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Mostrando postagens com o rótulo desastres

O pecado da escuta

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Dizem os relatos bíblicos que, no princípio, Deus criou Adão e Eva e os instalou no paraíso, local onde poderiam usufruir de todas as coisas, exceto comer do fruto de duas árvores: a do conhecimento e a da vida. Como bons ouvintes, o casal escutou a recomendação e a obedeceu durante um tempo que as escrituras não definem a duração. Naquelas tardes fagueiras, à   sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! Como eram belos os dias. Eles escutaram e viram que isso era bom. Até o dia que apareceu um certo diabo disfarçado de serpente e começou a sussurrar no ouvido de Eva que o fruto das árvores deveria ser muito melhor que qualquer outra jabuticaba que eles comessem, além disso, se ela provasse tal maravilha, ela se tornaria igual a Deus. Eva escutou atentamente esse discurso e não só experimentou do fruto proibido como também foi contar a novidade para Adão, que também escutou e também atacou a especiaria. Cabum!! Apareceu o todo-poderoso e perguntou o que eles tinham apronta...

A cigarra hodierna

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Tendo a cigarra em folguedos Veraneado o feriado final, Achou-se em doença extrema Sentindo-se muito mal. Não lhe restava fagulha De oxigênio, a tagarela Quis valer-se da formiga Que morava perto dela. Rogou-lhe que lhe ajudasse, Pois tinha saúde e brio, Algum ar com que manter-se Té voltar-se o são feitio. "Amiga – diz a cigarra – Prometo à fé d'animal. Cuidar-me até agosto Com u´a máscara cabal." A formiga nem uma fresta, Abre, nem se junta. "Durante a peste em que lidavas?" À pedinte ela pergunta. Responde a outra: "Eu passeava Noite e dia, a toda hora." – Oh! bravo, torna a formiga; Passeavas? Pois então, e agora? A partir da tradução de Bocage para Jean de La Fontaine (1621-1695), poeta e fabulista francês. Descrição da imagem: gravura mostrando a cigarra conversando com a formiga, de Grandville para a edição de 1847 de La Fontaine

A média é uma média é uma média

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Existem médias e médias. Aritméticas, geométricas, proporcional, quadrática. Há os que calculam médias, outros que só fazem média com as médias que não souberam sopesar, mas gostam de taramelar. As médias nunca são conservadoras ou progressistas, sempre se mantém como um valor de tendência central. Quem calcula a média entre π, φ e e chega a uma média completamente irracional. Outros, no entanto, preferem médias que sejam ponderadas. Isso não significa que toda média ponderada consegue ser harmônica, afinal não é qualquer um que consegue inverter seus valores sem lutar por eles. Mediante não é um calculador de médias, mas alguém que só calcula médias de forma condicional, a troco de alguma coisa. Da mesma forma, o mediador, é apenas alguém que se interpõe entre uma média e outra (ou entre um estatístico e outro) quando estão em conflito. Caso se interponha em posição vertical, é uma mediatriz e se, ao invés de se interpor, o mediador se coloca à margem do assunto, deixa se ser um med...

Todo mundo se acha expert em estatística

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Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Ele era uma pessoa média, nem sempre muito ponderada, mas habitualmente bastante móvel. Sua principal margem de erro era ter alguns desvios padrões de personalidade que se manifestavam com muita frequência e que eram derivados integralmente de sua autoestima superdimensionada e do fato de nunca ter passado nas provas de matemática sem colar. Todas as manhãs acordava com dores nos quartis, o que sugeria um quadro sinóptico de inflamação da mediana. Apesar desse mal estar fora de moda, isso provocava grande dispersão de sinapses e crises de variância que eclodiam em opiononite aguda em redes sociais. Palpitava, aleatoriamente, sobre qualquer número que lia, de forma determinante. Nenhum senso crítico. Nenhuma correlação. Um hiperbólico sem efeitos de tratamento. Ignorava os intervalos contextuais, desprezava as relevâncias e, à guisa de impropério, atribuía a seus desafetos a alcunha ...

Revogam-se as disposições em contrário

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Chavões, lugares comuns, ditos populares, sabedoria de para-choque de caminhão, clichês, frases estereotipadas e até fórmulas de sucesso do universo da auto ajuda estão ruindo em um mundo pandemoníaco. Ao mesmo tempo, descobrimos que tínhamos ouvido profetas sem perceber: “nada do que foi, será, do jeito que já foi um dia”; “nada será como antes, amanhã”; “das verdades que eu sabia, só sobraram restos”. Como brincava um autor desconhecido (falsamente atribuído a uma infinidade de pessoas de Adão a Luis Fernando Veríssimo e, claro, os indefectíveis frasistas fake da internet, Clarice Lispector e Arnaldo Jabor), no dia em que eu tinha descoberto todas as respostas da vida, mudaram todas as perguntas. Por essas e outras fica editada a seguinte lei. Art. 1 Com efeito imediato, fica expressamente proibido o uso das seguintes frases e termos, bem como suas respectivas variações: a)     Pior do que está não fica b)     Chegamos ao fundo...

Um dia de muvuca fake

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Em mil novecentos e pó eu passei alguns dias em Nova York, depois de um congresso em outra cidade dos Estados Unidos. Uma das atrações da cidade (e ainda é até hoje), era o Museu de História Natural e, como bom rato de museus, fui conhecê-lo. Além de todas as maravilhas que tive a oportunidade de ver, o museu estava apresentando uma exposição temporária sobre Leonardo da Vinci, absolutamente espetacular. Muitas peças do seu acervo mecânico originais. Alguns quadros originais (claro que não a Mona Lisa que, ao que eu saiba, não costuma passear fora do Louvre) e muitos desenhos, especialmente os projetos e os de anatomia. Originais. A grande atração, no entanto, eram os pergaminhos originais com seus escritos, que estavam sendo mostrados pela primeira vez fora da Itália e, para isso tinham um sistema de sensores em que a iluminação só era ativada quando um visitante se aproximava para ver. Anos depois, já nesse milênio, uma exposição também muito bem montada, foi apresentada na Oc...

Corredor de ônibus

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Mariana morava no Grajaú e todos os dias acordava às 5 da manhã para ir trabalhar num escritório de contabilidade na Libero Badaró onde estava há mais de três anos. A viagem de ida não costumava ser muito sofrida, mas a de volta era uma tortura. Mesmo quando saía pontualmente às 18h não chegava em casa antes das 21h. O trajeto incluía uma pequena caminhada até a praça do Correio onde embarcava, às duras custas, no 5317. Uma viagem de quase 33 km e depois mais um trecho à pé até a estrada do Capoeira, onde tinha a sua casinha com Horácio. Os dois estavam juntos há cinco anos. Ela o conhecera numa festa de bairro e, não pouco tempo depois juntaram os trapos e as panelas. Horácio era um sujeito trabalhador e carinhoso. Tinha uma oficina de motos na Teotônio para onde ia e voltava de casa caminhando. Não acordava tão cedo quanto Mariana e, como sempre chegava em casa antes dela, preparava o jantar para a companheira exausta do dia de trabalho e da jornada de ônibus. To...

A calcinha da discórdia

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Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória. No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie. Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer. Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso. Entrou no shopping, re...

Peregrino

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Quando José começou sua caminhada não sabia se ia parar em Belém do Pará, Belém da Judéia ou em Belém, Pensilvânia. É verdade que sua confusa falta de cultura geral fazia com que temesse vampiros se fosse para a última. Só tinha certeza que deveria ir em direção setentrional. Precisava achar o seu norte. Nos primeiros dias a caminhada foi tranquila, ao final da primeira semana os pés começaram a doer e o ritmo dos passos diminuiu bastante. A segunda semana foi de poucos progressos e muita água boricada nas bolhas que tinham se formado. Pouco a pouco foi se tornando um homem calejado. Tilomas formados, o ritmo voltou a aumentar e, em poucos dias já tinha ultrapassado a sua meta. Resolveu descansar por um dia inteiro. Alojou-se num hotel de caminhoneiros na beira da estrada e dormiu o sono dos justos. No dia seguinte, durante o café da manhã, conversando com alguns motoristas, conheceu Jorjão, que transportava milho pipoca no seu Fenemê ´62. Apesar da idade do veículo, Jorjão era moder...

As gêmeas

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Mensagem O pai era um fumante inveterado, a mãe tinha uma compulsão paranóica em relação a traças.   Apesar disso todos se chocaram quando as gêmeas nasceram e receberam os nomes de Nicotina e Naftalina. Tanto que o escrevente do cartório exigiu uma declaração do pai assumindo a responsabilidade pelos nomes.   O padre recusou-se a batizá-las. A mãe foi se queixar com o bispo. De nada adiantou. Só receberam o sacramento porque encontraram uma paróquia dissidente da igreja, cujo sacerdote topava qualquer parada.   Os familiares acabaram por chamar as meninas de Tina e Lina, o que não as poupou de todo tipo de gozação quando foram para a escola. Cresceram revoltadas com a situação e nunca perdoaram os pais pelos constrangimentos que passaram.   Tina acabou tornando-se uma extremista radical anti-tabagista, mas sempre foi vista de forma suspeita dentro do movimento. Os líderes do grupo reconheciam que era impossível ...

Pancetta atômica

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Mensagem A despeito do patronímico, Hilário era um sujeito taciturno e macambúzio, não poucas vezes sorumbático.   O que não o impedia de desenvolver suas atividades profissionais de forma metódica e eficiente, lidava bem com as pessoas, mas não permitia nenhum tipo de aproximação que ultrapasse os limites da formalidade.   Seu estilo soturno também não o impediu de se casar e ter filhos. Estela, a esposa, era uma mulher alegre e divertida e apaixonada pelo marido.   Hilário, além de calado e metódico, era também um homem cheio de manias. Rejeitava quase a totalidade dos equipamentos modernos, usava o computador por necessidade profissional mas, em casa, se recusava a ter como cafeteiras elétricas (ainda que tivesse se rendido ao filtro de papel), máquinas de secar roupas (o sol e o vento existiam para isso mesmo) e, menos que tudo, forno de microondas.   Estela não dava bola para a cafeteira, afinal, quem fazia o caf...

Caiu na rede é peixe

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Caminhava eu tranquilamente pelas estradas da rede social quando, repentinamente, fui abduzido por um facho de luz que me dizia: "- Você foi adicionado à minha lista de amigos, seu código é 27-523-X" Do alto de uma mangabeira, saguis e babuínos urravam: "- Curti! Curti! Curti!", Tentei me desvencilhar e bloquear o ser extra-virtual que sugava as minhas informações, mas ele me arremessou em direção a outro facho de luz me etiquetando a testa com um "Encaminhado". Comecei a gritar: "- F1! F1!! F1!!!" No entanto a rede parecia não entender meus comandos , pois só aceitava touchscreen. Fui compartilhado, comentado, escrutinado, marcado e, até, re-piado. Quando achei que estava escapando, uma cloud se formou sobre a minha cabeça e me inundou de jogos, aplicativos e eventos que eu não podia recusar. Fui escoado por um longo tubo em U que me trouxe de volta à minha página, sem perceber que fotos pornográficas tinham sido publicadas no meu mural durante ...

Ars gratia artis

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A polêmica deve ter surgido quando o primeiro australopiteco acabou seus primeiros desenhos nas cavernas de Altamira, seu companheiro de moradia olhou para aquilo e perguntou: "- Será isso arte, ou não?" Diz a lenda que eles se chamavam Caim e Abel e que a discussão não acabou bem. Tecnicamente, arte (Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade) é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra de arte. Uma definição bastante ampla que poderia ser resumida em "qualquer porcaria é arte", uma vez que nesse espectro, até esse texto pode ser considerado como artístico. No sábado passado, por indicação de uma professora de pintura fomos (eu, Virginia e as crianças) ver "Em Nome dos Artistas", um imenso panorama da arte contempor...

Um dia crítico

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Gianluca tinha acabado de sofrer um grande revés. Depois de anos trabalhando fielmente para a mesma empresa fora demitido sumariamente por mascar chiclete na porta do banheiro feminino. Sua nova chefe era uma feminista radical e entendeu que aquela atitude configurava assédio sexual à estagiária que saia do banheiro no exato momento em que ele estourava a bola da goma de mascar. Além do desemprego ele teria de enfrentar a penúria. Demitido por justa causa não iria receber um centavo de direitos trabalhistas. À medida que caminhava para casa pensava em como explicar a situação para a mulher. Ana era amorosa e compreensiva, mas será que seu argumentos a convenceriam que não estava abordando outra mulher? Como explicaria a demissão? Resolveu preparar o espírito de Ana. Enviou um torpedo dizendo que tinha más notícias. Ela respondeu cheia de interrogações. Disse que tinha sido demitido. Em segundos seu celular tocou. Contou parte da história, omitindo a cena do chiclete. Queixou-se da inju...

Guacamole

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Doutor delegado Eu estava quieto no meu canto, em paz e sossego quando ela disse que estava louca para entacar meus nachos. Achei que ela estava enchilada e me achando meio burrito, mesmo assim não podia recusar suas carnitas até porque eu não sou de ter a guacamole. Respondi que tequilla sempre champurrado, especialmente vendo ela tostada e quesadilla. Dei-lhe um chilaquile no mole e uns totopos no pico de gallo. Aí ela me disse que sem salsa nada de frijoles na sope. Foi uma michelada no meu tepache. Gritei que ou ela horchata ou ia dar uma michelada no nopales. Ela saiu pela rua pulque tamal e deu de cara com a viatura. Me explica, doutor, eu não tenho razão me tejate?

Assédio automobilístico

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Jonas não admitia que Ana Maria voltasse sozinha para casa. Mesmo quando iam para seus encontros em carros separados ele fazia questão de escoltá-la de volta até que a visse atravessar a porta da garagem do seu prédio. Na primeira vez que isso aconteceu Ana Maria ficou encantada, na segunda achou uma atitude bonita, depois começou a se irritar com o carro de Jonas na sua cola durante todo o seu trajeto e não sabia como dizer isso para ele. Começou a mudar sua maneira de dirigir. Andava mais rápido, mudava de faixas, tentava atravessar os sinais no último momento do amarelo. Tudo para ver se conseguia despistá-lo. Jonas estava sempre tão concentrado no carro de Ana Maria que não se tocou disso. O que ela fizesse à sua frente, ele repetia atrás. Duas vezes foi multado por ultrapassar o vermelho. Nem o dinheiro da multa, nem os pontos na carteira mudaram sua atitude. Até o dia em que Ana Maria se irritou tanto que, ao olhar no retrovisor e notar que, apesar de suas manobras, Jonas continu...

Emprego folgado

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Marineide acertou os detalhes de salários, benefícios e horários com Ana Maria, sua nova patroa. Começaria a trabalhar na segunda feira seguinte. A rotina não seria muito diferente do emprego anterior. Arrumar a casa todos os dias, fazer uma faxina mais pesada uma vez por semana, adiantar as refeições. Só não precisaria lavar e passar roupa, Ana Maria gostava de cuidar pessoalmente das roupas da casa. Ainda estava conversando com Ana Maria quando Armando, o marido, chegou. Ele foi educado com ela e lhe deu as boas vindas. Em seguida olhou para a mulher com um jeito diferente. Ana Maria levou Marineide rapidamente para a porta e se despediu afobada. Marineide não era uma empregada doméstica inexperiente, por isso estranhou bastante a dinâmica da casa. Nunca deveria chegar antes das 10 horas. Se chegasse era para esperar na rua. Sempre deveria ir embora antes das 5 da tarde. Nunca tivera um emprego tão light. No entanto, o que realmente a surpreendeu era a frequência com que a patroa lhe...

Como era bom o meu desastre

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André acordou cedo e começou a se preparar para o dia que seria longo. Várias reuniões agendadas, almoço com cliente e, de noite o jantar decisivo na casa dos potenciais sogros. Seria nessa noite que pediria a mão de Eduarda em casamento e nada poderia dar errado. Por isso mesmo que antecipara e encurtara toda a sua agenda para terminar o dia num horário em que pudesse se arrumar com calma e, de forma alguma, chegar atrasado. Eduarda tinha feito mil recomendações. O pai detestava jantar depois das 8 da noite. A mãe implicava com alguns assuntos. Na sua casa não se recusava nenhum tipo de comida. Quando o pai desse o primeiro bocejo estava sinalizando que era hora de ir embora. André sabia que a namorada também tinha um monte de manias parecidas, mas estava tão apaixonado que isso era irrelevante. O dia correu razoavelmente bem, apenas uma reunião atrasou, mas ele conseguiu cancelar a seguinte e se manteve no horário. Chegou em casa com tempo suficiente para tomar banho, fazer de novo a...

Agosto

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Sofia estava emocionada. Nem fazia tanto tempo assim que namorava Alberto, mas lhe pareciam décadas, quando finalmente ele a pediu em casamento. Era o sonho da sua vida. E nem era só o sonho do casamento em si, mas o fato de que ele era o homem que mais se aproximava da sua visão de príncipe encantado. A sua excitação era tão grande que, ela que nunca bebia, aceitou brindar com uma taça de champagne. O que não previa era que ia engasgar no segundo gole. No momento em que levava a taça aos lábios ele afirmou que casariam em Agosto, no mesmo dia que tinham casado seus pais. Voou Veuve Clicquot por toda mesa, até mesmo na gravata de Alberto. Ele apressou-se em socorrê-la. Ela demorou alguns minutos para se recompor fisicamente. Mentalmente se sentia como se arrastada por uma violenta corredeira. Agosto? Ela pensava. Justo Agosto, o mês das assombrações , quando as almas de outros mundos gemem e arrastam correntes. Quando os fantasmas balançam as camas dos que dormem e aparecem pedindo sac...

Conticulóides marítimos

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Marina Quando André a viu andando pelos corredores do shopping num vestido azul esverdeado concluiu imediatamente que aquela era a mulher da sua vida. Sem pensar duas vezes abordou-a. Ela sorriu e lhe indicou o corredor da loja onde ele poderia encontrar uma roupa da mesma cor. Areia José sempre trazia na memória os gritos da sua mãe mandando que ele limpasse os pés antes de entrar em casa, nem esquecia da surra que levou no dia que, fugindo da chuva entrou com os pés enlameados. Por isso mesmo fez questão de ser o primeiro a jogar uma pá de terra sobre o seu caixão. Onda Angélica entrou na banheira e relaxou o corpo na água quase fervendo. Só não percebeu que esquecera a porta destrancada. Quando o zelador entrou junto com a empregada para ver o problema do sifão da pia ela quase teve um ataque e inundou todo o piso do banheiro Rochedos Januário pegou sua moto e saiu desesperado em alta velocidade. Acabara de receber o bilhete de azul de Clara. Pensou em se matar jogando-se de algum p...