domingo, 19 de janeiro de 2020

Um dia de muvuca fake




Em mil novecentos e pó eu passei alguns dias em Nova York, depois de um congresso em outra cidade dos Estados Unidos.

Uma das atrações da cidade (e ainda é até hoje), era o Museu de História Natural e, como bom rato de museus, fui conhecê-lo.

Além de todas as maravilhas que tive a oportunidade de ver, o museu estava apresentando uma exposição temporária sobre Leonardo da Vinci, absolutamente espetacular. Muitas peças do seu acervo mecânico originais. Alguns quadros originais (claro que não a Mona Lisa que, ao que eu saiba, não costuma passear fora do Louvre) e muitos desenhos, especialmente os projetos e os de anatomia. Originais.

A grande atração, no entanto, eram os pergaminhos originais com seus escritos, que estavam sendo mostrados pela primeira vez fora da Itália e, para isso tinham um sistema de sensores em que a iluminação só era ativada quando um visitante se aproximava para ver.

Anos depois, já nesse milênio, uma exposição também muito bem montada, foi apresentada na Oca do Ibirapuera. Fui até lá de novo, revi algumas coisas conhecidas. Eram poucos os originais, mas a maioria das peças eram reproduções feitas por artesões italianos a partir dos projetos originais.

Até cair na armadilha da exposição que está em cartaz atualmente no MIS Experience, que declara que “Os visitantes também terão a oportunidade de conhecer, pela primeira vez, a mente do homem que lançou as bases para algumas das invenções mais notáveis da sociedade moderna.” (o grifo é meu).

Um show de horrores.

Começa pelo fato de que, mesmo em um espaço amplo, o número de pessoas que entra de cada vez (500 segundo um dos monitores), somadas às que ainda não saíram, torna o lugar uma muvuca. É quase impossível se movimentar. Será que não dava para reduzir esse número ou a ganância é irresistível?

Para agravar (e isso não é culpa dos expositores, mas conhecendo o público, deveriam prever essa situação), as pessoas passam mais tempo tirando selfies diante das peças do que realmente observando o que está sendo exposto (alguns inclusive achando que estão diante da Mona Lisa original e, talvez, queiram mostrar para os seguidores que estão em Paris). Minha sugestão, proibir os celulares dentro da exposição e montar uma área de selfies, também fake.

Por fim, todas as peças são reproduções de origem não documentada. Você se sente como se estivesse diante de um bom livro ou documentário de Da Vinci, mas para isso, não preciso sair de casa, pagar ingresso, enfrentar os flanelinhas e, especialmente, lidar com a muvuca.

Minha sugestão: se ainda não foi. Não vá. Passe numa boa livraria de artes. Compre qualquer um dos excelentes livros que existem a respeito dele e usufrua da arte e do engenho do mestre em paz.

Ok, se não conseguir resistir, tire um selfie segurando o livro.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Tempos medonhos




Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
(Vinicius de Moraes)

Há pouco mais de um mês uma amiga me mandou uma mensagem: perguntava se eu tinha falado com alguém da turma nos últimos dias. Ao saber que não, me avisou que o Fulano tinha morrido dois dias antes.

Depressão. Suicídio. Ninguém sabia disso, nem a esposa, ele sofreu calado até o momento em que desistiu de sofrer.

Não tinha mais que 40 anos. Eu tinha convivido com ele por cerca de 20. Nos encontrávamos pelo menos duas vezes por semana. Era um cara bem humorado, batalhador.

Como todos nós passou pelos seus perrengues, mas nada que apontasse nessa direção. Deixou a esposa e filhos.

Hoje de manhã vejo num post de rede social a notícia de que Beltrana tinha morrido.

Depressão. Suicídio. Todo mundo sabia que ela sofria da doença que nunca escondeu. Fazia tratamento para suportar, mas deve ter batido mais forte essa noite e, de manhã, se foi.

Tinha 37 anos. Trabalhou comigo por cerca de 10. Mantivemos o contato depois disso e, quando soube pelo que estava passando conversamos algumas vezes.

Sempre se mostrou confiante de que seria capaz de vencer.

Duas vezes em 40 dias, pensando o quanto a gente deixa de ver e perceber enquanto corremos atrás do vento e as nossas amizades se esvaem pelo mundo digital.

Quantos mais estão sofrendo calados? Quantos estão gritando por socorro sem que tenhamos tempo de ouvir. Serão realmente amigos ou apenas uma porção de bytes espalhados na nossas telas?

Pode estar ao nosso lado, pode ser da sua família. Pode ser você ou eu.

Minha sugestão? Se é que a sugestão de alguém, como eu, que viu isso acontecer duas vezes, sem ter percebido, possa servir: não se deixe iludir pelos posts divertidos ou pelos selfies sorridentes de quem você ama.

Encontre a pessoa ao vivo, converse e escute sem julgamentos. Disponha-se a ajudar da forma que for necessária. Pode ser doença, pode ser dinheiro, pode não ser nada disso e, ainda assim, a pessoa estar navegando nas profundezas.

Se não for nada, melhor. Você passou um momento agradável com alguém querido.

Se for algo, talvez você salve uma vida.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Admistão defectiva


Para o Jayme Serva que deu o mote 

Caso eu te aborra ao escucir-me pelos seus corpúsculos borralhos , não deixe que o meu fretenir dele os seus pensamentos, são apenas o meu jeito de aprazá-lo.

Caso tenha haurido sua eupatia, ao menos fornirei silogismos que buam suas afecções já comburidas.

Se eu soesse embaí-lo, aduciria, ou mesmo condiria, as suas érebas conjecturas. Não garras tu, nem anada vagidos com o intento de susquir-se enquanto te aso.

Eu demulcirei sua obduração e o seu jungido ao ponto de aducí-la. Lenirei sua crimeza acupremindo sua febra.

Cada ansa de exir languirá seu âmago e adurirá seus tegumentos, pertransirá seu revelidos e exinanirá seus fados.

Não me preclua, nada me monirá. Aqueles que estreseriam uma sazão sem nada adir, fremerão estanguidos até seu relinquir cabal.

Se seu anelo for estresir minha nução, terá de moquir o que o jurupari amarfanhou.

Sei que transirá minha disquisição como quem gorne eructações branquidas. Não irei gualdir meus ensejos nem laterei minha gnose.

Aprestos ficam suso a quem seja dessiso e ame o senescente

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Desde el alma (en español)

Alma, no entornes tu ventana
al sol feliz de la mañana.
No desesperes,
que el sueño más querido
es el que más nos hiere,
es el que duele más.
(Homero Manzi) 

Sábado, casi medianoche, un taxi nos fue a buscar al barrio de Agronomía para llevarnos de vuelta a nuestro hotel, en el centro. Un viaje de casi 20 km. El día anterior habíamos estado en Villa Pueyrredón, más o menos la misma distancia.

El chofer del taxi no consigue contenerse y nos pregunta: ¿Por qué salieron del centro para ver un show tan lejos? Debe haber pensado: con tanta cosa disponible mucho más cerca del hotel, especialmente los tradicionales espectáculos de tango de turistas, ¿que hacen estos locos en la periferia de la ciudad?

Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao…

Sería lo equivalente a salir de mi casa para ver algo en Vila Nhocuné o en el barrio de Socorro.

La verdad es que la distancia es algo irrelevante para ver a Cucuza Castiello en un día, y Dolores Solá al día siguiente y, a pesar de algunas diferencias, ambos tienen mucha cosa en común.

La primera de ellas es la calidad del repertorio.

El de Cucuza es esencialmente de tango, transitando desde Discépolo y Gardel hasta Estol y Melingo, sin quedarse en los temas típicos de antologías.

El de Lola va desde los revolucionarios Parra y Ferlosio, a José y Simon Diaz pero, esencialmente, se compone de canciones cuyas letras ella misma compuso y otras donde también compuso la música (según ella explica, descifradas por Diego Rolón, el director musical del show).

No son repertorios de fácil digestión para no iniciados. Las letras son fuertes, a veces duras, extensas e inteligentes. Las melodías y armonías bastante complejas. A uno le tiene que gustar mucho la música para entenderlos.

La segunda cosa que tienen en común es la calidad de quien los acompaña. En el caso de Cucuza, su hijo Mateo en las guitarras, un joven absolutamente brillante en lo que hace (aunque cuestionado sobre su nuevo pelo rubio blanquecino). En el caso de Solá, un trío formado por Diego Rolón y Sebastian Esposito en las guitarras y Diego Penelas en los teclados - un abuso de calidad técnica de los tres.

Por supuesto, son cantores técnicamente irreprochables, Cucuza en la mejor tradición de Goyeneche, sin imitarlo en ningún momento. Lola como si fuera una mezcla de Piaf y Amália Rodrigues.

Pero hay algo que torna tanto Cucuza como Dolores espectáculos imperdibles. Ambos cantan con el alma.

No sé si ellos creen en el alma, pero solamente la metafísica para explicar lo que les sucede cuando cantan.

Cuando Cucuza comienza cantando que él es el desengaño o Lola nos dá un puñetazo en el estómago afirmando que el amor acaba, no hay ser humano que se mantenga equilibrado. Y ese desequilibrio sigue a cada nueva canción.

Es el alma de ellos cantando para cada una de las almas presentes - y eso vale mucho más que los 20km.

No sé cuándo tendremos la oportunidad de volver a Buenos Aires, pero, para oírlos, la ciudad seguirá siendo la guarida de mis sueños más locos. 


*Gracias Virginia Fantoni por la revisión del texto

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Desde el alma




Alma, no entornes tu ventana
al sol feliz de la mañana.
No desesperes,
que el sueño más querido
es el que más nos hiere,
es el que duele más.
(Homero Manzi)


Sábado, quase meia-noite, um táxi nos pega no bairro de Agronomia para voltarmos ao hotel no centro, uma viagem de quase 20 km. No dia anterior estivéramos em Villa Pueyrredon, mais ou menos a mesma distância.

O motorista do táxi não se contém e pergunta: por que vocês saíram do centro para assistir um show tão longe? Deve ter pensado: com tanta coisa disponível bem mais perto do hotel, especialmente os tradicionais shows de tango de turistas, por que esses loucos vão parar na periferia da cidade?

Seria o equivalente a sair da minha casa para ver algo na Vila Nhocuné ou no bairro do Socorro.

A verdade é que a distância era algo irrelevante para assistir Cucuza Castiello em um dia, e Dolores Solá no dia seguinte e, apesar de terem algumas diferenças, ambos têm muita coisa em comum.

A primeira dela é a qualidade do repertório.

O de Cucuza essencialmente de tango, transitando desde Discépolo e Gardel até Estol e Melingo, sem ficar nos temas típicos de antologias.

O de Lola vai desde os revolucionários Parra e Ferlosio, a José e Simon Diaz mas, essencialmente é composto de músicas onde ela mesma compôs as letras e, algumas também a música (segundo ela explica, descriptografadas por Diego Rolón, o diretor musical do show).

Não são repertórios de fácil digestão para não iniciados. As letras são fortes, às vezes duras, extensas e inteligentes. As melodias e harmonias bastante complexas. Há que gostar muito de música para entendê-los.

A segunda coisa que têm em comum é a qualidade de quem os acompanha. No caso de Cucuza, seu filho Mateo no violão e guitarra, um jovem absolutamente brilhante no que faz (ainda que questionado sobre seu novo cabelo loiro esbranquiçado). No caso de Solá, um trio formado por Diego Rolón e Sebastian Esposito nos violões e guitarra e por Diego Penelas nos teclados – um abuso de qualidade técnica dos três.

Claro, eles são cantores tecnicamente irrepreensíveis, Cucuza na melhor tradição de Goyeneche, sem imitá-lo em nenhum momento. Lola como se fosse uma mistura de Piaf e Amália Rodrigues.

Mas há algo que faz tanto de Cucuza como de Dolores espetáculos imperdíveis. Ambos cantam com a alma.

Nem sei se acreditam em alma, mas só a metafísica para explicar o que acontece com eles quando estão cantando.

Quando Cucuza começa cantando que ele é o desengano ou Lola nos dá um soco no estômago afirmando que o amor acaba, não há ser humano que se mantenha equilibrado. E esse desequilíbrio segue a cada nova canção.

É a alma deles cantando para cada uma das almas presentes – e isso vale muito mais do que os 20km.

Não sei quando teremos a oportunidade de voltar a Buenos Aires, mas para ouvi-los a cidade continuará sendo a guarida dos meus sonhos mais loucos.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Uma volta na roda gigante



As tragédias eram textos teatrais que apresentavam histórias trágicas e dramáticas derivadas das paixões humanas as quais envolveriam personagens nobres e heroicos. Todas elas possuíam uma característica comum: tensão permanente e o final infeliz e trágico.

A tragédia clássica deveria cumprir, segundo Aristóteles, três condições: possuir personagens de elevada condição, ser contada em linguagem elevada e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Roda gigante (Wonder Wheel), o recém lançado filme de Woody Allen é uma tragédia, na melhor acepção do teatro grego.

Ainda que seus personagens sejam pessoas comuns e, em alguns casos, de linguagem nada elevada, a tensão é permanente, o final trágico e o destino dos personagens beira a destruição e a loucura.

O filme é sobre escolhas erradas que seus personagens fizeram no passado ou durante a própria história e o efeito dessas escolhas.

O filme é sobre teatro, como preconiza o personagem de Justin Timberlake na introdução da história, fato reforçado pelas citações de Eugene O`Neill, Hamlet, Édipo.

E talvez, um dos filmes com mais cara de teatro filmado que Allen tenha feito depois das suas incursões bergmanianas em Interiores.

De certa forma, um retorno à releitura de “Um bonde chamado desejo” pela qual Allen já tinha passado em Blue Jasmine.

E assim como em Blue Jasmine, onde Cate Blanchett dá um show de interpretação, aqui é a vez de Kate Winslet mostrar que pode muito mais do que mostrou no passado. Jim Belushi, diga-se de passagem, não fica muito atrás.

A fotografia de Vittorio Storaro é outro ponto forte do filme. Ele abusa das cores (fortes e muito fracas) quase como contando a história do filme.

Mas não é um filme fácil de assistir, as situações são duras e não existe nenhum momento em que a história fique mais leve, até os romances são tensos.

O final, diferentemente de outros filmes recentes, é bastante previsível.

Exceto o fato de que, consumada a tragédia, o casal principal mostra que a vida continua, assim como a roda continua a girar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Algoritmos osmados e assunados






Depois de muitas voltinhas no grande Hadron, que parou de se debater para seu descanso habitual de festas natalinas e neoanualinas, meus amigos cérnicos confirmaram a validade e precisão do algoritmo que desenvolvi nas últimas décadas e, cuja eficiência, já havia dado sinais inequívocos de pertinência nas redes sociais.

Não sem, como sói acontecer, alguns ressaibos dos oponentes vorazes de minhas elucubrações.

Outrossim, e sem outros nãos, nem mesmo nosso petiz alcaide dignar-se-ia a entrar nesse tipo de disputa.

Mas deixemos de patacoadas e vamos aos números finais.

O principal resultado é que, caso 58,7% da população tivesse como práxis, 18,34% do que fala ou escreve, o mundo seria 4,16p melhor do que é hoje.

No caso das redes sociais os valores chegam a ser mais assustadores, conseguiríamos uma evolução nos padrões mundiais de ética e reduções de carraspanas, além dos suso mencionados, de 67,34p para cada:

2% de frases de autoajuda que realmente ajudassem em algo

5% de redução de citações falsas (se forem de Clarisse Lispector, melhor ainda o resultado)

5,14% das tentativas de levantar a baixa estima (a alta estima não precisa de ninguém que a levante e a autoestima, como se vê no prefixo, caminha sozinha)

Em breve estarei publicando um artigo acadêmico completo, nos melhores

padrões da ABNT (claro, NBR6023) em indisputadas revistas científicas da Terra Média.

Assim que o fizer, executo as devidas proclamas do evento.

domingo, 7 de maio de 2017

Quem não conhece, inventa.


Como diria o mais que conhecido provérbio português: “o papel aceita tudo”. Já os meios digitais aceitam tudo e mais um pouco (já diria Umberto Eco, mas há quem se ofenda com essa opinião).

O que pode provocar dores no pâncreas e desconfortos no astrágalo esquerdo.

Em mim provocaram.

O jornalista que resenhou o show de Sting para um dos grandes veículos de mídia nacional deve ter nascido quando o Police nem existia mais. É verdade que, como jornalista, não precisava ter a mesma idade do cantor e do seu público, bastava ser um pouco mais sério e se informar antes de escrever.

Ele começa dizendo que o comportamento do público foi morno e comportado nas cadeiras. Na minha frente estava sentada uma senhora de uns 70 anos (super pop, de calças jeans rasgadas), ele queria o que? Que ela desse gritinhos e escândalos como a garotada que foi ver o Justin Bieber?

O pessoal que estava na pista dançou bastante. Que estava nas cadeiras e dançou se preocupou em fazê-lo nas escadas para não atrapalhar a visão de quem queria ficar sentado (ainda bem que essa geração ainda tem respeito pelo próximo).

A besteira seguinte foi dizer que as pessoas tiveram de aguentar músicas desconhecidas para poder ouvir as canções do Police. Quem desconhece é ele.
Quem gosta de Sting sabe muito bem (e a maioria cantou junto) coisas como Desert Rose, Shape of my heart, Fields of gold, I hung my head, Fragile, She´s too good for me.

E, mais que óbvio, quem é fã conhece as músicas do novo disco que já está nas prateleiras das lojas (e no Spotfy se você for moderninho) desde o final do ano passado. Ele bem que poderia ter ouvido um pouco antes de ir ao show.

De todas as besteiras, a mais genial, foi se referir a The last bandoleros, a banda que abriu o show e acompanhou Sting durante boa parte do seu show como um trio. O jornalista acabou de inventar o trio de quatro.

Aliás, muito bons os Bandoleros. Rock´n´roll sem frescura e de excelente qualidade.

Já os seus comentários sobre Joe Stumner, filho de Sting, que participou antes e durante o show são, para dizer o mínimo, indelicados. O cara não tem a qualidade do pai, mas está longe de ser um músico ruim. Ouça aqui o que eles fazem com Ashes to ashes, o filme continua com a ótima 50,000, uma das músicas “desconhecidas” do jornalista e a policealesca Walking on the moon.

No mais, ele se preocupou em comentar a forma física e a tintura do cabelo do cantor. Imagino que tenha uma longa experiência em jornalismo de fofocas.


Ah...o show foi uma delícia do começo ao fim. Sting está mais do que em forma (e aqui me refiro à sua competência musical e não à sua falta de barriga), o repertório logicamente privilegiou o disco novo (é o tema da tounée) mas passou por toda a carreira do cantor. 

domingo, 30 de abril de 2017

Carregado pelo zonda


Zonda é o nome que se dá a um vento argentino do lado oriental da cordilheira do Andes que, diz a lenda, ocorre quando alguém desobedece a Pachamama, a mãe natureza da mitologia inca.

Também é o nome original do filme de 2015 de Carlos Saura que está em carta na Reserva Cultural com o nome de “Argentina”.

Desde a sua trilogia flamenca, Saura se dedica, de tempos em tempos a retornar à música. Fados é um belíssimo filme sobre a alma portuguesa. Tango, explora a fundo a essência portenha.

De volta à Argentina faz um mapa extenso e detalhado dos ritmos folclóricos dos hermanos.

E é um filme fabuloso, ou melhor, é mais um filme fabuloso de Saura.

Praticamente nenhuma fala. Música do começo ao fim de sua quase hora e meia de duração.

Tomas Lipan, Luis Salinas, Pedro Aznar, Jaime Torres, Chaqueño Palavecino, Mariana Carrizo, são apenas alguns dos muitos intérpretes. Além de homenagens emocionantes a Mercedes Sosa e a Atahualpa Yupanqui.

O filme ganhou prêmios como documentário. Mas não é um documentário na melhor acepção da palavra.

Não existe um discurso explícito e, exceto por alguns segundos iniciais em que um texto fala das origens dos diversos ritmos folclóricos argentinos, não temos mais nenhuma orientação histórica ou didática a respeito do que vamos ver.

Dentro de um espaço teatral, três paredes translúcidas dentro de um galpão, acontece uma sucessão de apresentações musicais (zamba, cuyo, baguala, chamame, chacarera, malambo, cueca, gato, carnavalito) que dão uma bela amostra de todas as regiões do país.

Ainda que alguns mais puristas possam reclamar a falta de um loncomeo.

Muitas das apresentações têm a participação de uma companhia de ballet moderno que estiliza as danças com uma cara inconfundível do Saura das danças flamencas. 

Não espere um galpón criollo. Você não vai ver as prendas de tranças, nem gauchos de botinas (ainda que a dança com as boleadeiras seja, plasticamente, um dos pontos altos do filme.

Some-se a tudo isso a fortíssima paleta de cores de Saura e a experiência sensorial está completa.

Aos amigos brasileiros que sejam realmente fascinados por música, eu recomendo muito. Aos que conhecem nada ou muito pouco da música argentina, eu recomendo mais.

Com a ressalva de que não vai ouvir nenhum tango, nem nenhuma milonga. Tão pouco vai assistir bailarinos acrobáticos dos shows de turistas.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um ano de perdas

Eu sei, todos anos nascem pessoas e morrem pessoas. E nós nem sabemos disso, exceto por aqueles mais próximos de nós.

Nesse ano tive apenas uma pessoa mais próxima que se foi. E pouquíssimos nascimentos entre conhecidos.

Do ponto de vista de herança cultural, no entanto, foi um ano terrível. Muitos se foram.

Alguns, provavelmente, a seu tempo. Outros, cedo demais.

Janeiro começou bem mal. David Bowie, o camaleão que me ensinou que é possível mudar de estilo sem perder a qualidade.

Pierre Boulez, um gigante entre os maiores. Ettore Scola, que me fez dançar os mais variados ritmos no “Baile”.

Em fevereiro, Umberto Eco, uma das melhores lembranças dos tempos de faculdade e que perpetuou nas minhas estantes em todos os anos depois disso.

Em março se foi George Martin. E só quem é beatlemaníaco como eu é capaz de entender o que ele representou para a minha geração.

Também em março Keith Emerson (meses depois, em dezembro, foi a vez de Greg Lake), de qualquer forma, the show will never end.

Ainda em março (que mês...), foi a vez de Johann Cruyff, aquele cara que todos nós, na adolescência, queríamos ser.

Em abril foi a vez de Fernando Faro, que fez de um mero ensaio, uma antologia da música brasileira.

Maio levou Cauby Peixoto que, mesmo não sendo da minha geração, era uma referência da história da nossa música.

Também levou Boris Schnaiderman, o homem que permitiu o meu acesso a dezenas de textos da literatura russa. O que não é pouco.

Em junho foi a vez de Muhammad Ali, o eterno Cassius Clay. Com ele aprendi minhas primeiras lições sobre o que significa o racismo, que jamais vou esquecer.

Bud Spencer também se foi em junho, como dei risadas nos filmes de Trinity.

Assim como Alvin Tofler, um dos primeiros gurus que levei a sério.

Hector Babenco em julho levou com ele grandes momentos do cinema nacional, e Sérgio Machado, responsável por publicar muito do que tenho nas minhas estantes.

Agosto foi muito triste com a ida de Toots Thielemans, que conheci ao vivo num jantar do clube escandinavo nos anos 80.

Assim como outro que me fez rir demais: Gene Wilder.

Não sei se para aliviar meu aniversário, setembro passou em branco.

Mas outubro levou Dario Fo, um anarquista de primeira. E o grande Carlos Alberto Torres, o homem que deu fecho de ouro na copa de 1970, a primeira que vi pela TV.

A partida de Leonard Cohen, em novembro, foi uma das que mais me entristeceu (junto com a de Bowie). Suas canções e seus livros fazem parte da minha construção como ser humano.

Dezembro nos levou Ferreira Gullar, um dos primeiros poetas sujos que me encantou. Também foi a vez de Villas Boas Corrêa, vou sentir saudade da picardia e da inteligência dele.

Mais do que Carrie Fisher, me chateou a morte de Debbie Reynolds, sua mãe. Singin´in the rain deve ser um dos filmes que mais vezes vi na minha vida.

Muitos podem citar algumas dezenas de nomes que eu não mencionei. São suas referências.

Pode até ser que eles descansem em paz. Só Deus pode afirmar isso.

Nós, que ficamos, perdemos. Muito.

Que 2017 seja mais leve.

domingo, 28 de agosto de 2016

Uma frustração genial

A vida é uma comédia escrita por um comediante sádico (Bobby Dorfman, personagem principal)
Café Society é um filme frustrante.

E é genial justamente por isso, um filme cujo desenrolar vai frustrando cada uma das nossas expectativas sobre os desfechos da trama principal e de cada uma das subtramas.

Inclusive os desfechos que o próprio Woody Allen nos ensinou a esperar em outros filmes seus.

Alguns vão dizer que é um filme menor. Talvez seja mesmo. De qualquer forma, um filme menor de Allen ainda é melhor do que a grande maioria das tranqueiras que são exibidas nas telonas e telinhas.

O argumento do filme é bastante simples. Não tem nenhum ator saltando da tela nem nenhum personagem viajando no tempo. Nem camaleões.

Os personagens são seres críveis que vivem situações corriqueiras e têm sentimentos comuns a qualquer outro ser humano. Até os bandidos são bandidos comuns.

Não há nenhum ator ou atriz de beleza estonteante.

Os atores dão a impressão de serem seus próprios personagens na vida real. Nenhuma careta, nenhum exagero, nenhuma lágrima derramada para provocar reações melodramáticas.

A narrativa é linear. Nenhum flash back que obrigue o espectador a realizar sinapses complexas para entender.

Os diálogos, como sempre, são geniais. Especialmente os travados entre o pai e a mãe do personagem principal.

A mãe, não poderia deixar de ser a típica yiddishe mama, senão não seria um filme de Woody Allen.

A cinematografia é fabulosa, seja nos grandes planos, seja nos closes finais. A fotografia é deslumbrante, especialmente os jogos de cor da ensolarada Califórnia (a cena azulada da abertura do filme é emocionante).

E ninguém ainda conseguiu mostrar Manhattan como Woody Allen.

E ninguém consegue melhores trilhas sonoras do que ele.

Há humor? Claro, se você é daqueles que entende o humor de Allen.

Há romance? Sim, o filme é um grande romance.

Assim como há drama e há a eterna discussão ética sobre a culpa.

Se você gosta de Woody Allen, não perca. Vai se encantar.

Se não gosta, não perca seu tempo. Você vai se frustrar.


Imagem: Allen, Vittorio Storaro e Eisenberg (e um fotógrafo não identificado)

quinta-feira, 17 de março de 2016

As moscas estão vencendo

Quem sabe um mínimo de história (infelizmente são poucos), sabe que a política sempre viveu de jogos de interesses, manobras legais ou não, golpes baixos e alianças espúrias. Sem contar o uso de venenos, traições e manipulação de grupos de suporte.

Assim como sempre foi financiada por grupos que lucram com as suas práticas e sustentada por massas de ingênuos e idealistas que acreditam que líderes políticos podem transformar o mundo.

Não é à toa que Monteiro Lobato já definia a política como uma gamela cheia de estrume onde se nutrem grupos de moscas. Alternam-se as moscas, mas o estrume continua sempre o mesmo.

Eu sou daqueles que entendem que, sem mudar o conteúdo da gamela pouco importa a cor das moscas que a sobrevoam.

Justamente por isso que sou contra as moscas domésticas, varejeiras, de fruta, de estábulo, do vinagre, típulas, crisopas, de enxame, amarelas e, até mesmo, contra as moscas brancas.

Em momento em que as pessoas se sentem obrigadas a se incorporar a um mosquedo ou outro eu, que não me interesso por nenhum deles, sou considerado como um alienado ou favorecedor do lado onde o estrume fede mais (e ele fede mais sempre do lado oposto de quem esteja falando).

Quem me conhece um pouco melhor sabe que posso ser chamado (e o sou) de um monte de coisas, menos de alienado.

O que não significa que seres inflamados pelo ódio, vingança e desprezo de todos os tipos, não o façam e infelizmente o tem feito contra tudo e todos que não estejam alinhados ideologicamente com a sua farândola.

Pessoas que costumam fazer discursos piedosos e religiosos, mas não hesitam em ofender os seus semelhantes.

Pessoas que militam em causas que defendem a diversidade, mas, nessas horas, não aceitam diversos das suas ideias.

Pessoas que rugem ferozmente pela aplicação da lei e da justiça, desde que ela só seja aplicada contra os seus adversários.

Pessoas que discursam pela liberdade de opinião somente dos seus asseclas.

Pessoas que acreditam que podem distorcer, fraudar e manipular informação de acordo com o que lhes convém.

Pessoas que acreditam que a intolerância e o conflito são as únicas ferramentas de debate.

Tenho amigos praticamente em todo o espectro político-ideológico. Alguns conseguem argumentar de forma racional e educada sobre as suas convicções. E eu os admiro por isso.

Infelizmente muitos se deixaram levar pela turba massa ou pelas notícias plantadas nas mais diversas mídias da extrema esquerda à extrema direita, e adotaram um discurso de ódio e ofensas aos demais.

Pior, quando questionados indiretamente por esse tipo de postura, aproveitam para ofender de novo os adversários (o que, certamente, vai aparecer nos comentários desse texto).

Pessoas que exigem um respeito que não têm. Uma honestidade que não praticam. Uma educação que perderam no meio do caminho.

Enquanto perde-se tempo com esse bate-boca inócuo, o estrume da gamela se multiplica, e as moscas refestelam-se. Tristes tempos.

sábado, 5 de setembro de 2015

Un aire de sofisticación


Yo no soy un musicólogo. Tampoco soy venezolano. Jamás sabría decir si un joropo es un joropo o simplemente tiene un aire de joropo.*

Lo que sé es que estuve recientemente en Buenos Aires y finalmente conseguí ver una presentación de La Chicana, grupo argentino que acompaño desde 2012, cuando los descubrí en un documental sobre el tango contemporáneo llamado Un giro extraño.

Debido al documental yo creía, al principio, que ellos formaban un grupo de tango de vanguardia. Con el tiempo me di cuenta que realmente son de vanguardia, pero limitarlos al tango no corresponde a la verdad.

Su primer disco es Ayer hoy era mañana (1997), un título que por sí mismo ya prepara al oyente para algo que lanza la noción de tiempo directamente al caos.

Por razones obvias, mi iniciación ocurrió con el segundo álbum, también llamado Un giro extraño (2000). Luego que escuché la introducción de la primera pista, me di cuenta de que algo realmente sorprendente iba a suceder. Un violín que sonaba como Anton Webern anunció un tango feroz tanto en la letra como en la interpretación.

Fui cazando los discos en la Internet y, gracias a la “long tail” de la Amazon y de algunos viajes a Buenos Aires, hoy los tengo todos, inclusive una colección alemana de los cuatro primeros.

Descubrí que La Chicana no es un conjunto de tango. Es un conjunto de música en el más amplio sentido de la palabra. He leído algunos textos que los clasifican como una mezcla de tango y rock, pero esto es también un reduccionismo de lo que hacen.

Después de todo, ¿quién anunciaría durante una presentación que tocará un éxito del hit-parade , dada la fuerte presión de las masas, y presenta el concierto para violín en re menor de Bach (con el fabuloso Sebastián Zasali haciendo, en el bandoneón, el segundo violín)?

Las referencias musicales de Estol (compositor y líder del grupo) son variadas. Todos sus discos combinan composiciones suyas y de otros.

Tom Waits aparece desde el principio (es perceptible su influencia, sobre todo en los valses de Acho), pero también encontramos música gitana, tangos chinos, Kurt Weill y hasta nuestros Sivuca, Mutantes y Tomzé.

Por supuesto, la escuela de maestros porteños siempre aparece. Troilo, Gardel, Piazzolla, Solari, Cedrón y muchos otros.

Reconozco que La Chicana no es para neófitos. Sus melodías no son predecibles, las armonías extremamente complejas van mucho más allá de los 3 o 4 acordes que la mayoría están acostumbrados. Incluso cuando interpretan clásicos del repertorio, los arreglos están repletos de modulaciones y cromatismos que pueden sonar extraños a los oídos acostumbrados con el pastiche comercial al cual somos expuestos todos los días.

Para este tipo de arreglos se exigen músicos competentes. Muy competentes... lo que nunca le faltó a La Chicana. A empezar por el multi-instrumentista Estol (en el disco, porque en vivo solamente toca la guitarra... y como la toca!) Al principio con Valverde e invitados, para finalmente llegar al disco actual con Zasali, Rolón, Clavijo, Basto y Barbieri.

Las letras de las músicas son un caso aparte. Merecen algún día el escrutinio de un crítico literario sobre las historias, juegos de palabras y locuras de Estol, nuevamente, pienso yo, influenciado por Tom Waits.

Para darle sentido a esta combinación de palabras y música, la voz de Dolores Solá, Lola. Una voz potente, siempre afinada y con un toque de interpretación teatral. Sea en el extremo lirismo Una rosa y un farol, sea en la rudeza de Peón de ajedrez.

En vivo, entre un vaso de vino, uno de agua y una canción, ella intercambia con Acho comentarios de humor ácido e inteligente.

Lo único que lamentamos aquí es la dificultad en comprar sus discos. La solución es accesar el Youtube.

Por supuesto, para un poeta beatnik siempre hay una opción: revolución o picnic!

Este es uno de los chistes del espectáculo Antihéroes y Tumbas, cuando Acho relata que una vez fue corregido por una persona que se presentó como musicólogo venezolano. Desde entonces ya no se refiere al estilo de la música simplemente dice "tiene un aire de…”

Gracias Virginia Susana Fantoni Ribeiro por la revisión de mi pobre castellano

Um ar de sofisticação


Eu não sou musicólogo. Nem venezuelano. Jamais saberia dizer se um joropo é um joropo ou apenas tem um ar de joropo. [1]

O que eu sei é que recentemente estive em Buenos Aires e, finalmente, consegui assistir uma apresentação do La Chicana, grupo argentino que venho acompanhando desde 2012 quando os descobri em um documentário sobre o tango contemporâneo chamado Un giro extraño.

Em função do documentário acreditei, num primeiro momento, que se tratava de um conjunto de tango vanguardista. Com o tempo descobri que eles realmente são vanguardistas, mas limitá-los ao tango é uma inverdade.

O primeiro disco deles é Ayer hoy era mañana (1997), título que por si só já prepara o ouvinte para algo que lança a noção de tempo diretamente ao caos.

Por motivos óbvios, a minha iniciação se deu com o segundo disco, também chamado Un giro extraño (2000) e, ao ouvir a introdução da primeira faixa, percebi que algo muito surpreendente estava para acontecer. Um violino que soava como Anton Webern anunciava um tango feroz na letra e na interpretação.

Fui caçando os discos pela internet e, graças à long tail da Amazon e algumas idas a Buenos Aires, hoje tenho todos, incluindo uma coletânea alemã dos quatro primeiros.

Descobri que La Chicana não é um conjunto de tango. É um conjunto de música no sentido mais amplo da palavra. Já li alguns textos que os classificam como uma mistura de tango e rock, mas isso também é um reducionismo do que fazem.

Afinal, quem anunciaria durante um show que vai tocar um sucesso do hit-parade, atendendo os insistentes pedidos das massas, e apresenta o concerto para violinos em ré menor de Bach (com o fabuloso Sebastian Zasali fazendo, no bandoneón, o 2º violino)?

As referências musicais de Acho Estol (compositor e líder da banda) são as mais variadas. Todos os seus discos combinam composições dele e de outros.

Tom Waits aparece desde o começo (e é perceptível sua influência, especialmente nas valsas de Acho), mas também encontramos música cigana, tangos chineses, Kurt Weill e até os nossos Sivuca, Mutantes e Tomzé.

Claro, a escola dos maestros portenhos aparece sempre. Troilo, Gardel, Piazzolla, Solari, Cedrón e tantos outros.

Reconheço que La Chicana não é para os neófitos. Suas melodias não são previsíveis, as harmonias extremamente complexas vão muito além dos 3 ou 4 acordes a que a maioria está acostumada. Mesmo quando interpretam clássicos do repertório, os arranjos estão repletos de modulações e cromatismos que podem soar estranhos aos ouvidos acostumados com o pastiche comercial a que somos expostos todos os dias.

Para tais arranjos se exigem músicos competentes. Muito competentes, o que nunca faltou a La Chicana. A começar do multi-instrumentista Acho Estol (no disco pois, ao vivo, Acho só toca violão...e como toca!) No princípio com Valverde e convidados até chegar na do disco atual com Zasali, Rolón, Clavijo, Basto y Barbieri.

As letras das músicas são um caso à parte. Merecem algum dia o escrutínio de um crítico literário que se debruce sobre as histórias, jogos de palavras e insanidades de Estol, mais uma vez, creio eu, influenciado por Tom Waits.

Para dar significado a essa combinação de letra e música, a voz de Dolores Solá, a Lola. Uma voz potente, sempre afinada e com um toque de interpretação teatral. Seja no extremo lirismo de Una rosa y um farol, seja na rudeza de Peón de ajedrez.

Ao vivo, entre um copo de vinho, um de água e uma canção ela troca com Acho comentários de humor ácido e inteligente.

Claro, para um poeta beatnik sempre há opção: revolução ou picnic!



[1] Essa uma das piadas do espetáculo Antihéroes y Tumbas, quando Acho conta que uma vez foi corrigido por uma pessoa que se apresentou como musicólogo venezuelano. Desde então ele não se refere mais ao estilo da música apenas diz que “tiene um aire de...”

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Maipu 994, 2º piso, ascensor


Não há porteiro, mas há vizinhos e o coquetel que nos recebeu era em família e não a “media luz”.

Não saberia precisar quando foi a primeira vez que me encontrei com Borges. Talvez com Ficções que fazia parte da coleção “Grandes obras da literatura universal” que eu devorei na minha adolescência e juventude.

Na mesma época, a Folha de São Paulo publicou um poema inédito dele, “O deserto”, que me marcou de tal forma que, até hoje, eu tenho o recorte do jornal.

Com o tempo fui descobrindo o mundo através dos olhos já cegos de Borges.  O Aleph, O informe de Brodie, a História universal da infâmia, o Livro de areia, o Jardim dos caminhos que se bifurcam.

Depois todo o resto da poesia, a começar pelo Fervor de Buenos Aires. Os textos críticos, os seres imaginários, as palestras.

A cada ida a Buenos Aires procurava algo novo, até o dia em que encontrei a obra completa publicada pela Emecé. Sua eterna editora.

Depois mais alguns livros póstumos que não saíram, originalmente, nas obras completas.

Desde sempre foi meu autor favorito e minha inspiração de estilo para meus contos estranhos.

Qual não foi minha emoção quando, em novembro de 2014, fomos jantar na casa dos primos Eduardo e Alejandra que moram num apartamento que foi da avó da Virginia.

Endereço? Maipu 994. O prédio onde morou Borges de 1944 até a sua morte em 1986 e onde, até hoje, mora Maria Kodama sua viúva.

Eu não sabia se me colocava de joelhos diante da porta de entrada. Ou se ficava parado olhando para o céu esperando que um tijolo do prédio caísse na minha cabeça e iluminasse minha literatura pessoal.

Hoje o Mens Insana completa 8 anos. Já foi mais rico em textos, mas continua sendo o meu espaço para escrever sobre o nada e sobre tudo.

Hoje Borges completaria 116 anos.

A data do blog não foi escolhida por ser o aniversário do escritor e eu não acredito em coincidências.

O bom é saber que ainda vou poder frequentar várias vezes esse prédio. Assim como vou continuar sempre lendo e relendo o meu herói.

domingo, 26 de abril de 2015

Um deca desafio

Para Letícia e seus desafios de métricas
 
Amigos, carrapatos e formigas
Correndo pelos campos de Lisboa
Cantaram o aniversário das cantigas
E a prosa antiquada de Pessoa

O estrondo sepulcral desta garoa
Em meio a tantas hostes inimigas
Levanta a vela e zarpa da lagoa
Singrando os mares lúdicas lombrigas

Quem és que assim me entrega o desafio
A luta ingrata, um metro tão ecoico,
Um ritmo tão lúgubre e sombrio
Compor este universo paranoico?

Camões a sua mão eu parodio
Soneto em decassílabo heroico

domingo, 12 de abril de 2015

Poemeto sintagmático


Ana lê sem tática
Orações descoordenadas
Que seu avô, cativo,
Apostava restritivas

Detido pelo agente da passiva
Por contravenções sindéticas
Adverbiou-se subordinado
Ante seu adversativo sujeito

Sou objeto sem predicados
E denoto complementos
Ad-hoc e ad-nominais
Sem caráter explicativo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O discurso canalha


“O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.” Nelson Rodrigues

Desde os primórdios o homem se recusou a assumir os próprios erros. Adão disse que foi a mulher, Eva disse que foi a serpente.

A serpente não tendo a quem empurrar a culpa saiu rastejando, mesmo porque não podia nem apontar o dedo nem enfiar o rabo entre as pernas por questões anatômicas.

Time que perde o jogo faz a mesma coisa. Diz que a culpa é do juiz. Da torcida. Dessas regras que inventaram e, se não sobrar para mais ninguém, a culpa é do vendedor de cachorro quente no estádio que gritou mais alto na hora do chute e distraiu o goleiro.

Todos são perfeitos. Todos são maravilhosos. Todos são irrepreensíveis.

Como admitir, diante dessa grandeza e maravilha, que o adversário foi melhor?

Claro que deve ter acontecido alguma coisa estranha. E a coisa estranha só pode ter origens exógenas ao ser impecável.

Roubo, fraude, má fé, estelionato e outras desonestidades quaisquer são exclusivas dos outros. Nunca minha.

Pessoalmente estou cansado desse discurso vaidoso, alarmista e canalha.

Como diriam meus ancestrais: vá apoquentar a sua vovozinha!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Males aleatórios


Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Não havia notícia, meme ou post que não o levasse para a cama com todos os sintomas mencionados na Wikipédia ou site do Dr Dráuzio.

Uma tarde, o paranoico paramédico digitou uma palavra incorretamente e foi parar num glossário de estatística. Não entendeu nada e ficou apavorado, o que é que isso significaria na sua vida miserável e doentia?
Resolveu consultar todos os seus amigos médicos e todos os sites de saúde com a seguinte mensagem:

Doutor,
Preciso da sua ajuda. Estou sofrendo de uma enfermidade misteriosa que não é mencionada em nenhum compêndio médico digital.

Não sei se esta patologia é fatal ou se não é o caso de formar uma junta médica para me examinar e, quiçá, me recomendar algum centro de estudos no exterior.
Tenho tido dores nos quartis com muita frequência, existe a probabilidade que eu esteja com a mediana inflamada, o que pode se configurar num qui-quadrado fora de moda.

Não encontrei nenhum laboratório onde pudesse fazer um histograma. Tenho crises de variância todas as noites, sem nenhum intervalo.
Acredito que minhas medidas de dispersão estão fora da curva. Será que tenho algum outlier no pâncreas?

Se for da sua relevância e, sem querer fazer nenhuma média, percebo que minhas amostras estão cada dia mais aleatórias e sem nenhuma correlação. Estarei com algum desvio padrão?
Meus pictogramas estão muito discretos comparados à população. Minha função bidimensional é cumulativa.

Quem devo procurar? Um médico descritivo ou indutivo para a definição do meu problema.
Eternamente, ou muito atemporalmente, grato

Paramécio das Dores.