domingo, 28 de agosto de 2016

Uma frustração genial

A vida é uma comédia escrita por um comediante sádico (Bobby Dorfman, personagem principal)
Café Society é um filme frustrante.

E é genial justamente por isso, um filme cujo desenrolar vai frustrando cada uma das nossas expectativas sobre os desfechos da trama principal e de cada uma das subtramas.

Inclusive os desfechos que o próprio Woody Allen nos ensinou a esperar em outros filmes seus.

Alguns vão dizer que é um filme menor. Talvez seja mesmo. De qualquer forma, um filme menor de Allen ainda é melhor do que a grande maioria das tranqueiras que são exibidas nas telonas e telinhas.

O argumento do filme é bastante simples. Não tem nenhum ator saltando da tela nem nenhum personagem viajando no tempo. Nem camaleões.

Os personagens são seres críveis que vivem situações corriqueiras e têm sentimentos comuns a qualquer outro ser humano. Até os bandidos são bandidos comuns.

Não há nenhum ator ou atriz de beleza estonteante.

Os atores dão a impressão de serem seus próprios personagens na vida real. Nenhuma careta, nenhum exagero, nenhuma lágrima derramada para provocar reações melodramáticas.

A narrativa é linear. Nenhum flash back que obrigue o espectador a realizar sinapses complexas para entender.

Os diálogos, como sempre, são geniais. Especialmente os travados entre o pai e a mãe do personagem principal.

A mãe, não poderia deixar de ser a típica yiddishe mama, senão não seria um filme de Woody Allen.

A cinematografia é fabulosa, seja nos grandes planos, seja nos closes finais. A fotografia é deslumbrante, especialmente os jogos de cor da ensolarada Califórnia (a cena azulada da abertura do filme é emocionante).

E ninguém ainda conseguiu mostrar Manhattan como Woody Allen.

E ninguém consegue melhores trilhas sonoras do que ele.

Há humor? Claro, se você é daqueles que entende o humor de Allen.

Há romance? Sim, o filme é um grande romance.

Assim como há drama e há a eterna discussão ética sobre a culpa.

Se você gosta de Woody Allen, não perca. Vai se encantar.

Se não gosta, não perca seu tempo. Você vai se frustrar.


Imagem: Allen, Vittorio Storaro e Eisenberg (e um fotógrafo não identificado)

quinta-feira, 17 de março de 2016

As moscas estão vencendo

Quem sabe um mínimo de história (infelizmente são poucos), sabe que a política sempre viveu de jogos de interesses, manobras legais ou não, golpes baixos e alianças espúrias. Sem contar o uso de venenos, traições e manipulação de grupos de suporte.

Assim como sempre foi financiada por grupos que lucram com as suas práticas e sustentada por massas de ingênuos e idealistas que acreditam que líderes políticos podem transformar o mundo.

Não é à toa que Monteiro Lobato já definia a política como uma gamela cheia de estrume onde se nutrem grupos de moscas. Alternam-se as moscas, mas o estrume continua sempre o mesmo.

Eu sou daqueles que entendem que, sem mudar o conteúdo da gamela pouco importa a cor das moscas que a sobrevoam.

Justamente por isso que sou contra as moscas domésticas, varejeiras, de fruta, de estábulo, do vinagre, típulas, crisopas, de enxame, amarelas e, até mesmo, contra as moscas brancas.

Em momento em que as pessoas se sentem obrigadas a se incorporar a um mosquedo ou outro eu, que não me interesso por nenhum deles, sou considerado como um alienado ou favorecedor do lado onde o estrume fede mais (e ele fede mais sempre do lado oposto de quem esteja falando).

Quem me conhece um pouco melhor sabe que posso ser chamado (e o sou) de um monte de coisas, menos de alienado.

O que não significa que seres inflamados pelo ódio, vingança e desprezo de todos os tipos, não o façam e infelizmente o tem feito contra tudo e todos que não estejam alinhados ideologicamente com a sua farândola.

Pessoas que costumam fazer discursos piedosos e religiosos, mas não hesitam em ofender os seus semelhantes.

Pessoas que militam em causas que defendem a diversidade, mas, nessas horas, não aceitam diversos das suas ideias.

Pessoas que rugem ferozmente pela aplicação da lei e da justiça, desde que ela só seja aplicada contra os seus adversários.

Pessoas que discursam pela liberdade de opinião somente dos seus asseclas.

Pessoas que acreditam que podem distorcer, fraudar e manipular informação de acordo com o que lhes convém.

Pessoas que acreditam que a intolerância e o conflito são as únicas ferramentas de debate.

Tenho amigos praticamente em todo o espectro político-ideológico. Alguns conseguem argumentar de forma racional e educada sobre as suas convicções. E eu os admiro por isso.

Infelizmente muitos se deixaram levar pela turba massa ou pelas notícias plantadas nas mais diversas mídias da extrema esquerda à extrema direita, e adotaram um discurso de ódio e ofensas aos demais.

Pior, quando questionados indiretamente por esse tipo de postura, aproveitam para ofender de novo os adversários (o que, certamente, vai aparecer nos comentários desse texto).

Pessoas que exigem um respeito que não têm. Uma honestidade que não praticam. Uma educação que perderam no meio do caminho.

Enquanto perde-se tempo com esse bate-boca inócuo, o estrume da gamela se multiplica, e as moscas refestelam-se. Tristes tempos.

sábado, 5 de setembro de 2015

Un aire de sofisticación


Yo no soy un musicólogo. Tampoco soy venezolano. Jamás sabría decir si un joropo es un joropo o simplemente tiene un aire de joropo.*

Lo que sé es que estuve recientemente en Buenos Aires y finalmente conseguí ver una presentación de La Chicana, grupo argentino que acompaño desde 2012, cuando los descubrí en un documental sobre el tango contemporáneo llamado Un giro extraño.

Debido al documental yo creía, al principio, que ellos formaban un grupo de tango de vanguardia. Con el tiempo me di cuenta que realmente son de vanguardia, pero limitarlos al tango no corresponde a la verdad.

Su primer disco es Ayer hoy era mañana (1997), un título que por sí mismo ya prepara al oyente para algo que lanza la noción de tiempo directamente al caos.

Por razones obvias, mi iniciación ocurrió con el segundo álbum, también llamado Un giro extraño (2000). Luego que escuché la introducción de la primera pista, me di cuenta de que algo realmente sorprendente iba a suceder. Un violín que sonaba como Anton Webern anunció un tango feroz tanto en la letra como en la interpretación.

Fui cazando los discos en la Internet y, gracias a la “long tail” de la Amazon y de algunos viajes a Buenos Aires, hoy los tengo todos, inclusive una colección alemana de los cuatro primeros.

Descubrí que La Chicana no es un conjunto de tango. Es un conjunto de música en el más amplio sentido de la palabra. He leído algunos textos que los clasifican como una mezcla de tango y rock, pero esto es también un reduccionismo de lo que hacen.

Después de todo, ¿quién anunciaría durante una presentación que tocará un éxito del hit-parade , dada la fuerte presión de las masas, y presenta el concierto para violín en re menor de Bach (con el fabuloso Sebastián Zasali haciendo, en el bandoneón, el segundo violín)?

Las referencias musicales de Estol (compositor y líder del grupo) son variadas. Todos sus discos combinan composiciones suyas y de otros.

Tom Waits aparece desde el principio (es perceptible su influencia, sobre todo en los valses de Acho), pero también encontramos música gitana, tangos chinos, Kurt Weill y hasta nuestros Sivuca, Mutantes y Tomzé.

Por supuesto, la escuela de maestros porteños siempre aparece. Troilo, Gardel, Piazzolla, Solari, Cedrón y muchos otros.

Reconozco que La Chicana no es para neófitos. Sus melodías no son predecibles, las armonías extremamente complejas van mucho más allá de los 3 o 4 acordes que la mayoría están acostumbrados. Incluso cuando interpretan clásicos del repertorio, los arreglos están repletos de modulaciones y cromatismos que pueden sonar extraños a los oídos acostumbrados con el pastiche comercial al cual somos expuestos todos los días.

Para este tipo de arreglos se exigen músicos competentes. Muy competentes... lo que nunca le faltó a La Chicana. A empezar por el multi-instrumentista Estol (en el disco, porque en vivo solamente toca la guitarra... y como la toca!) Al principio con Valverde e invitados, para finalmente llegar al disco actual con Zasali, Rolón, Clavijo, Basto y Barbieri.

Las letras de las músicas son un caso aparte. Merecen algún día el escrutinio de un crítico literario sobre las historias, juegos de palabras y locuras de Estol, nuevamente, pienso yo, influenciado por Tom Waits.

Para darle sentido a esta combinación de palabras y música, la voz de Dolores Solá, Lola. Una voz potente, siempre afinada y con un toque de interpretación teatral. Sea en el extremo lirismo Una rosa y un farol, sea en la rudeza de Peón de ajedrez.

En vivo, entre un vaso de vino, uno de agua y una canción, ella intercambia con Acho comentarios de humor ácido e inteligente.

Lo único que lamentamos aquí es la dificultad en comprar sus discos. La solución es accesar el Youtube.

Por supuesto, para un poeta beatnik siempre hay una opción: revolución o picnic!

Este es uno de los chistes del espectáculo Antihéroes y Tumbas, cuando Acho relata que una vez fue corregido por una persona que se presentó como musicólogo venezolano. Desde entonces ya no se refiere al estilo de la música simplemente dice "tiene un aire de…”

Gracias Virginia Susana Fantoni Ribeiro por la revisión de mi pobre castellano

Um ar de sofisticação


Eu não sou musicólogo. Nem venezuelano. Jamais saberia dizer se um joropo é um joropo ou apenas tem um ar de joropo. [1]

O que eu sei é que recentemente estive em Buenos Aires e, finalmente, consegui assistir uma apresentação do La Chicana, grupo argentino que venho acompanhando desde 2012 quando os descobri em um documentário sobre o tango contemporâneo chamado Un giro extraño.

Em função do documentário acreditei, num primeiro momento, que se tratava de um conjunto de tango vanguardista. Com o tempo descobri que eles realmente são vanguardistas, mas limitá-los ao tango é uma inverdade.

O primeiro disco deles é Ayer hoy era mañana (1997), título que por si só já prepara o ouvinte para algo que lança a noção de tempo diretamente ao caos.

Por motivos óbvios, a minha iniciação se deu com o segundo disco, também chamado Un giro extraño (2000) e, ao ouvir a introdução da primeira faixa, percebi que algo muito surpreendente estava para acontecer. Um violino que soava como Anton Webern anunciava um tango feroz na letra e na interpretação.

Fui caçando os discos pela internet e, graças à long tail da Amazon e algumas idas a Buenos Aires, hoje tenho todos, incluindo uma coletânea alemã dos quatro primeiros.

Descobri que La Chicana não é um conjunto de tango. É um conjunto de música no sentido mais amplo da palavra. Já li alguns textos que os classificam como uma mistura de tango e rock, mas isso também é um reducionismo do que fazem.

Afinal, quem anunciaria durante um show que vai tocar um sucesso do hit-parade, atendendo os insistentes pedidos das massas, e apresenta o concerto para violinos em ré menor de Bach (com o fabuloso Sebastian Zasali fazendo, no bandoneón, o 2º violino)?

As referências musicais de Acho Estol (compositor e líder da banda) são as mais variadas. Todos os seus discos combinam composições dele e de outros.

Tom Waits aparece desde o começo (e é perceptível sua influência, especialmente nas valsas de Acho), mas também encontramos música cigana, tangos chineses, Kurt Weill e até os nossos Sivuca, Mutantes e Tomzé.

Claro, a escola dos maestros portenhos aparece sempre. Troilo, Gardel, Piazzolla, Solari, Cedrón e tantos outros.

Reconheço que La Chicana não é para os neófitos. Suas melodias não são previsíveis, as harmonias extremamente complexas vão muito além dos 3 ou 4 acordes a que a maioria está acostumada. Mesmo quando interpretam clássicos do repertório, os arranjos estão repletos de modulações e cromatismos que podem soar estranhos aos ouvidos acostumados com o pastiche comercial a que somos expostos todos os dias.

Para tais arranjos se exigem músicos competentes. Muito competentes, o que nunca faltou a La Chicana. A começar do multi-instrumentista Acho Estol (no disco pois, ao vivo, Acho só toca violão...e como toca!) No princípio com Valverde e convidados até chegar na do disco atual com Zasali, Rolón, Clavijo, Basto y Barbieri.

As letras das músicas são um caso à parte. Merecem algum dia o escrutínio de um crítico literário que se debruce sobre as histórias, jogos de palavras e insanidades de Estol, mais uma vez, creio eu, influenciado por Tom Waits.

Para dar significado a essa combinação de letra e música, a voz de Dolores Solá, a Lola. Uma voz potente, sempre afinada e com um toque de interpretação teatral. Seja no extremo lirismo de Una rosa y um farol, seja na rudeza de Peón de ajedrez.

Ao vivo, entre um copo de vinho, um de água e uma canção ela troca com Acho comentários de humor ácido e inteligente.

Claro, para um poeta beatnik sempre há opção: revolução ou picnic!



[1] Essa uma das piadas do espetáculo Antihéroes y Tumbas, quando Acho conta que uma vez foi corrigido por uma pessoa que se apresentou como musicólogo venezuelano. Desde então ele não se refere mais ao estilo da música apenas diz que “tiene um aire de...”

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Maipu 994, 2º piso, ascensor


Não há porteiro, mas há vizinhos e o coquetel que nos recebeu era em família e não a “media luz”.

Não saberia precisar quando foi a primeira vez que me encontrei com Borges. Talvez com Ficções que fazia parte da coleção “Grandes obras da literatura universal” que eu devorei na minha adolescência e juventude.

Na mesma época, a Folha de São Paulo publicou um poema inédito dele, “O deserto”, que me marcou de tal forma que, até hoje, eu tenho o recorte do jornal.

Com o tempo fui descobrindo o mundo através dos olhos já cegos de Borges.  O Aleph, O informe de Brodie, a História universal da infâmia, o Livro de areia, o Jardim dos caminhos que se bifurcam.

Depois todo o resto da poesia, a começar pelo Fervor de Buenos Aires. Os textos críticos, os seres imaginários, as palestras.

A cada ida a Buenos Aires procurava algo novo, até o dia em que encontrei a obra completa publicada pela Emecé. Sua eterna editora.

Depois mais alguns livros póstumos que não saíram, originalmente, nas obras completas.

Desde sempre foi meu autor favorito e minha inspiração de estilo para meus contos estranhos.

Qual não foi minha emoção quando, em novembro de 2014, fomos jantar na casa dos primos Eduardo e Alejandra que moram num apartamento que foi da avó da Virginia.

Endereço? Maipu 994. O prédio onde morou Borges de 1944 até a sua morte em 1986 e onde, até hoje, mora Maria Kodama sua viúva.

Eu não sabia se me colocava de joelhos diante da porta de entrada. Ou se ficava parado olhando para o céu esperando que um tijolo do prédio caísse na minha cabeça e iluminasse minha literatura pessoal.

Hoje o Mens Insana completa 8 anos. Já foi mais rico em textos, mas continua sendo o meu espaço para escrever sobre o nada e sobre tudo.

Hoje Borges completaria 116 anos.

A data do blog não foi escolhida por ser o aniversário do escritor e eu não acredito em coincidências.

O bom é saber que ainda vou poder frequentar várias vezes esse prédio. Assim como vou continuar sempre lendo e relendo o meu herói.

domingo, 26 de abril de 2015

Um deca desafio

Para Letícia e seus desafios de métricas
 
Amigos, carrapatos e formigas
Correndo pelos campos de Lisboa
Cantaram o aniversário das cantigas
E a prosa antiquada de Pessoa

O estrondo sepulcral desta garoa
Em meio a tantas hostes inimigas
Levanta a vela e zarpa da lagoa
Singrando os mares lúdicas lombrigas

Quem és que assim me entrega o desafio
A luta ingrata, um metro tão ecoico,
Um ritmo tão lúgubre e sombrio
Compor este universo paranoico?

Camões a sua mão eu parodio
Soneto em decassílabo heroico

domingo, 12 de abril de 2015

Poemeto sintagmático


Ana lê sem tática
Orações descoordenadas
Que seu avô, cativo,
Apostava restritivas

Detido pelo agente da passiva
Por contravenções sindéticas
Adverbiou-se subordinado
Ante seu adversativo sujeito

Sou objeto sem predicados
E denoto complementos
Ad-hoc e ad-nominais
Sem caráter explicativo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O discurso canalha


“O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.” Nelson Rodrigues

Desde os primórdios o homem se recusou a assumir os próprios erros. Adão disse que foi a mulher, Eva disse que foi a serpente.

A serpente não tendo a quem empurrar a culpa saiu rastejando, mesmo porque não podia nem apontar o dedo nem enfiar o rabo entre as pernas por questões anatômicas.

Time que perde o jogo faz a mesma coisa. Diz que a culpa é do juiz. Da torcida. Dessas regras que inventaram e, se não sobrar para mais ninguém, a culpa é do vendedor de cachorro quente no estádio que gritou mais alto na hora do chute e distraiu o goleiro.

Todos são perfeitos. Todos são maravilhosos. Todos são irrepreensíveis.

Como admitir, diante dessa grandeza e maravilha, que o adversário foi melhor?

Claro que deve ter acontecido alguma coisa estranha. E a coisa estranha só pode ter origens exógenas ao ser impecável.

Roubo, fraude, má fé, estelionato e outras desonestidades quaisquer são exclusivas dos outros. Nunca minha.

Pessoalmente estou cansado desse discurso vaidoso, alarmista e canalha.

Como diriam meus ancestrais: vá apoquentar a sua vovozinha!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Males aleatórios


Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Não havia notícia, meme ou post que não o levasse para a cama com todos os sintomas mencionados na Wikipédia ou site do Dr Dráuzio.

Uma tarde, o paranoico paramédico digitou uma palavra incorretamente e foi parar num glossário de estatística. Não entendeu nada e ficou apavorado, o que é que isso significaria na sua vida miserável e doentia?
Resolveu consultar todos os seus amigos médicos e todos os sites de saúde com a seguinte mensagem:

Doutor,
Preciso da sua ajuda. Estou sofrendo de uma enfermidade misteriosa que não é mencionada em nenhum compêndio médico digital.

Não sei se esta patologia é fatal ou se não é o caso de formar uma junta médica para me examinar e, quiçá, me recomendar algum centro de estudos no exterior.
Tenho tido dores nos quartis com muita frequência, existe a probabilidade que eu esteja com a mediana inflamada, o que pode se configurar num qui-quadrado fora de moda.

Não encontrei nenhum laboratório onde pudesse fazer um histograma. Tenho crises de variância todas as noites, sem nenhum intervalo.
Acredito que minhas medidas de dispersão estão fora da curva. Será que tenho algum outlier no pâncreas?

Se for da sua relevância e, sem querer fazer nenhuma média, percebo que minhas amostras estão cada dia mais aleatórias e sem nenhuma correlação. Estarei com algum desvio padrão?
Meus pictogramas estão muito discretos comparados à população. Minha função bidimensional é cumulativa.

Quem devo procurar? Um médico descritivo ou indutivo para a definição do meu problema.
Eternamente, ou muito atemporalmente, grato

Paramécio das Dores.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Corredor de ônibus


Mariana morava no Grajaú e todos os dias acordava às 5 da manhã para ir trabalhar num escritório de contabilidade na Libero Badaró onde estava há mais de três anos.

A viagem de ida não costumava ser muito sofrida, mas a de volta era uma tortura. Mesmo quando saía pontualmente às 18h não chegava em casa antes das 21h.

O trajeto incluía uma pequena caminhada até a praça do Correio onde embarcava, às duras custas, no 5317. Uma viagem de quase 33 km e depois mais um trecho à pé até a estrada do Capoeira, onde tinha a sua casinha com Horácio.

Os dois estavam juntos há cinco anos. Ela o conhecera numa festa de bairro e, não pouco tempo depois juntaram os trapos e as panelas.

Horácio era um sujeito trabalhador e carinhoso. Tinha uma oficina de motos na Teotônio para onde ia e voltava de casa caminhando. Não acordava tão cedo quanto Mariana e, como sempre chegava em casa antes dela, preparava o jantar para a companheira exausta do dia de trabalho e da jornada de ônibus.

Todo dia, quando chegava em casa, Mariana encontrava Horácio já de banho tomado e no fogão. Algumas vezes estava tão cansada que nem chegava a jantar. Ele a entendia.

A vida de Mariana era tranquila. Gostava do trabalho e era feliz em casa. As horas de viagem de ônibus eram apenas um detalhe desagradável com o qual ela aprendera a conviver.

Até o dia em que foi inaugurada a faixa exclusiva de ônibus no corredor norte-sul.

Como todos os dias, ela saiu do trabalho, caminhou até o ponto de ônibus que, para sua surpresa, estava menos lotado que de costume. Mais surpresa ainda ficou quando seu ônibus chegou em 5 minutos e ela conseguiu embarcar sem ficar com a sensação de sardinha na lata.

Mais surpresas ainda estavam por vir.

Em menos de quinze minutos já estava no Campo Belo. Em seguida ela avistou o Borba Gato. A viagem não tinha ainda uma hora e ela já deixara o autódromo de Interlagos para trás. Parecia um sonho.

Ficou com vontade de voltar para o centro e dar um beijo no prefeito que implantara os corredores de ônibus. Até pagaria os 20 centavos a mais na tarifa.

Não passava muito das 19h30 quando Mariana apertou o botão para o ônibus parar no seu ponto.

Começou a fazer planos. Iria surpreender Horácio e, quando ele chegasse do trabalho iria encontrar a janta pronta. Só ficou frustrada ao ver que as luzes da casa estavam acesas e que não conseguiria fazer esse mimo para o companheiro.

Abriu a porta. No sofá da sala, completamente nus estavam Horácio e Adriana, a vizinha que morava na casa da frente.

Nem ouviu o que Horácio tentou dizer. Virou as costas, voltou para o ponto de ônibus e embarcou, sem destino, no primeiro que passou.

E jurou que nunca mais votava naquele prefeito.

domingo, 28 de setembro de 2014

Insana convidada* - A montanha negra


 
Estamos indo para a nossa nova casa.
Minha mãe esteve procurando, por muito tempo, uma casa qualquer em Santinas, cidade da vovó. Mas nunca encontrava uma casa decente.
Um dia qualquer do mês passado, ela recebeu um e-mail da imobiliária. Nele dizia:
“Olá Srta. Marcia.
Sei que está procurando uma casa em Santinas. Infelizmente todas as casas estão ocupadas.
Porem temos uma proposta.
Foi desocupada na semana passada a casa dos Jacobs.
A filha deles desapareceu há aproximadamente um ano. Então voltaram à cidade natal.
Essa casa que lhe oferecemos fica na Montanha Negra. Um lugarzinho meio frio, com neblina, mas apenas 12km de distância de Santinas.
A estrada é asfaltada e muito acessível.
Segue uma foto da casa...
Atenciosamente                   - Fabiana. “
A casa tinha uma aparência estranha. Moderna e antiga ao mesmo tempo. Solitária no meio da montanha, sinistra.
Diferente de mim, minha mãe achou a casa perfeita, um luxo. (Vai entender).
Naquele mesmo dia:
- Mirella, comprei aquela casa na montanha. Partiremos em um mês.
- Para tudo! Como assim?
- Sim filha, vai se despedindo e arrumando as coisas, deixe as que você mais usa por último. Não esqueça dos quadros!
- Mas já? Está muito cedo!
-Filha. Sua vó precisa de nós por perto. Quanto mais cedo, melhor.
Está bom. Não gostei da notícia. Na real, odiei.
Eu concordava com minha mãe. Agora que meu avô morreu e minha vó ficou sozinha, precisamos estar por perto caso ela tenha uma emergência.
Eu sabia que o dia da mudança ia chegar, isso era inevitável. Mas tudo aconteceu rápido, e um mês não é o suficiente para eu me desapegar da “vida” que tenho aqui.
Enfim.
Um mês depois e aqui estamos, no carro, com um caminhão de mudança atrás de nós, no meio da estrada.
- Chegamos Mi.
Estava lendo meu livro, com os fones de ouvido (nem prestei atenção no caminho) e pensei “droga”.
Saindo do carro me estiquei, olhei para tudo que havia em volta da casa, arvores altas que cobriam minha visão para o céu, um riacho, e um caminho de pedras indicava o caminho para a entrada da casa.
- Onde vai ser o meu quarto? – Perguntei – Quero guardar logo minhas coisas.
- No andar de cima tem 4 suítes, escolha uma! – disse minha mãe, mais preocupada nos vasos de porcelana do que em mim, (novidade).
“Quatro suítes?” “Tudo isso?” “Caramba!”
Subi as longas escadas de madeira, que rangiam a cada passo que eu dava. Cheguei ao andar de cima.
O lugar era moderninho. Os papeis de parede aparentemente novos. No corredor paredes pretas, realmente escuras, o carpete também era preto, e as portas cor de aço.
Visitei a primeira suíte. Era toda azul, mas não aquele azul fofo que se pinta em quarto de bebê, um azul noite, escuro, sombrio até. Havia um beliche ali. Adivinha a cor? Preto. “Não, esse não vai ser meu quarto”.
No próximo, a decoração era pior. Tinha um papel de parede vermelho cor de sangue e em uma das paredes estava escrita alguma frase suicida de um famoso. Achei estranho a ideia de ter uma frase suicida para decorar o quarto, mas como dizia meu avô: Cada louco com suas loucuras. E definitivamente, algum louco morava ali.
Por curiosidade peguei meu laptop de dentro da caixa, sentei no chão mesmo, e pesquisei no Google: FAMILIA JACOBS.
As primeiras notícias que apareciam eram sobre o desaparecimento de Mandy, uma das filhas de Martin e Amanda Jacobs. Nas notícias mais antigas aparecia FAMILIA JACOBS, O MAIOR PROBLEMA DA CIDADE, fiquei curiosa e cliquei na notícia.
Família Jacobs, O maior problema da cidade
Como a cidade inteira sabe, a família Jacobs se mudou para o monte Negro.
Mas quem são essas pessoas? Por que construíram uma casa no monte?
Fui visita-los, e logo me deparei com Amanda, obviamente a dona da casa.
(Havia uma foto no fim da publicação, logo identifiquei Amanda. Uma mulher alta, magra e com cara meio pálida, batom vermelho bem “liquido” e uma sombra preta nos olhos. Bonita, sem exagerar. Sua roupa era elegante, um vestido longo cor de rubi, e um casaco de pele preto sobre os ombros)
Ela me convidou para entrar. E chamou a família para vir cumprimentar-me.
Martin, o chefe da casa, um bom empresário (de acordo com ele), estava no escritório. E as quatro crianças desciam correndo pelas escadas.
Rápido e educadamente me cumprimentaram. Primeiro o mais velho Edmundo, 17 anos, ele ficou me encarando por algum tempo, não disse nenhuma palavra. Apertou a minha mão e se retirou. Observei ele subir as escadas... última porta à direita, será lá o seu quarto?
Sim! O quarto azul com o beliche preto. Só podia ser de um “carinha” mais velho.
Fui ver a foto. Parei diante dela sem acreditar. Ele era muito lindo. Uma mistura de Zac Efron (Alto e musculoso) e Chay Suede (estranho, mas sim.). Estava de jeans e uma blusa de manga comprida da mesma cor que o quarto. Seu cabelo era estranhamente simétrico. Porém não sorria. Assim como ninguém na foto, apenas uma menina loirinha, no canto.
 Logo em seguida Hallana, 16 anos, ela me cumprimentou com um sorriso falso obviamente. –Como vai a vida? – Perguntei educadamente.
- Se a vida fosse tão boa não existiriam suicidas.
Sim! Sim! Sim! A Frase suicida. Olhei para a parede ao meu lado. Exatamente a mesma frase, esse era o quarto de Hallana. Uau. Não sabia o que fazer, sei lá, surgiu uma empolgação.
Abri mais uma aba no Google. Pesquisei Hallana Jacobs. No primeiro artigo falava que ela era acusada de sumir ou até matar a irmã. Mas ela foi liberada. Logo depois, tentou se matar e hoje está internada no Hospital de Suicidas de Maralim (HSM).  “Caramba! Que família”
Ela respondeu e logo foi para o seu quarto, primeira porta à direita. Quarto vermelho. Tentei não demonstrar o pouco de medo que já estava sentindo. Quando Amanda falou pra Gorge me cumprimentar ele me encarou. Queria estar ali tanto quanto eu. Mas de qualquer maneira Gorge, 14 anos, me cumprimentou. Falou que estava feliz pela visita mas que ia se retirar, pois estava jogando videogame. Me desculpei por tê-lo interrompido, mas ele deu de ombros.
Já podia imaginar a última filha deles, provavelmente mais uma psicopata, que me falaria coisas sobre morte, ou decapitação de bonecas. Mas ai, surgiu envergonhadamente, atrás de seu pai (que finalmente saíra do escritório) uma menina loira de cabelos compridos, vestido rosa estampado, e com muita alegria. Ela não parecia filha deles. Era tão diferente.
Essa deve ser a Mandy. A filha desaparecida. E a menina sorridente no canto da foto.
Tive que desligar o computador, além da bateria estar fraca ainda tinha que escolher o meu quarto.
Fui ver o quarto de Gorge. Nem entrei. A cor me dava nojo.
As paredes do quarto eram verdes escuro tipo musgo. Na janela, alguns adesivos sobre videogames famosos. Muitos daqueles de morte ou de bruxas. Os poucos moveis que tinham naquele quarto eram brancos. Todos limpos como se nunca tivessem sido usados.
Fui correndo para o último quarto. Teria que ser aquele. “Por favor Mandy, tenha bom gosto”.
A porta era cor de chumbo como as outras, mas estava cheia de adesivos de bandas de rock. Algumas que eu amava, outras que nem conhecia. Ao abri-la me surpreendi. O quarto era lilás, com alguns adesivos também nas paredes. Os moveis eram brancos, e cheios de espelhos e brilhos. No teto estavam escritas letras de músicas, de bandas bem famosas, como os Beatles, Pink Floyd, e Nirvana.
- Uau! Agora sim um quarto decente.
- Vai ficar com esse ai filha? – Pergunto minha mãe enquanto subia as escadas – Suas caixas estão lá embaixo, pode começar a subi-las.
- Tá mãe. Já vai.
Subi as caixas rapidinho, não via a hora de montar meu quarto ali.
Soquei todas as roupas no armário, e os livros da nova escola deixei nas prateleiras de cima. Arrumei minha coleção de cd´s em uma das prateleiras brancas perto da janela.
Coloquei o computador, o porta lápis, e algumas revistas que comprei no caminho em cima da mesinha. Fiz a minha cama com lençóis preto e branco, e coloquei as pelúcias. Em menos de uma hora meu quarto estava pronto. Ou quase.
Liguei a TV, e fiquei assistindo a tarde inteira.
- Filha?  - Minha mãe entrou no quarto – Seu jantar! – Oba! Macarrão.
- Obrigada.
- Vou passar a noite lá na casa da vovó. Você vem junto?
- Ah não. Valeu. Vou ficar aqui assistindo American Next Top Model, tá muito legal.
- Então ta bom. Depois quero saber o que acontece. Tchau!
- Tchau Mãe!
Eu tomei um banho bem quentinho, coloquei o meu pijama, liguei a televisão, e comecei a jantar.
Na TV estava passando Cake Boss. Adoro aquele programa, é cheio de ideia surreais.
A luz deu umas piscadas. Casa velha né... fazer o que.
De repente escutei um barulho, e logo em seguida a luz acabou.
- Droga! Cadê o meu celular?
- Não, você não precisa dele agora.
- É claro que eu preciso. Vou ligar para minha mãe vir me buscar.
Espera aí.
- Quem é você? – Perguntei espantada.
- Eu? Ah... você não precisa saber disso.
- SOCORRO!! – Eu disse esperando que alguém viesse me ajudar.
- Não vai adiantar gritar. – ela disse rindo – Ninguém te escuta quando se está no meio do nada. – Deu um sorriso e começou a mexer na mesa.
O que eu ia fazer agora? Fugir não era uma opção, por que não havia pra onde ir. Gritar também não ia funcionar. E ela já tinha pego meu celular. Droga!
- Eu vi quando você chegou – disse ela sentando na minha cama – Finalmente alguém veio morar aqui. A casa estava meio abandonada sabe?
- Afinal. Quem é você?
- Você sabe quem eu sou. – Disse ela abrindo o meu computador. – Você sabe de quase tudo na verdade.
- Eu? – Disse.
- Sim. – Ela abre na internet.
Ao ver a tela do meu computador sendo ocupada por aquele blog antigo, entendi quem era aquela desconhecida no meu quarto.
- Então... Você é....
- Sim. “A filha desaparecida” – Disse ela em tom irônico.
- O que você está fazendo aqui? Por que está escondida? Sua família está te procurando.
- É. Eu tenho os meus motivos para sumir.
Eu não disse nada. Não queria ser intrometida. Mas ela continuou.
- Eu era feliz. Mas nem tudo que é bom dura pra sempre.
Ela se levanta.
- Nunca me senti da família. Por que afinal, eu não sou mesmo. – ela olha pra mim – Minha mãe foi morta em um acidente de carro. Eu saí daquela cidade, e ninguém sentiu minha falta. Porém, alguns meses depois, Amanda me encontrou em um parque. Me adotou, e foi muito generosa comigo. Era a mãe perfeita, até se casar. Então eles vieram morar com a gente. Eduardo então se tornou em um monstro. Dava ordens e batia em nós. A casa se tornou triste e obscura. Então resolvemos nos mudar para o Monte.
Eu estava quieta. Olhando para ela.
- O lugar perfeito para pessoas estranhas, não havia vizinhos, e nem movimento. Eu não sei o que aconteceu, mas minha mãe ficou tão séria e depressiva, começou a parecer com a família.
Um dia qualquer, enquanto eu colava os adesivos o teto. Descobri aquela passagem – Ai então, aponta para o buraco no teto pelo qual entrara. – Comecei a andar lá por cima. E descobri que poderia me levar para qualquer lugar da casa. Mas essa minha descoberta não valeu a pena. Descobri o que eles iriam fazer.
- Temos que matá-la papai! Ela não se parece conosco. Ela não é uma de nós. – Disse Gorge
- Nem filha da Amanda ela é! – Hallana disse, com tom superior.
- Concordo com os dois. Mas não será fácil nos livrarmos da Mandy, sem Amanda saber. – Eduardo disse analisando a situação.
- Então vamos matar Amanda também! – Edmundo gritou
- Não posso. – Disse Eduardo. – Amanda não.
- Vamos envenena-la. Assim, ninguém saberá. – Gorge deu a ideia.
- Sim sim. – Hallana bate palmas. – Amanhã pela manhã.
- Amanhã. – Disse Eduardo logo depois de acender seu cigarro.
Não podia acreditar. Eles tentaram matar Mandy?
- Então eu escrevi um bilhete dizendo que ia procurar minha família biológica. E que poderia demorar para voltar. E então com um pouco de comida, me mudei para sótão. 
Então. Tinha uma menina escondida no sótão por que os pais queriam matá-la. Legal... mas eu não podia ficar sem contar isso para alguém.
- Agora que você sabe de tudo. – Ela pegou um salgadinho da minha mesa. – Obrigada.
Não deu instantes eu já não via mais ela.
Subi no sótão e nada encontrei, apenas algumas teias de aranha, e uns moveis velhos da antiga família. Nenhum sinal de vida. De repente escuto a porta do sótão bater. E atrás dela havia escrito Ela está morta.
 Não acreditei, eu tinha visto alguém no meu quarto, tinha que ter alguma coisa naquele sótão.
- Desculpa, está procurando a Mandy? – disse uma voz masculina atrás de mim – Esquece. Ela se foi.
Me virei calmamente e vi Gorge, um dos irmãos, e atrás dele Mandy, morta. Não deu tempo de perguntar o que tinha acontecido. Gorge estalou os dedos e desapareceu.
- Só me faltava essa... Bruxos.
 
*Texto de Letícia Ribeiro, escrito originalmente para um trabalho escolar