sábado, 21 de novembro de 2009

Uma história de mattoso

Marduque oscitava o dia inteiro coçando a omocótila observando o mareorama. Não passava de um arrieiro descansando o obélio sobre o escabelo.

No entorno proximal avistava urodelos concóides cernindo-se até mirrar, como se fosse um venador de rinofimas.

Uma manhã, entre estapes e amarantáceas, avistou o epacmo de um garotil que papujava numa tessitura sarilha.

Acinésico, refugiou-se no ichó para não demonstrar seu inotropismo. Foi alcançado pelo janízaro que, à socancra, o malbaratou com o fanal.

Arriscou um propinamento espagiríta. Recebeu de volta apenas increpações. O que não lhe devolveu miosina à sua acnemia.

Obcordado, foi lançado onticamente na libata cacósmica, sob a acusação de ser um tafulão que atentava contra o uxório.

Sentiu que o ecúleo lhe seriapintalgado de câncaros. Seu anapesto foi julgado uma laracha repleta de secância.

Admoniu que sua egéria o levava a escorços cheios de fidúcias.

O uale o condenou a prisão nos soles, sem acesso ao mégaro e sem adimentos de tretas.

O tuno pavacaré acabou seus dias atado ao lanternim, acumulando línter falciforme no epitélio.

Joaquim Mattoso Câmara Júnior (Rio de Janeiro, 1904 — Rio de Janeiro, 1970) foi um linguista brasileiro. Membro fundador da Academia Brasileira de Filologia, sob sua orientação, foi fundada, em 1969 a Associação Brasileira de Linguística, da qual participou na sua primeira gestão, integrando o seu Conselho Diretor.Escreveu vários livros que se tornaram referência na área, entre eles Estrutura da Língua Portuguesa, lançado em 1970. Estudou com Roman Jakobson, nos Estados Unidos, sendo fortemente influenciado por esse linguista.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ela pôs o pé na sauna

Luísa passava o final de semana num hotel em Visconde de Mauá. Era a primeira vez que ia para o lugar e, também a primeira que ficava num hotel de chalés.

O lugar era bonito, amplo. O quarto também. A cama larga, a decoração elegante.

Como era seu hábito em qualquer lugar estranho que conhecia ela resolveu explorar os seus detalhes.

Foi até o bloco principal do hotel, viu o restaurante, a sala de jogos. Quando viu a placa indicando a sauna ficou curiosa.

Claro que ela sabia o que era uma sauna, mas nunca tinha entrado em uma, até porque lhe soava como algo suspeito.

Mas estava sozinha e não custava nada ver exatamente como era. A placa na porta dizia "Sudatorium".

Descobriu que funcionava pela manhã para os homens e, à tarde para as mulheres. Entrou.

O local estava vazio. Era um vestiário com bancos e armários de alumínio e uma porta de vidro.

Abriu a porta e não viu nada além de um espaço todo coberto de madeira. Na parede um botão. Apertou.

Assustou-se com o vapor que começou a tomar o ambiente, mas logo descobriu que não precisava temer nada, apenas a umidade que iria estragar a escova que tinha feito no dia anterior.

Como não trouxera roupa para a sauna, apenas tirou a sandália e puxou a calça até a altura dos joelhos. E pôs o pé na sauna.

O vapor quente fê-la sentir-se bem. Saiu de lá encharcada de vapor e de suor.

Mas não sabia como desligar o equipamento. Apertou de novo o botão, só aumentou o vapor.

Pensou em chamar alguém, mas estava morrendo de vergonha. Até que a sauna desligou sozinha, era controlada por um timer.

Luísa descobriu como era bom andar nas nuvens de vapor. Transformou-se na nefelibata da sauna

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lepidopterae


Papilionoidea sempre diz
Hamearis me faz feliz
Pieridae é sedução
Pieris rapae o coração
Delias seu perfume
Lycaenidae seu lume

Glaucopsyche seu ardor
Lycaeides do meu amor
Talicada sensação
Riodinidae delicada
Abisara o mar profundo
Danaus é o meu mundo

Nymphalidae brilho só
Pararge nem te dó
Hesperioidea paixão
Carcharodus a canção
Hedyloidea de verdade
Rhofalocera na eternidade

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um brinco para a princesa

Magenta passeava todos os dias pelo parque. Era muito cuidadosa na escolha das suas roupas, sempre combinando perfeitamente as cores de sua calça pescador e seu top.

De todas as combinações, a sua preferida era o conjunto azul cobalto com vermelho da china que transmitiam, juntos, a sedução e a serenidade, resultando numa aparência alegre e vistosa.

O resultado primário desse cuidado no vestir era que Magenta era admirada por todos os homens que também faziam suas caminhadas no parque.

Mas ela também provocava efeitos secundários, iluminando a todos com seu sorriso e suas elegância.

De tempos em tempos Magenta usava também um lenço verde para complementar seu uniforme.

Mesmo porque não acreditava que uma cor ocupasse todo o seu espectro de gosto. A vida vem em ondas, repetia sempre. E nem sempre as ondas vem com a mesma força, ou mesma quantidade.

Um dia, num dos seus passeio, Magenta parou diante de uma planta coberta de flores. Eram de um rosa vívido, quase rosa choque, quase carmim.

Ficou bestificada com a beleza da flor. Era uma cor sensual, elétrica, definitivamente uma cor para mulheres.

Esperou que passasse um dos jardineiros do parque e perguntou que flor era aquela. Era uma fuchsia, mas que era popularmente conhecida como brinco-de- princesa. Não podia ser mais a cara de Magenta.

No dia seguinte ela trouxe uma máquina fotográfica e captou imagens da flor de todos os ângulos e levou-as para conversar com Eurico, o velho joalheiro do bairro.

Não demorou muito para que ela surgisse com sua roupa azul e cobalto e com brincos de rubi no formato da flor.

Os homens engasgavam quando a viam. Alguns seriam capaz de verter sangue carmim por ela.

Pura poesia.

Magenta. Cobalto. Da china. Verde. Fuchsia. Carmim.

Nunca houve outra princesa que fosse assim

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sombra e luz

Quando Platão escreveu o seu mito da caverna (que nada tem a ver com a Caverna do Lou, apesar dessa também ser mitológica) ele não imaginava que seria o maior influenciador do tenebrismo, ideologia desenvolvida por Ugo da Carpi no século XV.

Ugo ao se deparar com a problematização da luz como modeladora da imagem, ficou perplexo ao descobrir que as sombras, que ele tomava como verdadeiras, eram, de fato a falta de um conhecimento filosófico irreflexivo.

Quando compreendeu a metáfora da condição dos objetos reais, contrariando a linearidade platônica da eikasia, logrou alcançar o contraste incontornável entre entre a dianóia e a paranóia.

A partir desse momento, cada vez que olhava para a sua mulher entendia que a estruturação espacial do corpo feminino não acontecia por acaso, mas por causalidade. Essa técnica de observação fora do senso comum de outras visões de mundo exigiam conhecimento da perspectiva, do efeito matizador dos vestidos que usava.

Dizem as más línguas que, como a senhora Carpi não era exatamente uma beldade Ugo passou a observar somente a sua sombra, escapando das projeções de volumes tridimensionais.
Seu colega de trabalho, Baglione, que era um aristotélico sem maneirismos, entendeu que a tese de Carpi era apenas um sfumato ou, em bom português, uma nuvem de fumaça, para disfarçar outras intenções dramáticas.

Baglione concordava que a mulher de seu êmulo mais parecia uma natureza morta, mas isso não justificava a falta de sensibilidade do colega.

Durante os debates escolásticos que travaram, Baglione, mais de uma vez, referiu-se a Carpi como um sujeito sem transparência, mentiroso e corruptor da ordem vigente.

Somente a intervenção do professor Merisi, decano da universidade de Masaccio, onde todos trabalhavam, é que conseguiu resolver a briga, trazendo os dois inimigos de volta à realidade e tirando-os do mundo ilusório das coisas sensíveis.

Baglione já estava quase conformado com essa espacialização lógica de corpos distribuídos individualmente quando, uma noite, ao chegar em casa encontrou todas as luzes acesas atravessando todos os objetos da casa.

Sobre a lareira um bilhete de Donatella, sua mulher. Tinha fugido com Ugo da Carpi que tinha uma pístis e uma noésias que a fizeram renascer.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O medo

Januário amava Camões. Tudo que fosse referente ao poeta luso lhe interessava. Já decorara toda a lírica e não poucos cantos de Os Lúsiadas.

Durante sua vida vários exemplares passaram por sua mão. Edições de bolso, capa duras, edições brasileiras e portuguesas.

Apesar da sua paixão pelo tema, Januário nunca foi apegado aos livros. Esses estavam sempre disponíveis em algum lugar, pensava ele.

Conforme lia novos exemplares, guardava-os por um tempo, mas não se incomodava em dá-lo para outras pessoas ou para bibliotecas.

Até o dia que um amigo advogado mencionou um autor alemão, Wilhelm Storck, que tinha escrito uma biografia e análise da obra de Camões no século XIX.

No dia seguinte ele partiu em busca dela. Mandou e-mails para livreiros conhecidos, pesquisou em comunidades de redes sociais.

Finalmente encontrou-a. Soube de uma pessoa que tinha um exemplar. Foi visitá-la para tentar negociar a compra do livro.

Descobriu que o dono não dava muito valor para o tesouro que tinha. Era uma primeira edição portuguesa de 1897. Uma peça única.

Januário devorou o livro, uma duas, três vezes. Ficou absolutamente apaixonado pelas suas qualidades, sua beleza e sua perfeição.

O que fez com que ele mudasse completamente seu comportamento.

Ao mesmo tempo em que deixou de se interessar por qualquer outro livro, ele também se apegou aquele de uma forma como nunca tinha acontecido antes.

Não só decidira nunca mais abrir mão do seu exemplar raro e único, como também não deixava que as pessoas se aproximassem dele, quanto mais tocá-lo.

Se quisessem poderiam admirar de longe. O livro era o seu orgulho e sua vida.

Fez com que ele, pela primeira vez na vida, conhecesse o que era o medo de perder.

sábado, 14 de novembro de 2009

Insano rural

Eu nunca fui um sujeito muito rural. Não que não goste do campo mas nunca tive mão boa para as lides agrícolas.

Ou melhor, não tinha. Até descobrir minha afinidade com as cucurbitáceas. Aliás, a minha afinidade com uma, em especial, Cucurbita pepo L.

Das demais plantas da família, a única outra que me cai em mãos, de tempos em tempos, é algum pepino, mas só para descascar.

Já a Cucurbita à qual me afeiçoei é um fruto de fácil digestão, rico em niacina e vitamina B e possui poucas calorias (o que é bastante recomendável no meu caso).

Se bem que não é o consumo que me atrai, mas a produção. Tanto de um tipo como do outro.

Um deles é a cucurbita menina, que tem corpo curto e pescoço longo. Sua parente, a italiana, já é esguia e sem pescoço.

A menina aparece de julho a dezembro, a italiana de setembro a janeiro. De fevereiro a junho eu fico de mãos abanando.

Normalmente são verdes, mesmo quando estão maduras. Raramente amarelas.

Elas precisam de trato cuidadoso, são sensíveis e se machucam se apertadas. Também pode se ofender, se tocadas com unhas mais agressivas.

As melhores são as pequenas. Quanto menores, mais tenras e saborosas.

Os frutos ainda com pedaço do seu ramo se conservam por mais tempo e podem incrementar várias receitas.

Mas elas só combinam com temperos marcantes que realcem seu perfume.

Se você ainda está em dúvida, eu esclareço. Descobri a minha vocação: plantar abobrinhas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Solilêncios

Um silêncio que fere a alma
Espalha-se pela sala
Preenche todos os espaços
Vazios como ele próprio

Um coração repleto de vazios
Solidão é ter a alma inundada de silêncios

Solilêncios pela sala
Esparramam-se pelo tapete
Manchado de recordações

Solilêncios pelas ruas
Sufocando os sons da multidão
Impregnando o ar

Solilêncios pelo mundo
Solilêncios nas estrelas

Só silêncio em mim

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Maravilhamento

Manuel gostava de falar diferente, não que usasse palavras difíceis ou desconhecidas, mas sempre encontrava um jeito qualquer de deixar sua marca pessoal com alguma palavra que todos conheciam, mas não tinham o hábito de usar, ou pelo menos não usavam nos mesmos contextos que ele.

Era capaz de elogiar um prato dizendo que pipocavam bolhas de sabão no estômago. Ou dizer que o trânsito estava sofrendo de incontinência de semáforos.

Um café nunca era simplesmente bom, era estimulador de devaneios frugais. Quando via um filme romântico dizia que tinha sido afetado por debulhamentos lacrimais.

De todos, o termo que realmente marcou sua pessoa, foi o que usou a vida toda para se referir a Joana, a mulher que sempre foi sua amada e companheira inseparável.

Nunca a chamou de esposa, bem ou querida. Também não a chamava pelo nome ou por qualquer apelido carinhoso que, por sinal, nunca tiveram. Se referia a ela sempre como sendo o maravilhamento dos sentidos.

De fato, ela o maravilhou quando se conheceram. Não só por sua beleza, mas também pela forma amorosa e cuidadora de tratá-lo em todos os momentos. Maravilhou-o nos carinhos íntimos. Maravilhou-o como esposa, mãe e, já idosos, como esteio permanente.

Já idoso e doente, ele nunca deixou de amá-la e de ser objeto dos seus cuidados. Pressentindo a morte que se aproximava pediu a um dos filhos papel e caneta. Escreveu algo, colocou num envelope e pediu que só entregasse à mulher depois da sua partida.

Dias depois ele se foi. O filho esperou passar o momento de tristeza mais profunda para entregar o envelope à mãe. Ela abriu e leu. Um misto de emoções a tomaram, chorava e ria ao mesmo tempo. O filho pediu para olhar, também se emocionou.

No papel se lia: "Meu maravilhamento dos sentidos, a eternidade só terá sentido e maravilha, quando você estiver novamente comigo. Te espero, sem pressa, mas com saudades".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um caos de matemática

Outro dia, num café da cidade, eu conversava com um amigo engenheiro quando ele resolveu falar a respeito de matemática do caos.

Eu devo ter olhado com uma cara de apalermado. Como assim? Se é matemática, a mais exata das ciências, a ferramenta que serve de base para organizar o mundo, não pode ser um caos.

Ele retrucou que era um caos organizado. Ora, se é organizado não é caos, é um oxímoro, eu disse. E aí foi a vez dele de me olhar com cara de bobo.

Ele insistiu, afinal mesmo em sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser "instáveis" no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis.

Ainda veio me dizer que, a matemática do caos demonstra como o bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão.

Eu pedi mais um café, me certificando de que o dele não tinha nenhum alucinógeno. Depois fui para casa pensando no assunto, pesquisei, estudei, avaliei e cheguei às seguintes conclusões (por favor, me acompanhe devagar para não dar nó nos cílios)

A lógica acróstico-trigonométrica que permeia o corpo faz dele um vetor resultante totalmente elíptico, dessa forma, qualquer hipótese hiperbárica permite que os catetos evoluam em abcissas que contenham números primos entre si.

Existe um fator exponencial que se elevado a niveis infinitos entra numa progressão geométrica, cada uma das mantissas cossecantes ao volume binomial das frações, interage de forma constante com as aberrações neperianas, formando incógnitas .

Erros macroscópicos na determinação do estado inicial e atual de sistema hexadecimal podem ser amplificados pela não-linearidade ou pelo grande número de interações entre os componentes poligonais, levando a um resultado aleatório.

É o que se chama de "Caos Determinístico", defendido por Honoré de Marterlink na sua obra clássica "Figures can lie, so do politicians".

Euler, aquele atacante do Palmeiras, costumava afirmar que a fatoração quadrática disposta em seções cônicas de um número capicua sempre chegava a um quociente de combinações análogas.

Na verdade, embora a descrição da mecânica clássica e relacional seja determinística, a complexidade da maioria dos sistemas leva a uma abordagem na qual a maioria dos graus de liberdade osciloscópicos é tratada como se fossem variáveis estocásticas e apenas algumas constantes são analisadas com uma lei de comportamento determinada, mais simples, sujeita a ação de um ruído.

Só me tranquilizei quando descobri que o caos tem um número de ouro diferente de .
Seja qual for a proposição equacionística, o resultado é sempre igual a 1.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Receita luminar

Desafiado que fui a criar uma receita inusitada e sabedor das perorações culinárias dos meus leitores, resolvi fazer uma experiência incomum, seja na escolha dos ingredientes, seja na forma de cozimento.

Inspirado pelos contos de fadas infantis, pesquisei detalhadamente as fórmulas usadas pelas bruxas e fui em busca de uma coruja e de uma borboleta.

Admito que não foi fácil. A coruja precisava ser de grande porte e a borboleta leve e delicada, com o maior número de cores possível. Curiosamente fui encontrá-las onde menos esperava, no mercado marítimo da Ilha Negra.

Uma vez de posse das carnes, fui para a cozinha.

Procurei uma panela que fosse larga e funda. Enchi-a de água quente, mas não excessivamente para não queimar as asas da lepidóptera. Misturei à àgua essência de baunilha e de cacau e deixei que dissolvessem, antes de mergulhar as carnes previamente temperadas em flor de sal umedecida e amarradas uma à outra com um fio de seda.

A amarração é fundamental na execução da receita, uma vez que é necessário que, mais do que justapostas, as carnes devem manter uma relação de mútua dependência, como se uma fosse o recheio da outra.

Quando totalmente imersas, deve-se bater a água com uma batedeira de bolo portátil para que as essências fiquem quase efervescentes.

Depois disso deve-se mexer a mistura o tempo todo, alternando movimentos delicados com outros bem enérgicos. Quando qualquer uma das carnes ferver é necessário dar alguns minutos de repouso (sem desligar o fogo, é claro) e, em seguida, começar tudo de novo.

É importante notar que as carnes devem gerar calor de dentro para fora das mesmas, para que a cocção seja perfeita.

Não existe um regra pré-determinada, cada uma das carnes deve ferver algumas vezes antes de se desligar o fogo. Normalmente, depois de um tempo, as asas da borboleta começam a perder tonicidade e a coruja perde sua consistência al dente. Esse é o momento do fim do cozimento.

Retire as carnes da panela e, depois de escorrê-las, seque-as com um pano macio (se for felpudo melhor ainda, pois permite uma secagem mais rápida. O pano não pode soltar fios, senão arruina a receita).

Uma vez secas, unte-as com um creme à base de leite e ervas de Provence e sirva com um espumante meio-seco.

A receita serve apenas uma pessoa.

domingo, 8 de novembro de 2009

O melhor choro

Ele não se surpreendeu quando, na saída do jardim zoológico, ela sentou na calçada e começou a chorar.

Sentou ao seu lado, tirou o lenço amarrotado do bolso e ofereceu para ela que, num primeiro momento recusou, depois acabou aceitando.

Por mais simples que pudesse ter sido o passeio, aquele dia tinha um significado mágico para ela.

Desde sua infância, tinha pedido às mais variadas pessoas para ir aquele lugar que ela só conhecia de ler e de ver fotos.

Talvez por ser um passeio comum demais, ninguém jamais atendera o seu desejo.

Seus pais mais de uma vez a tinham levado para viagens aos exterior, o marido sempre a mimou com programas sofisticados.

Não que ela não tenha aproveitado todas essas oportunidades mas, porque diabos ninguém a levava ao zoológico?

E ninguém entendia que tudo que ela queria era olhar os bichos. Ninguém prestava atenção no que ela dizia.

E quando ouviam, empurravam com a barriga. Um programa tão vulgar, pensavam.

Ela poderia até ter ido sozinha. Nunca, dizia, queria alguém que pudesse compartilhar o sonho com ela.

Naquele dia, ela riu com os macacos, assustou-se com os lobos, cantarolou com alguns pássaros. Embeveceu-se com o urrar das feras.

Ele só olhava cada movimento dela. E se encantava com o seu prazer simples.

Na saída, parou na lojinha e ainda comprou um tigre de pelúcia para ela, que o abraçou como uma menina que ganha a primeira boneca.

Ele se emocionou com o seu choro e, nem soube bem porque, conteve o seu.

Quando ela se recompôs, foram para o carro. Ela só olhava para ele, sorrindo e chorando.

Ele a deixou em casa, ainda com os olhos vermelhos. Nunca fora tão feliz por fazer alguém chorar.

sábado, 7 de novembro de 2009

Pacote completo

Alice e Ruy tinham saído para jantar para comemorar mais um aniversário de casamento. E não era qualquer um. Completavam 10 anos de vida em comum. Dez anos de felicidade.

Claro que tinham passado por bons e maus momentos, mas o saldo era extremamente positivo. Num determinado momento o assunto passou a ser o sucesso do casamento.

Ruy entendia que a felicidade morava na compreensão mútua, nunca ninguém o entendera como ela. Alice acreditava que o amor dispensava compreensão, não havia nenhum esforço intelectual para amá-lo, mesmo sabendo que seus intelectos eram um ponto crucial no relacionamento dos dois.

Não precisava raciocinar para amá-lo, tudo fluia naturalmente, como um rio sem obstáculos. Ruy concordou e fez questão de reforçar que o principal é que ele a aceitava do jeito que era.

Alice sorriu, propôs mais um brinde e o jantar transcorreu em clima de festa e de paixão.

No dia seguinte, Alice acordou com dor de cabeça. Não sabia se tinha sido o vinho, o tempero do risotto ou as poucas horas que tinham dormido. Tomou um analgésico e foi trabalhar.

A dor de cabeça não passava. Voltou mais cedo do trabalho, tomou um banho e foi para a cama. Ruy ficou preocupado, ela não costumava fazer isso, mas não quis acordá-la.

De manhã, Alice ainda estava com dor de cabeça, mas não tinha nenhum outro sintoma que justificasse recorrer a um médico. Ligou para o chefe e disse que não tinha melhorado e que ficaria em casa.

Fez um chá, sentou no sofá da sala e começou a fazer um inventário de tudo que tinha acontecido durante o jantar. Lembrou-se de cada pedaço de comida, cada gole de bebida.

Quando relembrava cada uma das frases que trocaram uma delas deu uma pontada na sua cabeça. Era isso!

Quando Ruy chegou, à noite, Alice o esperava sentada na mesa da sala. De cara ela perguntou que história era aquela de que ele a aceitava como era.

Ruy, surpreso, começo a explicar que, apesar dela ser uma mulher maravilhosa, ela também tinha defeitos, como qualquer pessoa, mas que ele aceitava todos eles. Enquanto falava, a cabeça de Alice doía ainda mais.

Até que ela o interrompeu. Disse que o que ela queria era amor e não concessões, que assim como ela o amava, ela queria ser amada apenas pelo que era. O amor não era um exercício de tolerância. Não queria comiseração. Não esperava que ele apenas se conformasse à ela.

Tudo ou nada. Pacote completo.

Encolhido na cadeira, acuado, Ruy não poderia ter escolhido pior as palavras. Disse que aceitava os argumentos dela.

Ela não disse mais nada. Foi até o quarto, arrumou a mala e, a caminho da porta disse que depois mandava alguém pegar o resto das suas coisas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Conticulóides zôoftalmológicos

Miopia

A leoa, exímia caçadora das savanas, escondida, observava a manada de gnus que se aproximava lentamente dela. Lambia os beiços só de pensar no regabofe que teria naquela noite. Deu o bote e avançou feroz. Quando chegou perto percebeu que não eram gnus, mas rinocerontes. Demorou mais de dois meses para se recuperar das múltiplas fraturas

Hipermetropia

Arnolfo, o jacaré, morava naquela lagoa desde que nascera. Ali dera suas primeiras nadadas, comera as primeiras tilápias, casara e reproduzira. Conhecia cada palmo do lugar e vivia sossegado. Até o dia em que, chegando em casa encontrou a mulher e deu-lhe um abraço de tamanduá. Foi o suficiente para sentir uma forte mordida no rabo. Não era a sua casa, nem aquela a sua mulher.

Astigmatismo

Tato, o sapo, estava emagrecendo a olhos vistos, mas ninguém conseguia descobrir o porquê, ele se recusava a admitir qualquer problema. Um dia sua amiga rã Zinha observando-o à beira do brejo descobriu seu segredo. Ele não conseguia caçar mosquitos. Toda vez que disparava a língua errava o alvo. Não estava doente, era fome mesmo.

Presbiopia

João era um pavão. Vaidoso como só um pavão pode ser, se recusava a admitir que estava chegando à meia idade e perdendo algumas de suas habilidades. Todas as manhãs arrancava as penas brancas que surgiam, por mais que cansasse continuava subindo em telhados e exibindo sua plumagem para toda pavoa que passasse por perto. Até o dia em atacou o leque japonês de uma frequentadora do parque, achando que se tratava de um rival. Foi mandado para uma fazenda num local remoto onde passou o fim dos seus dias se exibindo para galinhas d´angola.

Ambliopia

Cyrano de Averrois era um grande campeão no Jockey Club de Freetown jamais tinha perdido um páreo. Seu proprietário começava a ter prejuízos pois as apostas nele pagavam cada vez menos, resolveu levá-lo para algum hipódromo onde fosse desconhecido. Descobriu um em Canberra, nas mesmas condições do que Cyrano corria, exceto pelo fato de que era disputado no sentido anti-horário. Investiu pesado na primeira corrida, pois sabia que depois da vitória, ninguém mais apostaria contra ele. Perdeu tudo. Cyrano, virado para o lado errado, chegou em último lugar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Animalgia

Eles já tinham passado por muitas dificuldades. Problemas de saúde na família, crises amorosas, apertos financeiros, luto.

Mas sempre souberam se cuidar. Quando um fraquejava o outro rapidamente intervinha acudindo.

Não importava de quem era a mão ou quem estava desmoronando, sempre escapavam dos buracos.

Em alguns momentos com humor, outros com atenção redobrada. Sempre com um amor que ninguém mais tinha.

Houve até casos em que um repreendeu o outro, e isso serviu para resolver a situação.

Exceto naquela manhã, em que ela acordou com dor na alma. Uma dor como ela nunca sentira.

Ele tentou animá-la com brincadeiras. Depois, relembrando-a a cada meia hora do seu amor.

Mandou flores no meio da tarde, chegou em casa com uma caixa dos seus bombons de damasco preferidos.

Nada.

Pegou o primeiro livro que deu para ela e leu. Cantou a música que era deles desde sempre.

Ela pediu que ele parasse.

Para piorar, a dor que ela sentia começou a refletir no corpo. Enjôos, dor no peito, câimbras.

Ele tentou remédios, chás, massagens. O máximo que conseguiu foi apaziguar as câimbras.

Percebendo sua frustração ela bem que tentou motivá-lo, dizendo que, certamente, estaria melhor na manhã seguinte.

Ele não era um sujeito de manhãs seguintes. Mas era capaz de chorar.

E chorou naquela noite, se achando o mais incapaz dos homens.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vermelho


Vulto vermelho
Vaga avalanche
vindo ávida, veloz.
Vejo veredas
Vasculho o vazio
Vislumbro a viagem
Volúpia de vulcão
Vestida de vento
vem sem avisar.
Vida avança
Veia valsa
Voa o verão
Evapora o verbo
Evanesce o veneno
Ouvindo aves
Vislumbro a ventura

Avalanche
Ávida
Vulcão
Vento
Vermelho


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Inútil paisagem

Jorge passeava pelo shopping quando passou em frente a uma agência de viagens. Nem estava prestando muita atenção mas, subitamente, seus olhos foram atraídos por um dos quadros que estava na parede.

Qualquer outra pessoa que visse as fotos iria somente ver uma paisagem bonita. Ele nem viu as paisagens, apenas uma chamou sua atenção.

Jorge não sabia exatamente que lugar era aquele e, ao mesmo tempo sabia perfeitamente para o que estava olhando. Ficou extático, parado, olhando pela vitrine. Sonhando acordado.

Era o brilho dos cabelos dela que estava ali. As nuvens que o encobriam eram os reflexos que ela aplicava cuidadosamente em alguns fios.

Lá estava também a água dos seus olhos. A encosta dos seios. A planície do ventre. Até mesmo a vegetação da sua púbis estava lá.

Entrou na loja e perguntou quanto custava o quadro. A atendente lhe explicou que aquela era uma agência de viagens, que eles não vendiam os quadros, mas poderia lhe oferecer uma excursão para aquele destino.

Jorge não queria viajar e tentou subornar a balconista. Ofendida, ela pediu que ele fosse embora, senão ia tocar o alarme e chamar a segurança.

Ele saiu, mas continuou parado na frente da loja. Não demorou muito para que um dos guardas do shopping lhe pedisse que não ficasse ali.

Ele olhou para os lados, perguntou ao guarda se era com ele mesmo. Era. Foi em direção à saída.

Entrou de novo por outra porta e foi diretamente até o banheiro mais próximo. Certificou-se de que ninguém o vira entrar lá.

Na manhã seguinte, quando os primeiros funcionários do shopping entraram para trabalhar encontraram o vidro da agência despedaçado.

Em sua casa Jorge olhava para a foto. Se ela não pudesse ser sua, pelo menos teria essa eterna lembrança.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A contumaz antologia de Outubro


A data de hoje homenageia os mortos. Eu prefiro homenagear aqueles que dão vida a esse blog.

Com vocês os melhores comentários de Outubro:

estarei assim insano???

...tua traição ficou realmente boa.

A paixão é mesmo um exercício para machucar a alma.

...tem gente que iria ficar atrás do cocô do panda...

Domingo é dia de batizado das vaquinhas.

Estamos românticos hoje?

Caramba! O pernilongo bem que poderia ter pousado no pé...

...todos os caminhos dão no mesmo lugar...

Que você nunca tenha um mínimo de juízo...

Daqui a pouco você vai dizer que tamarindo de Java é bom para a tosse.

foi corajoso porque amou ou amou porque foi corajoso?

Lição de amor... poderia ser o título.

Vou ali tirar sangue.

O papel higiênico foi inventado antes ou depois da grande diarréia?

Ando lendo coisas por aqui bem piores que o latim.

mexer em defunto que já foi enterrado....

eu fico aqui "viajando" na maionese

...se assemelharia mais a um tarado enquanto ela à uma lolita.

Onde se localiza o ponto de fuga neste tipo de espiral?

Fiquei com vontade de comer rocambole...

Quer dizer que quando chove a gente emagrece?

Esse mês tô fora da antologia, com certeza.

...dá prá fazer tanta coisa com chantilly...

domingo, 1 de novembro de 2009

In vulcano veritas

Vulcão é uma estrutura geológica, o que nos permite concluir, antes de qualquer outra elocubração que a lógica estrutural da metafísica não se aplica diretamente às erupções dermatológicas.

Um vulcão, só se constitui como tal, quando o magma, gases e partículas quentes escapam para a superfície terrestre, ou seja, não é qualquer buraco fundo no alto de uma montanha que pode ser chamado por esse nome.

Quando eles ejetam altas quantidades de poeira, gases e aerossóis na atmosfera, podendo causar resfriamento climático temporário. Sei que isso pode parecer um contrassenso, imaginar que particulas quentes sejam geradoras de climas frios, mas lembre-se a lei de gravidade térmica diz que tudo que esquenta, esfria, nem que para tanto seja necessária uma ducha gelada ou uma garrafa de champagne.

Os vulcões são os únicos elementos naturais que causam poluição. Mesmo os não fumantes. Quanto ao formato, geralmente são cônicos, o que lhes permite direcionar melhor seus fluxo de lava. A lava, é uma matéria viscosa que se solidifica rapidamente se encontrar seu objetivo.

A erupção de um vulcão pode resultar em graves desastres naturais, por vezes de consequências planetárias. Uma erupção exagerada pode se alastrar além dos limites que seriam toleráveis e, se não devidamente contida pode gerar crises familiares entre pais e filhas.

Assim como outros desastres dessa natureza, as erupções são imprevisíveis e causam danos indiscriminados. Entre outras coisas, tendem a desvalorizar os imóveis localizados em suas vizinhanças, o que incomoda muito os corretores e os especuladores.

Os vulcões tendem formar-se junto das margens das placas tectônicas, no entanto, existem exceções quando os vulcões ocorrem em zonas chamadas de pontos quentes. A lógica preveria justamente o contrário, os vulcões deveriam se formar em pontos quentes e, por exceção, serem objetos arqui-tectônicos.

Por outro lado, os arredores de vulcões, formados de lava arrefecida, tendem a ser compostos de solos bastante férteis para a agricultura. Outra problema de lógica aqui. Lava arrefecida não tem a menor chance de ser fértil

Semânticamente a palavra "vulcão" deriva do nome do deus do fogo na mitologia romana Vulcano, que era um sujeito feio e que não cuidava direito da mulher. Vulcão que se preza pode até não ser bonito, mas sabe cuidar do que está dentro da sua zona de abrangência.

A ciência que estuda os vulcões designa-se por vulcanologia. Alguns vulcanologistas fundaram a Vulcabrás no ano 752 d.C, que depois entrou em decadência e hoje está quase extinta.

Vulcões extintos são aqueles que os vulcanólogos acham que têm poucas chances de entrar em erupção. Algumas descobertas recentes, no entanto, provaram que é possível reativar vulcões através de recursos farmacocinéticos.

sábado, 31 de outubro de 2009

Contículo adverbial em transição

Negação

Quando Afonso se apaixonou por Sílvia ele tinha certeza que se tratava de um caso sem solução. Não poderia esperar reciprocidade, nem mesmo um olhar carinhoso. Nunca seria capaz de dizer que a amava e jamais se arriscaria a desafiar a lógica da paixão. Ela era mulher demais para ele e, de modo algum repararia na sua existência, de forma nenhuma lhe daria trela, tão pouco imaginaria que ele sentisse por ela mais do que uma mera amizade. Uma história de amor que não ocorreria de jeito nenhum.

Dúvida

Quis o acaso que Silvia, quiçá a mulher mais deslumbrante da cidade, casualmente olhasse para Afonso. E, se alguém, porventura, duvidasse de amores improváveis, por certo teria feito a aposta errada naquela situação. Possivelmente foi uma ação certeira do cupido, talvez uma daquelas histórias de contos de fadas, quem sabe a atração entre opostos. Provavelmente ninguém saberá explicar.

Afirmação

O que efetivamente aconteceu é que Silvia deveras se apaixonou por Afonso. Decididamente um amor verdadeiro e indubitavelmente o casal mais feliz do mundo. Ele realmente a queria de todas as formas, certamente, em qualquer situação. Os dois realmente oscilavam apenas entre o certo e o decerto. Sim, como só poderia acontecer, viveram felizes para sempre.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Violino único

Erick nasceu numa família de apaixonados por música. Seus pais eram instrumentistas, alguns de seus tios chegaram mesmo a atuar profissionalmente.

Ainda pequeno escolheu o violino para ser seu companheiro musical. Tinha tudo para ser um gênio precoce mas nunca quis se dedicar profissionalmente a isso.

Mesmo assim continou estudando disciplinadamente e tocando a vida toda. Chegou a tocar junto com algumas orquestras, sempre como um hobby.

Além de tocar era um especialista no instrumento. Conhecia cada detalhe de sua fabricação e de seus cuidados. Muitos músicos o consultavam antes de adquirir um violino mais caro.

Com isso, acabou conhecendo violinos de todos os tipos. Uma vez, durante uma viagem, um amigo seu falou dele para o diretor de um museu que lhe permitiu tocar num Stradivarius.

Mas nunca trocou o seu violino por nenhum outro, mesmo pelos que considerava melhores.

Até o dia que foi chamado pelo dono de uma loja de antiguidades para avaliar uma peça que ele tinha recebido. Era diferente de tudo que tinha conhecido na vida.

O instrumento era de uma madeira bege rosada. A voluta densa e brilhante, suas cravelhas firmes, o espelho tinha contornos suaves e a escala não tinha nenhuma imperfeição, mesmo considerando que não era um violino novo. Até a surdina e o talão não tinham similares.

Quis saber mais a respeito da história do instrumento. Descobriu que tinha sido o único violino fabricado por um luthier estrangeiro que viera morar no Brasil. Pensou consigo mesmo que existiam cerca de 650 Stradivarius no mundo, mas nenhum outro igual aquele.

Foi honesto com o dono da loja. Aquilo era uma preciosidade, uma peça única e valiosíssima. E que queria comprá-la. O lojista que imaginava que um violino de um fabricante anônimo não valeria nada, vendeu-lhe o mesmo por um preço alto, mas não extorsivo.

Erick voltou para casa com sua jóia rara. Abriu a caixa e foi para a varanda e começou a tocar os Caprichos de Paganini. Os vizinho começaram a aparecer nas janelas, como se encantados por um novo músico de Hamelin. Quando acabou o 24º capricho foi aplaudido efusivamente.

Naquela noite, Erick descobriu, enfim, o que era ser um homem feliz.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Traição latina

Nossa Sudamérica tem poetas excepcionais em todos os países. Nem todos conhecidos ou reconhecidos como deveriam.

É o caso de Eduardo Carranza, objeto de mais uma das minhas traições


Pensar em ti é azul, vagando
Um bosque dourado ao meio dia
Nascem jardins da minha alegria
Nas nuvens dos teus sonhos ando

Nos une e nos separa ar tão brando
Uma distância de melancolia
Eu abro os braços da poesia
Azul de ti, doído e te esperando

Como um horizonte de violinos
O leve sofrimento de jasmins
Penso no teu azul temperamento

O mundo se torna cristalino
Te olho, luzeiro ultramarino
Domingo azul meu pensamento

Para quem gosta de comparar, o original é o seguinte:

AZUL DE TI

Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violin
eso un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.

Eduardo Carranza
Poeta colombiano nascido en Apiay em 1913 y falecido en 1985.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Conticulóides bizarros

Provador

Helena era tão tímida que até para experimentar sapatos na loja ela ia para o provador. Um dia descobriu que circulava na Internet um filme seu trocando de roupa numa loja de lingerie. Teve uma crise de vergonha que demorou dias. Quando passou, comprou um vestido transparente, vestiu-o sem roupa de baixo e foi passear na avenida Paulista.

Literatura

Todo dia Mário ligava para Ana, sua amiga que morava em Amsterdã para lerem um soneto de Shakespeare. De cada lado da linha eles liam o poema do dia, cada um no seu exemplar do livro. Momentos de silêncio preciosos demais para os dois.

Culinária

No dia que Rosana foi para a cozinha ela resolveu fazer um bolo de morango decorado com chantilly. Detestava o fogão, mas quando percebeu que poderia usar a cobertura para declarar o seu amor sem que ninguém percebesse, exceto ele, virou a melhor confeiteira da família.

Atenção

Bertoldo estava prestes a ser o primeiro brasileiro a ganhar o campeonato mundial de bobsled. Tinha feito os melhores tempos em todas as etapas classificatórias, muito à frente dos principais adversários. Meia hora antes de começar a etapa final recebeu um torpedo de incentivo da namorada. Errou feio logo na primeira curva e foi parar na área de escape. Desclassificado. Mas ninguém conseguiu lhe tirar o sorriso dos lábios.

Hábitos

Desde quando começaram a namorar Elias tinha a mania de beijar Catarina na sutura sagital. Passava a mão na sua cabeça, tateava o local certo e lhe aplica o ósculo habitual. Depois de mais de trinta anos juntos um dia ela lhe disse que ele poderia variar e beijar a sutura lambdóide. Ele concluiu que ela devia ter outro que tinha virado a cabeça dela. Abandonou-a de forma bregmática.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Canícula

Aurélio todos os dias reclamava do calor que fazia no caminho do trabalho. Clara dizia que ele era um exagerado, afinal ele tinha o privilégio de ir trabalhar a pé e nem sofria com o trânsito.

Ele retrucava dizendo que, considerando as três viagens diárias que fazia entre o escritório e a casa , ida, ida e volta do almoço (só escapava quando voltava à noite) ele tomava sol cerca de 24 horas por mês. Um dia inteiro de sol.

Clara dava risada e dizia que aquilo não era nada demais, se ele achava que sofria, devia conhecer os trabalhadores das salinas.

Um dia, Aurélio chamou Clara na sala, pegou um caderno e começou a rabiscar equações.

Explicou que assim como um bife maior frita mais rápido que um pequeno pois tem maior área de exposição ao calor, ele , que era um homem de grande porte, também sofria mais com a irradiação solar.

Considerando o seu tamanho, ele tinha uma área de exposição ao sol de 1,71m2, bem mais que o dobro da dela que era baixa e magra.

Sabendo que a média de irradiação solar é de 2,3 x 107 J.m-2.dia-1, o calor incidente mensal sobre ele era de 4.208 kilojoules;

Clara começou a ficar asssustada com aqueles números, perguntou o que era um kilojoule.

Ele explicou que um joule equivale à força necessária para levantar uma maçã um metro acima do chão. Um kilojoule eram mil joules.

Ela pensou nas mais de 4 milhões maçãs que ele levantava todos os meses. Quase duzentas mil por dia. E ficou penalizada.

No dia seguinte Clara ligou para umas amigas tentando descobrir se alguma delas tinha alguma idéia para ajudá-la com Aurélio.

Descobriu que os tais 4.200 kilojoules equivaliam a 1.000 calorias.

No dia seguinte, quando Aurélio chegou em casa para almoçar só encontrou saladas e legumes cozidos. Justo ele que adorava um bom bife de contra filé cheio de gordura.

Olhou para Clara sem entender nada. Onde estava seu bife? Seu arroz e feijão?

Ela foi curta e grossa. Já que ele ganhava mais de 1000 calorias com o sol que tomava, precisava comer mais leve para não engordar.

A partir daquele dia Aurélio nunca mais reclamou do sol.

domingo, 25 de outubro de 2009

Arcobaleno


Na parte inferior, com certeza,
Entre o beijo e o carinho
Haverá zinco para dar leveza

Se observar com cuidado
Desde a alma até o coração
verá um subtom esverdeado

Turquesa com um toque de titânio
de algas marinhas e espuma
para dar as nuances ao gerânio

Um suspiro verde vessie assim
como luar encantador ao léu
Para que o amor não tenha fim

sábado, 24 de outubro de 2009

Para não entrar em parafuso

Na matemática, espiral é uma curva que gira em torno de um ponto central, afastando-se ou aproximando-se deste ponto, dependendo do sentido em que se percorre a curva.

Portanto, temos dois conceitos que são fundamentais para a existência de uma espiral: curva e movimento, conceitos necessários também para várias outras atividades humanas.

De todos os tipos de espirais, a que eu gosto mais é a espiral elíptica, ela é definida como a curva traçada por uma caravela fenícia viajando de um trópico a outro mantendo um ângulo fixo em relação ao meridiano de Graywitch.

Imagine a cena. Mas cuidado, evite os círculos que costumam fazer muito mal para as espirais elípticas. Visualize o deslocamento na nau mantendo sempre a mesma inclinação da sua cabeça durante a viagem, caso contrário poderá ser vítima de enjôos.

O ponto de fuga imaginário aproxima-se do meridiano H de Hyerophantic com número infinito de revoluções orbitais e inóspitas e, a medida que que a distância entre elas vai diminuindo, a elipse se torna eterna.

Os bons geômetras geralmente traçam as espirais elípiticas somente em planos específicos, cujos vórtices lhe sejam únicos. A partir do vórtice de cada um, a hélice pode ter as mais diversas variações hiperbólicas, clotóides ou até mesmo fermatianas.

Os que tentaram fugir das curvas monotônicas nunca conseguiram traçar espirais perfeitas e se tornaram apenas casos degenerativos.

Deixo aqui minha recomendação, caso você queira entrar no mundo encantado das espirais elípticas identifique perfeitamente seu vórtice, aplique a função exponencial que seja mais adequada ao seu ritmo e movimente-se de forma constante, mas segura.

Certamente você chegara ao apex.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chiaroscuro

Ela sabia que quando estava diante de suas telas era muito mais do que uma artesã das cores, era um filósofa. Através das imagens expressava tudo que pensava.

Por isso mesmo detestava as naturezas mortas, sua preocupação era com a vida e, a respeito dela, desenvolveu todo um edifício lógico sobre a ética. Nada poderia ser mais abstrato.

Sem precisar dar nenhuma explicação, comovia quem olhava para sua produção, a beleza do seu mundo tocava os corações, depois os intelectos, como se coreografasse o teatro da existência.

Um dia, passou a se preocupar menos com o cromatismo e mais com a luz. Sua idéias começaram a saltar aos olhos e, ao mesmo, tempo, guardava seus mistérios entre as sombras.

A luz controlava toda a cena do seu teatro imaginário. As contradições afloravam em cada pincelada. Brancos dando certezas. Cores escuras gerando dúvidas.

As pessoas passaram a temer seus quadros que as abalavam emocionalmente. Reclamavam a volta da perspectiva, das cores alegres no lugar dos vermelhos tenebrosos.

Ela não se dobrou às demandas, queria que as pessoas pensassem e, isso só acontecia quando se incomodavam, sabia que o que mais assustava seus admiradores era justamente aquilo que eles não conseguiam enxergar.

No entanto, reconhecia que, mesmo quando eles encontravam os sinais, os rejeitavam, pois preferiam ser eticamente estéreis.

Perdeu todos os seus admiradores. Exceto um, o único que a admirava pelo que ela era e não pelos quadros que pintava e que, apesar disso, era o único que penetrava nas suas sombras.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

De cubitus

Logo que ela chegou ao café ele reparou nas suas mangas curtas e sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha de cima abaixo.

Ela o conhecia bem para saber que era uma provocação.

Justo ele, um homem do barroco dividido entre duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo.

Ela o cumprimentou com um beijo no rosto e, como se fosse sem querer, esbarrou no seu braço com a ponta do cotovelo.

Só serviu para acirrar o conflito dentro dele, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais e, ao mesmo tempo seus valores espirituais e seu subjetivismo.

Ela sentou na sua frente, levantou acintosamente o braço para chamar a garçonete, ele a olhou de forma lasciva. Ela percebeu.

Ato contínuo apoiou os dois cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Ele ficou ruborizado.

Ela era um verdadeiro anjo de duas faces. Sorriso de mulher, choro de menina.

Mais que duas faces, dois cotovelos despudoradamente nus à sua frente.

Horas depois, ele tentava explicar ao delegado porque cometera aquele atentado violento ao pudor tentando possuí-la na mesa do café.

Discorreu sobre os apelos eróticos do período barroco, explicou que, para um homem que vivia esse período como ele, a atitude dela tinha ultrapassado todos os limites.

O que hoje é erótico, como os seios femininos por exemplo, no barroco era apenas um sinal de caridade ou desprendimento. Por outro lado, enquanto os seios eram morais, os cotovelos tinham uma forte conotação sexual.

Ou seja, as mulheres podiam andar com os seios de fora, desde que mantivessem cobertos o encontro do úmero e da ulna. Explicou que foi dessa época a invenção das cotoveleiras, das camisas de manga comprida e os cremes hidratantes para os braços.

Dor de cotovelo, nessa época, tinha um sentido completamente diverso. Cotovelos calejados seriam sinal de atividade sexual intensa.

Ela tinha praticamente se acotovelado sobre ele. Fora impossível se controlar.

O delegado ouviu tudo com atenção. Chamou o carcereiro e mandou que o levasse para a solitária, onde ele poderia exercer sua individualidade subjetiva, que lhe entregasse um chicote para que remisse sua culpa pela auto flagelação e que o deixasse a pão e água para que ele superasse os limites da sua realidade.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Busca orgânica

Marcelo já tinha desanimado de todas as suas tentativas de encontrar o grande amor.

Começara nos tempo de escola, e tivera uma namorada atrás da outra. Algumas vezes foi feliz, outras não.

Mas nenhuma delas tinha feito muita diferença na sua vida. Ele não desistiu.

Conheceu mulheres bonitas. Mulheres brilhantes. Mulheres que o fascinavam e o seduziam.

Mas ainda assim, apenas alegrias passageiras.

Quando não acreditava mais que acharia, alguém brincou que ele deveria fazer uma busca no Google.

Ele riu sem graça. Mas, quando chegou em casa naquela noite, resolveu arriscar.

Colocou na linha de consulta todos os predicados que buscava.

Ao contrário dos milhares de resultados que a ferramenta costumava dar, só veio um.

E não era um link, mas um nome e um telefone. Ele vacilou um pouco, mas ligou.

Era ela. Pela forma de atender o telefone, ele já sentiu um arrepio que nunca sentira antes.

Conheceram-se, já apaixonados. Descobriram que já se amavam, antes mesmo de saber quem era o outro.

Ela abriu todas as sua páginas. Ele navegou nas suas veias. Era o único link da sua vida.

Ele registrou o domínio pela eternidade e, para não ter nenhum risco, por mais 50 milhões de anos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Exumando o latim

O Latim, dizem alguns, é uma língua morta. Até mesmo a igreja abandonou o seu uso desde que João XXIII errou uma declinação e concluiu que seria melhor rezar a missa em italiano mesmo.

Apesar disso continua sendo usada com bastante frequência por biólogos, juristas e insanos que, afinal de contas, não deixam de ser uns caras de morte.

Infelizmente, o que adrede ocorre nas citações da língua de Anastasius Bibliothecarius é que as traduções são muito mal feitas, como diriam os usuários originais do vernáculo: in rectus.

Tomemos como exemplo básico a célebre frase de Desidério Erasmo: "Homines non nascuntur, sed finguntur".

O desiderato de Desidério, antes de qualquer coisa, era ser chamado de Desiderius Erasmus pois, apesar de holandês, sempre almejou ser um nativo do Lacio.

Por isso mesmo que sempre repetia que "o homem que não nasce onde quer, finge ser de outro lugar". De tanto repetir essa frase nas docas de Roterdam ela acabou ganhando o mundo através dos marinheiros que a ouviam e a levavam para outras plagas.

No entanto, essa afirmação o levou a ser perseguido pelo governo holandês que se sentiu ofendido pelo antipatriotismo do filósofo e teólogo.

Erasmus foi convocado a se explicar diante dos lictores brabantinos onde declarou a popularização do seu aforisma era um verdadeiro elogio à sua loucura.

Percebendo que esse argumento não livraria de ser deportado para a cidade do Cabo, onde teria de aprender a falar a língua dos boers, preferiu declarar que sua frase havia sido vítima de uma má tradução.

Contrariando os latinistas célebres como Sieger de Brabant e Saxo Grammaticus, Erasmus ressaltou que sua frase queria apenas dizer que os homens não nascem prontos mas precisam se fazer.

Para completar sua declaração patriótica, Erasmus passou a assinar todos os seus textos como Desiderek van Erasmeletje.

Até hoje, essa distorção rinocerôntica da língua se perpetuou sem que ninguém exumasse sua verdadeira causa mortis.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Encandilado

Existem algumas palavras que só funcionam bem em suas línguas de origem. Podem até ser traduzidas, mas perdem muito de sua força e do seu impacto.

Um exemplo disso é o termo, em inglês, disgusting, onde até o som se assemelha ao significado. E não adianta tentar traduzir por desagradável, nojento...nem o nosso asqueroso tem esse sabor disgusting.

Recentemente eu aprendi uma outra, dessa vez em espanhol. É a palavra encandilar, que é um golpe que a vista recebe ao ser impactada por uma luz forte e repentina.

A tradução seria ofuscar (até existe o termo encandear em português, mas quem é que o usa?)

Encandilar tem suas origens na palavra candil (o nosso candeeiro). Ninguém mais usa candeeiros, mas frequentemente somos encandilados.

Dependendo de qual é a fonte de luz, pode ser melhor ser encandilado do que obnubilado (sim, isso é português).

É o meu caso.

Eu tenho uma luz que consegue a façanha de me encandilar todas as vezes que eu a vejo. A essa altura do campeonato eu já deveria ter meus olhos preparados para as suas aparições.

Mas ela me surpreende todas as vezes, como se fosse a primeira e, ao contrário do que seria a reação normal, quando me encandila, eu abro mais os olhos e vejo o mundo ainda mais azul.

Enquanto essa luz me encandilar, tenho certeza que verei tudo de forma mais clara.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desaforismos intransigentes

Na dúvida, assuma a culpa. Não é justo, mas dá menos trabalho.

A luz do teus olhos é o farol da minha alma

Amor aos pedaços, só como doceria, o meu eu quero inteiro

Escolha as palavras, antes que um aventureiro o faça contra você.

Amizade é valorizar a realização do outro.

Um palavrão bem colocado, às vezes vale mais que uma ode na hora errada

Saudade só faz mal para quem não a sente.

sábado, 17 de outubro de 2009

Abrindo latas

Conservar alimentos sempre foi um problema que a humanidade tentou resolver. Afinal de contas, quem é nunca gostou de guardar a sobra daquele prato de comida delicioso para uma escapada noturna à geladeira.

Mas nem sempre o mundo teve geladeira. Nossos antepassados tentaram os mais variados métodos, secagem, salinização, defumação e até mesmo o uso de saliva de camelos malgaxes. Porém, todos esses procedimentos conservavam os alimentos por pouco tempo e com escassas garantias.

A industrialização da conserva só teve início no século XIX quando o confeiteiro francês Appert resolveu usar seu patronímico como técnica de conservação dos seus doces. Um dia, quando preparava uma pasta de amêndoas e a colocava dentro de uma garrafa, reclamou com a mulher que a massa não caberia ali, ao que ela lhe respondeu: apperte.

Se ele appertase demais a pasta sairia pelas bordas, resolveu então derreter um pouco de cera e colocar sobre o produto. A cera resfriada endureceu e fechou o pote de vidro.

Algumas semanas depois, quando perseguia uma de suas funcionárias na despensa da confeitaria, esbarrou no pote que caiu no chão e quebrou. Appert notou que a pasta de amêndoas mantinha seu sabor e aroma, o que o deixou cheio de idéias. Tanto que a moça ficou exalando cheiro de amêndoa por mais de uma semana (os franceses, como é sabido, não tem o hábito de se banhar com muita frequência).

Appert continuou apertando alimentos em vidros e garotas na despensa, enquanto isso um certo Durand, também influenciado pelo nome, concluiu que os alimentos estariam durando mais em recipientes metálicos do que em vidro, que era muito frágil. Inventou latas de ferro estanhadas em 1810. Seu invento foi um sucesso, poucos anos depois já se produziam milhares de latas com ervilhas, tomates e sardinhas.

No entanto, o revés com o qual Durand não contava é que ninguém tinha ainda inventado o abridor de latas.O que só foi acontecer em 1858, ou seja, 45 anos depois da produção industrial de latas de conservas e, mesmo assim, os primeiros modelos eram bastante desajeitados.

Mas serviram para abrir as latas de Durand e também para que descobrissem que até conserva tem limite (o conceito de prazo de validade só foi aparecer no final do século XX com o advento dos códigos de defesa do consumidor).

Ingleses e americanos, ansiosos que estavam para consumir o conteúdo das latas que ficaram lacradas por quase 5 décadas, nem se deram ao trabalho de verificar o estado em que os alimentos se encontravam e os consumiram avidamente.

A abertura das latas, coincidiu com uma epidemia de enterite que ficou conhecida em Boston como a "Grande diarréia" que, não só paralisou as atividades da cidade, como provocou o primeiro black-out do sistema de esgotos da região. Mas essa é uma história para uma outra publicação.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O primeiro oboé

A primeira vez que Vãnia viu o instrumento foi quando tinha 6 ou 7 anos e a avó a levou num concerto, à tarde, no municipal. Ficou apaixonada pelo oboé e, desde então não se cansava de dizer que, quando crescesse iria tocar.

Conforme foi ficando mais velha lhe ofereceram várias outras alternativas. Na escola, a flauta doce. Em casa, a mãe queria que estudasse piano, como ela. O irmão já estudava violão e juntava dinheiro para uma guitarra elétrica. O pai, não muito musical, não dizia nada.

Mas todos riam dela quando ela insistia no oboé. Afinal, quem é que iria tocar esse instrumento num país sem tradição em sopros de orquestra ?

Sem aprender nenhum instrumento, chegou à faculdade e aí mesmo é que não teve tempo de se dedicar a qualquer estudo musical. Formada, casou logo em seguida. Não demorou muito e vieram os filhos, um atrás do outro.

Cada dia que passava Vânia se convencia mais que o oboé seria apenas um belo sonho na sua vida. Mas nada mais que um sonho. Assim como os pais e irmão, seu marido e filhos só achavam graça na idéia.

Um dia encontrou Roberto, um velho amigo dos tempos de faculdade. Retomaram a amizade e as confidências. Claro que, num certo dia, surgiu o assunto do oboé.

Ele perguntou porque ela não aproveitava para ir aprender. Os filhos já estavam moços e não dependiam tanto dela. Ela sorriu, mas disse que não tinha mais idade para começar a estudar um instrumento tão complexo.

Roberto não desistiu. Descobriu um professor de oboé e deu o telefone para ela. Duas semanas depois foi fazer uma aula experimental. Foi como se toda a paixão da infância e adolescência voltasse num só momento.

Nas primeiras aulas o professor lhe emprestou um instrumento. Não demorou muito para que ela quisesse o seu, o professor indicou um amigo que importava, recomendou um Selmer, bom o bastante mas não caro demais.

Ela conversou com o importador. Convenceu o marido a pagar. Três semanas depois recebeu uma ligação avisando que seu oboé tinha chegado.

Chamou Roberto para ir com ela, ele precisava participar desse momento. Almoçaram juntos, ela estava tão excitada que passava de um assunto para o outro quase sem perceber. Uma ou outra vez nem percebeu direito o que ele lhe falava.

Na hora combinada Roberto a levou até a loja. Quando o instrumento lhe foi apresentado seus olhos brilharam como nunca.

Roberto só a observava com carinho. Ela estava em outro planeta. Ele sabia que, por mais que ela gostasse dele, aquele dia era o dia do sonho de uma vida. E amigos de verdade sabem que nessas horas, a felicidade reside em ser espectador da realização do outro.

Deixou-a em casa, sabia que ela passaria a noite namorando o instrumento. Foi para o seu apartamento, colocou um CD de Heinz Holliger e dormiu sorrindo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Lancelot & Ginevra


Lancelot amou Ginevra
Sem nenhuma teoria
Enfrentou a densa treva
Que a muitos angustia

Lancelot amou Ginevra
Contra o rei e a ventania
Lhe era mais cara espera
Que portar real insígnia

Lancelot amou Ginevra
Enfrentou toda pilhéria
Não por mera teimosia
Sem senão, sem todavia

Lancelot amou Ginevra
O herói da cavalaria
Sabia quanto valia
Tornar-se mitologia


* Ginevra, Ginívria ou, mais popularmente Guinevere são variações do termo galês Gwenhwyfar (fada branca), a rainha que amou Lancelot.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Devaneio sinestésico

Um círculo cromático é uma representação das cores onde são dispostas as variações do espectro visível pelo olho humano.

O termo grego chromatikos, χρωματικός é uma corruptela da palavra grega chroma, χρῶμα, que quer dizer cor.

Uma escala cromática deveria ser apenas uma sequência de tons e subtons coloridos, mas o termo também é utilizado em música, para definir a sequência dos 12 semitons da nossa escala temperada.

Imagino que seja daí que vem o nome do conjunto "A cor do som".

Mas, se a escala é temperada, além de cor, as notas também devem ter algum tipo de sabor. Talvez pelo fato de que alguns acordes menores serem amargos.

A cor do som temperado por determinadas harmonias costumam me causar arrepios.

Por outro lado, tenho de admitir que em determinadas escalas cromáticas, de sabor temperado, esses arrepios são perfume para os meus ouvidos.

Outros já não me cheiram tão bem. E, quando, algo não cheira bem, é possível sentir nos poros o sabor do veneno.

Veneno que, como todos sabem, provoca uma série de dissonâncias que podem deixar tudo escuro, como se não houvesse cromatismo nenhum.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

No olho do furacão




A tarde parecia promissora. Céu claro, calor e sol. No entanto, do alto do seu apartamento no topo do prédio tudo que ele escutava era o vento.

Lembrava do sítio do pai, no alto de uma colina, a que ele chamava de morro dos ventos uivantes.

O apartamento solitário lhe parecia tão inóspito quanto o sítio no meio do nada.

Sabia que estava cercado de uma multidão. Dezenas de moradores dos demais apartamentos. Milhares, se estimasse o número de moradores do entorno.

Buzinas, gente falando alto na rua, o vizinho baterista.

Mesmo assim, ele só ouvia o vento, como se seus ouvidos tivessem adquirido a capacidade de filtrar sons.

Com o vento chegava a voz da amada. O tom agudo era como sua voz de soprano, as modulações lhe traziam os suspiros dela.

Algumas vezes, até os seus gemidos.

Olhou pela janela, viu as nuvens escuras se aproximarem. Chumbo azulado se aproximando rapidamente.

Desceu para a rua, as pessoas apertavam o passo à medida que a tempestade se aproximava. Rapidamente ficou sozinho.

E o vento continuamente lhe chamava, em direção a ela.

Chegou violentamente, como um furacão

E ele se deixou levar, para viver eternamente no seu interior, ouvindo a sua voz.

Observação : o texto tem mais sentido se acompanhado pelo video acima. Se não o fez na primeira leitura, experimente começar de novo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Com ou de camarão

Não sou apenas um cozinheiro de domingos mas, além de outras incursões pela cozinha, os almoços de domingos geralmente ficam por minha conta.

Não foi diferente hoje. O que mudou foi a discussão sintática com a minha filha. Disse que ia fazer risoto de camarão e ela insistia que era risoto com camarão.

Ela não deixava de ter razão, afinal, o camarão seria um dos componentes da minha receita, mas tentei explicar que risoto com camarão poderia soar como se eu fosse fazer um risoto e, separadamente, um prato com camarão.

E claro, como puxou ao pai, ela é uma menina pertinaz, não muda facilmente de opinião e, assim que viu a travessa na mesa exclamou: " - não disse que era risoto com camarão?"

Abaixo deixo a receita para que cada leitor decida se é um risoto de ou com camarão

Tempere 1 kg de camarões médios a grandes, sem casca, com sal, pimenta do reino branca e curry em pó. Numa caçarola derreta uma colher de manteiga, adicione os camarões. Quando estiverem corados coloque meia xícara de vinho branco e refogue rapidamente (os camarões não podem amolecer, pois ainda serão cozidos no risoto). Reserve.

Em uma panela grande e funda derreta 2 colheres de sopa de manteiga. Adicione 2 dentes de alho picados e deixe dourar. Acrescente 2 xícaras de arroz para risoto* e misture bem com a manteiga e o alho. Quando estiver quase seco adicione uma xícara de vinho tinto branco (o mesmo que usou no camarão) e deixe evaporar o vinho.

A partir daí vá acrescentando, aos poucos, sem parar de mexer, caldo de camarão (Sugiro que prepare pelo menos 1 litro de caldo. Se tiver paciência faça seu próprio caldo usando as cascas, senão pode usar os caldos prontos de supermercado), esse processo deve durar cerca de meia hora. Mexer, adicionar mais caldo, mexer, adicionar mais caldo. Enquanto isso adicione o sal a gosto.

Quando o arroz estiver quase al dente acrescente os camarões à mistura e continue a colocar caldo e mexer. Não deixe o camarão cozinhar demais. Quando estiver no ponto, pare de acrescentar caldo.

Antes que o risoto seque completamente, adicione mais duas colheres de manteiga, quando derreterem polvilhe com uma ou duas colheres de queijo parmesão ralado. Sirva imediatamente.

Dicas importantes para quem for fazer risoto:

Cozinhe em fogo alto o tempo todo, sem nunca deixar de mexer. Não lave o arroz! O amido que está impregnado na casca é o responsável por engrossar o caldo do risoto durante o preparo

*Tipos de arroz para risoto

Carnaroli: É um híbrido com mais amido, favorito dos italianos. O grão demora mais para cozinhar, mas mantém melhor o cozimento al dente e o resultado é mais cremoso.
Arbório: É o tipo mais comum, por isso, o mais barato. Os grãos são grandes e de um branco mais perolado. Combina com risotos que levam porções maiores de carne.
Vialone Nano: Grão menor, arredondado. Alguns o consideram melhor porque cozinha por igual. Bom para risotos delicados, com ingredientes miúdos ou frutos do mar
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domingo, 11 de outubro de 2009

A árvore das dietas

Irvíngia, caso você seja um mero desavisado, é uma árvore encontrada na África e no sudeste da Ásia, da qual existem quase 30 espécies diferentes.

Produz um fruto parecido com a manga e, uma das suas espécies, a Irvíngia Gabonensis, tem sido muito utilizada como remédio para emagrecimento.

Claro que, como todo produto desse tipo, surge a recomendação de ter uma alimentação equilibrada e a prática de exercício físico.

Aí, poderiam me perguntar, mas... quem se alimenta direito e prática exercícios já não mantém o peso normalmente?

E eu vos direi, no entanto, que para perdê-lo, muitos se levantam à noite em busca de sua irvíngia, pálidos de espanto.

Durante as minhas pesquisas, descobri que consumidores irvíngíacos tendem a se cansar somente depois atividade física intensa.

Por outro lado, aqueles que tomam essência de irvíngia, são atletas contumazes, chegando a praticar ginástica ou esportes várias vezes por semana.

Não só o fazem com frequência, como também em quantidade. Horas e horas, sem nunca querer parar.

Claro, como todo tipo de medicamento, seja ele natureba ou artificial, tem os seus efeitos colaterais.

Os principais deles são sono e sede, geralmente algumas horas depois do consumo do mesmo.

No entanto, alguns médicos alegam que esses efeitos são decorrentes dos exercícios e não do remédio.

Além do que, seus consumidores admitem que a irvíngia provoca dependência química e psicológica.

Até hoje, nenhum irvíngicomaníaco conseguiu deixar o hábito.

É verdade que nenhum deles tentou, tamanha a satisfação que tem com a planta. Uma verdadeira paixão.

Se você está disposto a viver esse tipo de emoções, já aviso que não é fácil encontrar a tal da irvíngia.

Mas, uma vez encontrada, não se deixa nunca mais.

sábado, 10 de outubro de 2009

Contículo subjuntivo

É bem possível que eu tenha me comportado mal, talvez até tivesse de terminar o que começara mas, mesmo que a oportunidade batesse à minha porta, permaneceria impassível.

Se tivesse ouvido o que diz a experiência, não correria o risco pelo qual passei e, naquele instante, era provável que o mundo ruísse. Se tivesse coragem, estaria lutando por ideais errôneos. Felizmente percebi a tempo que seria indelicado...

Acreditaste que eu tivesse andado por esses desvios?

Duvido que saibas o quanto chorei por isso. Lamento que tenha sido relapso. E sei que é importante que eu perceba o que ela representa na minha vida. Não é justo que continue sendo tratada com menos consideração do que mereça.

No começo neguei que tivesse cometido tal delito. Seria melhor que não dissesse nada mas, implorei para que ela continuasse. Ela ordenou que eu interrompesse meu discurso. Tinha razão.

Ela sempre pede que eu a estude com afinco. Nada impede que minha atenção se apresente e que meus cuidados sejam exercidos.

Ordenou que pagasse minha dívida de carinho. Deseja que eu sempre volte logo. É preciso que eu deixe de lado essa visão que me aprisiona num passado sem conteúdo.

Se eu tiver um mínimo de juízo nunca mais repetirei tal deslize.


Modo subjuntivo é o modo verbal que não expressa certeza e sim uma dúvida, para indicar a possibilidade de algo vir a acontecer.