quinta-feira, 25 de abril de 2013

Autômato




Ligue seus botões.

Deixe a energia elétrica correr

dentro dos seus transístores.

Deixe óleo escorrer

Nas sua engrenagens.



Mecanicamente raciocina

Reflexos são condicionados

Automatizados.

Passos são medidos

Milimétricamente iguais.



O homem-máquina não se percebe

não se sente

não se manifesta.



Desobediência - não tem registro

Ele não é programado para viver

Mas para produzir



E, quando a máquina falha,

Não há problemas

É artigo de consumo

Usa-se e joga-se fora

No ferro-velho de nós mesmos.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma mulher cabal

"...o que quero dizer é que deixei uma boa parte de mim mesma inacabada porque desperdicei demais meu tempo. Não  obstante..." (Lillian Hellman)

Quando Amanda acabou de ler essas linhas sentiu-se arrasada. Como uma mulher daquelas poderia se dizer inacabada. Era uma afirmação totalmente descabida.

Tomou uma decisão para a sua própria vida. Ela seria uma mulher cabal, jamais inacabada. Iria ao fim e ao cabo de todas as coisas.

Na manhã seguinte começou a levar a cabo seu intento. Fez uma faxina geral na casa e recolheu todos os cabos existentes dentro do imóvel.

Eram tantos que achou que nunca acabaria, mas acabou com uma caixa de fios emaranhados em cima da mesa da sala.

Começou a separá-los por tipo. Cabos de força, cabos paralelos e seriais, cabos de som, cabos USB...cabos e cabos.

Dentro de cada tipo passou a separá-los por calibre, por potência, por categoria e, finalmente, por cores.

Ao final do dia tinha todos os seus cabos classificados, etiquetados e guardados em caixas específicas para cada segmento.

Fez o acabamento de sua obra, colocando diferentes etiquetas adesivas para identificar o conteúdo de cada caixa.

Sentou no sofá, ligou a TV que passava o Cabo do Medo. Deu uma risada apesar do filme ser de terror.

Foi para o quarto, pegou a camisola no cabide e foi dormir.

Estava acabada.

domingo, 14 de abril de 2013

Contículo parequêmico, com algumas colisões



Foi num 31 de dezembro, em plena véspera do ano novo que Paulo Loupa carregou um cone negro de corpo poroso certo de que enfrentaria um crepúsculo longo.

Pensou consigo mesmo, é bom que seja já que se manifeste a erótica cacofonia da garota taluda, aquela imaculada dama, vestida de grife feminina.

Sabia que poderia criar um impasse sensual diante da possível gafe feminina e, como um pato tonto, desceu o fosso social e fez o ataque que queria na natureza.

A infame menina, de roupa parda, não resistiu ao menino nostálgico. Era uma malhada das cores, admiradora do sintagma masculino sem regra gramatical.

Tinha noção de que aquela era uma faca cara para pouco coco e, se esperasse segundos mais ele, sendo muito tolo, se enroscaria num tabu burocrático como se fora gado doente.

Não perderia a oportunidade de nenhuma maneira.

Dançou um samba baiano de importante tempo e guardou a tenra rama de lembranças num saco colorido.

Saiu convicto de viver uma matemática cheia de felicidade.

Parequema é nome duma repetição dum som ou duma duma sílaba do final de uma palavra e começo de outra. O parequema pode criar cacófatos. Parequemas viciosos chamam-se colisões.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O hemófobo

Olhando em retrospectiva, os pais de João começaram a entender uma série de atitudes dele durante a sua infância e adolescência.

A começar do seu nascimento. Os médicos da maternidade tinham falado que nunca um bebê tinha chorado daquela forma, mesmo antes de sair da barriga da mãe. E que nunca tinham visto um bebê parar de chorar tão imediatamente quanto quando ele acabou de ser lavado.

E continuou chorando lancinantemente a cada vez que se machucava, mesmo que fosse a mais leve arranhada. Os pais lembram quando foram chamados às pressas na escola pois João estava passando muito mal. Ficaram perplexos ao descobrir que o menino tinha começado a vomitar ao ver um colega se cortar com uma tesoura.

Em casa João se isolava. Não mexia numa série de objetos e, mesmo à mesa, tinha dificuldades em usar o garfo e a faca. Dificilmente assistia e televisão e saia correndo se a película tivesse alguma cena de violência.

Foi no princípio da adolescência que, finalmente, a família descobriu qual era o seu problema. O médico pediu uma série de exames para checar se os hormônios estavam se comportando bem e João desmaiou durante o exame de sangue.

Levaram-no a um psicólogo que depois de muito explorar a mente de João diagnosticou: o menino é hemófobo! A única cura seria fazer análise por tempo indeterminado. A família não tinha verba para isso, o jeito era administrar a situação da forma que desse.

E foi dando. Com alguns episódios de crise, como quando a irmã mais nova teve a primeira menstruação e, ouvindo a explicação, João resolveu que jamais se casaria, um ser sangrando em casa todos os meses seria intolerável.

O único custo que a família foi obrigada a carregar foi o da anestesia geral cada vez que João precisava fazer algum exame de sangue.

Já na juventude João descobriu os efeitos da vitamina K, e começou a comer verduras verdes em doses cavalares. Mais tarde passou a tomar suplementos da vitamina.

Chegou a tentar resolver o problema frequentando um grupo de apoio, os Fóbicos Anônimos. Não passou do primeiro encontro. Quando disse que era hemofóbico foi expulso da sala pelo mediador do grupo que o escorraçou gritando que hemofobia não era transtorno psicológico, era discriminação. João não teve tempo de explicar.

Continuou convivendo com seu medo e, além da vitamina K, começou a tomar medicamentos para hemofilia.

Morreu aos 30 anos com trombose generalizada, provocada por overdose de coagulantes.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A calcinha da discórdia


Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória.

No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie.

Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer.

Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso.

Entrou no shopping, respirou fundo e começou a olhar as vitrines das lojas de lingerie.
Não sem corar a cada vitrine que via. Até que viu uma coleção de calcinhas de renda de diversas cores. 

Respirou mais fundo e entrou na loja. Pediu à primeira vendedora que encontrou uma calcinha de cada cor. 

Não contava que ela lhe perguntasse o tamanho que ele, obviamente, não sabia. Foi obrigado a ficar comparando o tamanho da vendedora ao de Amélie, o que foi o supra sumo do constrangimento.

Chegou em casa mais cedo. Colocou as calcinhas organizadamente sobre a cama e sentou-se para esperar a mulher.

Amélie estranhou sua presença em casa tão cedo. Ele se justificou dizendo que viera mais cedo para se preparar para o jantar de comemoração. Ela o beijou e foi se arrumar.

Os gritos não demoraram 20 segundos para começar:

" - Quem é a mulher brega que esteve nessa casa?!?"

" - Ninguém veio aqui meu amor..."

" - Seu mentiroso safado! Além de sair com outra mulher ainda foi arranjar uma de incrível mau gosto! "

Ele ainda tentou explicar que ele mesmo comprara o presente, mas não teve tempo.

" - Imagine só se Jerônimo Garcez alguma vez entrou, entra ou entrará numa loja de lingerie. Só pode ter chamado um "inha" para fazer isso com ele. Vergonhoso!"

Amélie arrancou a aliança, jogou em direção a Jerônimo e saiu batendo a porta.

Jerônimo não sabia se estava mais ofendido pela desconfiança da mulher ou pela sua crítica ao gosto dele.

Pegou as calcinhas. Jogou-as num balde com álcool e tocou fogo na renda.

E jurou a si mesmo que nunca mais entrava em loja nenhuma.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tifalentices

Panacópios entosados polpatavam as crídias remacorentes dos bregórdios da curbina.

Caticantes e plínicos os grantetos se aclainaram nas simálias.

Piricintos e culticalos abrosaram os sespos enquanto tripentes divratavam os grutis jenesilados.

Inestiladamente Netente mesodou: "- Poriva bladatinto!"

Os quecos lizodaram as módinas e os telafânios abridiram as nalosidias.

Tões e destonos se mundiram palcotiquilantes nacontindo as chátanas.

E a sedona omarrou as madolivas.

domingo, 31 de março de 2013

Contículo diacópico

Amargo, o inefável chá amargo que me fora servido entre tantas e outros tantas beberragens caíram-me no esôfago, meu pobre esôfago, como se fossem litros de ácido, sulfuroso ácido.

Eu que, camonianamente cantava o amor, tão puro amor, comecei a retorcer-me em convulsões atrozes, mais que atrozes, formidandas.

Olhava-me no espelho, um deteriorado espelho que colocaram diante dos olhos, meus castanhos olhos e só via minhas rugas se multiplicando em mais rugas.

Debalde buscava um paliativo de boldo, ou algo similar a boldo mas só me esbaldava em gemidos.

Reminiscências álacres, reminiscências márcidas, reminiscências estranhas açodavam minha memória, cada dia mais fraca memória.

Subitamente ela entrou. Subitamente lançou sobre mim seu olhar, delicioso olhar e, como num passe de mágica, fez-se a mágica da regeneração completa do meu ser.

Nunca mais amargo chá. Nunca mais amargo boldo. Nunca mais amarga vida.


Diácope é uma figura de linguagem que consiste na repetição da mesma palavra em semelhante com a intercalaçao de outra. Do grego diakopé (corte)

sábado, 30 de março de 2013

Mistério na frente de caixa

Um domingo, quando ele chegou para o café da manhã ela perguntou onde ele tinha colocado as bananas. Automaticamente ele respondeu que não sabia, afinal era ela que guardava as frutas e verduras.

Durante a semana ele passou na feira perto do trabalho e trouxe uma dúzia de bananas erradas (eles comiam banana ouro e ele comprou prata, pois só lembrara que era algum metal precioso).

Coincidentemente, ou não, no domingo seguinte ele ouviu uma pergunta similar. Onde estavam os ovos? Repetiram a busca na casa e no carro. Nada dos megalécitos. Ela chegou inclusive a conferir a nota do supermercado e constatou que tinham sido cobrados.

Ele se sentiu culpado, afinal era o responsável por embalar as compras e, provavelmente esquecera os ovos no balcão do caixa. De qualquer forma, ficou com uma pulga atrás da orelha, não era um homem que acreditava em coincidências.

Na semana seguinte prestou atenção redobrada ao empacotar e, depois de colocar caixas e sacolas no carrinho ainda verificou se não tinha esquecido nada no caixa.

Ao chegar em casa, diferente da rotina habitual, ele guardou todas as compras e ela conferia o que era guardado com o ticket do caixa. A farinha de rosca tinha sumido.

Voltaram ao supermercado e foram diretamente ao atendimento a clientes. A atendente ouviu a queixa e chamou o gerente que já chegou com um pacote de farinha de rosca nas mãos, para a surpresa dos dois.

O gerente perguntou se era a primeira vez que isso acontecia e, ao saber das bananas e dos ovos, mandou um funcionário repor os produtos ao casal.

Eles queriam saber o que estava acontecendo. O gerente disse que não tinha autorização para explicar mas, caso acontecesse de novo, para avisar que todos os produtos seriam repostos.

Sairam intrigados e assim ficariam o resto da vida se, ao lado do carro não tivessem encontrado, estacionado ao lado deles, a van dos caça-fantasmas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Peregrino

Quando José começou sua caminhada não sabia se ia parar em Belém do Pará, Belém da Judéia ou em Belém, Pensilvânia.

É verdade que sua confusa falta de cultura geral fazia com que temesse vampiros se fosse para a última.

Só tinha certeza que deveria ir em direção setentrional. Precisava achar o seu norte.

Nos primeiros dias a caminhada foi tranquila, ao final da primeira semana os pés começaram a doer e o ritmo dos passos diminuiu bastante.

A segunda semana foi de poucos progressos e muita água boricada nas bolhas que tinham se formado. Pouco a pouco foi se tornando um homem calejado.

Tilomas formados, o ritmo voltou a aumentar e, em poucos dias já tinha ultrapassado a sua meta. Resolveu descansar por um dia inteiro.

Alojou-se num hotel de caminhoneiros na beira da estrada e dormiu o sono dos justos.

No dia seguinte, durante o café da manhã, conversando com alguns motoristas, conheceu Jorjão, que transportava milho pipoca no seu Fenemê ´62.

Apesar da idade do veículo, Jorjão era modernoso e carregava um IPhone 4s no cinto (segundo ele, ainda não tinha passado pela civilização para comprar o IPhone5).

Segundo o sinesíforo, chegar a Belém era a coisa mais simples do mundo. Digitou no seu GPS e disse que estava no seu caminho e ofereceu carona.

José relutou um pouco, mas os seus calos o conveceram que esta era a melhor opção.

Não demorou muito para que José adormecesse na boléia do caminhão. Quando acordou já era noite e a primeira coisa que avistou foi a torre da igreja.

Pensou tratar-se da igreja da Natividade e agradeceu Jorjão por tê-lo ajudado a chegar a seu destino.

Pegou sua trouxa, desceu do caminhão e foi em direção à igreja.

Foi atacado por 3 trombadinhas na rua Cajuru e acordou todo quebrado no hospital.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Não é o fim

Segundos linguistas da Nicky Hopkins University de Eufala no Alabama, as línguas maias são descendentes semi-genéticos de uma protolíngua chamada protomaia, ou em maia quiché, Proto Nab'ee Maya' Tzij. O que sempre foi uma questão protuberante para os protozoários.

Crê-se que a língua protomaia teria sido falada nas terras submersas de Biotopo Chocon Machacas numa área que corresponde aproximadamente àquela onde hoje em dia se fala pessimamente o inglês da CNN.

A primeira divisão zigótica da língua ocorreu por volta de 2200 a.C. quando o huastecano se separou da língua maia original, após os seus falantes terem se desentendido a respeito da palavra correta para designar as lhamas e se deslocarem para noroeste ao longo da costa do golfo do México.

A seguir foram os falantes de proto-iucatecano e proto-cholano que se separaram do grupo principal, novamente por questões nominalistas que debatiam se uma rosa continuaria sendo uma rosa se tivesse outro nome e também se deslocaram para norte até à península de Iucatã.

Tantas foram as divisões e migrações para o norte que até hoje existem tribos de Nunavut, no norte do Canadá, que usam uma corruptela da língua maia à qual dão o nome de eskimoenglish.

Os falantes do ramo ocidental deslocaram-se para sul, para as regiões atualmente habitadas pelos povos mam - precursores de toda a arte moderna - e quiché  - criadores da famosa torta de queijo que se tornou popular na região de Loraine e nos restaurantes contemporâneos.

Mais tarde, falantes do proto-tseltalano separaram-se litigiosamente do grupo cholano e deslocaram-se para sul até ás terras altas de Chiapas, onde entraram em contato com falantes das línguas mixe-zoqueanas. Nesse ponto, a zorra se tornou quase total, a ponto de gerar revoluções sangrentas na região.

Durante o período arcaico (não confudir com o período arcádico, que também é arcaico) parecem ter entrado na língua protomaia várias palavras com origem em línguas mixe-zoqueanas.

Esta constatação conduziu à hipótese de entre os primeiros maias predominarem os falantes de línguas mixe-zoqueanas, possivelmente da cultura olmeca. Por outro lado, nos casos da língua xinca e da língua lenca, as línguas maias são mais fornecedoras que receptoras de empréstimos linguísticos cobrando juros superiores aos do cheque especial no Brasil.

Isso explica essa confusão toda criada por proto-apocalípticos que decretaram para hoje o fim do mundo.

Achando que estavam traduzindo o termo "estu modu" diretamente do mixe-zoqueano esqueceram que a famosa pedra foi criada no período proto-cholano, quando signifcava o final de uma trilha estreita ou, em bom português, uma picada.

A picada, que conduzia do centro da tribo até a praia indicava que, ao final dela, além mar, estava o resto do mundo. Simbolicamente, os mixe-zoqueanos atribuiram a expressão "fim-da-picada" a todo resto do universo que estava adiante.

Se você não acredita, basta reparar que já passa da meia noite e o mundo não acabou.

O que não deixa de ser uma ótima oportunidade para começar a estudar receitas de quiché.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Meu reino por um cavalete

Cavalete já foi apoio para pintura de grandes obras de arte e instrumento de tortura para grandes mártires.


A invenção eleitoral para garantir a poluição visual da cidade foram os cavaletes espalhados em calçadas, gramados, ciclovias, rampas de pedestres.

Além da poluição visual, eles são o supra sumo da propaganda ecologicamente incorreta. Sabe-se lá quanta madeira foi usada e quanto de impressão em material derivado de petróleo.

O mais irônico disso, pelo menos no meu trajeto habitual é que o candidato que mais gasta madeira e polui visualmente... é do Partido Verde.

Fica aqui minha contribuição para a campanha:

A cavalete dado não se olha a coligação

Para alguns candidatos, o castigo veio a cavalete

Quem nasceu para santinho nunca chega a cavalete.

Não foi reeleito. Caiu do cavalete.

Cavalete bom e candidato eleito a gente só conhece na apuração.

Quem faz o cavalete é o dono.

Mulher, arma e cavalete de armar, nada de emprestar.

Uma estrela dourada não faz do banner um cavalete.

Enquanto houver cavaletes, São Paulo não dará pé.

Cavalete de viúva só anda emprestado.

Cavalete de campo não bebe água de balde.

domingo, 30 de setembro de 2012

Im- previsões

Davam-se como o vinho e a toalha de mesa (Fabrício Carpinejar)

Ninguém entendeu quando ele entrou à esquerda ao invés da direita. Não era aquela a direção que os levaria de volta para casa.

A irmã perguntou o que é que ele estava fazendo, ele disse que estava indo até ali. Mistério.

A namorada olhou para ele com um misto de curiosidade e cumplicidade. Poderia até não saber das suas intenções mas confiava no que ele fazia.

Ele poderia até ter a intenção de surpreendê-la, mas sabia que era algo que beirava a impossibilidade absoluta.

Além de nunca terem tido segredos entre eles eram tão parecidos que algumas vezes se assustavam com isso.

Pegou outra rua que levava em direção oposta à da casa. A irmã se inquietava a cada nova troca de rota.

Ela e o cunhado tinham sido convidados para um almoço, algo comum desde que o irmão e a namorada moravam juntos.

Ele parou o carro num estacionamento. Pediu para todos descerem.

Caminharam meio quarteirão e entraram no cartório. Só a irmã e o cunhado seriam as testemunhas do casamento.

A namorada olhou para ele e sorriu. Desde que ele pedira cópia dos documentos dela e a assinatura em um papel em branco ela sabia o que ele iria aprontar, só não sabia quando.

Era como comemorar sobre o vinho derramado.

Viveram felizes para sempre com suas previsibilidades surpreendentes.

domingo, 23 de setembro de 2012

Um sonho. Uma traição

Mensagem
Já fazia um certo tempo que eu não traía alguém por aqui. Hoje eu não resisti. Se quiser ouvir uma linda versão declamada, clique aqui

Um sonho


Essa noite eu sonhei que sonhava com você
Da janela, através do jardim, te admirava se desnudando
Um traje de entardecer púrpura tecido em seus cabelos
Aquela rosa estrangulada em cachos de ébano
Movendo-se na luz amarela do seu quarto.
O ar úmido de sons
O ganido distante de um cão ferido
E o chão bebendo de uma torneira mal fechada
Sua casa é tão suave que desaparece sob o atro calor do verão
Uma luz se apaga. A porta se abre
Um gato amarelo corre sob o facho de luz em direção ao quintal.

O aroma amadeirado da cerejeira exala pelo ar
Ouço sua risada espumante
Você leva duas orquídeas lavanda
Uma no cabelo, outra na cintura
Uma cadeia de luzes amarelas chocantes vem com o crepúsculo
Circundando o lago com um halo gotejante
Ouço um banjo tocando tango
E você dança à sombra do negro tulipeiro

Enquanto olho você esvanece
Enquanto olho você está esvanecendo
Enquanto olho você esvaneceu.

Watch her disappear
Tom Waits

Last night I dreamed that I was dreaming of you
And from a window across the lawn I watched you undress
Wearing your sunset of purple tightly woven around your hair
That rose in strangled ebony curls
Moving in a yellow bedroom light
The air is wet with sound
The faraway yelping of a wounded dog
And the ground is drinking a slow faucet leak
Your house is so soft and fading as it soaks the black summer heat
A light goes on and the door opens
And a yellow cat runs out on the stream of hall light and into the yard

A wooden cherry scent is faintly breathing the air
I hear your champagne laugh
You wear two lavender orchids
One in your hair and one on your hip
A string of yellow carnival lights comes on with the dusk
Circling the lake with a slowly dipping halo
And I hear a banjo tango
And you dance into the shadow of a black poplar tree

And I watched you as you disappeared
And I watched you as you disappeared
And I watched you as you disappeared

sábado, 22 de setembro de 2012

As gêmeas

Mensagem
O pai era um fumante inveterado, a mãe tinha uma compulsão paranóica em relação a traças.
 
Apesar disso todos se chocaram quando as gêmeas nasceram e receberam os nomes de Nicotina e Naftalina. Tanto que o escrevente do cartório exigiu uma declaração do pai assumindo a responsabilidade pelos nomes.
 
O padre recusou-se a batizá-las. A mãe foi se queixar com o bispo. De nada adiantou. Só receberam o sacramento porque encontraram uma paróquia dissidente da igreja, cujo sacerdote topava qualquer parada.
 
Os familiares acabaram por chamar as meninas de Tina e Lina, o que não as poupou de todo tipo de gozação quando foram para a escola. Cresceram revoltadas com a situação e nunca perdoaram os pais pelos constrangimentos que passaram.
 
Tina acabou tornando-se uma extremista radical anti-tabagista, mas sempre foi vista de forma suspeita dentro do movimento. Os líderes do grupo reconheciam que era impossível promover a causa tendo como militante a própria Nicotina.
 
Lina formou-se em biologia, especializou-se em lepismatídeos. Sua mãe ameaçou deserdá-la caso trouxesse os seus bichinhos para casa.
 
Tina nunca se casou. Todos os seus pretendentes eram fumantes.
 
Lina namorou durante anos um químico especializado em hidrocarbonetos aromáticos, mas acabou casando com um colega que se dedicava ao estudo de termitas.
 
Quando seus pais morreram resolveram que era a hora de mudar de nome. Entraram na justiça com o pedido.
 
O juiz, um sujeito de muito bom senso reconheceu rapidamente o rídiculo da situação.
 
Só indeferiu a causa porque Nicotina pediu para se chamar Varenicila e Naftlina queria adotar o nome de Thysanura.

domingo, 26 de agosto de 2012

Um paradigma a menos

Mensagem
Ela achava que tinha saído com ele apenas para tomar um café. Quando muito uma caminhada pelo shopping
 
Não se surpreendeu quando ele perguntou se poderia levá-la a um lugar diferente, sabia que ele era um sujeito criativo e aceitou o convite.
 
Tomou um susto quando ele embicou o carro na entrada do estabelecimento. Chegou mesmo a corar, em seus não poucos anos de vida ela nunca tinha entrado num lugar daqueles.
 
Era uma mulher extremamente pudica e recatada, nunca imaginou que poderia fazer aquele tipo de programa fora das quatro paredes da sua casa.
 
Não era tão ingênua a ponto de não saber o que iria acontecer mas, para ela, aquilo era uma coisa de mulheres muito diferentes dela, mulheres liberais...ou liberadas, como definir melhor?
 
Ao mesmo tempo sentiu, sem tentar demonstrar, um certo entusiasmo com a ousadia dele.
 
Ele percebeu a mistura de desconforto e excitação nos seus olhos. Elegante, antes de entrar, perguntou de novo se ela topava o programa.
 
Ela respondeu com a voz trêmula que sim, mas fez questão de deixar claro que era a sua primeira vez e que ela não sabia exatamente como agir.
 
Além do que, nunca passara pela sua cabeça pagar para ter acesso aquele tipo de coisa.
 
Entraram. Ela se manteve calada por um tempo.
 
Ela olhava cada detalhe do lugar com um certo temor. Já ouvira falar daquele tipo de instalação e dos seus equipamentos, encantou-se ao vê-los pessoalmente.
 
Ficou particularmente encantada com o grande tanque de água no fundo do salão. Parecia um sonho de espuma.
 
Ele tratou toda a situação de forma muito delicada procurando deixá-la à vontade o tempo todo. Foi bem sucedido.
 
No caminho de volta ela confessou. Sempre acreditara que roupa suja só se lavasse em casa. Naquele dia tinha descoberto o prazer de deixar toda a roupa numa lavanderia.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um dia de pais

Mensagem
Lendo uma mensagem do Markiano Charam (Filho) me coloquei a refletir o que carrego em mim do meu pai e o que, talvez meus filhos levarão de mim.
 
Com o meu pai aprendi muito, especialmente a pensar, pesar contrários, formar a minha própria opinião, nem sempre igual a dele.
 
Aprendi olhar para o passado como lição e para o futuro com muito planejamento.
 
Aprendi a ser irônico e a entender que muitos não entenderiam isso e outros se ofenderiam (e como se odendem...).
 
Aprendi a ser generoso e não me apegar excessivamente aos valores materiais.
 
Herdei o prazer pela leitura. A mania de colecionar tranqueiras. A obssessão por catalogar tudo.
 
Nenhuma dessas coisas ele me ensinou em conversas e lições, todas foram transmitidas pela sua vida e seus exemplos.
 
Sendo pai há quase 14 anos também vejo características minhas nos meus filhos que vão muito além da genética.
 
Posso ensinar matemática, português ou geografia para os meus filhos mas, valores e comportamentos eles só vão aprender a partir daquilo que eu mostrar para eles.
 
Que eles possam ser sábios o suficiente para reter o que é bom e descartar o que não vale a pena.
 
Descrição da imagem : foto do meu pai e minha filha (faltou meu filho, mas não tenho fotos recentes só com os três).

domingo, 29 de julho de 2012

Esplênio em distensão

Tária não era exatamente uma mulher qualquer, especialmente quando tornava-se imperativa.

Combatia ferozmente as mesóclises sem futuro, atribuindo-lhes ênclise quase que subjuntivamente exaltadas.

O infinito pessoal preposicionado chegava a lhe causar engulhos nada relativos.

Seus amigos eram apenas demonstrativos oblíquos quando lhe acometiam acessos subordinativos.

Com o tempo foi se tornando (ou tornando-se) uma louca varrida com piaçava flexionada em átonos.

Educadora que era, reconhecia sua queda para o segundo, uma vez que não suportava estar acima dos quintos.

Debruou-se laminarmente com o verbos defectivos aplicando emplastros repletos de cânfora.

Passou a perambular pelas ruas bradando metilas descompassadas.

Louca, louca, louca Tária. Conquistou meu esplênio em pleno inverno.

Acalminou-me de forma quente e apaixonada.

Louca Tária. A mulher que descontraiu as minhas mais profundas estruturas

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um caso patológico


Ela definitivamente exibia um estado mórbido típíco da região dos mortos. Uma infusão grego latino a tornou o que era.

Casou por dinheiro, como se casavam muitas das romanas de sua época. Lycisca que o diga.

Mas não era uma qualquer, instalada nos recônditos das pedras pequenas ela se elevava sobre as oficinas de uma forma quastuosa.

Pedia referências sempre. Além de se certificar de todas as comprovações possíveis antes de se envolver com estranhos.

Queria ter certeza de que seu objetivo seria cumprido, não era uma garota de programa, queria remuneração de longo prazo.

Sabia de histórias medonhas de outras carcamanas que, em troca de parcas garantias, tinham se entregue a picaretas e sido vítimas de ursadas.

Não queria saber de trocas frequentes de alicerces. Nem se emparedava sem contrapartidas.

Rendeu-se pedagogicamente quando encontrou o seu objetivo. Um ser inteligente que falava várias línguas e fiador de bons costumes.

Contraiu matrimônio como quem fecha um grande negócio. Condominiou-se territorialmente com ele.

E foi feliz pela duração do contrato.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bonança

Mensagem
"We are such stuff as dreams are made on." (William Shakespeare)
 
Quando ele viu aquele rosto algo lhe disse que era conhecido. Extremamente conhecido, apesar disso não sabia exatamente de onde, ou quando.
 
Ela sorriu para ele e veio na sua direção. Ele retribuiu o sorriso e começou a pensar em formas de driblar a memória que o traia sempre quando mais precisava dela.
 
Foi salvo pela frase que ela usou para cumprimentá-lo. Não conversavam desde o dia da formatura dela.
 
As imagens começaram a correr rapidamente pela sua mente. Ele a conhecera na sua festa de formatura. Era a namorada de um dos seus colegas de classe.
 
Meses depois ele foi à formatura dela, que era da mesma classe de uma das suas primas.
 
Como ela ainda estava com seu ex-colega, acabaram sentando na mesma mesa e conversaram bastante durante a festa. Especialmente sobre Shakespeare de quem ambos gostavam.
 
Nos anos seguintes tiveram encontros esporádicos. Uma vez num corredor de um shopping center, onde ela passeava com a irmã. Outra vez, em outro shopping,  cruzando nas escadas rolantes.
 
Perguntou o que ela fazia naquele evento. Lembrava que ela era médica e estranhou sua presença numa festa de entrega de um prêmio de jornalismo. Ela estava lá ajudando a irmã que era a responsável pelo buffet da festa.
 
Trocaram telefones e se despediram.
 
Nos dias seguintes a imagem dela não saia da cabeça dele. Não sabia se ela estava com alguém, arriscou convidá-la para ir ao teatro e jantar. Ela aceitou o convite.
 
Foram ver "A tempestade". No meio do segundo ato, quando Gonzalo dizia que ali tudo era vantajoso para a vida, ele notou que ela abria discretamente a bolsa.
 
Sairam momentos depois. Ela recebera uma chamada do hospital e precisava ir ver um caso de urgência.
 
Ele a levou e ficou esperando. Quando ela ressurgiu ela cochilava na sala de espera. Já era de manhã. Ela o convidou para tomarem café juntos.
 
Entre uma xícara e outro descobriram-se um no outro.
 
Entre uma xícara e outra entenderam porque o tempo demorara tanto em aproximá-los.
 
Cada um era o sonho e além do sonho do outro.
 
E cada um passou a ser a vida e muito além da vida do outro.
 
Imagem: "Miranda - The Tempest" de John William Waterhouse

domingo, 8 de julho de 2012

Vida animal

Mensagem
Quandos os ratos saem o gato faz jejum
 
Quem não tem cão não caça cocô na rua
 
À noite todos os gatos são parcos
 
Pagou o pato mas dispensou o couvert
 
Cada macaco na sua tribo virtual
 
Uma andorinha não provoca aquecimento global
 
Cão que ladra não deixa o vizinho dormir
 
Macaco que pula de galho em galho quer DST
 
Lobo em pele de cordeiro é perseguido pela PETA
 
Gato escaldado não morre de alegria
 
A perua não se veste na véspera
 
Focinho de porco não é filtro de linha
 
Em rio que tem piranha, jacaré vive arranhado
 
Se correr o bicho pega, a menos que seja uma tartaruga
 
Filho de peixe, alevino é.
 
Passarinho que come pedra morre de cálculo renal
 
Não se cutuca onça. Ponto final

domingo, 10 de junho de 2012

Lux in tenebris

A vida lhe parecia uma noite interminável. E, de fato, era uma noite interminável.

Não que não gostasse totalmente da escuridão mas a lua era uma companhia inconstante mudando de face todas as semanas e as estrelas se tornavam mais distantes à medida que a poluição urbana foi aumentando com o passar dos anos.

Desejava o sol, aquele que aparecia nas fotos das revistas com as quais topava nos becos onde se refugiava do frio, mas tudo que encontrava eram sombras e penumbra.

Algumas vezes acreditou que tinha encontrado a vereda que o levaria à luz. Entrou em túneis longos e úmidos imaginando encontrá-la no final deles.

Saiu de todos e cada um deles de volta ao breu.

Até o dia em que chegou à conclusão que a tal vida ensolarada era apenas uma ilusão criada pela literatura e pela imprensa. E desistiu de procurar.

Passou a se contentar com a aparição quase mensal da lua cheia. Nem sempre surgia, se escondendo atrás das nuvens de alguma frente fria.

Eventualmente, em noites mais claras, fixava seu olhar em alguma estrela.

O que ele nunca imaginou é que numa noite nublada, poluída e triste uma estrela na qual ele nunca reparara começaria a brilhar de uma forma mais intensa.

Num primeiro momento achou que era o final dos tempos. Estrelas não cresciam dia após dia como aquela.

No entanto, a medida que os dias passavam, a tal estrela brilhava mais forte e chegava cada vez mais perto.

Aquele brilho começou a iluminar o que estava a seu redor. Tenuemente, a princípio, depois foi se espalhando.

O mundo a seu redor foi ficando mais bonito, as cores foram aparecendo, as nuvens se tornavam mais claras, até conheceu mares que nunca vira antes.

Campos de flores, pássaros de todas as plumas, até os precipícios se mostravam deslumbrantes.

A estrela chegou tão perto que o invadiu e o arrebatou com luz e calor. Era infinitamente melhor do que aquilo que vira nas revistas.

Envolvido, guardado e cuidado pela imensa fonte de luz, ele reconheceu que sua vida começara, enfim, a ter sentido.

*Imagem: foto do quadro "Sunset" de Virginia Susana Fantoni

sábado, 9 de junho de 2012

Desafiando Neruda

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está nublada
e se escondem, ao longe, todas as angústias"

O vento da noite aquietou e o céu está em silêncio.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Eu a quero e todas as vezes ela também me quer

Em noite como essa a tenho em meus sonhos
e a beijo sem parar sob o céu infinito

Ela me quer e todas as vezes eu a quero também
Impossível não amar os mais lindo de todos os olhos.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Saber que a tenho. Sentir que nunca a perderei

Ouvir a noite imensa, ainda mais imensa com ela
Os versos caem na alma como uma tromba d´água

Que me importa se a noite está fria e chuvosa
Se a guardo no meu coração.

Isso é tudo. Ao meu lado a música continua
Minha alma está contente de tê-la

Como para me achegar a ela meus olhos a vem
Meu coração a tem e ela está comigo

Na mesma noite que escurece todos os gatos
Nós, desde sempre, nos tornamos um

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
Meu ouvido busca sua voz e toca o vento

Só minha, sempre minha. Como antes dos meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
É tão curta a vida para tão grande amor.

Porque em noites como essa a terei em meus braços
Minha alma não se contenta antes que chegue esse dia

Mesmo que esta seja a temporária dor que me causa
E esses sejam apenas mais uns versos que te escrevo.

sábado, 12 de maio de 2012

Pancetta atômica

Mensagem
A despeito do patronímico, Hilário era um sujeito taciturno e macambúzio, não poucas vezes sorumbático.
 
O que não o impedia de desenvolver suas atividades profissionais de forma metódica e eficiente, lidava bem com as pessoas, mas não permitia nenhum tipo de aproximação que ultrapasse os limites da formalidade.
 
Seu estilo soturno também não o impediu de se casar e ter filhos. Estela, a esposa, era uma mulher alegre e divertida e apaixonada pelo marido.
 
Hilário, além de calado e metódico, era também um homem cheio de manias. Rejeitava quase a totalidade dos equipamentos modernos, usava o computador por necessidade profissional mas, em casa, se recusava a ter como cafeteiras elétricas (ainda que tivesse se rendido ao filtro de papel), máquinas de secar roupas (o sol e o vento existiam para isso mesmo) e, menos que tudo, forno de microondas.
 
Estela não dava bola para a cafeteira, afinal, quem fazia o café era sempre Hilário, nem com a máquina de secar que achava um trambolho e, de qualquer forma, não caberia na área de serviço. Já o forno de microondas era uma demanda desde o primeiro dia da lua de mel.
 
Quando as crianças nasceram ela passou a fazer campanha ostensiva, especialmente na hora de esquentar as mamadeiras e as sopas. Um dia Hilário cedeu, mas deixou claro que ele não colocaria a mão no aparelho. E assim foi.
 
Estela fez cursos, leu manuais e, em poucos meses, era especialista em microondas. Chegava ao requinte de fazer receitas complexas usando o inimigo número 1 de Hilário, que nunca admitiu gostar de qualquer prato que ele percebesse tivesse sido feito ou esquentado no tal forno.
 
Um dia Hilário foi para o fogão, como costumava fazer de vez em quando, e preparou sua especialidade: omelete. Não era qualquer omelete, rica em ingredientes e temperos exóticos que só ele sabia quais eram, sempre era demandada pela família.
 
Deixou a omelete pronta e foi tomar banho. Quando voltou para o jantar a mesa estava posta com os demais pratos e a omelete dentro do microondas para esquentar. Olhou feio, mas não quis criar caso com a mulher na frente das crianças.
 
Todos à mesa e, do nada, começaram a ouvir barulhos. POF!! POF, POF, POF!
 
POF, POF, POF, POF, POF....era a omelete dentro do microondas explodindo como se estivesse fazendo pipoca. Hilário deu um pulo e tirou o forno da tomada antes que explodisse tudo. Estela,atônita, não entendia nada, afinal nada que ela conhecesse impedia o uso do microondas para esquentar omeletes.
 
Aberta a porta do forno, o desastre estava armado. Pedaços de omelete para todos os lados. Uma baderna só.
 
Hilário olhou para Estela e, pela primeira vez na sua vida teve um ataque de risos. Incontrolável. As crianças, que nunca tinham visto o pai tão alegre, começaram a rir juntas. Estela enfrentou a situação com seu bom humor habitual, culpou a pancetta que Hilário tinha usado na preparação do prato, limpou toda sujeira e pediu que o assunto nunca mais fosse mencionado.
 
De nada adiantou o pedido. Todas as vezes que alguém falava no microondas, o assunto da omelete atômica ressurgia. E Hilário tinha outro ataque de risos.

domingo, 6 de maio de 2012

Português pós-moderno

O prefixo "equi" tem originalmente o sentido de plano, justo, liso. Na língua portuguesa indica coisas iguais ou muito similares, como podemos notar em palavras como equilátero, equidistante e o verbo equiparar.

Quando queremos nos referir a algo que é diferente usamos outros prefixos como "para" (paradoxo, paródia) ou o mais radical "anti" (antitetânica, antítese).

Isso posto, gostaríamos de revisar algumas definições que os nossos dicionários teimam em publicar de maneira errônea:

Equino: se refere a cavalos da mesma espécie. Dois cavalos árabes são equinos. Um cavalo árabe e um quarto de milha são apenas paraquinos

Equipe: grupo de pessoas que se reúne para praticar um esporte ou alguma atividade competitiva. São consideradas equipes de verdade todas aquelas formadas por pessoas iguais. Os tenistas Bob e Mike Bryan, tenistas gêmeos, são uma equipe. O time do Corinthians, pela sua diversidade é uma antiquipe.

Équidna: um ser muito estranho e quase único. Junto com os ornitorrincos, são os mamíferos que botam ovos. Como não existe nada igual a eles, deveriam abandonar definitivamente o prefixo "equi". Além disso, sendo monotremados e o trema tendo sido abolido da língua, são animais em extinção em países de língua portuguesa.

Equipamento: não é o conjunto de acessórios utilizados por uma equipe, como muitos podem pensar, mas os instrumentos necessários para uma determinada função. Equipamentos podem ser militares, esportivos e profissionais. Só pode ser considerado equipamento aquele que é idêntico ao do seu vizinho.

Equivocado: é o sujeito que erra sempre da mesma forma.

Equimose : mancha escura resultante de uma hemorragia quando você leva, pelo menos, duas pancadas que formam manchas equivalentes. Uma mancha isolada é uma monomose, manchas de tamanhos ou cores diferentes são paramoses.

Na próxima aula vamos estudar a questão do sufixo "ão" e explicar a diferença entre Paquistão e irmão.