terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Peregrino

Quando José começou sua caminhada não sabia se ia parar em Belém do Pará, Belém da Judéia ou em Belém, Pensilvânia.

É verdade que sua confusa falta de cultura geral fazia com que temesse vampiros se fosse para a última.

Só tinha certeza que deveria ir em direção setentrional. Precisava achar o seu norte.

Nos primeiros dias a caminhada foi tranquila, ao final da primeira semana os pés começaram a doer e o ritmo dos passos diminuiu bastante.

A segunda semana foi de poucos progressos e muita água boricada nas bolhas que tinham se formado. Pouco a pouco foi se tornando um homem calejado.

Tilomas formados, o ritmo voltou a aumentar e, em poucos dias já tinha ultrapassado a sua meta. Resolveu descansar por um dia inteiro.

Alojou-se num hotel de caminhoneiros na beira da estrada e dormiu o sono dos justos.

No dia seguinte, durante o café da manhã, conversando com alguns motoristas, conheceu Jorjão, que transportava milho pipoca no seu Fenemê ´62.

Apesar da idade do veículo, Jorjão era modernoso e carregava um IPhone 4s no cinto (segundo ele, ainda não tinha passado pela civilização para comprar o IPhone5).

Segundo o sinesíforo, chegar a Belém era a coisa mais simples do mundo. Digitou no seu GPS e disse que estava no seu caminho e ofereceu carona.

José relutou um pouco, mas os seus calos o conveceram que esta era a melhor opção.

Não demorou muito para que José adormecesse na boléia do caminhão. Quando acordou já era noite e a primeira coisa que avistou foi a torre da igreja.

Pensou tratar-se da igreja da Natividade e agradeceu Jorjão por tê-lo ajudado a chegar a seu destino.

Pegou sua trouxa, desceu do caminhão e foi em direção à igreja.

Foi atacado por 3 trombadinhas na rua Cajuru e acordou todo quebrado no hospital.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Não é o fim

Segundos linguistas da Nicky Hopkins University de Eufala no Alabama, as línguas maias são descendentes semi-genéticos de uma protolíngua chamada protomaia, ou em maia quiché, Proto Nab'ee Maya' Tzij. O que sempre foi uma questão protuberante para os protozoários.

Crê-se que a língua protomaia teria sido falada nas terras submersas de Biotopo Chocon Machacas numa área que corresponde aproximadamente àquela onde hoje em dia se fala pessimamente o inglês da CNN.

A primeira divisão zigótica da língua ocorreu por volta de 2200 a.C. quando o huastecano se separou da língua maia original, após os seus falantes terem se desentendido a respeito da palavra correta para designar as lhamas e se deslocarem para noroeste ao longo da costa do golfo do México.

A seguir foram os falantes de proto-iucatecano e proto-cholano que se separaram do grupo principal, novamente por questões nominalistas que debatiam se uma rosa continuaria sendo uma rosa se tivesse outro nome e também se deslocaram para norte até à península de Iucatã.

Tantas foram as divisões e migrações para o norte que até hoje existem tribos de Nunavut, no norte do Canadá, que usam uma corruptela da língua maia à qual dão o nome de eskimoenglish.

Os falantes do ramo ocidental deslocaram-se para sul, para as regiões atualmente habitadas pelos povos mam - precursores de toda a arte moderna - e quiché  - criadores da famosa torta de queijo que se tornou popular na região de Loraine e nos restaurantes contemporâneos.

Mais tarde, falantes do proto-tseltalano separaram-se litigiosamente do grupo cholano e deslocaram-se para sul até ás terras altas de Chiapas, onde entraram em contato com falantes das línguas mixe-zoqueanas. Nesse ponto, a zorra se tornou quase total, a ponto de gerar revoluções sangrentas na região.

Durante o período arcaico (não confudir com o período arcádico, que também é arcaico) parecem ter entrado na língua protomaia várias palavras com origem em línguas mixe-zoqueanas.

Esta constatação conduziu à hipótese de entre os primeiros maias predominarem os falantes de línguas mixe-zoqueanas, possivelmente da cultura olmeca. Por outro lado, nos casos da língua xinca e da língua lenca, as línguas maias são mais fornecedoras que receptoras de empréstimos linguísticos cobrando juros superiores aos do cheque especial no Brasil.

Isso explica essa confusão toda criada por proto-apocalípticos que decretaram para hoje o fim do mundo.

Achando que estavam traduzindo o termo "estu modu" diretamente do mixe-zoqueano esqueceram que a famosa pedra foi criada no período proto-cholano, quando signifcava o final de uma trilha estreita ou, em bom português, uma picada.

A picada, que conduzia do centro da tribo até a praia indicava que, ao final dela, além mar, estava o resto do mundo. Simbolicamente, os mixe-zoqueanos atribuiram a expressão "fim-da-picada" a todo resto do universo que estava adiante.

Se você não acredita, basta reparar que já passa da meia noite e o mundo não acabou.

O que não deixa de ser uma ótima oportunidade para começar a estudar receitas de quiché.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Meu reino por um cavalete

Cavalete já foi apoio para pintura de grandes obras de arte e instrumento de tortura para grandes mártires.


A invenção eleitoral para garantir a poluição visual da cidade foram os cavaletes espalhados em calçadas, gramados, ciclovias, rampas de pedestres.

Além da poluição visual, eles são o supra sumo da propaganda ecologicamente incorreta. Sabe-se lá quanta madeira foi usada e quanto de impressão em material derivado de petróleo.

O mais irônico disso, pelo menos no meu trajeto habitual é que o candidato que mais gasta madeira e polui visualmente... é do Partido Verde.

Fica aqui minha contribuição para a campanha:

A cavalete dado não se olha a coligação

Para alguns candidatos, o castigo veio a cavalete

Quem nasceu para santinho nunca chega a cavalete.

Não foi reeleito. Caiu do cavalete.

Cavalete bom e candidato eleito a gente só conhece na apuração.

Quem faz o cavalete é o dono.

Mulher, arma e cavalete de armar, nada de emprestar.

Uma estrela dourada não faz do banner um cavalete.

Enquanto houver cavaletes, São Paulo não dará pé.

Cavalete de viúva só anda emprestado.

Cavalete de campo não bebe água de balde.

domingo, 30 de setembro de 2012

Im- previsões

Davam-se como o vinho e a toalha de mesa (Fabrício Carpinejar)

Ninguém entendeu quando ele entrou à esquerda ao invés da direita. Não era aquela a direção que os levaria de volta para casa.

A irmã perguntou o que é que ele estava fazendo, ele disse que estava indo até ali. Mistério.

A namorada olhou para ele com um misto de curiosidade e cumplicidade. Poderia até não saber das suas intenções mas confiava no que ele fazia.

Ele poderia até ter a intenção de surpreendê-la, mas sabia que era algo que beirava a impossibilidade absoluta.

Além de nunca terem tido segredos entre eles eram tão parecidos que algumas vezes se assustavam com isso.

Pegou outra rua que levava em direção oposta à da casa. A irmã se inquietava a cada nova troca de rota.

Ela e o cunhado tinham sido convidados para um almoço, algo comum desde que o irmão e a namorada moravam juntos.

Ele parou o carro num estacionamento. Pediu para todos descerem.

Caminharam meio quarteirão e entraram no cartório. Só a irmã e o cunhado seriam as testemunhas do casamento.

A namorada olhou para ele e sorriu. Desde que ele pedira cópia dos documentos dela e a assinatura em um papel em branco ela sabia o que ele iria aprontar, só não sabia quando.

Era como comemorar sobre o vinho derramado.

Viveram felizes para sempre com suas previsibilidades surpreendentes.

domingo, 23 de setembro de 2012

Um sonho. Uma traição

Mensagem
Já fazia um certo tempo que eu não traía alguém por aqui. Hoje eu não resisti. Se quiser ouvir uma linda versão declamada, clique aqui

Um sonho


Essa noite eu sonhei que sonhava com você
Da janela, através do jardim, te admirava se desnudando
Um traje de entardecer púrpura tecido em seus cabelos
Aquela rosa estrangulada em cachos de ébano
Movendo-se na luz amarela do seu quarto.
O ar úmido de sons
O ganido distante de um cão ferido
E o chão bebendo de uma torneira mal fechada
Sua casa é tão suave que desaparece sob o atro calor do verão
Uma luz se apaga. A porta se abre
Um gato amarelo corre sob o facho de luz em direção ao quintal.

O aroma amadeirado da cerejeira exala pelo ar
Ouço sua risada espumante
Você leva duas orquídeas lavanda
Uma no cabelo, outra na cintura
Uma cadeia de luzes amarelas chocantes vem com o crepúsculo
Circundando o lago com um halo gotejante
Ouço um banjo tocando tango
E você dança à sombra do negro tulipeiro

Enquanto olho você esvanece
Enquanto olho você está esvanecendo
Enquanto olho você esvaneceu.

Watch her disappear
Tom Waits

Last night I dreamed that I was dreaming of you
And from a window across the lawn I watched you undress
Wearing your sunset of purple tightly woven around your hair
That rose in strangled ebony curls
Moving in a yellow bedroom light
The air is wet with sound
The faraway yelping of a wounded dog
And the ground is drinking a slow faucet leak
Your house is so soft and fading as it soaks the black summer heat
A light goes on and the door opens
And a yellow cat runs out on the stream of hall light and into the yard

A wooden cherry scent is faintly breathing the air
I hear your champagne laugh
You wear two lavender orchids
One in your hair and one on your hip
A string of yellow carnival lights comes on with the dusk
Circling the lake with a slowly dipping halo
And I hear a banjo tango
And you dance into the shadow of a black poplar tree

And I watched you as you disappeared
And I watched you as you disappeared
And I watched you as you disappeared

sábado, 22 de setembro de 2012

As gêmeas

Mensagem
O pai era um fumante inveterado, a mãe tinha uma compulsão paranóica em relação a traças.
 
Apesar disso todos se chocaram quando as gêmeas nasceram e receberam os nomes de Nicotina e Naftalina. Tanto que o escrevente do cartório exigiu uma declaração do pai assumindo a responsabilidade pelos nomes.
 
O padre recusou-se a batizá-las. A mãe foi se queixar com o bispo. De nada adiantou. Só receberam o sacramento porque encontraram uma paróquia dissidente da igreja, cujo sacerdote topava qualquer parada.
 
Os familiares acabaram por chamar as meninas de Tina e Lina, o que não as poupou de todo tipo de gozação quando foram para a escola. Cresceram revoltadas com a situação e nunca perdoaram os pais pelos constrangimentos que passaram.
 
Tina acabou tornando-se uma extremista radical anti-tabagista, mas sempre foi vista de forma suspeita dentro do movimento. Os líderes do grupo reconheciam que era impossível promover a causa tendo como militante a própria Nicotina.
 
Lina formou-se em biologia, especializou-se em lepismatídeos. Sua mãe ameaçou deserdá-la caso trouxesse os seus bichinhos para casa.
 
Tina nunca se casou. Todos os seus pretendentes eram fumantes.
 
Lina namorou durante anos um químico especializado em hidrocarbonetos aromáticos, mas acabou casando com um colega que se dedicava ao estudo de termitas.
 
Quando seus pais morreram resolveram que era a hora de mudar de nome. Entraram na justiça com o pedido.
 
O juiz, um sujeito de muito bom senso reconheceu rapidamente o rídiculo da situação.
 
Só indeferiu a causa porque Nicotina pediu para se chamar Varenicila e Naftlina queria adotar o nome de Thysanura.

domingo, 26 de agosto de 2012

Um paradigma a menos

Mensagem
Ela achava que tinha saído com ele apenas para tomar um café. Quando muito uma caminhada pelo shopping
 
Não se surpreendeu quando ele perguntou se poderia levá-la a um lugar diferente, sabia que ele era um sujeito criativo e aceitou o convite.
 
Tomou um susto quando ele embicou o carro na entrada do estabelecimento. Chegou mesmo a corar, em seus não poucos anos de vida ela nunca tinha entrado num lugar daqueles.
 
Era uma mulher extremamente pudica e recatada, nunca imaginou que poderia fazer aquele tipo de programa fora das quatro paredes da sua casa.
 
Não era tão ingênua a ponto de não saber o que iria acontecer mas, para ela, aquilo era uma coisa de mulheres muito diferentes dela, mulheres liberais...ou liberadas, como definir melhor?
 
Ao mesmo tempo sentiu, sem tentar demonstrar, um certo entusiasmo com a ousadia dele.
 
Ele percebeu a mistura de desconforto e excitação nos seus olhos. Elegante, antes de entrar, perguntou de novo se ela topava o programa.
 
Ela respondeu com a voz trêmula que sim, mas fez questão de deixar claro que era a sua primeira vez e que ela não sabia exatamente como agir.
 
Além do que, nunca passara pela sua cabeça pagar para ter acesso aquele tipo de coisa.
 
Entraram. Ela se manteve calada por um tempo.
 
Ela olhava cada detalhe do lugar com um certo temor. Já ouvira falar daquele tipo de instalação e dos seus equipamentos, encantou-se ao vê-los pessoalmente.
 
Ficou particularmente encantada com o grande tanque de água no fundo do salão. Parecia um sonho de espuma.
 
Ele tratou toda a situação de forma muito delicada procurando deixá-la à vontade o tempo todo. Foi bem sucedido.
 
No caminho de volta ela confessou. Sempre acreditara que roupa suja só se lavasse em casa. Naquele dia tinha descoberto o prazer de deixar toda a roupa numa lavanderia.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um dia de pais

Mensagem
Lendo uma mensagem do Markiano Charam (Filho) me coloquei a refletir o que carrego em mim do meu pai e o que, talvez meus filhos levarão de mim.
 
Com o meu pai aprendi muito, especialmente a pensar, pesar contrários, formar a minha própria opinião, nem sempre igual a dele.
 
Aprendi olhar para o passado como lição e para o futuro com muito planejamento.
 
Aprendi a ser irônico e a entender que muitos não entenderiam isso e outros se ofenderiam (e como se odendem...).
 
Aprendi a ser generoso e não me apegar excessivamente aos valores materiais.
 
Herdei o prazer pela leitura. A mania de colecionar tranqueiras. A obssessão por catalogar tudo.
 
Nenhuma dessas coisas ele me ensinou em conversas e lições, todas foram transmitidas pela sua vida e seus exemplos.
 
Sendo pai há quase 14 anos também vejo características minhas nos meus filhos que vão muito além da genética.
 
Posso ensinar matemática, português ou geografia para os meus filhos mas, valores e comportamentos eles só vão aprender a partir daquilo que eu mostrar para eles.
 
Que eles possam ser sábios o suficiente para reter o que é bom e descartar o que não vale a pena.
 
Descrição da imagem : foto do meu pai e minha filha (faltou meu filho, mas não tenho fotos recentes só com os três).

domingo, 29 de julho de 2012

Esplênio em distensão

Tária não era exatamente uma mulher qualquer, especialmente quando tornava-se imperativa.

Combatia ferozmente as mesóclises sem futuro, atribuindo-lhes ênclise quase que subjuntivamente exaltadas.

O infinito pessoal preposicionado chegava a lhe causar engulhos nada relativos.

Seus amigos eram apenas demonstrativos oblíquos quando lhe acometiam acessos subordinativos.

Com o tempo foi se tornando (ou tornando-se) uma louca varrida com piaçava flexionada em átonos.

Educadora que era, reconhecia sua queda para o segundo, uma vez que não suportava estar acima dos quintos.

Debruou-se laminarmente com o verbos defectivos aplicando emplastros repletos de cânfora.

Passou a perambular pelas ruas bradando metilas descompassadas.

Louca, louca, louca Tária. Conquistou meu esplênio em pleno inverno.

Acalminou-me de forma quente e apaixonada.

Louca Tária. A mulher que descontraiu as minhas mais profundas estruturas

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um caso patológico


Ela definitivamente exibia um estado mórbido típíco da região dos mortos. Uma infusão grego latino a tornou o que era.

Casou por dinheiro, como se casavam muitas das romanas de sua época. Lycisca que o diga.

Mas não era uma qualquer, instalada nos recônditos das pedras pequenas ela se elevava sobre as oficinas de uma forma quastuosa.

Pedia referências sempre. Além de se certificar de todas as comprovações possíveis antes de se envolver com estranhos.

Queria ter certeza de que seu objetivo seria cumprido, não era uma garota de programa, queria remuneração de longo prazo.

Sabia de histórias medonhas de outras carcamanas que, em troca de parcas garantias, tinham se entregue a picaretas e sido vítimas de ursadas.

Não queria saber de trocas frequentes de alicerces. Nem se emparedava sem contrapartidas.

Rendeu-se pedagogicamente quando encontrou o seu objetivo. Um ser inteligente que falava várias línguas e fiador de bons costumes.

Contraiu matrimônio como quem fecha um grande negócio. Condominiou-se territorialmente com ele.

E foi feliz pela duração do contrato.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bonança

Mensagem
"We are such stuff as dreams are made on." (William Shakespeare)
 
Quando ele viu aquele rosto algo lhe disse que era conhecido. Extremamente conhecido, apesar disso não sabia exatamente de onde, ou quando.
 
Ela sorriu para ele e veio na sua direção. Ele retribuiu o sorriso e começou a pensar em formas de driblar a memória que o traia sempre quando mais precisava dela.
 
Foi salvo pela frase que ela usou para cumprimentá-lo. Não conversavam desde o dia da formatura dela.
 
As imagens começaram a correr rapidamente pela sua mente. Ele a conhecera na sua festa de formatura. Era a namorada de um dos seus colegas de classe.
 
Meses depois ele foi à formatura dela, que era da mesma classe de uma das suas primas.
 
Como ela ainda estava com seu ex-colega, acabaram sentando na mesma mesa e conversaram bastante durante a festa. Especialmente sobre Shakespeare de quem ambos gostavam.
 
Nos anos seguintes tiveram encontros esporádicos. Uma vez num corredor de um shopping center, onde ela passeava com a irmã. Outra vez, em outro shopping,  cruzando nas escadas rolantes.
 
Perguntou o que ela fazia naquele evento. Lembrava que ela era médica e estranhou sua presença numa festa de entrega de um prêmio de jornalismo. Ela estava lá ajudando a irmã que era a responsável pelo buffet da festa.
 
Trocaram telefones e se despediram.
 
Nos dias seguintes a imagem dela não saia da cabeça dele. Não sabia se ela estava com alguém, arriscou convidá-la para ir ao teatro e jantar. Ela aceitou o convite.
 
Foram ver "A tempestade". No meio do segundo ato, quando Gonzalo dizia que ali tudo era vantajoso para a vida, ele notou que ela abria discretamente a bolsa.
 
Sairam momentos depois. Ela recebera uma chamada do hospital e precisava ir ver um caso de urgência.
 
Ele a levou e ficou esperando. Quando ela ressurgiu ela cochilava na sala de espera. Já era de manhã. Ela o convidou para tomarem café juntos.
 
Entre uma xícara e outro descobriram-se um no outro.
 
Entre uma xícara e outra entenderam porque o tempo demorara tanto em aproximá-los.
 
Cada um era o sonho e além do sonho do outro.
 
E cada um passou a ser a vida e muito além da vida do outro.
 
Imagem: "Miranda - The Tempest" de John William Waterhouse

domingo, 8 de julho de 2012

Vida animal

Mensagem
Quandos os ratos saem o gato faz jejum
 
Quem não tem cão não caça cocô na rua
 
À noite todos os gatos são parcos
 
Pagou o pato mas dispensou o couvert
 
Cada macaco na sua tribo virtual
 
Uma andorinha não provoca aquecimento global
 
Cão que ladra não deixa o vizinho dormir
 
Macaco que pula de galho em galho quer DST
 
Lobo em pele de cordeiro é perseguido pela PETA
 
Gato escaldado não morre de alegria
 
A perua não se veste na véspera
 
Focinho de porco não é filtro de linha
 
Em rio que tem piranha, jacaré vive arranhado
 
Se correr o bicho pega, a menos que seja uma tartaruga
 
Filho de peixe, alevino é.
 
Passarinho que come pedra morre de cálculo renal
 
Não se cutuca onça. Ponto final

domingo, 10 de junho de 2012

Lux in tenebris

A vida lhe parecia uma noite interminável. E, de fato, era uma noite interminável.

Não que não gostasse totalmente da escuridão mas a lua era uma companhia inconstante mudando de face todas as semanas e as estrelas se tornavam mais distantes à medida que a poluição urbana foi aumentando com o passar dos anos.

Desejava o sol, aquele que aparecia nas fotos das revistas com as quais topava nos becos onde se refugiava do frio, mas tudo que encontrava eram sombras e penumbra.

Algumas vezes acreditou que tinha encontrado a vereda que o levaria à luz. Entrou em túneis longos e úmidos imaginando encontrá-la no final deles.

Saiu de todos e cada um deles de volta ao breu.

Até o dia em que chegou à conclusão que a tal vida ensolarada era apenas uma ilusão criada pela literatura e pela imprensa. E desistiu de procurar.

Passou a se contentar com a aparição quase mensal da lua cheia. Nem sempre surgia, se escondendo atrás das nuvens de alguma frente fria.

Eventualmente, em noites mais claras, fixava seu olhar em alguma estrela.

O que ele nunca imaginou é que numa noite nublada, poluída e triste uma estrela na qual ele nunca reparara começaria a brilhar de uma forma mais intensa.

Num primeiro momento achou que era o final dos tempos. Estrelas não cresciam dia após dia como aquela.

No entanto, a medida que os dias passavam, a tal estrela brilhava mais forte e chegava cada vez mais perto.

Aquele brilho começou a iluminar o que estava a seu redor. Tenuemente, a princípio, depois foi se espalhando.

O mundo a seu redor foi ficando mais bonito, as cores foram aparecendo, as nuvens se tornavam mais claras, até conheceu mares que nunca vira antes.

Campos de flores, pássaros de todas as plumas, até os precipícios se mostravam deslumbrantes.

A estrela chegou tão perto que o invadiu e o arrebatou com luz e calor. Era infinitamente melhor do que aquilo que vira nas revistas.

Envolvido, guardado e cuidado pela imensa fonte de luz, ele reconheceu que sua vida começara, enfim, a ter sentido.

*Imagem: foto do quadro "Sunset" de Virginia Susana Fantoni

sábado, 9 de junho de 2012

Desafiando Neruda

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está nublada
e se escondem, ao longe, todas as angústias"

O vento da noite aquietou e o céu está em silêncio.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Eu a quero e todas as vezes ela também me quer

Em noite como essa a tenho em meus sonhos
e a beijo sem parar sob o céu infinito

Ela me quer e todas as vezes eu a quero também
Impossível não amar os mais lindo de todos os olhos.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Saber que a tenho. Sentir que nunca a perderei

Ouvir a noite imensa, ainda mais imensa com ela
Os versos caem na alma como uma tromba d´água

Que me importa se a noite está fria e chuvosa
Se a guardo no meu coração.

Isso é tudo. Ao meu lado a música continua
Minha alma está contente de tê-la

Como para me achegar a ela meus olhos a vem
Meu coração a tem e ela está comigo

Na mesma noite que escurece todos os gatos
Nós, desde sempre, nos tornamos um

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
Meu ouvido busca sua voz e toca o vento

Só minha, sempre minha. Como antes dos meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
É tão curta a vida para tão grande amor.

Porque em noites como essa a terei em meus braços
Minha alma não se contenta antes que chegue esse dia

Mesmo que esta seja a temporária dor que me causa
E esses sejam apenas mais uns versos que te escrevo.

sábado, 12 de maio de 2012

Pancetta atômica

Mensagem
A despeito do patronímico, Hilário era um sujeito taciturno e macambúzio, não poucas vezes sorumbático.
 
O que não o impedia de desenvolver suas atividades profissionais de forma metódica e eficiente, lidava bem com as pessoas, mas não permitia nenhum tipo de aproximação que ultrapasse os limites da formalidade.
 
Seu estilo soturno também não o impediu de se casar e ter filhos. Estela, a esposa, era uma mulher alegre e divertida e apaixonada pelo marido.
 
Hilário, além de calado e metódico, era também um homem cheio de manias. Rejeitava quase a totalidade dos equipamentos modernos, usava o computador por necessidade profissional mas, em casa, se recusava a ter como cafeteiras elétricas (ainda que tivesse se rendido ao filtro de papel), máquinas de secar roupas (o sol e o vento existiam para isso mesmo) e, menos que tudo, forno de microondas.
 
Estela não dava bola para a cafeteira, afinal, quem fazia o café era sempre Hilário, nem com a máquina de secar que achava um trambolho e, de qualquer forma, não caberia na área de serviço. Já o forno de microondas era uma demanda desde o primeiro dia da lua de mel.
 
Quando as crianças nasceram ela passou a fazer campanha ostensiva, especialmente na hora de esquentar as mamadeiras e as sopas. Um dia Hilário cedeu, mas deixou claro que ele não colocaria a mão no aparelho. E assim foi.
 
Estela fez cursos, leu manuais e, em poucos meses, era especialista em microondas. Chegava ao requinte de fazer receitas complexas usando o inimigo número 1 de Hilário, que nunca admitiu gostar de qualquer prato que ele percebesse tivesse sido feito ou esquentado no tal forno.
 
Um dia Hilário foi para o fogão, como costumava fazer de vez em quando, e preparou sua especialidade: omelete. Não era qualquer omelete, rica em ingredientes e temperos exóticos que só ele sabia quais eram, sempre era demandada pela família.
 
Deixou a omelete pronta e foi tomar banho. Quando voltou para o jantar a mesa estava posta com os demais pratos e a omelete dentro do microondas para esquentar. Olhou feio, mas não quis criar caso com a mulher na frente das crianças.
 
Todos à mesa e, do nada, começaram a ouvir barulhos. POF!! POF, POF, POF!
 
POF, POF, POF, POF, POF....era a omelete dentro do microondas explodindo como se estivesse fazendo pipoca. Hilário deu um pulo e tirou o forno da tomada antes que explodisse tudo. Estela,atônita, não entendia nada, afinal nada que ela conhecesse impedia o uso do microondas para esquentar omeletes.
 
Aberta a porta do forno, o desastre estava armado. Pedaços de omelete para todos os lados. Uma baderna só.
 
Hilário olhou para Estela e, pela primeira vez na sua vida teve um ataque de risos. Incontrolável. As crianças, que nunca tinham visto o pai tão alegre, começaram a rir juntas. Estela enfrentou a situação com seu bom humor habitual, culpou a pancetta que Hilário tinha usado na preparação do prato, limpou toda sujeira e pediu que o assunto nunca mais fosse mencionado.
 
De nada adiantou o pedido. Todas as vezes que alguém falava no microondas, o assunto da omelete atômica ressurgia. E Hilário tinha outro ataque de risos.

domingo, 6 de maio de 2012

Português pós-moderno

O prefixo "equi" tem originalmente o sentido de plano, justo, liso. Na língua portuguesa indica coisas iguais ou muito similares, como podemos notar em palavras como equilátero, equidistante e o verbo equiparar.

Quando queremos nos referir a algo que é diferente usamos outros prefixos como "para" (paradoxo, paródia) ou o mais radical "anti" (antitetânica, antítese).

Isso posto, gostaríamos de revisar algumas definições que os nossos dicionários teimam em publicar de maneira errônea:

Equino: se refere a cavalos da mesma espécie. Dois cavalos árabes são equinos. Um cavalo árabe e um quarto de milha são apenas paraquinos

Equipe: grupo de pessoas que se reúne para praticar um esporte ou alguma atividade competitiva. São consideradas equipes de verdade todas aquelas formadas por pessoas iguais. Os tenistas Bob e Mike Bryan, tenistas gêmeos, são uma equipe. O time do Corinthians, pela sua diversidade é uma antiquipe.

Équidna: um ser muito estranho e quase único. Junto com os ornitorrincos, são os mamíferos que botam ovos. Como não existe nada igual a eles, deveriam abandonar definitivamente o prefixo "equi". Além disso, sendo monotremados e o trema tendo sido abolido da língua, são animais em extinção em países de língua portuguesa.

Equipamento: não é o conjunto de acessórios utilizados por uma equipe, como muitos podem pensar, mas os instrumentos necessários para uma determinada função. Equipamentos podem ser militares, esportivos e profissionais. Só pode ser considerado equipamento aquele que é idêntico ao do seu vizinho.

Equivocado: é o sujeito que erra sempre da mesma forma.

Equimose : mancha escura resultante de uma hemorragia quando você leva, pelo menos, duas pancadas que formam manchas equivalentes. Uma mancha isolada é uma monomose, manchas de tamanhos ou cores diferentes são paramoses.

Na próxima aula vamos estudar a questão do sufixo "ão" e explicar a diferença entre Paquistão e irmão.

domingo, 22 de abril de 2012

Desaforismos sabatinais

Mensagem
De vez em quando me pego pensando em voz alta e descubro que é o eco.

Nenhum slogan, por mais pegajoso que seja, acrescenta conteúdo a uma ideologia vazia

Apesar de parecer que não, todos os dias chegam ao seu fim.

Separação é como guerra, apesar dos esforços de propaganda, nenhum dos lados tem razão.

Questionada sobre as qualidades dele ela emudeceu, Nunca tinha sido apresentada a elas.

Pegue uma idéia da qual você discorde. Distorça-a até ela se voltar contra quem a criou. Depois é só olhar o circo pegar fogo.

domingo, 15 de abril de 2012

A professora de sueco

Ernani conheceu Linnea numa festa das nações no clube. Ele estudante de direito, ela secundarista e filha do cônsul sueco no Brasil. Paixão à primeira vista.

Mal ele se formara, ela disse que o pai estava sendo transferido para Seychelles. Ele não teve dúvida, pediu-a em casamento, que aconteceu poucos meses depois.

Tiveram três filhos Lennart, Ingrid e Axel. Todos educados de forma bilíngue, falavam fluentemente português e sueco. Para que não perdessem a prática, a mãe só falava com eles em português se fosse em algum papo sério com a presença do pai.

Ernani nunca se importou com as conversas corriqueiras numa língua que não entendia e, quando iam para Malmö visitar a família a mulher e os filhos lhe serviam de intérpretes.

Até o dia em que descobriu que no mesmo prédio da firma havia uma professora de sueco. Foi conversar com ela na hora do almoço. Queria aprender a língua, mas ninguém poderia saber que ele ia lá, queria fazer uma surpresa para a família na próxima vez que viajassem.

Maja, a professora, era uma mulher muito discreta. As aulas eram na hora do almoço todas as semanas. Ernani se revelou um excelente aluno e, em poucas semanas, já se virava na língua da família.

Aliás, se virava tão bem que tinha que se controlar em casa para não entrar nas conversas da mãe com os filhos. Se demonstrasse alguma compreensão acabaria estragando a surpresa.

O que ele não poderia esperar era começar a ter problemas para ir às aulas. O escritório conquistou um mega cliente e sua agenda foi ficando cada dia mais apertada. Cancelou uma aula, duas, três. Começou a repor as aulas perdidas em horários pouco usuais, inclusive chegando em casa mais tarde do que o habitual.

Uma noite chegou mesmo a ouvir a mulher comentando com a filha: "- Jag tror att din far är att ha en romace med en annan kvinna..."*

Ele não se conteve e deu uma gargalhada. As duas não entenderam nada, mas ele foi rápido e disse que ria de uma notícia no jornal.

O desastre só aconteceu no dia em que perdeu o avião para voltar do Rio de Janeiro e pediu para a secretária ligar para a professora para desmarcar o "compromisso que eles teriam". A secretária ligou, deu o recado e, em seguida telefonou para Linnea.

Quando abriu a porta de casa foi recebido com objetos voadores vindo em direção à sua cabeça e com gritos em sueco se referindo a ele como um safado traidor.

Ele não teve escapatória, senão responder tudo em sueco. Linnea ficou perplexa e sem ação.

No dia seguinte Ernani levou a mulher para conhecer a professora. A surpresa tinha ido por água abaixo, mas o casamento estava salvo.

*Acho que seu pai está tendo um romance com outra mulher...

terça-feira, 13 de março de 2012

Casos heterodoxos

Ela se considerava uma equação de terceiro grau, até se apaixonar por um matemático quando, enfim, se tornou uma mulher resolvida.

Ele admitia que ela não tinha nenhum diferencial, ainda assim a amava de forma integral.

Todos a achavam brega por ficar mandando beijos no coração. Ela se justificava dizendo que sua frustração era não ter conseguido ser cardiologista.

Ela sempre sonhou em usar um sapatinho de cristal. Acabou no pronto socorro depois de pisar numa garrafa quebrada e encher o pé de cacos de vidro.

Ele achava que até matar baratas era crime ecológico, o que nâo o impediu de chutar o fox paulistinha que urinou na sua perna.

Passou a vida inteira na corda bamba. Se aposentou com artista circense depois de 50 anos de serviço.

domingo, 4 de março de 2012

Um só coração


MensaNão me venha Vinicius com essa história de amor infinito enquanto dure... se é infinito é também eterno.

Não me venha Drummond com essa história de o primeiro amor passou....se passou não era amor.

Não me venha Rachel de Queiroz dizer que o amor começa a morrer no dia que nasce, o amor não é apenas uma célula (ou, como diria Deleuze, são organismos que morrem, não a vida).

Não me venha Gautier dizer que só a arte é eterna, nenhuma arte se constrói fora do amor.

Não me venham tantos outros falar do amor verdadeiro, amor falso não é amor

O que o meu coração se lembra todas as manhãs são as palavras do mais sábio de todos os homens, Salomão, que escreveu: "
As muitas águas näo podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam."

O que meus poros exalam em todos os momentos são os versos de Becquer

Podrá nublarse el sol eternamente;
Podrá secarse en un instante el mar;

Podrá romperse el eje de la tierra

Como un débil cristal.

¡todo sucederá! Podrá la muerte

Cubrirme con su fúnebre crespón;

Pero jamás en mí podrá apagarse

La llama de tu amor.


E todos os dias seu amor, enche a minha mente de poesia, mas o que é poesia mesmo??

¿Qué es poesía?, dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul.
¿Qué es poesía? ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía... eres tú.

Obrigado por me dar essa certeza o tempo todo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Certezas e dúvidas

Certezas

Quem vive de memórias não coleciona novas lembranças.


Algumas pessoas valem a pena, outras nem a penugem.


Dinheiro não traz felicidade, nem o contrário.


Carta marcada é coisa do Detran


Muita gente confunde sinceridade com falta de tato

Outras confundem falta de serviço com dedicação...


Dúvidas


Por que as pessoas admiram as borboletas mas continuam matando taturanas.


Num corporação de canibais, o RH cuida da ingestão de pessoas?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O varal da vizinha

Joel morava num apartamento simples. Quarto, sala, cozinha e banheiro e uma apertada área de serviço que desembocava num armário que o corretor chamou de despensa.

A área, um corredor entre a cozinha e o tal do armário, não tinha janelas (a roupa seca mais rápido, dizia o corretor, sem pensar nos dias de chuva) o que permitia uma visão panorâmica do varal da vizinha.


Vizinha que Joel nunca vira mais gorda, nem mais magra. Só sabia que era uma mulher pelo que via pendurado no varal.


Aliás, sabia da vida da moradora pelo que olhava pela janela. Ela devia fazer a mesma coisa comigo, ele imaginava.


Começou a analisar os hábitos. Ela nunca usava calça comprida (deve ser crente), gostava de roupas estampadas ou coloridas. Era ousada na lingerie. Certamente não praticava esportes pois nenhuma tipo de vestimenta esportiva aparecera no varal.


Um dia, ao chegar em casa, descobriu que a vizinha tinha um namorado. O homem subira com ele no elevador e entrara no apartamento da dona do varal.


Só poderia ser namorado,uma vez que nunca viu roupa masculina no varal.

Quando o encontrou novamente prestou mais atenção e percebeu que não era namorado, ele usava aliança, só podia ser amante.

Começou imaginar histórias. Supôs que ele a mantivesse, sem permitir que jamais saísse de casa.


Mas, se era amante, por que é que ele nunca ouvia nenhum som vindo do apartamento ao lado? Nem sequer um boa noite.


Passaram-se meses e, durante ele, Joel encontrou diversas vezes o namorado da vizinha. Geralmente chegando no final do dia e, algumas poucas vezes, saindo pela manhã.


Numa noite de calor, Joel trouxe trabalho para acabar em casa e se instalou na cozinha, onde a brisa que entrava pela janela da área deixava o ambiente mais fresco.
Já passava da meia noite, quando viu a luz da vizinha acender e ouviu o barulho do caminhar dos saltos.

Não resistiu. Foi para o olho mágico e ficou esperando ela sair. Não conseguiu ver seu rosto, mas era uma ruiva, grande e estava com roupa de festa.


Voltou a trabalhar.


Já de madrugada, silêncio absoluto na rua, até ouvir um carro parando. Foi até a janela da sala e viu a vizinha saindo de um táxi e entrando no prédio pela porta da garagem.


Joel pegou o saco de lixo da pia e ficou esperando com a porta entreaberta para, na hora que o elevador parasse no seu andar, ele saísse para jogar o lixo e visse a vizinha misteriosa.


Ficou de olho no painel do elevador, quando faltava um andar, ele abriu a porta. O elevador chegou e a porta se abriu.


Joel olhou para vizinha e ficou pasmo. A vizinha olhou para Joel e ficou vermelha. Ambos entraram rapidamente em seus apartamentos.


A vizinha era o suposto amante da vizinha, chegando com a maquiagem toda borrada.


Duas semanas depois uma empresa de mudança esvaziou o apartamento do vizinho(a) de Joel.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Caiu na rede é peixe

Caminhava eu tranquilamente pelas estradas da rede social quando, repentinamente, fui abduzido por um facho de luz que me dizia:

"- Você foi adicionado à minha lista de amigos, seu código é 27-523-X"

Do alto de uma mangabeira, saguis e babuínos urravam: "- Curti! Curti! Curti!",

Tentei me desvencilhar e bloquear o ser extra-virtual que sugava as minhas informações, mas ele me arremessou em direção a outro facho de luz me etiquetando a testa com um "Encaminhado".

Comecei a gritar: "- F1! F1!! F1!!!" No entanto a rede parecia não entender meus comandos , pois só aceitava touchscreen.

Fui compartilhado, comentado, escrutinado, marcado e, até, re-piado.

Quando achei que estava escapando, uma cloud se formou sobre a minha cabeça e me inundou de jogos, aplicativos e eventos que eu não podia recusar.

Fui escoado por um longo tubo em U que me trouxe de volta à minha página, sem perceber que fotos pornográficas tinham sido publicadas no meu mural durante a minha ausência.

Não tardou para que eu recebesse um alerta informando que meu perfil fora excluído por abusos contra os termos e condições.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Caminhos cruzados

“Love seeketh not itself to please, nor for itself hath any care, but for another gives its ease, and builds a Heaven in Hell's despair.” ― William Blake, Songs of Innocence and Songs of Experience

Nascido em Boituva, João mudou para São Paulo na adolescência, quando o pai foi transferido para a sede da empresa. Foi morar na Avenida Higienópolis 500 e estudar no Rio Branco.

Maria, paulistana da clara, nasceu e morou até casar na Higienópolis 481, em frente ao prédio de João. Menina recatada, estudava no Sion

Devem ter se cruzado centenas de vezes no meio dos caminhos do bairro. Nunca souberam que o outro existia.

Entraram na faculdade no mesmo ano. Maria foi cursar Direito no Mackenzie. João, engenharia na FAAP.

Frequentavam a mesma padaria Barcelona, a mesma farmácia da Angélica e até a mesma loja de CD´s da Vilaboim.

Maria conheceu Victor no preparatório do exame da ordem. Casaram dois anos depois na capela do Sion. Tiveram duas filhas, se separaram antes de completarem 10 anos de casados.

João conheceu Marta numa festa de aniversário da família. Paixão fulminante. Casaram gráviso 3 meses depois, na mesma capela do Sion.

Quano Marta e João saiam da igreja, Maria esperava para entrar. João reparou que Maria era a noiva mais linda que tinha visto na vida, mas não era o momento de fazer esse tipo de comentário.

O casamento de João e Marta durou quase 15 anos. Acabou de forma litigiosa. João foi em busca de um advogado. Um amigo lhe indicou Maria.

Quando entrou na sala da advogada, João teve a impressão de que já a conhecia, não falou nada, isso soaria como uma cantada.

Maria cuidou do processo de forma rápida e ponderada. Em menos de seis meses o assunto estava resolvido.

Quando sairam do Fórum, João convidou Maria para almoçar. Até aquele momento só tinham falado do processo, o almoço serviu para falar de amenidades.

À medida que falavam da vida foram descobrindo que passaram a vida toda um ao lado do outro.

Que tinham os mesmos gostos, a mesma visão de mundo e, principalmente, a mesma visão do que deveria ser um relacionamento duradouro.

Ao almoço seguiu um jantar, uma ida ao cinema e o começo do namoro. Amor de verdade. Amor para sempre.

Casaram-se meses depois. A caminho da lua de mel, João lamentou que tinham perdido 15 anos na vida quando poderiam ter se conhecido antes dos seus respectivos casamentos.

Maria sorriu e encerrou a questão: se João não tivesse casado, eles nunca teriam se conhecido.

Nunca mais tocaram no assunto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Triângulo horroroso

Jurássico frequentava o baile todas as terças feiras. Gostava de dançar mas, mais do que isso, queria arranjar uma companhia.

Viúvo há quase 10 anos não queria casar de novo, mas também não gostava de passar por longos períodos de solidão.Os filhos tinham vida própria e quase não lhe davam atenção.

Experimentou jogar bocha, até que se deu bem com o esporte, mas queria mesmo era companhias femininas.

Naquela tarde fazia sol e o baile estava lotado. Mais mulheres que homens, como sempre. Dançou com três diferentes até que viu uma senhora que não saia da cadeira.

Apresentou-se e convidou-a para dançar um bolero. Ela só sabia dançar foxtrot e raramente tocava um.

Mesoclítica era o seu nome. Professora de português aposentada, solteirona.
Jura, como preferia ser chamado, sentou-se e ficou conversando. Ela também não gostava do seu nome e pediu para ser chamada de Tica.

A orquestra atacou um standard de Rodgers e eles foram dançar.

Passaram a tarde juntos, quando o baile acabou foram tomar lanche juntos, caminharam pela cidade ao entardecer e, quando ele ia deixá-la em casa, ela o convidou para entrar.

Só saiu no dia seguinte. Estava encantado. Ela também.

Passaram os meses seguintes namorando. Cinema, jantares e, ocasionalmente um pernoite na casa do outro. Nunca mais foram ao baile.

Quando comemoraram o primeiro ano de namoro resolveram ir dançar, para lembrar o dia que os uniu.

Logo na chegada Tica se aborreceu. Jura era muito popular no baile e várias mulheres vieram falar com ele e perguntar do seu sumiço. A cada pergunta ele olhava em direção a Tica.

Como antes, eram raros os foxes. Dançaram dois ou três.

Quando começaram a tocar sertanejo uma mulher veio até eles e perguntou a Tica se ela poderia emprestá-lo por uma música. A contragosto, ela deixou que Jura dançasse com Exegese.

Passou a música, duas, três, e nada do Jura voltar. Tica foi procurá-lo. Não estava no meio do salão, nem a mulher.

Saiu pelo parque em busca de Jurássico. Reconheceu atrás de uma árvore o vestido da mulher que o tirara para dançar.

Eram os dois no maior amasso. Quando Jura viu Tica, correu desesperado atrás dela:

" - Tica, meu amor, você está cometendo um erro de interpretação..."

" - Interpretação, meu caro, é a sua Exegese...o meu erro foi só me ligar a um Jurássico inferior.