boa desculpa para ela chegar tarde em casa...click"

" - ZYD456, a sua Rádio Tráfego indicando os caminhos mais péssimos para namorar na cidade

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cefalalgia

Não era nada diferente do que acontecia entre outros casais. Mariana algumas vezes estava com dor de cabeça e, quando isso acontecia, Jorge ficava desconcertado olhando para o teto.

Acontece que, num dia em que Mariana realmente estava com uma dor de cabeça infernal Jorge não se conteve e disse que ia ser com ou sem dor de cabeça. Mariana ensaiou um protesto, mas acabou cedendo. Era melhor aguentar a dor de cabeça do que se arranjar outra.

O que ela não esperava é que mal tinham acabado, a dor de cabeça desaparecera completamente. Quando comentou isso com Jorge ele deu um riso irônico, até parecia que ele tinha acreditado na tal da dor.

Mas Mariana sabia que a dor era real antes e inexistente depois. Tentou entender o que tinha acontecido, não conseguiu e resolveu que aquela situação precisava de uma comprovação científica.

Dias depois Mariana teve um dia cheio de reuniões externas. Ficou muito tempo na rua, debaixo de sol forte. As pontadas na cabeça começaram no final da tarde. Ao chegar em casa não teve dúvida, preparou um jantar romântico para esperar Jorge. Foi tiro e queda. A dor de cabeça que piorara com o vinho do jantar, sumira horas depois.

No dia seguinte Mariana jogou fora todos os seus analgésicos. Não precisava mais deles. Se a dor surgisse, Jorge era o seu remédio.

Depois de algumas vezes ele mesmo começou a acreditar na história e passou a ligar para a mulher quando voltava para casa para saber como estava a cabeça. Quando ela dizia que estava ótima ele imediatamente puxava algum assunto que a preocupasse. Ela brincava que ele só dava dor de cabeça para ela.

Chegaram as férias e foram para a praia. Naquele ambiente tranquilo e despoluído Mariana não tinha suas habituais dores de cabeça. Dias se passaram sem nada acontecer, até porque Jorge se acostumara a só intervir em caso de dor. Nem as invenções de Jorge para deixá-la tensa funcionavam.

Chamada pelo vizinhos que ouviam os gritos de Mariana, a polícia encontrou Jorge segurando a mulher pelo pescoço e batendo sua cabeça na parede

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A cor do som

Elisa chegou em casa cansada e nervosa. O dia, definitivamente, não tinha sido dos melhores. O calor acentuara a sua dor de cabeça, o chefe a culpara por um erro que não era dela e quando ela pediu ajuda a um dos colegas de trabalho ainda teve de ouvir que ele não era mágico para resolver os problemas do mundo.

Olhou para o relógio e ficou ainda pior, faltava um pouco mais de uma hora para os seus convidados chegarem e ela nem tinha começado a fazer o jantar. Entrou no chuveiro, tomou um banho rapidíssimo e voou com as suas tarefas.

Arrumou a mesa enquanto a carne assava no forno, arrumou os vasos de flores, escolheu os discos para tocar durante o jantar, colocou a água no fogo para cozinhar o macarrão. Estava dando os últimos retoques na salada quando seus amigos começaram a chegar.

Depois de muitos anos iria rever parte da turma da faculdade. Mantinha um contato remoto com alguns deles e mais próximo com duas amigas.

Ela não via André desde o dia da formatura, mas lembrava da admiração que nutria por ele. Sempre fora um aluno acima da média e, mais do que isso, era o único rapaz da turma que gostava de jazz. Através dele ela descobrira Benny Goodman, Artie Shaw e George Shearing. Nunca esquecera do dia em que ele apareceu com um programa do Free Jazz e ficou explicando sobre cada um dos shows.

Nesse momento se tocou que não tinha colocado nenhum disco de jazz na sua seleção e, com os convidados em casa não dava para ficar procurando algum que agradasse André.

Os amigos conversaram bastante, comeram bastante e beberam bastante. Elisa só acompanhava o jantar sem muito ânimo. Questionada por uma das amigas respondeu que estava com um pouco de gripe, desculpa que funcionou bem para quase todos, menos para André. Ele percebeu que existia algo além daquilo.

Aliás, não foi só nisso que reparou. Passou a maior parte do jantar olhando para Elisa. Tinha lembranças da menina tímida da faculdade, na época ele nunca sentira nada por ela. Naquele momento reparou que era uma mulher fabulosa e que precisava saber mais a respeito dela. Lamentou que a circunstância não ajudasse.

Já passava da meia noite quando os amigos começaram a ir embora. Elisa, que tinha percebido a forma como André a olhava sentia um misto de alívio (ia descansar) e de decepção (queria entender melhor os olhares dele).

André, que ainda ia levar outras duas colegas para casa, começou a despedir-se de todos. Ao chegar na porta para despedir-se de Elisa, a abraçou e disse no seu ouvido: "- Adorei a trilha sonora!". Elisa derreteu-se toda por dentro. Estava apaixonada.

No dia seguinte André ligou para Elisa para saber se ela estava melhor. Convidou-a para irem a um show no Bourbon Street no fim de semana seguinte. Começaram a namorar ouvindo Pizzarelli. Casaram dois anos depois.

E durante o casamento colocaram a trilha sonora daquele jantar, acabando de vez com todos os anos de solidão.

sábado, 27 de novembro de 2010

Uma rosa é uma rosa


Fernando nunca levou a sério pessoas que fossem viciadas em qualquer coisa. Achava essa história de dependência física, química ou psicológica uma besteira. Coisa de gente fraca que não tinha autocontrole ou capacidade de gerir suas próprias vidas. Pessoas como ele não permitiam que nada fosse mais forte que a razão.

Chegou mesmo a perder alguns amigos por isso. Suas críticas nunca eram leves e seus comentários, mesmo em tom de brincadeira, eram ferinos. Outros relevavam, afinal, tirando essa mania, ele não era um mau sujeito.

Fernando só perdeu as estribeiras no dia em que um colega de trabalho disse que ele tinha dependência psíquica de falar mal das dependências dos outros. Para contrariar esse tese ficou mais de dois meses sem tocar no assunto.

Foi nessa época que, num sábado, foi tomar chá na casa de uma velha tia que ele sempre visitava. Entre chás, torradas e biscoitos, ela trouxe uma novidade que ganhara de uma neta: um vidro de geléia de rosas.

Fernando achou estranho comer flores, mas experimentou. Gostou. Pegou o pote, examinou as informações, perguntou à tia se ela sabia onde aquilo tinha sido comprado.

Saindo da visita foi direto ao supermercado que ela citara. Encontrou quatro potes na prateleira. Levou todos. Passou a noite comendo a geléia com uma colherinha de café para que rendesse mais. Na manhã seguinte não tinha mais nada.

Passou o dia seguinte correndo as lojas da rede de supermercados e comprando todos os potes que encontrava. Estocou a despensa e resolveu limitar o consumo a um pote por dia.

Nunca deixava o estoque baixar, até o dia em que começou a ter dificuldades para comprar sua geléia. Os estoques das lojas não estavam mais sendo repostos. Ligou para a sede do supermercado onde foi informado que tinham renovado a linha de produtos e não importariam mais aquele produto.

Entrou em desespero, chegou a tentar importar diretamente da Inglaterra, como não tinha registro de importador, seu pedido foi recusado.

A geléia acabou e ele entrou em crise de abstinência. Os amigos não entendiam nada, ele só dizia que era falta de rosas. Os amigos traziam buquês que ele despetalava, jogava dentro de um tacho com açúcar e água e cozinhava. Não era a mesma coisa.

Foi encontrado desmaiado no corredor do seu prédio. Levaram-no para o pronto socorro onde os médicos não conseguiam identificar seu mal. Seu sangue foi perdendo cor até ficar transparente.E morreu.

No velório, a tia, tristonha, trouxe café, bolachas e geléia de rosas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Traje dos céus

Não é a primeira vez que eu cometo uma traição nesse blog, pelo contrário, sou um traidor contumaz como se pode ver aqui.

Também não é a primeira vez que traio Yeats, ele já me puxou as pernas à noite pelo que fiz com o vagante Aengus.

Dessa vez traio os seus sonhos, ou serão os meus?

Traje dos céus

Tivesse eu trajes tecidos nos céus,
Permeados de ouro e prata e luz,
O azul e o sombrio e escuro traje
De noite à noite à meia luz,
Lançaria sob teus pés minha capa
Mas pobre eu sou, só sonhos tenho
Sob teus pés lancei meus sonhos
Pise suavemente, caminhas em sonhos.

Anthony Hopkins em 84 Charing Cross Road também tinha devaneios com esse poema



O original é o seguinte


Cloths of heaven
William Butler Yeats

HAD I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

domingo, 14 de novembro de 2010

A vetusta antologia de Outubro

Acho que eu acabei sendo muito sério esse mês e, como consequência, a maioria dos comentários também o foi.

Mas sempre tenho companheiros insanos a tergiversar pletoras.

Aí vão os melhores comentários de Outubro


Se um dia eu crescer...também quero ser assim...

Entupa todos os ralos do seu lar com estopa.

Pois é...

O certo mesmo é ser piranha do brejo e morder tudo quanto é calcanhar.

...se essa caixinha ficar quieta,eu consigo contar...

também é composto de colágeno...

Essa brincadeirinha dos pontos pretos me deixou pálida...

nos dieron la lección de la vida en la greda

morte chegar num café com cultura...

Que mente é essa, a minha???

Cicuta é bebida fraca, tem algo + forte?

Vou imprimir e destribuir na feira.

chamado o capitão caverna para ajudá-la

Uahahahaha...pessoa louca..

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Lei do silêncio

Ana entendeu perfeitamente quando Carlos falou que sua mãe viria morar com eles. A mãe ficara viúva há pouco tempo e os filhos acharam melhor que ela não morasse sozinha. Carlos tinha a casa que permitia alojar a mãe.

A nora, apesar das lendas, se dava muito bem com a sogra e cuidou de todos os detalhes da instalação dela em sua casa com carinho e delicadeza.

O que eles não pensaram, em momento algum até a mudança era que, a partir daquele momento, não estariam mais sozinhos em casa, e no que isso implicava.

Naquela noite, quando Carlos se enroscou em Ana, caiu a ficha. Não que algum dos dois fosse exatamente escandaloso, mas também não eram nada silenciosos. Naquele momento, Carlos perdeu o ânimo, Ana não entendeu, aquilo nunca tinha acontecido antes, até Carlos murmurar: " - A mamãe..."

Ana desabou. Nunca mais aventuras no corredor. Temperos na cozinha, nem pensar. Chamou Carlos para levantar e ir até a cozinha para tomar um chá. Precisavam conversar.

Carlos comentou que ele era mais barulhento que Ana, poderia tentar se controlar. Ana duvidou que isso fosse possível. Não era.

Depois de muito conversar, concluíram que, mesmo nunca tendo gostos sadomasoquistas, poderiam experimentar usar mordaças. Ana tinha uma bela coleção de lenços de seda que serviriam.

Naquela mesma noite pegaram o lenço estampado de Barcelona e o azul marinho. Um amordaçou o outro e foram em frente. Funcionou bem, os únicos sons eram tão baixos que certamente a mãe não ouviria no quarto ao lado. Os beijos ficavam para o antes e o depois.

E assim continuaram a vida. A coleção de lenços era grande e sempre tinham um par enquanto os outros lavavam, mas um dia aconteceu da umidade do ar permanecer alta por quase uma semana e, naquela noite não tinham nenhum lenço seco. Ana tentou secar um par no ferro e acabou queimando a seda.

Durante o jantar ela comentou o fato com Carlos, que devolveu um sorriso consternado, e convidou-a para assistir um DVD depois do jantar.

Estavam no sofá vendo o filme quando a mãe chegou por trás deles, com dois lenços de seda nas mãos. Olharam um para o outro sem entender nada, ao que ela falou:

" - Esses lenços eram da sua avó, que teve 12 filhos. Usem essa noite, quem sabe me ajudem a, finalmente, ganhar um netinho."

sábado, 6 de novembro de 2010

Sem fumaça

Rosana ouviu o apito do celular e ficou imaginando quem poderia estar lhe mandando torpedos numa hora daquelas. Não acreditou quando viu que era uma mensagem de Sérgio, perguntando se ela tinha melhorado da dor de cabeça.

Até seria uma atitude gentil, não fosse o detalhe que ela estava no quarto e Sérgio, seu marido, estava na sala vendo televisão.

Ela não respondeu. Cinco minutos depois o telefone tocou. Era Sérgio querendo saber se ela tinha recebido o torpedo. Quando disse que sim ainda foi obrigada a ouvir a cobrança de que não tinha recebido e depois ia reclamar que ele não se preocupava com ela.

Ficou tão brava que desligou o celular e tirou o telefone fixo do gancho. A dor de cabeça piorara e ela queria dormir.

Não conseguiu. Dez minutos depois Sérgio apareceu na porta do quarto reclamando que não conseguia falar com ela e só caia na caixa postal.

Ela enfiou a cabeça embaixo do travesseiro. Não dormiu, pensando a noite inteira. No dia seguinte dedicou-se à pesquisa de antropologia e etnologia.

Um mês depois avisou Sérgio que estava indo embora e que ele não se desse ao trabalho de procurá-la.

Mudou-se para uma aldeia indígena no interior do Acre que não conhecia nenhum meio de comunicação à distância, nem sinais de fumaça.

E tornou-se uma mulher feliz.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cena hiperrealista

Na Praça Clóvis, Bevilacqua ainda ressonava junto ao meio fio ao som da sua orquestra de pulgas amestradas tocando um pout-pourri de Benny Goodman.

Os primeiros passantes da madrugada olhavam acintosamente a cena, o que não os impedia de lançar cáusticas bitucas nos bueiros arratazanados.

A moça de camisa rosa paramentava os abrolhos discrepantes que pendiam solertemente das vitrines da alma

Corega! Corega! Bradava Cantinflas do alto do seu tabuleiro de rapadura na esquina da Maria Quitéria.

Os janisteus cabrobravam paulatinamente os pneumáticos espreguiçantes, entre ladrilhos e abutres.

Desde a praça, ramos pendiam flácidos entre columbiformes e amorfas lagartas que atacavam vorazes as penas de morte.

Tua perplexidade diante de fatos combustíveis inexorava a multidão.

E eu saí pelas ruas em busca do tempo mordido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Escravos de Jó

Rinaldo e Karina começaram a namorar na adolescência e nunca se separaram. Também nunca casaram. Nem eles mesmos sabiam explicar o por quê (ou os vários por quês).

Chegaram mesmo a comprar e mobiliar um apartamento com a intenção de morarem juntos, o que nunca aconteceu.

O apartamento virou um lugar de refúgio para eles. Ambos usavam o lugar sozinhos, algumas vezes; muitas outras juntos, geralmente nos finais de semana. O que não impedia que um dormisse na casa do outro de vez em quando.

Rinaldo morava coma mãe, já idosa. Karina coma irmã mais nova. Nem uma nem a outra jamais questionaram o arranjo de vida dos dois.

Já o resto do mundo não entendia nada. No começo ainda tentavam explicar, depois desistiram e começaram a se divertir com as reações das pessoas.

No supermercado os olhos arregalados dos caixas quando separavam as compras da minha casa, da sua casa e da nossa casa.

No cabelereiro ela ria quando Rinaldo chegava com a mãe e saía com ela dizendo que ia até em casa antes de voltar para casa.

Sem contar as vezes que pagando a conta em restaurantes Karina dizia não saber se ia dormir com ele ou com a irmã. Uma vez o garçom chegou mesmo a derrubar a bandeja onde trazia o café. Ninguém se queimou.

Os porteiros dos três prédios já tinham se acostumado com o trânsito dos carros, o de Rinaldo, o de Karina e o da irmã de Karina que ela pegava nos dias de rodízio.

Uma vez resolveram reformar, ao mesmo tempo, os banheiros de todas as casas. Foram comprar vaso sanitários e o vendedor não sabia a quem dar razão. A Rinaldo que queria um modelo que fosse seguro para a mãe, a Karina que queria algo feminino que combinasse com ela e com a irmã, ou aos dois quando escolhiam um modelo futurista para a casa comum.

Compraram 3 vasos e 3 tampas de acordo com a necessidade de casa lugar. A tampa de Karina foi entregue com o vaso da casa comum, a tampa da casa comum com o vaso da casa de Rinaldo e a casa comum recebeu um vaso sem tampa.

Não dava mais para continuar daquele jeito. Passaram a noite discutindo as possíbilidades e, depois de muitos cafés, se acertaram.

A máe de Rinaldo foi mandada para um lar de idosos e o apartamento vendido. Karina ficou como única proprietária da casa comum.

E Rinaldo foi morar com a irmã de Karina, com quem se casou seis meses depois.

sábado, 30 de outubro de 2010

Para sempre

Para A & B, meus modelos de vida a dois

Ela me olhou com aqueles olhos verdes que sempre me emocionaram e me disse que estava com saudades do seu amor.

Não falava de forma amargurada mas estava claro que aquilo a incomodava.

" - Mas ele viajou ontem à noite... além disso vai ficar fora somente três dias", falei, tentando fazer com que ela não se sentisse triste.

"- Eu sinto saudades quando ele vai até o banco e volta em meia hora. Três dias são uma eternidade, além disso estou só desde ontem à noite..."

" - Você sabe que ele precisa trabalhar, isso faz bem para a cabeça dele", insisti.

" - Eu sei... eu sei... eu sei que é bom para ele, mas, o que eu sinto? Não tem o mesmo valor?"

" - Claro que tem, mas ele ainda trabalha só para poder te mimar..."

" - O melhor mimo que ele pode me dar é ficar comigo o tempo todo."

E encerrou o assunto.

Fomos tomar um chá com torradas e conversamos sobre lembranças da família.

Fui para casa convicto que o amor existe. Que a paixão resiste ao tempo e, quando isso acontece, nem os quase 60 anos de casamento são capazes de mitigar as saudades.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

As águas rolaram

Minha amada amantíssima adorada,

Eu sei que nos desentendemos a respeito de um assunto muito importante para você. Sei que não deveria ter me exaltado como aconteceu. te peço perdão.

O que sei é que quando olhei aquela grelha prateada, reluzente, redondinha, eu me empolguei a ponto de quase me colocar de joelhos diante dela, tal foi minha vazão.

Imediatamente você sifonou-se e reclamou que a grelha não tinha caixilho. Eu demonstrei todo o meu desdém pelo caixilho. Quem precisa de caixilho quando se tem uma grelha perfeita?

Seu olhar foi fulminante. Sua reação ameaçadora. Para você, grelha sem caixilho é algo intolerável e, mesmo sabendo disso, achei que era apenas uma frescura e comprei meu objeto de desejo.

Você nem falou mais comigo ontem à noite. Hoje encontrei seu armário vazio e seu bilhete cravado com um facão na porta do banheiro: "Adeus seu crápula, você jogou nosso amor pelo ralo".

Volte para mim, meu amor, eu já resolvi tudo. No nosso lar, nunca mais, uma grelha ficará desencaixilhada.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O triste fim de Ananias

Quando André contou para sua irmã que tinha comprado um aquário ela estranhou. Ele nunca fora muito dado a animais de estimação e não era um homem de se preocupar muito com o que acontecia à sua volta.

Mesmo assim ela não disse nada e ficou torcendo para que ele se desse bem com seu peixe. Ele era um sujeito solitário, acostumado a viver para si mesmo, quem sabe a companhia de outro ser o transformasse num homem melhor.

De fato, nos primeiros meses André cuidou bem de Ananias (como batizara seu peixe Beta, espécie que ele escolhera justamente por ser a que exige menos cuidados do dono). Trocava a água do aquário duas ou três vezes por mês, alimentava-o com frequência (ainda que não poucas vezes esquecesse de tirar o excesso de comida) e, surpreendentemente, conversava com o bichinho.

Claro que ele deu algumas mancadas no caminho. Uma vez colocou queijo ralado no aquário no lugar de ração. Em outra esqueceu o aquário do lado da janela e quase matou Ananias de calor. Mas o peixe era realmente resistente e parecia tolerar qualquer falta de cuidados a que era submetido.

Para o azar de Ananias, tudo mudou no dia em que André saiu de férias e ficou mais de um mês fora de casa. Ele foi bem tratado pela irmã enquanto o dono viajava mas, ao voltar, André parecia ter voltado ainda pior do que sempre fora. Passou a negligenciar a alimentação do bichinho, as trocas de água foram rareando e a preocupação com a temperatura passou a ser nenhuma.

Ananias começou a dar sinais de que o descuido não lhe fazia bem, mas André não reparava em nada, só se preocupava em cuidar dos seus afazeres pessoais e em coisas que lhe trouxessem algum benefício pessoal, o peixe não era uma delas.

Quase sem comer e vivendo num ambiente poluído Ananias piorava dia-a-dia. Até o ponto em que André passou a esquecer completamente de alimentá-lo (ainda que sempre voltasse da rua com seus sacos de salgadinhos que consumia vendo televisão).

Uma manhã, ao entrar na sala, André encontrou Ananias boiando de barriga para cima. Desesperou-se. Como é que seu velho amigo fazia isso com ele? Imediatamente trocou a água do aquário, levou-o para o banheiro que era mais fresco. Descobriu que não tinha nenhuma ração na dispensa e saiu para comprar.

Nos dias seguintes fez de tudo para ressucitar o peixe. Colocava ração de duas em duas horas (as sobras eram totais), trocava a água todo dia, chegou mesmo a colocar um termômetro ao lado do aquário. Todas as noites conversava com o cadáver de Ananias, cutucava suas barbatanas e falava que ele não podia morrer, que ele não sabia mais viver sem ele. Claro, inutilmente.

Só se conformou com a morte do bicho quando esse começou a se decompor e cheirar mal.

André perdeu o humor, mas não perdeu a pose. Quando a irmã lhe perguntou o que tinha acontecido com Ananias, André foi taxativo : "Morreu por culpa dele, quem mandou ser um peixe suicida?"

domingo, 24 de outubro de 2010

Aforismos tergiversantes

Quem pensa, com seus males se espanta

Se você anda no mundo da lua, por favor, não pise nos selenitas

Não ser invasivo é uma boa desculpa para ignorar as pessoas

Alguns seres humanos não tem a capacidade de serem humanos.

Discordar é o caminho mais rápido para te dizerem que você está errado

A fusão do frio e do quente só gera relacionamentos mornos

Quem ama o feio julga-se na vanguarda estética

Senso comum não é fácil de achar mas, raríssimo mesmo são aqueles que tem senso incomum
(obrigado Mario Fantoni, sujeito de senso incomum)

sábado, 23 de outubro de 2010

Sul para sempre



Meu olhos sempre estiveram voltados para o sul como se eu nunca tivesse um norte na vida.

O sul que me deu amigos de rara inteligência e de grandes discussões filosóficas e intelectuais.

O sul da Rejane, da Izabel, da Ana Mello. O sul do sempre brilhante Fabrício Carpinejar, que ontem fez aniversário.

O sul que me deu o som de Victor Ramil com suas estrelas solitárias e suas milongas plangentes.

O sul que mais ao sul me trouxe Borges e Cortázar. Amigos de todas as horas que moram nas minhas estantes e armários.

O sul que me ensinou a gostar dos tangos de Lesica e de Piazzolla

Meus olhos se voltam ao sul, imensa lua, céu ao revés.

Volto ao sul, para dele nunca mais sair.

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor
vuelvo a vos
con mi deseo, con mi temor
Llego al Sur
como un destino del corazón
soy del Sur
como los aires del bandoneón
Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al revés
busco el Sur
el tiempo abierto, y su después.
Quiero el Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llego al sur
te quiero

Convite à viagem


Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.
(Charles Baudelaire)



Quero viver no país
Que se espalha em quinze
tonalidades de azul
Onde os mares
sejam senhores
de norte a sul

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

Os móveis de cada casa
polidos com o brilho
do teu suor
As flores reproduzam
teu perfume
teu odor

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

Quero cada eternidade
como o primeiro
fruto da espiga
Acordar todas manhãs
Com o mesmo
frio na barriga

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

E quando a morte chegar
que seja num café
onde habita a cultura
E Um só sonho
Um só corpo
A nossa sepultura

O amor enfim será
Luxo, calma e volúpia

sábado, 9 de outubro de 2010

A irrefreável antologia de Setembro

Eu voltei a escrever e meus comentaristas voltaram com a corda toda, foi difícil selecionar os comentários mais surreais.

Aí vão meus escolhidos do mês. Se você não foi escolhido vai precisar beber mais cicuta nesse mês.

talvez eu precise de uma dose de álcool...

levei tanto puxão de orelha, por conta das benditas bergamotas...

fiquei com medo do bafômetro.

eu quero mesmo,de verdade,é conseguir dormir..

às vezes tenho a sensação de que vaguei por algum sonho alheio

E lá vou de novo fazer a recuperação paralela.

se não for insana o suficiente eu me enforco num pé de coentro!

Sinto dizer, mas a sua Maria fugiu com os 7 Boys!

eu daria o maior bolo nele e iria cantar em outras padarias

"Anauê" !!!!Eu estou com você!!!!!

Será que a Monastra sabe o que é Ftalocianina?

Ftalocianina,dá o mesmo efeito que fluoxetina?

mas que chulé logo de manhã...

a DDA aqui tá em forma!!!

Que o dia 1 seja o pior dos dias do resto de sua vida!

você só precisa tomar cuidado para não se apaixonar pelo urologista...

João,na verdade era bipolar...

Marquei uma reunião com Mr Google para às 10:00

minha coleção de discos de vinil ficam para você.

será por causa da minhoca que era guardiã das especiarias?

Não há sobreviventes de ontem?

Eu achava que você era gordo! :-)

Quase engasguei com o café quente..

sábado, 2 de outubro de 2010

Modelo de amor

O manequim negro em roupas esportivas era um cara saradão. Barriga tanque Brastemp de 10kg, bíceps musculosos e proporcionais, lábios finos. Rosana, que trabalhava na loja ao lado apaixonou-se pelo boneco.

No começo as colegas de trabalho acharam que era só mais um chiste de Rosana. Ela era uma moça brincalhona e esse tipo de piada era bem peculiar dela.

Não era. Ela realmente nutria sentimentos pelo boneco, a ponto de tratá-lo por apelidos carinhosos e, não poucas vezes, sacrificar seu horário de almoço para ficar falando com ele.

Nos dias em que trocavam a roupa do manequim ela passava o dia suspirando. Sua gerente já andava preocupada, mas reconhecia que seu desempenho como vendedora tinha melhorado muito desde que se apaixonara.

Rosana começou a assediar o dono da loja do manequim, queria comprá-lo a qualquer custo. Temendo que o boneco fosse usado na loja concorrente ele recusava qualquer oferta que ela fazia. Ela chegou mesmo a propor-se trabalhar para o dono do manequim se ele o vendesse para ela. O dono da loja concluiu que ela era louca e nem conversava mais com Rosana.

Uma manhã, ao chegr ao trabalho, Rosana notou que o manequim tinha sumido da vitrine. Em pânico, correu em direção à porta da loja. Estava lacrada com um aviso da justiça decretando a falência da loja e confiscando todos os bens do negócio.

Ela nem quis saber. Comprou um taco de golfe na loja de esportes, arrebentou a vitrine, invadiu a loja em busca do seu amor. O alarme toca e ela precisava ser rápida antes que os seguranças chegassem.

Encontrou sua paixão dentro de um armário. Nú e abraçado a uma manequim de peruca loira.

Louca de ciúmes arrebentou os dois a tacadas e só parou quando foi presa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Sous plat

Quando acabou de abrir seus presentes de casamento Rogério olhou desapontado para Marisa. Não tinham ganho o jogo de sous plat que ele marcara em todas as listas de presentes. Marisa sorriu amarelo e disse que depois cuidariam disso.

Os anos se passaram e, todas as vezes que Rogério via sous plats nas lojas dizia que ia comprar. Nunca conseguiu.

Marisa sempre dava alguma desculpa para adiar a compra. Ora que não tinham dinheiro, ora alegava que recebiam poucas visitas. Mais de uma vez disse que sous-plat era coisa de restaurante, não de casa.

Quanto mais adiavam a compra, mais frustrado ficava Rogério. Até pensou em comprar sozinho, mas sabia que a mulher ficaria exaltada se ele fizesse isso.

As desculpas se sucediam. Num determinado momento a frustração começou a virar ressentimento. O ressentimento em ódio.

Marisa achou que a distância de Rogério era infidelidade. Só podia ter arranjado outra. Começou a seguí-lo pela rua.

Um dia viu-o entrando em um flat. Esse deveria ser o ninho de amor do canalha. Entrou atrás e perguntou na recepção qual era o apartamento de Rogério. A recepcionista a questionou sobre o seu nome e disse que ela não estava na lista de convidados. Marisa alegou que só tinha recebido o convite há pouco.

Subiu bufando. Convidados? Que tipo de bacanal ele estaria fazendo?

Tocou a campainha. Rogério surgiu à porta de avental. Ao ver Marisa começou a rir enquanto ela invadia o apartamento.

A mesa, posta para quatro pessoas. Todas com direito a sous-plat. Roxa de vergonha, Marisa foi em direção à saída, onde Rogério lhe pediu que ela arrumasse as suas malas e as deixasse na portaria.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma lição de tango

Por una cabeza (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera), tocado por Tango Project

Minha parceira no video é minha professora Melissa

When you undertake to dance the tango you become ready to move beyond life's fears. You acquire a way to celebrate life's romance. You dance of dreams: of passion, tension and release, frustration, conflict, separation from home and loved ones, and of resolution. You dance of your destiny in the making

Argentine Tango is to lead and follow, to step to & fro, to turn right & left, to move together as one body. To Tango is to trust, to pause, to dance in a close embrace, articulating the unfolding of desire into passion. (Hugo Heyman)


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cortina de fumaça

Arnaldo nunca fora ciumento mas, já há algum tempo, começara a desconfiar do comportamento de Veronica. Ela passava mais tempo fora de casa, alguns dias chegava tarde e, mais de uma vez, achou que ela estava com roupa diferente da qual tinha saído.

Começou a questioná-la. Bo começo, de forma discreta, depois de maneira mais incisiva. Ela sempre tinha uma história, sempre envolvendo Magali, sua melhor amiga.

Tinha almoçado com Magali. Ido ao cinema com Magali. Passeara no shopping com Magali. Arnaldo tinha certeza que a amiga estava acobertando Veronica. Tinham intimidade suficiente para isso e a amiga fazia o papel de cortina de fumaça.

Chegou mesmo a aparecer de surpresa no restaurante preferido delas num dia que Veronica disse que ia almoçar com Magali. Quebrou a cara. As duas estavam mesmo almoçando, e riram muito dele.

Arnaldo não se conformou. Alguma coisa existia e ele precisava descobrir. Todas as quartas-feiras Veronica dizia que ia passear com Magali e sempre chegava tarde. Numa dessas quartas-feiras Arnaldo escondeu-se no porta malas do carro de Veronica. Ela saiu no horário de sempre, parou no meio do caminho e pegou alguém cuja voz ele, de dentro do porta-malas não conseguiu identificar.

O carro parou. Ele ouviu as portas fecharem e esperou um pouco para sair. Estava certo, o carro estava estacionado na garagem de um motel. Arnaldo pegou a câmera do celular e se preparou para dar o flagra na mulher e no amante.

Meteu o pé na porta do quarto e entrou aos berros. Veronica assustada, também gritou e escondeu o amante debaixo dos lençóis. Arnaldo mirou a câmera, arrancou o lençol com toda sua força.

E encontrou Magali nua.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Em busca do Graal

No tempo ancestral dos sonhos, de um reino outrora obscuro e pequeno, tornaste-te princesa.

Os becos sujos da alma converteste em alamedas floridas. Perfumadas.

Teu sorriso abriu as portas dos cômodos e incômodos trancados. Envergonhados.

A melodia da tua voz era como o primeiro raio de luz da manhã. Nas tuas mãos o brilho dos cristais.

Hoje as flores sentem a tua ausência, e do perfume que as fez negar seus próprios aromas.

A água das fontes resseca por não poder tocar tua pele e os pássaros aguardam teu comando para cantar.

Soberana desse reino, todos teus súditos esperam o teu retorno das cruzadas.

Enquanto lutas pelo cálice de fogo e sangue, o reino treme de saudades, paralisado.

Com o olhar fixo na estrada pela qual voltarás envolta em nuvens e espuma.

Chegarás portando o Graal e assumirás o trono que a ninguém mais pertence.

Para sempre.

domingo, 19 de setembro de 2010

Em busca de Kalsahad

No deserto da Mauritânia existe uma caverna escondida em meio às dunas do Saara, em algum ponto entre Atar e Tidjikdja. Ninguém nunca souber precisar exatamente a sua localização.

É a morada de Kalsahad, a serpente que salva ou destrói homens que se perdem no deserto. Ao encontrar um viajante perdido ela imediatamente o ataca e inocula o seu veneno. A salvação depende apenas da obediência a ordem do réptil: jamais revelar nada a respeito dela.

Após a mordida, Kalsahad conduz a pessoa à fonte de água da sua caverna e, em seguida guia o viajante até a saída do deserto. Caso algum deles tente contar a história para outro ser humano, o veneno age imediatamente e, em segundos, a pessoa morre asfixiada.

A história da Kalsahad só foi revelada ao mundo quando Timothy Karsten morreu e, entre os seus escritos, foi encontrado o relato de sua passagem pelo deserto, num envelope lacrado dentro do seu cofre, com a recomendação de que quem achasse aquele texto deveria mantê-lo em segredo, sob o risco de ser vítima da maldição.

Carl Schneider, seu assistente e inventariante, entendeu que a vingança de serpente só poderia acontecer naqueles em que ela tivesse inoculado seu veneno e, no dia seguinte, levou a história para Thomas Yale, o editor da revista da sociedade naturalista britânica que, encantado com a descoberta resolveu publicá-la.

A revista ainda não tinha chegado aos seus leitores quando os jornais anunciaram a súbita morte de Schneider. Aparentemente provocada por problemas respiratórios durante uma das suas sessões de sauna finlandesa. Na volta das cerimônias fúnebres, o carro de Yale se desgovernou sobre uma das pontes do Avon e ele morreu afogado, preso dentro do carro.

A revista começou a circular sem que ninguém mais soubesse da origem do texto. E, um a um, os membros da sociedade naturalista começaram a morrer. Nem os melhores detetives da Scotland Yard conseguiram desvendar o mistério da sequência de mortes.

Com o tempo e com as mortes dos seus leitores, os exemplares da revista que continham a história de Kalsahad foram desaparecendo e apenas três deles sobreviveram empoeirados em fundos das bibliotecas de Trowbridge, Macclesfield e Stromness.

Foi justamente durante a minha última visita a Stromness, quando pesquisava a fecundação das tilápias de Loch of Stenness que, numa tarde de nevasca, me refugiei na biblioteca de Outertown Road e, nada tendo o que fazer, comecei a folhear os exemplares antigos da revista da sociedade naturalista e encontrei o relato de Karsten e, dentro da revista os recortes dos anúncios fúnebres de quase todos os membros da sociedade.

Não consegui identificar se o proprietário original da revista tinha sido um dos últimos a morrer ou se, ao perceber seu risco, manteve a publicação escondida. Sei que mudei todo o foco da minha investigação e parti dias depois para a Mauritânia para estudar as víboras do deserto.

Nesse momento escrevo de Jraif, amanhã começo minha caminhada pelo deserto em busca da mítica serpente. Caso vocês não tenham notícias minhas nos próximos meses lembre-se de não encaminhar essa mensagem para ninguém e notifiquem as bibliotecas para que queimem as revistas remanescentes.

Archibald Yorestavish, PhD.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca olhou para outra

Haroldo era um marido exemplar. Trabalhador eficiente, pai zeloso e cidadão honesto. Se não era mais que um cara burocrático com a mulher, essa também não tinha muitas queixas, vivia sua vida sem sobressaltos.

A máe de Haroldo o considerava o seu orgulho pessoal. Na sua visão materna criara o homem perfeito e sempre que encontrava Soraia, a mulher de Haroldo, ela fazia questão de ressaltar que ele nunca tinha olhado para outra mulher.

Como acontecia todos os anos, no período de declaração de imposto de renda, Haroldo trabalhava até mais tarde todos os dias no escritório de contabilidade. Não era diferente naquele ano.

O diferente é que Soraia começou a captar sinais preocupantes. Um dia Haroldo chegou em casa com fios de cabelos presos no paletó (deve ter sido no ônibus, ele disse). Em outro dia cheirando a perfume feminino (é aquela secretária que exagera na dose e empesteia o escritório com esse cheiro) e até mesmo uma mancha de batom no seu lenço (emprestado a uma colega resfriada, segundo ele)

Desconfiada, Soraia começou a examinar os pertences de Haroldo depois que ele dormia. Começou a encontrar coisas. A primeira foi uma nota fiscal de uma joalheria. Haroldo jurou de pés juntos que era de um cliente do escritório e ele, sem querer, tinha colocado na sua pasta. Inclusive agradeceu Soraia por tê-la encontrado.

Dias depois, um pacote de camisinhas no bolso do paletó. Segundo Haroldo era para o filho mais velho, afinal ele precisava educar direito os meninos.

Soraia engoliu todas as desculpas. Até o dia em que achou uma caixa de Viagra aberta, faltando dois comprimidos. E certamente não tinham sido usados com ela.

Haroldo não teve escapatória. Confessou tudo. Inclusive sua tara sadomasoquista de transar só de olhos vendados. Ele realmente nunca olhava para outra mulher.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um duplo singular

Esquizofrenia é um transtorno mental que caracteriza-se essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas e pela multiplicidade de personalidades de uma pessoa.

Não era o caso de João, ainda que muitas vezes o diagnóstico inicial apontasse para isso, depois de algumas consultas os médicos descartavam e ssa possibilidade.

A mãe de João não sabia mais o que fazer com o menino que ora se dizia ser João e, em outras, era apenas João. Quando questionado quem era naquele momento ele sempre dizia a mesma coisa: "- João... ora bolas!". Por outro lado, quando ele mudava de João ele avisava.

João tinha momentos de bom e mau humor, João também. As pirraças não eram de um João específico, tão pouco as brincadeiras. O menino tinha mesmo dupla personalidade, só que as duas personalidades comportavam-se da mesma forma.

Só havia uma exceção: nem todos os amigos de João eram também os amigos de João. Muitos deles eram comuns, outros exclusivos de uma personalidade ou outra. Quando João encontrava um que fosse só amigo de João ignorava-o completamente o que, não poucas vezes, causou confusões. Só depois de algum tempo é que os amigos se acostumaram com a mania do menino.

João só foi ter problemas mais sérios quando, mais velho, começou a namorar. Era comum uma namorada encontrá-lo com outra, claro, era o outro João, mas elas não aceitavam isso.

João e João só foram felizes no dia em que conheceram Maria. Nela encontraram o amor perfeito para eles. A mãe que passou a vê-lo somente com Maria achou que o filho estava curado.

A felicidade durou pouco. Num dos primeiros papos com a nora entendeu tudo. Maria também tinha um desvio de comportamento: era maníaca por bigamia.

domingo, 12 de setembro de 2010

Hoje é o dia 1 do resto da minha vida

Hoje é o dia de ouvir aquelas frases clássicas sobre espírito jovem, sobre a vida começar aos 50 e de dizerem que eu não mudei nada...

Quantas vezes ouvi as pessoas falarem....X anos de idade, mas com um espírito jovem?

Longe de me parecer algo saudável, isso me soa um pouco esquizofrênico : dupla personalidade ? uma no corpo e outra no espírito, não sei não...

Eu prefiro comemorar meu aniversário de verdade, de corpo e espírito que caminham juntos e fazem de mim uma pessoa cada dia mais imatura e menos consistente.

Não faltarão os comentários sobre ser a minha idade a melhor fase da minha vida, assim como sempre as pessoas se referem à idade das crianças.

Também esse tema é objeto das minhas discordâncias. Eu nunca tive uma fase melhor na minha vida, todas elas foram tão boas que é impossível definir uma que tenha sido melhor ou pior.

Assim como o melhor beijo sempre é o próximo, para mim a melhor fase da vida é essa em que estou.

Hoje comemoro meio século e só tenho bençãos a contar e a agradecer a Deus que me sustém.

E, claro, agradecer o carinho, a atenção e o amor daqueles que sinceramente os têm oferecido para mim.

*A minha foto foi tirada pela amiga Mara Regina, a Pérola.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poemeto pigmentar


Monastra minha amada
Talvez não seja nada
Talvez em si seja tudo
Ou mudo

Monastra querida minha
Não escute a vizinha
Ela adora uma fofoca
Na toca

Monastra minha flor
Nunca duvide do amor
O meu nunca acaba
Na taba

Monastra minha vida
Se alguém duvida
Da nossa sina
Ftalocianina

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Anauê

Antes de mais nada gostaria de esclarecer que não sou filiado a nenhum partido político, nem sou eleitor habitual de nenhum deles, pelo contrário, já há alguns anos só tenho votado em uma candidata para vereadora e que, no momento é candidata a deputada federal. Cada dia aumenta mais a minha convicção que a dita democracia representativa não me representa em nada.

Não acompanho a campanha eleitoral desse ano, exceto pelo noticiário do jornal que leio. Não pretendo votar na Dilma, nem no Serra, muito menos na coleção dos micro candidatos. Nenhum deles, por motivos diferentes, me parece adequado ao cargo que disputam e eu sempre fui contra o voto útil.

Também não acho que o governo atual seja grande coisa, é uma mistura de liberalismo econômico tucano, com demagogia assistencial peronista e aparelhamento partidário do estado. Não deixo de reconhecer algumas de suas realizações, especialmente numa área que me diz muito que é a educação inclusiva, definitivamente provocaram uma revolução positiva.

No entanto, o que tem me incomodado muito nessa campanha é o desespero da classe média diante da perspectiva iminente de uma vitória governista ainda no primeiro turno. Pessoas que arrotam democracia, desde que a maioria seja a deles, não a do oponente. E apelam para a ignorância.

A maior delas é a distribuição por e-mails e redes sociais da ficha político criminal da candidata do PT. Esses democratas de araque usam o indiciamento do DOPS como propaganda como se o centro da repressão da ditadura fosse uma fonte confiável e honesta. E não me venham dizer que são pessoas desinformadas que não sabem o que era o DOPS, que desconhecem que muitos morreram e foram torturados nas suas celas.

Portanto são pessoas que concordam com as práticas da ditadura e, por isso, entendem que quem foi preso e perseguido durante a vigência da "gloriosa" não tem a ficha limpa (omitindo, é claro, que o candidato da oposição também era um agitador da Ação Popular na mesma época). Só falta ressuscitarem a marcha pela família e dizer que esse comunistas comem criancinhas. Nem Plínio Salgado (não confundir com o candidato Plínio Sampaio) faria melhor. Devem todos ser eleitores do defunto Coronel Erasmo Dias e do Jair Bolsonaro.

"Desqualificar a pessoa" é um truque de argumentação erística que consiste em atacar um indivíduo enquanto tal em vez de apontar os erros do seu discurso, quando não existem mais argumentos que sustentem a sua tese. Na Grécia antiga a erística era a arte de vencer o adversário num debate. Ao contrário do diálogo filosófico, que usava a dialética com a finalidade de estabelecer a verdade, o uso da erística visava superar o adversário. Era um método usado pelos sofistas nos debates públicos tanto na esfera política, onde era preciso convencer a assembléia, quanto na esfera judicial para convencer os juízes da justiça de uma causa. Não importava se a causa era justa ou não. Os sofistas eram capazes de defender com igual bravura um argumento e o seu oposto. No Brasil de hoje a erística é usada amplamente na mídia, na política, na justiça, no trabalho e também na vida cotidiana. Feio é perder e para superar o outro são capazes de tudo. Pouco importa a verdade, o que importa é vencer.

Da minha parte, tenho aproveitado esse momento para filtrar meus contatos pessoais. Não é esse o tipo de gente que pretendo ter como amigo ou contato de rede social.

Faltando pouco mais de 15 dias para as eleições, vou dar uma limpada nas minhas listas, antes que comece a receber mensagens bradando Anauê!

*Por motivos óbvios a imagem desse texto está publicada à direita de quem lê.

Descrição da imagem: um homem de camisa verde prega na parede o símbolo do integralismo, no poster lê-se o termo Anauê (que quer dizer "meu irmão" em tupi-guarani)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Panis non conficitur sine farina.

Maria minha broa

Há dias que você não aparece na minha padaria e meu pumpernickel está muito sovado com saudades da sua focaccia.

Você sabe que és para mim mais que uma miga, é o croissant dos meus olhos e o vienoise dos meus desejos

Lembro do dia que lhe dei aquele brioche e você não deu batata para mim. Não me queijo. Depois te conquistei de forma e integral.

Minha baguete anseia pela sua ciabatta, não se faça de banha que o tempo pode ficar preto.

Quero de novo beijar seu chapati e mordiscar suas bisnaguinhas.

Me disseram que andas com um francês, mas eu te vi mesmo foi com aquele cacetinho gaúcho.

Que raiva! se você não voltar, passo minha bengala em ti, sua pita.

Manuel

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aforismos recorrentes

O silêncio é um grito para ouvidos fechados

Mostre-me como diriges e eu te direi quem és

Sonhos de cristal refletem em todas as direções

A eternidade é feita de um monte de segundos

Não espero a primavera, eu a crio no coração

A mão que apaga é a mesma que viceja

Na iminência da derrota os democratas se transformam imediatamente em fascistas

Como é que as pessoas sobreviveram séculos sem redes sociais?

sábado, 4 de setembro de 2010

A inesquecível antologia do trimestre

Ao invés de escolher um adjetivo esdrúxulo qualquer para batizar a antologia que acabou sendo do trimestre, eu preferi definí-la como inolvidável, ou inesquecível, em homenagem a alguns dos meus leitores que, durante esse período em que estive fora do ar, efetivamente sentiram minha falta e se preocuparam comigo.

Seja aqui mesmo nos comentários, sejam por e-mails ou mensagens em redes sociais, essas pessoas foram muito importantes nesse período de travessia pelo qual eu passei. A todos e a cada um deles (sim, vocês sabem que estou falando de vocês), o meu muito obrigado.

E vamos ao melhores comentários postados no Mens Insana de Junho até Agosto:

estamos todos +-enforcados

vou tomar mais cuidado com o que ando escrevendo

não dê conselhos sem acentos!

...eu morro de medo de provocar um incêndio..

pensar numa Traição esqueirófica?

Se eu fosse traída por um homem que me enviasse o que você postou...

penso que talvez este desencadeasse um pedido de divorcio

Preciso carregar um queijo destes comigo

fico desconfiada se o que vc "fala" é a sério

o nível de acidez da cebola,com o grau de mau humor da minha ilustre família

podemos descartar percorrer a rota para a India

senão iria pensar em comer o notebook

Eu já tava ficando louca de ler tanta coisa "normal".

ela deveria fazer o sinal da cruz três vezes, molhando a ponta dos dedos na água do rio Tietê

Pior é que vou percer meu lugar na antologia... cada dia sou menas importante.

pode servir de eufemismo para assassinato

Ô namorada saborosa ;)!!!

povo doido estes teus seguidores.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um sonho

Todas as noites, ao deitar, Alexandroff saia de si mesmo e vagava pela vielas escuras das almas alheias.

Não era um ser do mal, apenas um observador atento dos sonhos que invadia.

Percorreu delírios, pesadelos, desejos reprimidos, angústias e fantasias.

Nunca se envolvia em nenhum deles, algumas pessoas invadidas acordavam com a lembrança de um personagem que observava tudo e nada fazia.

Do seu lado, ele não tinha sonho nenhum, apenas os dos outros.

Durante anos a situação se repetiu. Se alguém lhe perguntava se ele sonhava ele dizia que não lembrava de nada.

Numa noite de fim de verão, Alexandroff entrou num sonho que o encantou e, sem perceber foi capturado pelo mesmo.

Pensou que era muito arriscado deixar-se participar da história daquele sonho, mas não conseguiu, ou melhor, nem se esforçou para não ser capturado.

Percebeu que aquele era o sonho que ele nunca tinha sonhado, que era tudo que queria na vida.

Naquele dia deixou de vagar pelas ruas e invadir outros sonhos. Voltava todas as noites para o mesmo espaço onírico.

Notou que cada vez mais precisava do sonho e que, reciprocamente, o sonho não poderia mais existir sem ele.

Quando o enredo se tornava turbulento e convulsivo, mais ele entendia que sua existência era fundamental para que o sonho continuasse.

Fossem quais fossem as circunstâncias da trama ele sempre acordava cheio de energia quando a voz do sonho dizia que, por aquela noite, era tudo.

Tudo que Alexandroff espera é pelo dia em que deixará para trás tudo que foi e finalmente será só um ser em um sonho.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O espírito de Blaafarveværket

Ninguém sabe exatamente quando foi que Jorge o encontrou, as lendas dizem que em algum dia na década de 30 do século XVIII, enquanto olhava fixamente para um vidro colorido. Uma iluminação, dizem alguns, uma impostura, dizem outros.

O que se sabe é que Jorge, depois de beber alguns copos a mais de bismute (uma variação estoniana do vermute) estava intoxicado pelo demônio das minas.

O germânico espírito maligno infiltrou-se na cozinha de Jorge e decompôs todo o seu faqueiro de prata. Não que ele desse tanto valor assim para os talheres, mas surpreendeu-se com a rapidez com a qual eles se desmancharam no ar.

Concluiu que sua descoberta era uma bomba de efeitos arrasadores e mesmo quando o espírito parecia se decompor, ele se mantinha metaestável.

Depois da morte de Jorge, coube a Jacques conduzir o relacionamento com o elemento perigoso. Sendo Jacques um sujeito multifacetado, assim via as possibilidades de desenvolvimento em todos os demais seres.

Mas só conseguiu converter o espírito em algo promissor em 1803 quando o levou para receber banhos de óleo e o cozinhou com fragmentos de alumínio. No primeiro momento o demônio das minhas não achou graça nenhuma, depois, ao ver que era admirado, rendeu-se à transformação.

Além disso, sua fama começou a se espalhar ultramarinamente e passou a ser convidado de honra em palácios e banquetes. Ele se sentiu no céu.

O que não significa que, de tempos em tempos, ele não apronte alguma, especialmente quando exposto a imagens multicoloridas, mas são apenas travessuras, resolvidas rapidamente lhe dando suco de bergamota.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um dia crítico

Gianluca tinha acabado de sofrer um grande revés. Depois de anos trabalhando fielmente para a mesma empresa fora demitido sumariamente por mascar chiclete na porta do banheiro feminino.

Sua nova chefe era uma feminista radical e entendeu que aquela atitude configurava assédio sexual à estagiária que saia do banheiro no exato momento em que ele estourava a bola da goma de mascar.

Além do desemprego ele teria de enfrentar a penúria. Demitido por justa causa não iria receber um centavo de direitos trabalhistas.

À medida que caminhava para casa pensava em como explicar a situação para a mulher. Ana era amorosa e compreensiva, mas será que seu argumentos a convenceriam que não estava abordando outra mulher? Como explicaria a demissão?

Resolveu preparar o espírito de Ana. Enviou um torpedo dizendo que tinha más notícias. Ela respondeu cheia de interrogações. Disse que tinha sido demitido. Em segundos seu celular tocou.

Contou parte da história, omitindo a cena do chiclete. Queixou-se da injustiça da qual tinha sido vítima. Ana ouviu tudo com carinho e atenção. Disse que para tudo dava-se um jeito.

Um pouco mais animado, Gianluca disse que ia andar no parque para refrescar a cabeça e que mandaria mensagens dizendo como estava, assim não interromperia o trabalho da esposa com ligações.

A caminhada não fez bem para ele e, a cada mensagem transmitia mais a sua angústia e desespero. Ana respondia com palavras de estímulo, mas ele só piorava.

Em sua última mensagem ele dizia que tinha vontade de morrer. Segundo depois recebeu um torpedo de Ana que dizia: “Forca amor”.

Foi o primeiro homem no mundo a suicidar-se pela falta de uma cedilha.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Traição fosfórica

Quem está habituado a frequentar esse blog sabe que eu sou um traidor contumaz, já traí aos montes e quando me dá a coceira eu traio sem perdão.

Dessa vez a vítima foi Jacques Prevért e a sua caixa de fósforos. Não tenho direito a perdão.

Três fósforos

Três fósforos acesos um a um noite adentro
O primeiro mostra teu rosto inteiro
O segundo a refletir o brilho dos teus olhos
A iluminar tua boca o terceiro
E toda escuridão a me lembrar cada pedaço
Enquanto te acolho nos meus braços


Para quem prefere a versão original sem legendas, aí vai:

Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
Et l'obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras
(Jacques Prevért)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O efeito boursin

Raquel não era nenhuma especialista em queijos, ainda que gostasse de experimentar variedades diferentes de tempos em tempos, mas admitia que não entendia nada do assunto, limitava-se a gostar ou não gostar.

Até conhecer Amaral. O namorado era um fanático pelo assunto. Era capaz de diferenciar cada um dos 246 tipos de queijos franceses de olhos fechados. Não era um chato que só falava disso ou que ficasse fazendo citações de Mucor Miehei mas, sempre que podia apresentava um novo tipo de queijo para Raquel.

Numa das vezes que sairam para jantar ele pediu, depois do café, um queijo de nome diferente. Explicou que era um queijo fresco feito a partir de leite de cabra e creme de leite, originário da Normandia, geralmente acrescido de ervas ou amêndoas e frutas secas.

Raquel adorou o queijo, a ponto de Amaral pedir uma segunda porção. A partir daquele dia, todas as vezes que ia ao supermercado, Amaral trazia uma fatia do tal queijo para ela.

Um dia, ao encontrar Amaral, Raquel comentou que tinha saído para almoçar com o chefe e sugerira o restaurante no qual eles tinham conhecido o queijo preferido. Ao contrário da sua experiência agradável ela disse que tinha comido um queijo de cabra pavoroso, escolhido pelo chefe.

Ela não lembrava direito, mas se não estava enganada ele tinha escolhido um tal de queijo boursin, que parecia o que ela gostava, mas com o sabor completamente diferente.

Amaral deu um sorriso enigmático. Ele sabia que o único queijo de cabra daquele restaurante era justamente o boursin. Exatamente o que eles tinham comido naquela noite. Mas não falou nada.

Alguns dias depois ele a levou novamente ao restaurante e, claro, pediu o queijo. Como era de se esperar, Raquel achou delicioso. Então informou que aquele queijo se chamava boursin.

Raquel olhou para o namorado estupefata. Como é que poderia ser o mesmo queijo? Será que o que comera com o chefe era de outro produtor? Será que estava estragado?

Amaral olhou bem nos olhos de Raquel e perguntou: "Você odeia o seu chefe, não é mesmo?" Nem precisou de resposta, a menina ficou roxa de vergonha, como se tivesse sido pega em flagrante.

Ele então explicou que o boursin era um queijo de sabor totalmente influenciado pelos sentimentos, por isso que ele fizera questão que ela experimentasse naquela noite, ele queria saber se ela realmente gostava dele. O resultado não poderia ter sido melhor, a paixão que ela demonstrou pelo queijo era a mesma que ele sabia que iria receber.

Em seguida, tirou do bolso uma caixa de veludo com um par de alianças e a pediu em casamento.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Bacalhau do Alberto

Na semana passada recebi a ilustríssima visita do meu primo Alberto (que nunca gostou de ser chamado de Alberto Carlos por temer ser atropelado por um trem antes que alguém conseguisse dizer seu nome inteiro...Alberto Carlos olha o trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...pluft!!)

Como nos tempos ancestrais quando ele me levava para almoçar em restaurantes do centro financeiro do Rio de Janeiro, o papo foi muito mais do que agradável. Falamos de música, de cinema, de casamento, de mercado imobiliário (onde ele trabalha), de igreja, da família, dos filhos (não, sobre esses eu não falava na época do Rio, pois não os tinha).

Para preparar um jantar adequado perguntei antes se ele tinha alguma restrição alimentar. Ele só dispensou a buchada de bode, por motivos religiosos, é claro. Resolvi fazer bacalhau.

Como não tenho o hábito de fazer um prato duas vezes da mesma maneira matutei como deveria cozinhar o ilustre cod gadus morhua e me saí com a seguinte receita:

Peguei duas postas de lombo de bacalhau dessalguei e deixei secando bem. Uma visita nobre, merece um peixe nobre.

Ralei uma cebola média (com a acidez certa que só o humor dos Ribeiros pode ter), acrescentei muito alho torrado picado (um tempero que sempre faz bem para o coração, assim como a visita dos bons amigos), azeite de oliva fartamente (sempre um símbolo da presença de Deus e da mesma fé que nos une, além de ser um símbolo da alegria), pimenta do reino (uma especiaria historicamente de altíssimo valor), manjerona (cujo sabor de pinho traria os ares de Campos de Jordão para o primo) e completei essa pasta com um cálice de vinho do porto (para tentar chegar perto da classe e fineza do meu convidado)

Deixei o bacalhau nessa mistura por um pouco mais de uma hora levei ao forno médio por uma hora e antes de servir aumentei o fogo por mais 15 minutos (o que permitiu que a pasta formasse uma leve crosta). Para acompanhar fiz um arroz parboilizado e acrescentei manjerona um pouco antes de acabar de cozinhar, para combinar com o tempero do bacalhau. O vinho foi um Carmenére chileno.

Infelizmente não tirei nenhuma foto do prato para colocar aqui e o que sobrou não deu nem para fotografar.

Podem fazer sem susto, é fácil e fica delicioso, assim como a visita que recebi.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amarradona

Marilda olhou para a placa presa no poste e achou que não custava muito arriscar. Amarração para o amor, dizia, efeitos garantidos. 200 reais.

Há tempos que ficava com Antonio, mas nada dele pensar num namoro mais firme, pelo contrário, o rapaz era um mulherengo que trocava de companhia todas as semanas.

Marilda queria casar antes dos 30 e o prazo estava correndo rapidamente. Ligou para o amarrador.

Dois dias depois estava no consultório do mágico do amor levando o que ele pedira. Uma foto de Antonio, uma folha qualquer onde estivesse sua caligrafia, uma lista de gostos e preferências e seu endereço.

Explicaram que o trabalho demoraria alguns dias para surtir efeito e que ela poderia deixar um cheque pré-datado, se em um mês não acontecesse nada poderia sustar o cheque.

O mágico era dos bons e menos de uma semana depois Antonio apareceu com uma caixa de bombons e pediu Marilda em namoro. Ela ligou para o consultório dizendo que podiam antecipar o depósito do cheque.

Além de arranjar um namorado, Marilda ainda ficou famosa por ter colocado Antonio na linha. Todos perguntavam o que ela teria de tão bom para fazer o Don Juan largar a vida pregressa.

O que Marilda não esperava era conhecer José, um novo colega de trabalho, e se apaixonar perdidamente por ele. Pior, saber que José também se apaixonara por ela.

O problema é que Antonio estava amarrado e ela era a culpada pela situação. Como resolver a questão sem ferir os sentimentos do menino? Ligou para o bruxo, precisava urgente de uma desamarração.

Não acreditou quando ele disse que não existia desamarração. Uma vez feito o serviço, os efeitos eram irreversíveis. Ela chorou, pediu, implorou e nada. Até o momento que disse que estava disposta a pagar qualquer preço para resolver a situação.

O amarrador disse que ia ver o que podia fazer e ligava depois. Ela esperou dias até que ele desse sinal de vida.

Quando finalmente ligou, disse que tinha encontrado um outro mágico que poderia fazer o serviço, mas que ia custar muito caro. Ela nem discutiu preço e pagou os 5 mil que ele pedia.

Passou-se uma semana e nada. Antonio parecia ainda mais apaixonado. Duas. Três. Nada.

Até que um dia ele chegou e disse que precisava conversar com ela. Concluíra que o que ele queria mesmo era viver livre, leve e solto. Ela fingiu tristeza, mas comemorou por dentro.

Ligou na mesma hora para José para dizer que estava livre e desimpedida. Ele não estava em casa, a mãe dele disse que tinha ido comer uma pizza com amigos.

Marilda sabia que pizzaria era e foi imediatamente para lá, não podia esperar para contar as novidades. Chegou na porta, olhou para o salão e viu José sentado no fundo com mais dois homens que estavam de costas. Os três riam muito.

Conforme se aproximou reconheceu Antonio e o amarrador e, sobre a mesa, três maços de dinheiro. Virou as costas e saiu chorando.

O corpo foi encontrado boiando no Tietê, todo amarrado.

domingo, 13 de junho de 2010

Uma perca de menas

Perca é a denominação de qualquer espécie do gênero-tipo dos percídeos, como, por exemplo, a Perca fluviatilis que você vê à sua esquerda.

Dizem que é um peixe excelente para um bom assado e que seus filets também podem ser feitos em alcaparras ou à milanesa.

Algumas percas são tão espertas que chegam mesmo a inovar a língua portuguesa, como bem descobri hoje ao ler um texto onde uma pessoa lamentava a perca total de audição de um dos seus alunos.

No começo fiquei sem entender o que o peixe fazia no ouvido do garoto, até que caí na real.

Como se tratava de uma professora, profissão pela qual nutro o maior respeito, conclui que eu vivi quase 50 anos sem saber que existia o verbo percer (ou será o verbo percar?)

Eu perço, tu perces, ele perce, nós percemos (não confundir com percebemos que é o pretérito infinitivo so subjuntivo), vós perçais, eles percem.

A minha perca de conhecimentos só não foi menas importante porque sempre deixo a porta da minha mente meia aberta.

A partir de hoje esse blog não vai mais percer nenhum neologismo desse gênero.

sábado, 12 de junho de 2010

Assando o namorado

Se tem uma coisa eu nunca abro mão é de comemorar o dia de hoje.

Por tradição esse blog nunca deixar passar em branco uma data tão importante para a vida de todos nós.

Em 2008 listei todos os motivos para realizar uma festa e, em 2009 fiz o anúncio oficial da, então, minha nova amada.

Hoje deixo uma receita para todos aquele que se dedicam a cozinhar seus namorados (ou namoradas) em banho maria sejam mais ousados e possam assar em fogo alto suas paixões.

Bom apetite !

Ingredientes:
1 namorado( ou namorada, depende do seu gênero) de 2 ou 3 quilos
6 dentes de alho batidos com sal
3 limões cortados
camarão temperado com alho, azeite e sal
salsinha, cebolinha e coentro
6 tomates picados sem sementes
alcaparras, mostarda e azeite (para o molho)

Preparo:
Tire a pele do namorado, corte-o ao meio e lave-o.
Tempere com os dentes de alho batidos, sal e o suco de 3 limões.
Deixe no tempero durante 10 minutos.
Enquanto isso faça o recheio. Refogue os camarões no alho, azeite e sal.
Retire a água que vai se formar prá cozinhar um pouco os tomates.
Ponha essa "água" do camarão em outra panela, quando ela estiver fervendo bote os tomates picados, a salsa , a cebolinha e o coentro.
Mexa bem ate ficar consistente. Agora coloque o peixe aberto num tabuleiro forrado de batatas em rodelas.
Recheie e feche com uma linha de costura comum, embrulhe com papel alumínio e ponha no forno por quarenta minutos (ou até assar).
Retire o papel alumínio, passe um pouco de manteiga por cima e volte pro forno prá dourar um pouco.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Cinderello


Durante toda a sua vida Felipe guardou com cuidado o par de sapatos de cristal que tinha herdado de sua avó.

Só deveria entregá-los à mulher que ele descobrisse como sendo a primeira e a última de sua vida.

Não seria uma missão fácil, ele sabia, a começar pelo tamanho dos sapatos que eram minúsculos, o que limitava seus namoros a mulheres com pés de crianças.

Mariana sofreu dolorosamente com bolhas e calos antes de concluir que não o amava tanto assim para passar o resto da vida com bandaids nos calcanhares.

Justina foi vítima de um encurtamento da musculatura ísquio tibial e vivia com dores na na região lombar.

Claudinha, por outro lado, enfrentou a formação de neuromas e o abandonou antes que virassem uma fascite plantar.

O metatarsos de Carolina não resistiram sequer uma semana aos calçados de cristal oferecidos pelo namorado.

Ana Maria concluiu que cristal não era permeável e não permitia nenhum tipo de ventilação para os seus pés delicados, logo começaram a surgir fungos entre os dedos.

A vida amorosa de Felipe se dividia entre encontros românticos e visitas aos ortopedistas.

Até o dia em que conheceu Sara. Um mulherão que calçava quase 40 e que o deixou completamente apaixonado e confuso. Como resolver a situação?

Estavam caminhando pelo parque do Ibirapuera quando ele, finalmente, tomou coragem, e contou a história dos sapatos para ela.

Ela sorriu e pediu para ver os sapatos. Pegou-os, olhou-os com carinho e admiração.

Depois quebrou os dois no primeiro poste que encontrou e atirou os cacos de vidro no lixo reciclável.

E viveram felizes para sempre.