terça-feira, 22 de setembro de 2020

Vlud, o empanador

 


Meu nome é Vosferatu Drakul mas sou mais conhecido como Vlud, o empanador, epíteto que me foi dado pelos meu dotes culinários.

Segundo meu pai, somos descendentes diretos de Vlad, voivoda da Valáquia, temos o seu sangue, além de outros tantos que nos foram transmitidos pela genética ou pelo consumo.

Eu seria apenas mais um vampiro comum, ainda que de ascendência nobre, não fossem alguns dos meus hábitos peculiares que me afastam dos meus semelhantes.

O ponto mais crítico na minha relação com a comunidade hematófaga é o fato de que eu adoro alho. Cru, frito, assado, cozido ou torrado.

Não que eu não seja um consumidor habitual de outros acepipes. Como tantos vampiros, gosto de morcela, molho pardo, vinho tinto, tomates, beterrabas e frutas vermelhas. Carnes só as muito mal passadas, quase cruas.

E sangue, é claro. De preferência o AB negativo.

Meus coetâneos me desprezam pelo meu olor satívico, não me entendem e, provavelmente, nunca me entenderão.

Nem Radu, nem Mircea, meus irmãos, são capazes de conviver comigo. Dizem que meu palácio rescende os odores da minha cozinha e que o cheiro de alho é perceptível a centenas de jardas dos meus portões.

Nunca tive uma namorada. Vampiras como Christabel e Mircalla, condessa de Karnstein, me atraíram na juventude, mas o alho impedia qualquer aproximação. De outro lado, as não vampiras, mesmo as que também eram alhófilas, morriam de medo dos meus caninos.

Minha vida se resume envelhecer entre a cozinha e os meus livros.

Todas as manhãs, quando vou dormir, sonho com a chegada de Van Helsing, para, finalmente, descansar em paz.

Quando se cumprir minha missão, decorem meu túmulo com réstias de alho.

Crédito da imagem: Por Anónimo - http://neuramagazine.com/dracula-triennale-di-milano/ image, Domínio público

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Walden, a vida como um projeto de tédio



Depois de um tempo de interrupção, hoje acabei de ler Walden, considerado o texto clássico de David Henry Thoreau.

O enredo do livro é muito simples. O autor retira-se em 1845 para a floresta da Nova Inglaterra, próxima à cidade de Concord, onde constrói com as próprias mãos, sua casa e seus móveis, passando a viver com o mínimo necessário e em intenso contato com a natureza.

Isola-se da sociedade, não por misantropia - ele recebe visitas e as retribui - mas com o propósito de obter uma maior compreensão da sociedade e de descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida

Sob o risco de ser execrado pelos fãs do autor, julgo ter sido um dos livros mais entediantes e chatos que li na minha vida.

Thoreau, que é um excelente poeta e, na maioria dos seus textos, um bom ensaísta, se tornou um mito pelas suas posições anarquistas e pacifistas e, especialmente, pelo fato de ter sido preso ao se recusar a pagar impostos a um governo escravagista e também porque se recusava a financiar a guerra com o México.

Seu ato de desobediência civil, gerou um excelente ensaio, por sinal.

O ensaio “Life without principle” deveria ser lido por todos aqueles que apregoam uma vida com propósito nas suas carreiras profissionais.

Infelizmente não é o que ocorre com Walden.

O texto é melífluo, as descrições abusam de detalhes irrelevantes e a linguagem beira o infantil. Um relato de dois anos que só podem ser úteis para quem tem objetivos monásticos de vida.

Para completar, a conclusão do livro soa como um manual de auto ajuda de má qualidade (perdão pelo pleonasmo, é uma ênfase desnecessária).

Eu recomendo muito a leitura de Thoreau. Ao mesmo tempo recomendo distância de Walden.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Pandemia eterna


Não é de hoje que está em curso um vírus que tem afetado muitas pessoas. Diferentemente de outras cepas, essa não prejudica quem está infectado, mas quem convive com as pessoas que o contraíram.

Desconheço sua origem, mas, certamente, não surgiu a partir de animais silvestres, nem foi criado em laboratório de genética. Diga-se de passagem, ele não afeta nenhum animal, exceto o homo, dito sapiens.

Denominado vocêtemque ele faz com que seu portadores, continuamente, fiquem impondo suas ideias e soluções para outras pessoas.

É uma profunda disseminação de vocêtemque isso, vocêtemque que aquilo, vocêtemque aquilo outro.

Apesar de ser um vírus que se manifesta mais nas relações pessoais, ele não é incomum nas relações de trabalho, uma vez que quem carrega o vírus não sabe muito bem distinguir uma situação da outra.

Os afetados pelo vírus, geralmente, não praticam aquilo que preconizam, uma vez que um dos efeitos colaterais da contaminação é o de criar uma camada de perfectibilidade ilusória neles.

Já as pessoas que são perseguidas pelos contaminados costumam sofrer as mais variadas consequências: desânimo, irritação, depressão - que podem levar a óbito a autoestima, os seus projetos de vida e os seus sonhos.

Até onde é do meu conhecimento não existe ninguém desenvolvendo uma vacina para esse mal.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Atos de Deus


Quando uma seguradora coloca nas ressalvas do seu contrato que a apólice não está coberta por “atos de Deus”

1.    Essa regra vale para quem acredita em qualquer deus ou só para algum específico?
2.    Os ateus estão liberados da cláusula?

3.    Os agnósticos podem questionar judicialmente a impossibilidade de provar a existência ou não existência de Deus?

4.    Os fatalistas que, em qualquer situação, dizem que foi a vontade de Deus, recebem o valor do seguro em caso de sinistro?

5.    Os politeístas ficam descobertos?

6.    Os que endeusam a si mesmos podem declarar que foi contra a vontade deles?

7.    Os que endeusam outras pessoas, precisam mencionar isso na contratação?

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Caminhos difíceis e turbulentos



Caminhos difíceis e turbulentos (Rough and rowdy ways) é o novo álbum do senhor Robert Allen Zimmerman, a.k.a, Bob Dylan, que bem poderia se chamar dias difíceis e turbulentos em tempos de pandemia. De qualquer forma, sua temática não é a crise mundial, mas muito da história e das referências do seu autor.

Como diz meu amigo Omar Giammarco, não é à toa que esse jovem que em 2021 vai completar 80 anos, ganhou um prêmio Nobel de literatura. Ok, é apenas um compositor popular você vai argumentar, e eu contra argumentarei que sua poesia não é nada popular, ainda que ele, como músico, seja um dos grandes ícones populares da história. É só a minha opinião, mas eu o considero o maior poeta de língua inglesa do pós guerra, coincidentemente, começa a aparecer na época em que morreram Cummings e Sylvia Plath.

O disco começa, não por acaso, com I contain multitudes, verso de Walt Whitman, que nele dizia que prosseguia para completar sua próxima dobra do futuro. Dylan vai rever o passado em muitas das canções, talvez se preparando para a sua próxima dobra, com referência explícitas de momentos obscuros de Blake e de Poe.

Em False Prophet, como um profeta da verdade, canta que ele vai para onde apenas os solitários conseguem ir, cercado por uma brisa fria.

A história da poesia continua em My own version of you, uma história de um Frankenstein em busca da sua criatura, cita Shakespeare, brinca com a palavras em versos de métricas diferentes.

I've Made Up My Mind to Give Myself to You é mais uma canção linda e melancólica, o viajante da longa estrada do desespero, onde não encontrou ninguém para acompanhá-lo, mas não deixa de ser uma grande balada romântica (sem dúvidas, uma das mais belas declarações de amor já escritas).

Em Black Rider, não está claro se este é um indivíduo literal ou simbólico. De fato, a maneira como a letra pode ser lida é, muito provavelmente, as duas coisas.

A música seguinte serve como uma homenagem a um músico de blues, com o nome de Jimmy Reed. Mas o modo como Bob Dylan faz isso não é falando sobre o próprio homem, pelo menos não diretamente. Pelo contrário, parece que lembrar de Jimmy, que faleceu em meados da década de 1970, também o faz olhar para sua própria vida, incluindo sua carreira. De fato, nota-se que, mesmo no som, Goodbye Jimmy Reed é uma reminiscência do passado de Dylan. E juntando todas as letras, o que Bob parece finalmente expressar é uma grande admiração pelo músico que influenciou muita gente no rock.

Mãe das Musas, onde quer que esteja, eu já vivi muito além do que deveria ser a minha vida. Esse é apenas um dos versos trágicos de Mother of Muses, que acaba com a frase que está voltando para casa, uma expressão que, definitivamente, não se refere à sua moradia terrena. De certa forma um pedido dúbio de inspiração e de redenção.

Em 10 (ou 11) de janeiro de 49 a.C Júlio César atravessou o Rubicão, violou a lei e tornou inevitável o conflito armado e tomou o poder em Roma. Segundo Suetônio, César teria então proferido a famosa frase Alea jacta est ("a sorte está lançada" ou "os dados estão lançados"). Dylan lança sua sorte também nessa travessia em Crossing the Rubicon, que também é uma referência à idéia de um indivíduo atingir um ponto em que não pode voltar atrás. E o modo como Bob Dylan o usa nessa música parece geralmente se referir ao conceito de mortalidade. Isso quer dizer que as letras são dedicadas principalmente a olhar para sua vida, bem como as vidas de outras pessoas, com o entendimento de que seu tempo na Terra é realmente finito. E, no processo, eles de fato escreveram as histórias imutáveis ​​de suas vidas.

Key West (Philosopher Pirate), definitivamente é uma autobiografia ou, considerando o espírito do álbum, um obituário previamente escrito para quando a morte chegar, mesmo que o espaço geográfico seja citado, e louvado, como o lugar onde se pode encontrar a imortalidade. O texto é profundo como uma sepultura e leve como uma pena. Parece o clímax de tudo o que Bob vem tentando fazer como músico nos últimos vinte anos. E em suas letras é exatamente o que ele trabalhou tanto por tanto tempo: uma música que simplesmente descreve um lugar, descreve o que acontece lá e deixa o conteúdo temático subir à superfície por conta própria.

Finalmente, o disco acaba com a gigantesca Murder Most Foul (O assassinato mais imundo). São 1.376 palavras distribuídas em 16 minutos e 56 segundos em que o cantor revisita acontecimentos e figuras icônicas de seus anos mais intensos, os anos 60 e 70.  É a música mais longa de sua carreira. Há uma armadilha: não é uma canção que Dylan compôs no últimos meses, quando nosso mundo foi revirado pelo coronavírus. É provável que seja uma música registrada há relativamente pouco tempo (alguns meses, alguns anos), porque a canta com essa voz quebrada que exibiu nas últimas gravações.

Os dias continuarão tenebrosos, mas espero que as musas continuem a inspirar Dylan por um bom tempo.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Todo mundo se acha expert em estatística


Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Ele era uma pessoa média, nem sempre muito ponderada, mas habitualmente bastante móvel.

Sua principal margem de erro era ter alguns desvios padrões de personalidade que se manifestavam com muita frequência e que eram derivados integralmente de sua autoestima superdimensionada e do fato de nunca ter passado nas provas de matemática sem colar.

Todas as manhãs acordava com dores nos quartis, o que sugeria um quadro sinóptico de inflamação da mediana. Apesar desse mal estar fora de moda, isso provocava grande dispersão de sinapses e crises de variância que eclodiam em opiononite aguda em redes sociais.

Palpitava, aleatoriamente, sobre qualquer número que lia, de forma determinante. Nenhum senso crítico. Nenhuma correlação. Um hiperbólico sem efeitos de tratamento.

Ignorava os intervalos contextuais, desprezava as relevâncias e, à guisa de impropério, atribuía a seus desafetos a alcunha de qui-quadrados irracionais ou de vetores quadráticos de Bernoulli.

Defendia uma cosmogonia sem regressão, que julgava ser apenas uma falácia histogramática dos seguidores de Bayes, um bando de outliers de uma amostra desparametrizada.

A eventual probabilidade de estar errado era, para ele, uma hipótese nula. Os que se atreviam a corrigi-lo eram obtusos insignificantes.

Um amigo lhe sugeriu se tratar, fosse com um psicanalista indutivo ou com um descritivo. Talvez uma análise de variância ou um teste F pudesse lhe indicar um tratamento para essa propensão não preditiva.

Rejeitou peremptoriamente essa possibilidade. Afinal, sua função bidimensional era cumulativa e atemporal.

Deseducadamente, mandou o amigo catar ocorrências multivariadas em Niterói e guardá-las num box-plot matricial.

Veio a óbito tentando saltar de uma rede elástica, acreditando que efeitos binários fatoriais lhe salvariam.

terça-feira, 12 de maio de 2020

A vã filosofia




No meio da diafonia tinha uma eidos
Tinha uma eidos no meio da diafonia
Tinha uma eidos
No meio da diafonia tinha uma eidos

Nunca me esquecerei dessa aporia
Na minha vida de doxas isostheneias em epokhe
Nunca me esquecerei que no meio da diafonia
Tinha uma eidos
Tinha uma eidos no meio da diafonia
No meio da diafonia tinha uma eidos.

sábado, 2 de maio de 2020

Revogam-se as disposições em contrário



Chavões, lugares comuns, ditos populares, sabedoria de para-choque de caminhão, clichês, frases estereotipadas e até fórmulas de sucesso do universo da auto ajuda estão ruindo em um mundo pandemoníaco.

Ao mesmo tempo, descobrimos que tínhamos ouvido profetas sem perceber: “nada do que foi, será, do jeito que já foi um dia”; “nada será como antes, amanhã”; “das verdades que eu sabia, só sobraram restos”.

Como brincava um autor desconhecido (falsamente atribuído a uma infinidade de pessoas de Adão a Luis Fernando Veríssimo e, claro, os indefectíveis frasistas fake da internet, Clarice Lispector e Arnaldo Jabor), no dia em que eu tinha descoberto todas as respostas da vida, mudaram todas as perguntas.

Por essas e outras fica editada a seguinte lei.

Art. 1 Com efeito imediato, fica expressamente proibido o uso das seguintes frases e termos, bem como suas respectivas variações:

a)    Pior do que está não fica
b)    Chegamos ao fundo do poço
c)     O que não tem remédio, remediado está
d)    Não há mal que sempre dure
e)    Se cair, do chão na passa
f)      Quem é vivo sempre aparece
g)    Nunca diga: desta água não beberei

Art. 2 Revogam-se as disposições em contrário (até segunda ordem)

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A imprecisão da assertividade


Quantas vezes você ouviu ou leu a palavra assertividade (ou assertivo) nas últimas 24 horas?

Caso tenha sido menos de uma dúzia de vezes, imagino que você seja uma pessoa reclusa que prefere ficar com seus livros e seu gato a ler jornais, revistas e navegar nas redes sociais.

Até porque o uso da palavra se disseminou em todas as direções possíveis e o vocábulo virou sinônimo de todas as palavras da língua que tenham alguma relação com esforço, motivação, precisão e, pasme, correção e acerto (alguns chegam ao cúmulo de grafá-la como “acertividade”).

Eu tenho problemas com buzzwords, ou como dizem os millenials, as modinhas. Quando um termo (sigla, palavra, expressão) começa a ser repetido à náusea, eu fujo dele. Vade retro, como diriam os exorcistas da idade média.

Ao mesmo tempo, sou um curioso e gosto de aprender. Então fui atrás das definições corretas da palavra. Consultei as melhores fontes que conheço em 4 línguas (veja abaixo) e concluí que:

Assertividade tem a ver com responsabilidade. Quem fala de forma assertiva, estando ou não correto, é alguém que se responsabiliza pelo que está afirmando.

Também tem a ver como a forma de se expressar. Assertiva é a pessoa que fala de forma categórica, decidida, firme. O que não significa que está falando a verdade.

Quem ouve uma pessoa assertiva, considerando a sua firmeza e responsabilidade pelo que está dizendo, costuma, num primeiro momento, tomá-la como verdadeira.

Ou seja, você pode pedir para os seus vendedores terem uma postura mais assertiva junto aos clientes, o que não significa que eles vão vender mais (ou “acertar” mais).

Ao contrário do que alguns pseudo conselheiros recomendam, assertividade não vai curar enxaqueca, unha encravada e pulga atrás da orelha.

Por outro lado, usar de forma correta as palavras pode lhe trazer muitos benefícios, o principal, é você se sentir bem com você mesmo pelo bom uso das palavras

Dicionários consultados e suas definições:

Aurélio

Adjetivo Que possui uma afirmação categórica; afirmativo.

[linguística] cuja validade da declaração que, sendo positiva ou negativa, é completamente assumida pelo locutor; declarativo.

[Psicologia] que expressa segurança ao agir; que se comporta de maneira firme; que demonstra decisão nas palavras.

Etimologia (origem da palavra assertivo). Asserto + ivo.
Sinônimos de Assertivo

Assertivo é sinônimo de: afirmativo, declaratório

Houaiss

1 que faz uma asserção; afirmativo
2 ling em que o locutor declara algo, positivo ou negativo, do qual assume inteiramente a validade; declarativo p.opos. a interrogativo, imperativo, exclamativo
3 psic que demonstra segurança, decisão e firmeza nas atitudes e palavras

Real Academia Española

De aserto.

1. adj. afirmativo.

2. adj. Psicol. Dicho de una persona: Que expresa su opinión de manera firme.

3. adj. Psicol. Propio de una persona asertiva.

Merrian Webster

as·​ser·​tive | \ ə-ˈsər-tiv , a- \

Definition of assertive

1: disposed to or characterized by bold or confident statements and behavioran assertive leader

2: having a strong or distinctive flavor or aroma: assertive wines


Cambridge

Someone who is assertive behaves confidently and is not frightened to say what they want or believe:

If you really want the promotion, you'll have to be more assertive.

Synonyms

assured (CONFIDENT)

confident

self-assured approving

self-confident approving


Larousse

Proposition, de forme affirmative ou négative, qu'on avance et qu'on donne comme vraie.

Affirmation catégorique de quelque chose qu'il n'est pas possible de vérifier.

Statut d'une phrase dans laquelle le sujet parlant énonce une vérité, déclare un fait (par opposition à l'interrogation, à l'exclamation, à l'injonction).

Opération qui consiste à poser la vérité d'une proposition et qui est généralement symbolisée par le signe placé devant elle ; cette proposition.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Um dia de muvuca fake




Em mil novecentos e pó eu passei alguns dias em Nova York, depois de um congresso em outra cidade dos Estados Unidos.

Uma das atrações da cidade (e ainda é até hoje), era o Museu de História Natural e, como bom rato de museus, fui conhecê-lo.

Além de todas as maravilhas que tive a oportunidade de ver, o museu estava apresentando uma exposição temporária sobre Leonardo da Vinci, absolutamente espetacular. Muitas peças do seu acervo mecânico originais. Alguns quadros originais (claro que não a Mona Lisa que, ao que eu saiba, não costuma passear fora do Louvre) e muitos desenhos, especialmente os projetos e os de anatomia. Originais.

A grande atração, no entanto, eram os pergaminhos originais com seus escritos, que estavam sendo mostrados pela primeira vez fora da Itália e, para isso tinham um sistema de sensores em que a iluminação só era ativada quando um visitante se aproximava para ver.

Anos depois, já nesse milênio, uma exposição também muito bem montada, foi apresentada na Oca do Ibirapuera. Fui até lá de novo, revi algumas coisas conhecidas. Eram poucos os originais, mas a maioria das peças eram reproduções feitas por artesões italianos a partir dos projetos originais.

Até cair na armadilha da exposição que está em cartaz atualmente no MIS Experience, que declara que “Os visitantes também terão a oportunidade de conhecer, pela primeira vez, a mente do homem que lançou as bases para algumas das invenções mais notáveis da sociedade moderna.” (o grifo é meu).

Um show de horrores.

Começa pelo fato de que, mesmo em um espaço amplo, o número de pessoas que entra de cada vez (500 segundo um dos monitores), somadas às que ainda não saíram, torna o lugar uma muvuca. É quase impossível se movimentar. Será que não dava para reduzir esse número ou a ganância é irresistível?

Para agravar (e isso não é culpa dos expositores, mas conhecendo o público, deveriam prever essa situação), as pessoas passam mais tempo tirando selfies diante das peças do que realmente observando o que está sendo exposto (alguns inclusive achando que estão diante da Mona Lisa original e, talvez, queiram mostrar para os seguidores que estão em Paris). Minha sugestão, proibir os celulares dentro da exposição e montar uma área de selfies, também fake.

Por fim, todas as peças são reproduções de origem não documentada. Você se sente como se estivesse diante de um bom livro ou documentário de Da Vinci, mas para isso, não preciso sair de casa, pagar ingresso, enfrentar os flanelinhas e, especialmente, lidar com a muvuca.

Minha sugestão: se ainda não foi. Não vá. Passe numa boa livraria de artes. Compre qualquer um dos excelentes livros que existem a respeito dele e usufrua da arte e do engenho do mestre em paz.

Ok, se não conseguir resistir, tire um selfie segurando o livro.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Tempos medonhos




Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
(Vinicius de Moraes)

Há pouco mais de um mês uma amiga me mandou uma mensagem: perguntava se eu tinha falado com alguém da turma nos últimos dias. Ao saber que não, me avisou que o Fulano tinha morrido dois dias antes.

Depressão. Suicídio. Ninguém sabia disso, nem a esposa, ele sofreu calado até o momento em que desistiu de sofrer.

Não tinha mais que 40 anos. Eu tinha convivido com ele por cerca de 20. Nos encontrávamos pelo menos duas vezes por semana. Era um cara bem humorado, batalhador.

Como todos nós passou pelos seus perrengues, mas nada que apontasse nessa direção. Deixou a esposa e filhos.

Hoje de manhã vejo num post de rede social a notícia de que Beltrana tinha morrido.

Depressão. Suicídio. Todo mundo sabia que ela sofria da doença que nunca escondeu. Fazia tratamento para suportar, mas deve ter batido mais forte essa noite e, de manhã, se foi.

Tinha 37 anos. Trabalhou comigo por cerca de 10. Mantivemos o contato depois disso e, quando soube pelo que estava passando conversamos algumas vezes.

Sempre se mostrou confiante de que seria capaz de vencer.

Duas vezes em 40 dias, pensando o quanto a gente deixa de ver e perceber enquanto corremos atrás do vento e as nossas amizades se esvaem pelo mundo digital.

Quantos mais estão sofrendo calados? Quantos estão gritando por socorro sem que tenhamos tempo de ouvir. Serão realmente amigos ou apenas uma porção de bytes espalhados na nossas telas?

Pode estar ao nosso lado, pode ser da sua família. Pode ser você ou eu.

Minha sugestão? Se é que a sugestão de alguém, como eu, que viu isso acontecer duas vezes, sem ter percebido, possa servir: não se deixe iludir pelos posts divertidos ou pelos selfies sorridentes de quem você ama.

Encontre a pessoa ao vivo, converse e escute sem julgamentos. Disponha-se a ajudar da forma que for necessária. Pode ser doença, pode ser dinheiro, pode não ser nada disso e, ainda assim, a pessoa estar navegando nas profundezas.

Se não for nada, melhor. Você passou um momento agradável com alguém querido.

Se for algo, talvez você salve uma vida.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Admistão defectiva


Para o Jayme Serva que deu o mote 

Caso eu te aborra ao escucir-me pelos seus corpúsculos borralhos , não deixe que o meu fretenir dele os seus pensamentos, são apenas o meu jeito de aprazá-lo.

Caso tenha haurido sua eupatia, ao menos fornirei silogismos que buam suas afecções já comburidas.

Se eu soesse embaí-lo, aduciria, ou mesmo condiria, as suas érebas conjecturas. Não garras tu, nem anada vagidos com o intento de susquir-se enquanto te aso.

Eu demulcirei sua obduração e o seu jungido ao ponto de aducí-la. Lenirei sua crimeza acupremindo sua febra.

Cada ansa de exir languirá seu âmago e adurirá seus tegumentos, pertransirá seu revelidos e exinanirá seus fados.

Não me preclua, nada me monirá. Aqueles que estreseriam uma sazão sem nada adir, fremerão estanguidos até seu relinquir cabal.

Se seu anelo for estresir minha nução, terá de moquir o que o jurupari amarfanhou.

Sei que transirá minha disquisição como quem gorne eructações branquidas. Não irei gualdir meus ensejos nem laterei minha gnose.

Aprestos ficam suso a quem seja dessiso e ame o senescente

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Desde el alma (en español)

Alma, no entornes tu ventana
al sol feliz de la mañana.
No desesperes,
que el sueño más querido
es el que más nos hiere,
es el que duele más.
(Homero Manzi) 

Sábado, casi medianoche, un taxi nos fue a buscar al barrio de Agronomía para llevarnos de vuelta a nuestro hotel, en el centro. Un viaje de casi 20 km. El día anterior habíamos estado en Villa Pueyrredón, más o menos la misma distancia.

El chofer del taxi no consigue contenerse y nos pregunta: ¿Por qué salieron del centro para ver un show tan lejos? Debe haber pensado: con tanta cosa disponible mucho más cerca del hotel, especialmente los tradicionales espectáculos de tango de turistas, ¿que hacen estos locos en la periferia de la ciudad?

Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao…

Sería lo equivalente a salir de mi casa para ver algo en Vila Nhocuné o en el barrio de Socorro.

La verdad es que la distancia es algo irrelevante para ver a Cucuza Castiello en un día, y Dolores Solá al día siguiente y, a pesar de algunas diferencias, ambos tienen mucha cosa en común.

La primera de ellas es la calidad del repertorio.

El de Cucuza es esencialmente de tango, transitando desde Discépolo y Gardel hasta Estol y Melingo, sin quedarse en los temas típicos de antologías.

El de Lola va desde los revolucionarios Parra y Ferlosio, a José y Simon Diaz pero, esencialmente, se compone de canciones cuyas letras ella misma compuso y otras donde también compuso la música (según ella explica, descifradas por Diego Rolón, el director musical del show).

No son repertorios de fácil digestión para no iniciados. Las letras son fuertes, a veces duras, extensas e inteligentes. Las melodías y armonías bastante complejas. A uno le tiene que gustar mucho la música para entenderlos.

La segunda cosa que tienen en común es la calidad de quien los acompaña. En el caso de Cucuza, su hijo Mateo en las guitarras, un joven absolutamente brillante en lo que hace (aunque cuestionado sobre su nuevo pelo rubio blanquecino). En el caso de Solá, un trío formado por Diego Rolón y Sebastian Esposito en las guitarras y Diego Penelas en los teclados - un abuso de calidad técnica de los tres.

Por supuesto, son cantores técnicamente irreprochables, Cucuza en la mejor tradición de Goyeneche, sin imitarlo en ningún momento. Lola como si fuera una mezcla de Piaf y Amália Rodrigues.

Pero hay algo que torna tanto Cucuza como Dolores espectáculos imperdibles. Ambos cantan con el alma.

No sé si ellos creen en el alma, pero solamente la metafísica para explicar lo que les sucede cuando cantan.

Cuando Cucuza comienza cantando que él es el desengaño o Lola nos dá un puñetazo en el estómago afirmando que el amor acaba, no hay ser humano que se mantenga equilibrado. Y ese desequilibrio sigue a cada nueva canción.

Es el alma de ellos cantando para cada una de las almas presentes - y eso vale mucho más que los 20km.

No sé cuándo tendremos la oportunidad de volver a Buenos Aires, pero, para oírlos, la ciudad seguirá siendo la guarida de mis sueños más locos. 


*Gracias Virginia Fantoni por la revisión del texto

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Desde el alma




Alma, no entornes tu ventana
al sol feliz de la mañana.
No desesperes,
que el sueño más querido
es el que más nos hiere,
es el que duele más.
(Homero Manzi)


Sábado, quase meia-noite, um táxi nos pega no bairro de Agronomia para voltarmos ao hotel no centro, uma viagem de quase 20 km. No dia anterior estivéramos em Villa Pueyrredon, mais ou menos a mesma distância.

O motorista do táxi não se contém e pergunta: por que vocês saíram do centro para assistir um show tão longe? Deve ter pensado: com tanta coisa disponível bem mais perto do hotel, especialmente os tradicionais shows de tango de turistas, por que esses loucos vão parar na periferia da cidade?

Seria o equivalente a sair da minha casa para ver algo na Vila Nhocuné ou no bairro do Socorro.

A verdade é que a distância era algo irrelevante para assistir Cucuza Castiello em um dia, e Dolores Solá no dia seguinte e, apesar de terem algumas diferenças, ambos têm muita coisa em comum.

A primeira dela é a qualidade do repertório.

O de Cucuza essencialmente de tango, transitando desde Discépolo e Gardel até Estol e Melingo, sem ficar nos temas típicos de antologias.

O de Lola vai desde os revolucionários Parra e Ferlosio, a José e Simon Diaz mas, essencialmente é composto de músicas onde ela mesma compôs as letras e, algumas também a música (segundo ela explica, descriptografadas por Diego Rolón, o diretor musical do show).

Não são repertórios de fácil digestão para não iniciados. As letras são fortes, às vezes duras, extensas e inteligentes. As melodias e harmonias bastante complexas. Há que gostar muito de música para entendê-los.

A segunda coisa que têm em comum é a qualidade de quem os acompanha. No caso de Cucuza, seu filho Mateo no violão e guitarra, um jovem absolutamente brilhante no que faz (ainda que questionado sobre seu novo cabelo loiro esbranquiçado). No caso de Solá, um trio formado por Diego Rolón e Sebastian Esposito nos violões e guitarra e por Diego Penelas nos teclados – um abuso de qualidade técnica dos três.

Claro, eles são cantores tecnicamente irrepreensíveis, Cucuza na melhor tradição de Goyeneche, sem imitá-lo em nenhum momento. Lola como se fosse uma mistura de Piaf e Amália Rodrigues.

Mas há algo que faz tanto de Cucuza como de Dolores espetáculos imperdíveis. Ambos cantam com a alma.

Nem sei se acreditam em alma, mas só a metafísica para explicar o que acontece com eles quando estão cantando.

Quando Cucuza começa cantando que ele é o desengano ou Lola nos dá um soco no estômago afirmando que o amor acaba, não há ser humano que se mantenha equilibrado. E esse desequilíbrio segue a cada nova canção.

É a alma deles cantando para cada uma das almas presentes – e isso vale muito mais do que os 20km.

Não sei quando teremos a oportunidade de voltar a Buenos Aires, mas para ouvi-los a cidade continuará sendo a guarida dos meus sonhos mais loucos.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Uma volta na roda gigante



As tragédias eram textos teatrais que apresentavam histórias trágicas e dramáticas derivadas das paixões humanas as quais envolveriam personagens nobres e heroicos. Todas elas possuíam uma característica comum: tensão permanente e o final infeliz e trágico.

A tragédia clássica deveria cumprir, segundo Aristóteles, três condições: possuir personagens de elevada condição, ser contada em linguagem elevada e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Roda gigante (Wonder Wheel), o recém lançado filme de Woody Allen é uma tragédia, na melhor acepção do teatro grego.

Ainda que seus personagens sejam pessoas comuns e, em alguns casos, de linguagem nada elevada, a tensão é permanente, o final trágico e o destino dos personagens beira a destruição e a loucura.

O filme é sobre escolhas erradas que seus personagens fizeram no passado ou durante a própria história e o efeito dessas escolhas.

O filme é sobre teatro, como preconiza o personagem de Justin Timberlake na introdução da história, fato reforçado pelas citações de Eugene O`Neill, Hamlet, Édipo.

E talvez, um dos filmes com mais cara de teatro filmado que Allen tenha feito depois das suas incursões bergmanianas em Interiores.

De certa forma, um retorno à releitura de “Um bonde chamado desejo” pela qual Allen já tinha passado em Blue Jasmine.

E assim como em Blue Jasmine, onde Cate Blanchett dá um show de interpretação, aqui é a vez de Kate Winslet mostrar que pode muito mais do que mostrou no passado. Jim Belushi, diga-se de passagem, não fica muito atrás.

A fotografia de Vittorio Storaro é outro ponto forte do filme. Ele abusa das cores (fortes e muito fracas) quase como contando a história do filme.

Mas não é um filme fácil de assistir, as situações são duras e não existe nenhum momento em que a história fique mais leve, até os romances são tensos.

O final, diferentemente de outros filmes recentes, é bastante previsível.

Exceto o fato de que, consumada a tragédia, o casal principal mostra que a vida continua, assim como a roda continua a girar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Algoritmos osmados e assunados






Depois de muitas voltinhas no grande Hadron, que parou de se debater para seu descanso habitual de festas natalinas e neoanualinas, meus amigos cérnicos confirmaram a validade e precisão do algoritmo que desenvolvi nas últimas décadas e, cuja eficiência, já havia dado sinais inequívocos de pertinência nas redes sociais.

Não sem, como sói acontecer, alguns ressaibos dos oponentes vorazes de minhas elucubrações.

Outrossim, e sem outros nãos, nem mesmo nosso petiz alcaide dignar-se-ia a entrar nesse tipo de disputa.

Mas deixemos de patacoadas e vamos aos números finais.

O principal resultado é que, caso 58,7% da população tivesse como práxis, 18,34% do que fala ou escreve, o mundo seria 4,16p melhor do que é hoje.

No caso das redes sociais os valores chegam a ser mais assustadores, conseguiríamos uma evolução nos padrões mundiais de ética e reduções de carraspanas, além dos suso mencionados, de 67,34p para cada:

2% de frases de autoajuda que realmente ajudassem em algo

5% de redução de citações falsas (se forem de Clarisse Lispector, melhor ainda o resultado)

5,14% das tentativas de levantar a baixa estima (a alta estima não precisa de ninguém que a levante e a autoestima, como se vê no prefixo, caminha sozinha)

Em breve estarei publicando um artigo acadêmico completo, nos melhores

padrões da ABNT (claro, NBR6023) em indisputadas revistas científicas da Terra Média.

Assim que o fizer, executo as devidas proclamas do evento.

domingo, 7 de maio de 2017

Quem não conhece, inventa.


Como diria o mais que conhecido provérbio português: “o papel aceita tudo”. Já os meios digitais aceitam tudo e mais um pouco (já diria Umberto Eco, mas há quem se ofenda com essa opinião).

O que pode provocar dores no pâncreas e desconfortos no astrágalo esquerdo.

Em mim provocaram.

O jornalista que resenhou o show de Sting para um dos grandes veículos de mídia nacional deve ter nascido quando o Police nem existia mais. É verdade que, como jornalista, não precisava ter a mesma idade do cantor e do seu público, bastava ser um pouco mais sério e se informar antes de escrever.

Ele começa dizendo que o comportamento do público foi morno e comportado nas cadeiras. Na minha frente estava sentada uma senhora de uns 70 anos (super pop, de calças jeans rasgadas), ele queria o que? Que ela desse gritinhos e escândalos como a garotada que foi ver o Justin Bieber?

O pessoal que estava na pista dançou bastante. Que estava nas cadeiras e dançou se preocupou em fazê-lo nas escadas para não atrapalhar a visão de quem queria ficar sentado (ainda bem que essa geração ainda tem respeito pelo próximo).

A besteira seguinte foi dizer que as pessoas tiveram de aguentar músicas desconhecidas para poder ouvir as canções do Police. Quem desconhece é ele.
Quem gosta de Sting sabe muito bem (e a maioria cantou junto) coisas como Desert Rose, Shape of my heart, Fields of gold, I hung my head, Fragile, She´s too good for me.

E, mais que óbvio, quem é fã conhece as músicas do novo disco que já está nas prateleiras das lojas (e no Spotfy se você for moderninho) desde o final do ano passado. Ele bem que poderia ter ouvido um pouco antes de ir ao show.

De todas as besteiras, a mais genial, foi se referir a The last bandoleros, a banda que abriu o show e acompanhou Sting durante boa parte do seu show como um trio. O jornalista acabou de inventar o trio de quatro.

Aliás, muito bons os Bandoleros. Rock´n´roll sem frescura e de excelente qualidade.

Já os seus comentários sobre Joe Stumner, filho de Sting, que participou antes e durante o show são, para dizer o mínimo, indelicados. O cara não tem a qualidade do pai, mas está longe de ser um músico ruim. Ouça aqui o que eles fazem com Ashes to ashes, o filme continua com a ótima 50,000, uma das músicas “desconhecidas” do jornalista e a policealesca Walking on the moon.

No mais, ele se preocupou em comentar a forma física e a tintura do cabelo do cantor. Imagino que tenha uma longa experiência em jornalismo de fofocas.


Ah...o show foi uma delícia do começo ao fim. Sting está mais do que em forma (e aqui me refiro à sua competência musical e não à sua falta de barriga), o repertório logicamente privilegiou o disco novo (é o tema da tounée) mas passou por toda a carreira do cantor. 

domingo, 30 de abril de 2017

Carregado pelo zonda


Zonda é o nome que se dá a um vento argentino do lado oriental da cordilheira do Andes que, diz a lenda, ocorre quando alguém desobedece a Pachamama, a mãe natureza da mitologia inca.

Também é o nome original do filme de 2015 de Carlos Saura que está em carta na Reserva Cultural com o nome de “Argentina”.

Desde a sua trilogia flamenca, Saura se dedica, de tempos em tempos a retornar à música. Fados é um belíssimo filme sobre a alma portuguesa. Tango, explora a fundo a essência portenha.

De volta à Argentina faz um mapa extenso e detalhado dos ritmos folclóricos dos hermanos.

E é um filme fabuloso, ou melhor, é mais um filme fabuloso de Saura.

Praticamente nenhuma fala. Música do começo ao fim de sua quase hora e meia de duração.

Tomas Lipan, Luis Salinas, Pedro Aznar, Jaime Torres, Chaqueño Palavecino, Mariana Carrizo, são apenas alguns dos muitos intérpretes. Além de homenagens emocionantes a Mercedes Sosa e a Atahualpa Yupanqui.

O filme ganhou prêmios como documentário. Mas não é um documentário na melhor acepção da palavra.

Não existe um discurso explícito e, exceto por alguns segundos iniciais em que um texto fala das origens dos diversos ritmos folclóricos argentinos, não temos mais nenhuma orientação histórica ou didática a respeito do que vamos ver.

Dentro de um espaço teatral, três paredes translúcidas dentro de um galpão, acontece uma sucessão de apresentações musicais (zamba, cuyo, baguala, chamame, chacarera, malambo, cueca, gato, carnavalito) que dão uma bela amostra de todas as regiões do país.

Ainda que alguns mais puristas possam reclamar a falta de um loncomeo.

Muitas das apresentações têm a participação de uma companhia de ballet moderno que estiliza as danças com uma cara inconfundível do Saura das danças flamencas. 

Não espere um galpón criollo. Você não vai ver as prendas de tranças, nem gauchos de botinas (ainda que a dança com as boleadeiras seja, plasticamente, um dos pontos altos do filme.

Some-se a tudo isso a fortíssima paleta de cores de Saura e a experiência sensorial está completa.

Aos amigos brasileiros que sejam realmente fascinados por música, eu recomendo muito. Aos que conhecem nada ou muito pouco da música argentina, eu recomendo mais.

Com a ressalva de que não vai ouvir nenhum tango, nem nenhuma milonga. Tão pouco vai assistir bailarinos acrobáticos dos shows de turistas.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um ano de perdas

Eu sei, todos anos nascem pessoas e morrem pessoas. E nós nem sabemos disso, exceto por aqueles mais próximos de nós.

Nesse ano tive apenas uma pessoa mais próxima que se foi. E pouquíssimos nascimentos entre conhecidos.

Do ponto de vista de herança cultural, no entanto, foi um ano terrível. Muitos se foram.

Alguns, provavelmente, a seu tempo. Outros, cedo demais.

Janeiro começou bem mal. David Bowie, o camaleão que me ensinou que é possível mudar de estilo sem perder a qualidade.

Pierre Boulez, um gigante entre os maiores. Ettore Scola, que me fez dançar os mais variados ritmos no “Baile”.

Em fevereiro, Umberto Eco, uma das melhores lembranças dos tempos de faculdade e que perpetuou nas minhas estantes em todos os anos depois disso.

Em março se foi George Martin. E só quem é beatlemaníaco como eu é capaz de entender o que ele representou para a minha geração.

Também em março Keith Emerson (meses depois, em dezembro, foi a vez de Greg Lake), de qualquer forma, the show will never end.

Ainda em março (que mês...), foi a vez de Johann Cruyff, aquele cara que todos nós, na adolescência, queríamos ser.

Em abril foi a vez de Fernando Faro, que fez de um mero ensaio, uma antologia da música brasileira.

Maio levou Cauby Peixoto que, mesmo não sendo da minha geração, era uma referência da história da nossa música.

Também levou Boris Schnaiderman, o homem que permitiu o meu acesso a dezenas de textos da literatura russa. O que não é pouco.

Em junho foi a vez de Muhammad Ali, o eterno Cassius Clay. Com ele aprendi minhas primeiras lições sobre o que significa o racismo, que jamais vou esquecer.

Bud Spencer também se foi em junho, como dei risadas nos filmes de Trinity.

Assim como Alvin Tofler, um dos primeiros gurus que levei a sério.

Hector Babenco em julho levou com ele grandes momentos do cinema nacional, e Sérgio Machado, responsável por publicar muito do que tenho nas minhas estantes.

Agosto foi muito triste com a ida de Toots Thielemans, que conheci ao vivo num jantar do clube escandinavo nos anos 80.

Assim como outro que me fez rir demais: Gene Wilder.

Não sei se para aliviar meu aniversário, setembro passou em branco.

Mas outubro levou Dario Fo, um anarquista de primeira. E o grande Carlos Alberto Torres, o homem que deu fecho de ouro na copa de 1970, a primeira que vi pela TV.

A partida de Leonard Cohen, em novembro, foi uma das que mais me entristeceu (junto com a de Bowie). Suas canções e seus livros fazem parte da minha construção como ser humano.

Dezembro nos levou Ferreira Gullar, um dos primeiros poetas sujos que me encantou. Também foi a vez de Villas Boas Corrêa, vou sentir saudade da picardia e da inteligência dele.

Mais do que Carrie Fisher, me chateou a morte de Debbie Reynolds, sua mãe. Singin´in the rain deve ser um dos filmes que mais vezes vi na minha vida.

Muitos podem citar algumas dezenas de nomes que eu não mencionei. São suas referências.

Pode até ser que eles descansem em paz. Só Deus pode afirmar isso.

Nós, que ficamos, perdemos. Muito.

Que 2017 seja mais leve.

domingo, 28 de agosto de 2016

Uma frustração genial

A vida é uma comédia escrita por um comediante sádico (Bobby Dorfman, personagem principal)
Café Society é um filme frustrante.

E é genial justamente por isso, um filme cujo desenrolar vai frustrando cada uma das nossas expectativas sobre os desfechos da trama principal e de cada uma das subtramas.

Inclusive os desfechos que o próprio Woody Allen nos ensinou a esperar em outros filmes seus.

Alguns vão dizer que é um filme menor. Talvez seja mesmo. De qualquer forma, um filme menor de Allen ainda é melhor do que a grande maioria das tranqueiras que são exibidas nas telonas e telinhas.

O argumento do filme é bastante simples. Não tem nenhum ator saltando da tela nem nenhum personagem viajando no tempo. Nem camaleões.

Os personagens são seres críveis que vivem situações corriqueiras e têm sentimentos comuns a qualquer outro ser humano. Até os bandidos são bandidos comuns.

Não há nenhum ator ou atriz de beleza estonteante.

Os atores dão a impressão de serem seus próprios personagens na vida real. Nenhuma careta, nenhum exagero, nenhuma lágrima derramada para provocar reações melodramáticas.

A narrativa é linear. Nenhum flash back que obrigue o espectador a realizar sinapses complexas para entender.

Os diálogos, como sempre, são geniais. Especialmente os travados entre o pai e a mãe do personagem principal.

A mãe, não poderia deixar de ser a típica yiddishe mama, senão não seria um filme de Woody Allen.

A cinematografia é fabulosa, seja nos grandes planos, seja nos closes finais. A fotografia é deslumbrante, especialmente os jogos de cor da ensolarada Califórnia (a cena azulada da abertura do filme é emocionante).

E ninguém ainda conseguiu mostrar Manhattan como Woody Allen.

E ninguém consegue melhores trilhas sonoras do que ele.

Há humor? Claro, se você é daqueles que entende o humor de Allen.

Há romance? Sim, o filme é um grande romance.

Assim como há drama e há a eterna discussão ética sobre a culpa.

Se você gosta de Woody Allen, não perca. Vai se encantar.

Se não gosta, não perca seu tempo. Você vai se frustrar.


Imagem: Allen, Vittorio Storaro e Eisenberg (e um fotógrafo não identificado)

quinta-feira, 17 de março de 2016

As moscas estão vencendo

Quem sabe um mínimo de história (infelizmente são poucos), sabe que a política sempre viveu de jogos de interesses, manobras legais ou não, golpes baixos e alianças espúrias. Sem contar o uso de venenos, traições e manipulação de grupos de suporte.

Assim como sempre foi financiada por grupos que lucram com as suas práticas e sustentada por massas de ingênuos e idealistas que acreditam que líderes políticos podem transformar o mundo.

Não é à toa que Monteiro Lobato já definia a política como uma gamela cheia de estrume onde se nutrem grupos de moscas. Alternam-se as moscas, mas o estrume continua sempre o mesmo.

Eu sou daqueles que entendem que, sem mudar o conteúdo da gamela pouco importa a cor das moscas que a sobrevoam.

Justamente por isso que sou contra as moscas domésticas, varejeiras, de fruta, de estábulo, do vinagre, típulas, crisopas, de enxame, amarelas e, até mesmo, contra as moscas brancas.

Em momento em que as pessoas se sentem obrigadas a se incorporar a um mosquedo ou outro eu, que não me interesso por nenhum deles, sou considerado como um alienado ou favorecedor do lado onde o estrume fede mais (e ele fede mais sempre do lado oposto de quem esteja falando).

Quem me conhece um pouco melhor sabe que posso ser chamado (e o sou) de um monte de coisas, menos de alienado.

O que não significa que seres inflamados pelo ódio, vingança e desprezo de todos os tipos, não o façam e infelizmente o tem feito contra tudo e todos que não estejam alinhados ideologicamente com a sua farândola.

Pessoas que costumam fazer discursos piedosos e religiosos, mas não hesitam em ofender os seus semelhantes.

Pessoas que militam em causas que defendem a diversidade, mas, nessas horas, não aceitam diversos das suas ideias.

Pessoas que rugem ferozmente pela aplicação da lei e da justiça, desde que ela só seja aplicada contra os seus adversários.

Pessoas que discursam pela liberdade de opinião somente dos seus asseclas.

Pessoas que acreditam que podem distorcer, fraudar e manipular informação de acordo com o que lhes convém.

Pessoas que acreditam que a intolerância e o conflito são as únicas ferramentas de debate.

Tenho amigos praticamente em todo o espectro político-ideológico. Alguns conseguem argumentar de forma racional e educada sobre as suas convicções. E eu os admiro por isso.

Infelizmente muitos se deixaram levar pela turba massa ou pelas notícias plantadas nas mais diversas mídias da extrema esquerda à extrema direita, e adotaram um discurso de ódio e ofensas aos demais.

Pior, quando questionados indiretamente por esse tipo de postura, aproveitam para ofender de novo os adversários (o que, certamente, vai aparecer nos comentários desse texto).

Pessoas que exigem um respeito que não têm. Uma honestidade que não praticam. Uma educação que perderam no meio do caminho.

Enquanto perde-se tempo com esse bate-boca inócuo, o estrume da gamela se multiplica, e as moscas refestelam-se. Tristes tempos.