segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mistério discal

Avançam os estudos do Fairchild University realizados no último período glacial de hemisfério noroeste de Tanganica.

Os professores Quincy, Cruft e Lymann reuniram-se tardes sucessivas no Buckminster´s Cafe para discutir um caso raríssimo de discopatia histérica.

Especializados na psicobiologia fisiológica charcotiana, os médicos estudaram a situação de uma degenerada que apresentava uma herniação cartilaginosa.

A questão levantada pelos estudiosos era se a degeneração discopática era provocada por acessos de histeria ou se as dores desligamentares é que geravam a perda de controle da paciente.

Para os demais médicos da universidade, o trio estava apenas matando aula no café, discutindo se o ovócito pronucleico precedia a galinácea, ou o inverso.

No entanto, os primeiros artigos publicados por eles no Journal of Psychocaffeinology, demonstravam que por mais ociosos que fossem os pesquisadores, o caso era real.

Relatavam as sucessivas exaltações matriciais da mulher (que recebeu o codinome de Dona Hérnia), especialmente em momentos de recolhimento interior da sua família.

Alguns desses episódios ocorriam logo após ela se levantar bruscamente das cadeiras. Outros provocavam dor nas cadeiras.

Entrevistas dadas off-the-records por Cruft, garantem que a mulher teria tido uma melhoria significativa depois que se apaixonara por um discófilo, o que faria supor uma ligação biopsicogênica entre os neurônios sentimentais e as placas ósseas.

Nesse momento, o caso passa por uma revalidação dos dados no Instituto de Furor Ósteouterino, para a continuidade dos estudos.

Enquanto isso, a mulher se dedica a jogar Role Playing Game, uma vez por semana.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma história de Natal

...não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria... Lucas 2:10

Tudo na vida de Lúdico era uma festa, fosse o simples sorriso de alguém no meio da rua, fosse a comemoração mais estapafúrdia que pudesse participar.

Não perdia um evento, encontro de ex-colegas, almoços de família e, até, o baile da 3a idade do parque, ainda que ele ainda estivesse longe de alcançá-la.

Para ele o Natal era o ápice de um ano festivo e a linha divisória que marcava o início de mais um ano de comemorações.

Amava todos os símbolos e hábitos natalinos. Ia ver a iluminação da Paulista, do Ibirapuera e da Rua Normandia. Comprava presentes para todos que imaginava que encontraria na ceia. Não poucas vezes entrou na fila e sentou no colo do papai noel de algum shopping, para deleite e risadas das crianças.

Comia, bebia e cantava Jingle Bells em várias línguas até o sol raiar.

No extremo oposto de toda essa alegria estava Lídimo. Um sujeito sério e carrancudo que achava intolerável todos os desvios do que ele chamava de compostura. Jamais sorriria para um estranho no meio da rua, aliás, jamais sorria.

O Natal de Lídimo era espartano. Rejeitava árvores pelas suas origens pagãs, abominava papai noel e discursava de maneira inflamada em defesa do verdadeiro sentido do Natal.

Sua comemoração se resumia ao culto formalíssimo de sua igreja, aos votos de feliz Natal ao pastor e demais pessoas que estivessem presentes no culto. Depois ia para casa e só não dormia imediatamente pois o barulho dos fogos lhe davam insônia.

Num certo Natal, por um contratempo, Lúdico se viu sozinho. Os familiares não fizeram a festa tradicional pois um deles estava hospitalizado em estado grave e cancelaram o jantar poucas horas antes do seu início.

Sem saber o que fazer, ele saiu passeando a pé pelas ruas da cidade.

No mesmo certo Natal, por outro contratempo, Lídimo se viu sozinho. Atendendo o pedido de vários membros que queriam viajar, a comemoração de Natal da igreja fora antecipada em 3 semanas (um absurdo, segundo Lídimo) e não houve culto no dia 24.

Sem saber o que fazer, ele saiu passeando a pé pelas ruas da cidade.

Lúdico viu aquele homem sozinho sentado no banco da praça e resolveu sentar-se ao lado dele. Como de hábito, ofereceu um sorriso. O homem era Lídimo, que não sorriu mas, apesar de carrancudo, era um sujeito educado e saudou Lúdico com um boa noite.

Lúdico puxou papo sobre as festas. Lídimo soltou o seu discurso. Lúdico ouviu-o atentamente, até o fim.

Depois começou a falar sobre a alegria de viver, sobre o sorriso das crianças, sobre o prazer de estar com as pessoas.

Lídimo se emocionou. Tantos Natais solitários e, no mais solitário de todos, alguém lhe falava de alegria.

Repensou seu discurso, e passou a falar de Jesus para Lúdico. Falou de sacrifício, de salvação, de vida eterna.

Enquanto falava, o Espírito tocou o coração de Lúdico.

Lídimo descobriu que era possível crer na alegria.

Lúdico descobriu que era possível se alegrar na fé.

Juntos foram até a loja de conveniência do posto de gasolina da praça e cearam juntos comendo pão de queijo e tomando um refrigerante.

Nunca mais tiveram um Natal sem Cristo ou sem alegria.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Meio sem ambiente


Anderson era um ecologista ortodoxo e intransigente. Até seus amigos, que nutriam uma certa simpatia por suas idéias, foram perdendo a paciência com os seus exageros.

Nem mesmo a namorada, que era diretora de uma ONG que lutava contra a poda da grama em jardins, tolerou a convivência.

Seu carro, movido a energia solar, sofria constantes colisões traseiras. Apesar do adesivo que informava aos motoristas que vinham atrás que aquele veículo brecava para animais, ninguém imaginava que isso significaria paradas bruscas para a passagem de baratas e formigas.

Não comia nenhum tipo de carne desde a adolescência. Quando leu um estudo a respeito da comunicação entre plantas ficou deprimido por semanas. Quantas alfaces ele teria trucidado durante a sua vida? Quantos rabanetes não teriam sofrido mortalmente em suas mãos?

Passou a se alimentar exclusivamente de suplementos minerais e água. Começou a andar a pé. Vestia-se somente com roupas sintéticas. Só não foi viver como eremita em uma caverna pois não teria onde comprar seus suplementos.

Quando sua compleição física se aproximou do ponto de inanição a família o internou numa clínica de reabilitação onde foi forçado a ingerir uma dieta balanceada de carnes, carboidratos, açúcares e verduras.

Morreu de choque ideológico.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A parafúsica antologia do bimestre

Como sempre, recomendo aos meus leitores desavisados que o que segue abaixo são os comentários dos textos do bimestre (Outubro/Novembro) escolhidos de forma aleatoriamente macarrônica.

A instrução é a de sempre: divirta-se com as frase, sem ir em busca dos seus contextos.


Lindo o amor de vocês!


poema para ser lido ao som de um berimbau

além da rima eu queria mesmo, eram os camarões

O que haveria na bolsa de Electra ?

um filme de aventuras helenicas

ele quer respostas ou apertar parafusos?


a gente nem pode dormir e sonhar sossegado


Na dúvida, ataque...


agora vc exagerou!!!!


Para sempre é muito relativo...

Olhar para lá de lacaniano !


Outubro é o mes dos gafanhotos perdidos


Um caso de paixão eletrostática, creio...


Também tenho mania. Mas não conto.


Edileuza, sua safadinha!

Menino esperto esse Carlos...

Me receitaram não passar as mãos nos cabelos quando sonho


estava nadando numa lagoa com orelhas de burro


Vou jogar no bicho !


Only this, and nothing more....


se minhas 2 gatas quiserem lamber a minha pele


Comemoração com Botox ?


Tô tão ausente da minha vida virtual


Agora sim, posso conversar em rodas sociais com informações científicas corretas e de grande importancia para a civilização


Vc até que foi bonzinho!


Constatação óbvia: o Adiron não tem remédio.


Entrei muda sai calada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Perguntas à moda de Neruda

Se a banana é maçã, a bananada é amassada?

Se um triângulo pode ser retângulo um hexágono pode ser quadrado?

Quando aquele sol resolve sair para onde ele vai?

No caso anterior, do que vivem os heliófagos?

Quebrar galhos ainda é permitido com o novo código florestal?

Quando a chuva cai as gotas se contundem?

Com quantas andorinhas se faz um verão?

Um instinto extinto reencarna como lógica estruturada?

As perguntas de Neruda estão aqui

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Scintilla


Pequena luz
Scintilla entre azuis.
Celestes, cerúleos,
Ultramarinos

Brilhante luz
Scintilla e reproduz
Aromas, sabores
Sensações

Pequena luz
Scintilla e reconduz
A manhãs, tarde e noites,
De amor eterno

Imagem por SlaveDruid

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Manias

Carlos estava longe de ser um sujeito ingênuo ou do tipo que se chocava com o inusitado.

Durante toda a sua vida profissional conhecera pessoas com os mais diversos tipos de taras e fetiches, alguns deles tão insólitos que sequer apareciam nas ferramentas de busca da internet.


Quando foi chamado pelos parentes de Edileuza achou que seria apenas mais um caso corriqueiro. A família estava desesperada com a idéia fixa da mulher.


Carlos logo lembrou quee havia uma ligação direta entre a ansiedade e as idéias fixas por causa do que Jung postulou no passado.


Chegou à casa de Edileuza e tocou a campainha. O som era diferente, parecia um conjunto de barras metálicas se chocando umas às outras.


Ela abriu a porta. Logo no hall de entrada havia um modelo sanfonado de parede. Abertura de mais de 60cm ela falou, mesmo antes de dizer boa tarde.


No teto um modelo bi plastificado pendia perigosamente sobre a sua cabeça, ele desviou, mas não percebeu que no chão havia um giratório eletrostático. Derrubou tudo.


Edileuza soltou um grito de desespero. Aquele era a sua jóia da coroa, por isso mesmo enfeitava o centro da sala.


Pela casa foi encontrando outro, minis, com abas, sem abas e até mesmo um torre perfeitamente anodizado.


As paredes, ao invés de quadros, tinham versões de encaixe, extensíveis, modulares e dobráveis.


Perguntou a Edileuza se poderiam sentar e conversar um pouco sobre o tema.


Ela discorreu longamente sobre a história do objeto, desde os tempos remotos em que era denominado estendal até a idade moderna.


Carlos percebeu que havia um desejo incutido naquele devir. Perguntou se Edileuza sentia prazer em lavar roupas.


Ela enrubesceu, mas disse que odiava lavar roupas, assim como detestava passar roupas.


Ele não perdeu tempo e foi direto ao ponto: " - por que, então, aquela fixação por varais? E por que tantos modelos de varais vazios pela casa toda?"


Edileuza explicou que era uma compulsão inexplicável. Morava ao lado da casa dos varais. Cada vez que que via um modelo novo na vitrine precisava comprá-lo.


" - Algumas mulheres compram sapatos, outras chocolate. Eu compro varais."


Carlos saiu pensativo. Concluiu que não havia nada que pudesse ser feito e iria recomendar que não a privassem dos seus estendais. Isso poderia causar um profunda depressão por abstinência.


Já na rua, viu a loja que provocava toda essa tentação em Edileuza. Na vitrine um varal íntimo de banheiro. Comprou um e voltou até a porta de Edileuza.


" - Acho que você ainda não tem esse, comprei para a sua coleção."


Ela o encarou com um olhar maroto.


" - Não mesmo, você não quer instalá-lo para mim?"


Ao anoitecer as peças de roupas espalhavam-se penduradas desde o hall até o quarto.

sábado, 26 de novembro de 2011

Meia luz

Morocha era uma mulher de luz. Luz natural, é claro, detestava lâmpadas quentes ou frias. Não morria de amor por velas nem lamparinas.

Sempre dormiu de janelas escancaradas, luz da lua, luz do sol e até a luz fugaz do cometa Halley iluminaram sua cama.

Só colocou uma cortina translúcida quando construíram um prédio ao lado do seu e, mesmo assim, exclusivamente para preservar sua privacidade.

Alfonso era o homem das trevas. Engenheiro de túneis, só tolerava iluminação artificial e, mesmo assim, só da casa para dentro.

Odiava qualquer feixe luminoso que lhe atingisse exogenamente.

Morocha usava roupas estampadas e coloridas, sempre muito leves.

Alfonso só se vestia de preto, da sola dos sapatos aos colarinho das camisas.

Encontraram-se numa praça, num dia de chuva forte.

Morocha tinha sido pega de surpresa pela tempestade. Alfonso tinha saído justamente para aproveitar o clima sombrio.

Sabe-se lá por que, sabe-se lá como, apaixonaram-se.

Sabe-se lá como, sabe-se lá por que resolveram enfrentar, cada um, suas manias, para agradar o outro.

De tempos em tempos, Morocha usava um tubinho preto.

De tempos em tempos, Alfonso usava uma gravata colorida.

Ele comprou um óculos escuros para enfrentar a luz do sol.

Ela comprou um óculos escuros para agradar o namorado.

Casaram-se num dia de sol e chuva, ou seria chuva e sol?

Moram até hoje em Corrientes 348

domingo, 20 de novembro de 2011

O discurso do olhar


Não era a primeira vez que ele ouvia falar em linguagem corporal, mas era a primeira em que alguém lhe dava um roteiro mais detalhado.

Ele estudou, observou, reparou. Aprendeu todos os truques e sinais.


Aliado aos seus conhecimentos de análise de discursos, aprendido durante anos de leitura de Lacan e Barthes, julgou ser capaz de, praticamente, ler pensamentos e intenções
.

Exceto no dia que a viu pela primeira vez. Tentou entender seus movimentos, mas não conseguia manter a concentração fora dos olhos dela. Prestava atenção em cada palavra que ela pronunciava, esperava achar o significado oculto por trás delas. Nada.

Quando foi dormir não conseguiu. Ficou tentando entender o que havia por trás daquele secreto discurso do olhar.


Uma demonstração de poder de sedução? Um jogo provocativo à sua capacidade de entender as pessoas?


Todas as leituras o levavam a crer que ela estava apaixonada por ele. O que era humanamente impossível.


Propôs um novo encontro, passou horas em meditação preparatória para não se deixar enganar pelas aparências.

Não adiantou nada, assim que avistou os olhos dela, perdeu completamente a compostura. E despencou nos seus braços.

Com o tempo descobriu que era tudo verdade. Sua leitura estava correta. Aqueles olhos tinham um discurso nada secreto.


Suas palavras eram transparentes e seus movimentos sem nenhuma falsidade.


Casaram-se no fim do verão. E ele nunca mais precisou observar mais nada em niguém.

Os olhos dela lhe bastavam.

domingo, 13 de novembro de 2011

La nave non va

As brumas envolviam o cais. As montanhas eram apenas vultos sombrios cobertas pela neblina.

O barco estava pronto. Sófocles conversava com o capitão Paracelso, perguntando se seria conveniente sairem com aquele tempo.


Apesar do hermetismo trimegístico do céu, o capitão garantiu que a segurança não estava comprometida. O conforto sim.


Sófocles trocou meia dúzia de frases com Electra e decidiram zarpar em direção a Ítaca.


Nem piratas, nem borrascas, nem dragões vão me impedir...cantarolava Paracelso, enquanto os dois se acomodavam na proa.


A navegação foi tranquila. Sófocles e Electra admiravam a vegetação das ilhas por onde passavam e, eventualmente avistavam basiliscos sobrevoando as praias.


Chegaram a Ítaca para o banquete dos lictores. Degustaram mandrágoras, salsichas de javali de Erimanto regados a néctar e, claro, doses de ambrosia.


Na hora de voltar a chuva começou. Nada ameaçadora. Cobriram-se com suas capas e embarcaram.


Cansada, Electra, recostou no colo de Sófocles e adormeceu.


De repente Sófocles reparou que o barco que deveria passar a boreste da Cólquida seguia reto em direção aos penhascos. Olhou para a popa e viu Paracelso estático segurando o leme.


Apoiou a cabeça de Electra numa almofada e foi perguntar o que acontecia. Ao tocar no ombro do capitão ele despencou no tombadilho. Estava morto.


Sófocles imediatamente agarrou o leme e chamou Electra. Ela levantou-se assustada e, ao ver o marido conduzindo o navio, achou que era uma brincadeira.


Não era. O vento nordeste já tornava as ondas mais ameaçadoras e, ao longe via-se uma tempestade de raios.


Sófocles conseguiu desviar das pedras de Colquida como se fora um velocino.


Electra tentou chamar por socorro, mas o rádio capitão estava mais morto que o próprio.


Ao longe avistavam o porto de Lemnos, de onde partiram, mas as ondas impediam que se aproximassem dele.


Sófocles então virou o barco contornando o Helesponto e, numa manobra arriscada conseguiu encalhar na areia de Mamanguá.


Já anoitecia. Abrigaram-se no velho forte. Quando a tempestade passasse tentariam novamente voltar para casa.


Teriam dormido a noite inteira, tão cansados estavam, se não fosse pela aparição fantasmagórica de Paracelso no meio da madrugada.


O cadáver do capitão entrou cambaleante no forte, cantando aos berros: nem borrascas, nem dragões, vão me impedir...


Electra, num movimento rápido atirou sua bolsa em direção ao zumbi, que caiu morto pela segunda vez.


Dois dias depois a chuva passou. Sófocles enterrou o capitão no calabouço do forte, desencalhou o barco e voltaram para Lemnos.


E nunca mais permitiu que Electra saísse de casa sem a sua bolsa.

sábado, 12 de novembro de 2011

Ora vá para o Catimbau!


Mensagem
Nada de sol, nem bacalhau
Chovia muito no arraial
Não caiu o nosso astral
Pelas gambas do Catimbau

Muita pedra, nenhum areial
Nem pera nem bananal
Olvidamos o cacau
Traçando as gambas do Catimbau

Nenhuma dor existencial
Paisagem fenomenal
Um olhar emocional
Antes as gambas do Catimbau

Declarei amor imortal
Genuflexo no degrau
Recebi amor igual
Com as gambas do Catimbau

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sonhos desvendados

Tudo começou com José do Egito. Foi ele quem popularizou a interpretação de sonhos, desde os pesadelos do padeiro até os onirismos do Faraó.

Durante séculos a interpretação era vista como uma prática mágica ou sacerdotal, até que Freud afirmou que sonhos desconexos, sem qualquer lógica e, em que o conteúdo manifesto desfigura completamente o conteúdo latente, poderiam ser psicoanalisados.

Se bem que quando as explicações eram confusas demais, seus pacientes nem reconheciam seus próprios sonhos e saiam da sessão com uma certa sensação de charlatanismo.

A verdade é que a onirologia tornou-se uma ciência respeitada tendo até gerado estudos derivados como a oniropatia, a oniromancia e a onirofilia.

Dentre os analistas ocidentais modernos, destacam-se o psicanalista búlgaro Igor Baratov, o alemão Katz Katzenberg - criador da clínica de sonhos Traumarbeit - e o presditigitador paraguaio Mbojáji Ahayhú.

O modelo de Baratov, influenciado pela dialética histórico materialista de Marx, usa o determinismo social como modus analisandi.

Diferentemente, Ahayhú vem de uma escola xamânica e sua interpretação está fundamentada nas manifestações totêmicas dos ancestrais.

Katzenberg é, dos três, o que segue de forma mais ortodoxa, a escola freudiana simplificada. Para ele, sonhos são sempre expressões da libido ou culpa da mãe que não deu boa noite.

Para entendermos melhor, comparemos a interpretação deles para dois sonhos clássicos

Sonho 1: a pessoa se vê em um grande salão repleto de espelhos, dezenas de pessoas, aos pares giram incessantemente a ponto de causarem vertigens noturnas em quem está sonhando. Repentinamente uma torrente de água azul atravessa o salão carregando todos para uma fábrica de flavonoides.

Baratov: As pessoas no grande salão representa a classe dominante que gira narcisisticamente em torno de si mesma (fato reforçado pelos espelhos) enquanto a água, que são as massas do proletariado, purificam o mundo e antioxiadam a ferrugem capitalista. Se o sonhador for rico, deve esperar a ruína em breve, se for pobre, sofrerá um acidente, recebendo um balde de tinta azul na cabeça.

Ahayhú: O mundo dos ancestrais se tornou poluído pela presença de tanta gente e de objetos criados industrialmente pelo homem branco. As águas do aquífero guarani destruiram o mundo carregando a todos e desaguando no porto de Ilhéus.

Katzenberg: quem tem esse sonho está carente de colo ou desejoso de sexo.

Sonho 2 : a pessoa se encontra no meio de um bosque e percebe que está com orelhas de burro. Mesmo assim, sucessivamente, encontra pessoas do sexo oposto e todas elas se apaixonam pelas suas orelhas e propõem casamento. Geralmente a pessoa acorda desse sonho achando que bebeu algo errado antes de dormir.

Baratov: sem dúvida nenhuma esse sonho reflete a falta de moral capitalista, o sonhador acredita-se ser o asno de ouro que, com suas posses, pode comprar o amor, como se esse fosse apenas mais um produto descartável e sem nenhuma mais-valia relativa. Caso o sonhador seja um stalinista ortodoxo significa apenas que bebeu vodka demais antes de dormir.

Ahayhú: Quem tem esses sonhos acredita que está carregado dos poderes mágicos dos patriarcas, obtido através das poções cujas fórmulas secretas perderam-se junto com o desaparecimento de Atlântida.

Katzenberg: quem tem esse sonho está carente de colo ou desejoso de sexo.

Recomendamos aqueles que tenham alguma dificuldade em compreender seus próprios sonhos e que se identificaram com algum desses intérpretes, que visitem o site de interpretação online dos mesmos, o e-dreams, eles aceitam todos os cartões de crédito.

sábado, 29 de outubro de 2011

A ilha pornográfica

Ana Maria não entrou na cabina, porque as nossas praias não tem mais cabinas para as pessoas colocarem seus maiôs.

Chegou à praia num biquini legal, no sentido jurídico da palavra. Afinal, sempre fora uma garota muito comportada.


O que não impedia que ela tivesse passado por uma certa, digamos, modernização. Usar biquini era um exemplo disso.


Talvez o fato mais marcante dessas suas mudanças é que ela aceitou o convite do namorado para passarem um final de semana na praia.


Quartos separados, é claro. Mas, pelo menos, estavam dormindo debaixo do mesmo teto.


Claro que as amigas da faculdade não acreditavam nisso, mas Ana Maria não dava bola para o que os outros pensavam.


Eduardo, o namorado, era um sujeito liberal. Nem sempre concordava com as atitudes da namorada, mas as respeitava, em nome do amor.


Naquela manhã, estavam passeando de mãos dadas na praia quando viram um cartaz nuns barcos de turismo


Eduardo pegou o folheto e começou a examinar. Gostou de um deles e sugeriu a Ana Maria:


" - Que tal a gente passar o dia, amanhã, na Ilha do Pelado?"


Ana Maria ficou escarlate, depois vermelho cádmio, depois magenta, depois violeta cobalto e já estava quase azul da prússia, quando disparou:


" - Seu safado, sem vergonha, canalha... quem te deu a liberdade de me propor esse programa pornográfico?"


Eduardo emudeceu. Olhou para o folheto. Olhou para Ana Maria. Olhou de novo para o folheto e teve um acesso de riso.


Quando se recuperou do ataque de gargalhadas Ana Maria já estava longe, pegou um táxi até a rodoviária e, de lá, o ônibus de volta para Lorena.


Nunca mais quis ver o mar.

*Imagem: foto da Ilha do Pelado, tirada a partir da praia de Sâo Gonçalo em Paraty

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O vôo da pteroposa

Quando Amanda e Leonardo viram as fotos da Vila de Tuyuyu ficaram encantados, resolveram que seria naquele local que passariam sua lua de mel.

A beleza natural era abundante e descobriram que havia uma hotel à beira do Rio Foruat a poucos metros de onde ele desaguava no mar.

O hotel era pequeno, seis cabanas espalhadas no meio da floresta, suficientemente distantes uma das outras. Lugar perfeito.

A única coisa imperfeita foi que Leonardo, no meio do caminho recebeu um telefonema chamando-o para uma cirurgia de emergência.

Ele deixou Amanda no hotel e pegou a estrada de volta.

Amanda lamentou, mas sabia que teriam duas semanas exclusivamente um para o outro, além do que, ela conhecia os riscos de casar com um neurocirurgião.

Quando estava acabando de jantar a dona do hotel veio conversar com ela. Contou a respeito da lenda da pteroposa, um imenso inseto voador que, segundo os nativos locais, tinha o dom da profecia noturna.

Disse para Amanda que nunca ninguém tinha visto tal ser mas, por via das dúvidas, era melhor dormir com as janelas fechadas.

Amanda, mulher cética e completamente avessa a qualquer superstição, ignorou completamente o conselho.

Antes de dormir falou, por telefone, com Leonardo. A cirurgia fora bem sucedida e na manhã seguinte ele estaria com ela.

Logo depois de dormir ouviu o barulho de venezianas batendo. É o vento, pensou, e nada mais.

De repente sentiu algo nos seus pés, mexeu-se e o som foi de um farfalhar de asas. É um corvo, imaginou, e nada mais.

Acendeu a luz para espantar o bicho. Não era um corvo. Nem um morcego.

Pousado na moldura de um poster de Atenas, um ser alado desconhecido olhava para ela. Parecia uma mariposa do tamanho de uma gaivota, mas não era uma coisa, nem a outra.

Como o bicho não parava de olhar ela perguntou se ele ficaria ali muito tempo.

Disse a ave: " - para sempre."

"- Como assim? Acha que a noite vai durar tanto?"

Disse a ave: " - para sempre."

Amanda ficou assustada, se a noite não acabasse, ela nunca mais veria Leonardo.

"- Mas...mas...e a minha lua de mel?"

Disse a ave: " - para sempre."

Aliviada e feliz, ela não resistiu a mais uma pergunta:

" - O amor do meu Leonardo...?

A ave sorriu maliciosamente e respondeu

" - Para sempre!"

Quando chegou na manhã seguinte, Leonardo encontrou Amanda dormindo e uma imensa mariposa na moldura do poster acima da cama.

Antes de soltar o bicho, tirou uma foto da cena. Era algo para ser guardado para sempre.

domingo, 23 de outubro de 2011

Fusão

Cobalto e magenta espatulados
A tinta tenta apaixonado fato
Surpreende o amado
A amada inventa
Namorados

Cobalto e magenta retratados
Cor que arrebenta os nós,
Tanto tempo depois,
Desatados

Cobalto e magenta misturados
No mar, no céu, no asfalto
No vento, em um,
Amalgamados.

Cobalto e magenta
namorados
espatulados
retratados
misturados
desatados
amalgamados.

Cobalto e magenta apaixonados

sábado, 22 de outubro de 2011

Uma história nada áspera

Adenilde trabalhava num salão no Tucuruvi. Fazia quase de tudo, mas sua especialidade era a esfoliação.

Não só conhecia todas as técnicas e produtos para tal prática como, apesar de sua pouca formação escolar, conhecia profundamente o assunto, ainda que esse fosse muito superficial.

Brincava que ela era a tanatopraxista das células mortas. Sua clientes geralmente achavam o termo engraçado.

As que entendiam o que era isso, não achavam graça nenhuma.

Fora do salão, era uma mulher abrasiva, o que sempre tornou difícil seu relacionamento com os homens.

Um dia estava no supermercado Ourinhos comprando produtos para produzir seus esfoliantes caseiros quando seu carrinho, numa curva de gôndola, trombou com o carrinho de Adalberto.

Vendo que o carrinho dela tinha fubá, açúcar mascavo, amêndoas, gérmen de trigo e azeite, ele perguntou que tipo de bolinho que ela ia fazer.

Ela respondeu na bucha, que estava pouco se lixando para os bolinhos.

Adalberto sorriu e antes que ela tivesse tempo de desviar dele, redarguiu que preferia que ela muito se lixasse era para ele.

Adenilde sentiu um frio todo o seu colágeno, percebendo a tonificação do rapaz.

Casaram meses depois.

A pele de Adalberto nunca mais teve manchas ou acne e Adenilde se tornou uma seda de mulher.

domingo, 9 de outubro de 2011

A estóica antologia do bimestre


Não...não faça isso. A regra desse post é ler os comentários e imaginar sua própria história, jamais volte aos textos para entender os contextos.

Agosto foi mês de cachorro louco, setembro de vacas magras, aí seguem os melhores comentários do bimestre:

Me enganei. É "pé de tango"

É duro ser metaleira.


imaginei em que árvore estará a edicula...


Não sei quem casou-se com quem.


Vou para o Bosque Encantado


Realmente estes parasitas fazem uma farra doida


só não me recordava mais de "quem era quem"


Elogio a tua loucura!


É importante entender a situação de Plutão.


Digno de se ler degustando uma ambrosia


Talvez um dia, pelo fato de falar russo, encontre um ser humano que vá me entender!


Cebolas, Adiron? Cebolas!?!?


Mas,ouvi falar em outros tempos, que o perigo era a saliva


você não me liga e eu não te telefono!


tô melodrámatica acho que vou lavar rúcula...


Me deu vontade de comer rúcula !


Vai ter certificado?


Você poderia fazer o favor de perguntar a ele se tem algum apartamento para vender ou alugar no prédio ?


Aonde eu encomendo a tal da nuvem episilon?


Esse "ego vos ignorare" está à venda?


Moral da História: Nunca devemos pedir beijos ....


ninguém dá um beijo antes de engolir um sapo!!!


aí já ultrapassa o limite de suportável!


o maquinista se empanturrou com sopas de letrinhas


Sei que preciso fazer recuperação paralela.


Qual a diferença entre o nudismo decapitado e a vestimenta capitada?


só que pareciam defuntos e ainda por cima estavam cheios de ataduras


* Foto de Virginia Susana Fantoni na exposição de Olafur Eliassom na Pinacoteca do Estado.

sábado, 8 de outubro de 2011

Nova descoberta científica

Uma das especialidades bizarras desse blog é a etimologia analítica cataclítica, ciência que estuda a origem de clichês de palidez cadavérica.

Depois de décadas de estudo dos xilógrafos da biblioteca de Alexandria, nossos pesquisadores descobriram a origem da famosa expressão "Jingle Bells".

Na segunda metade do século XIX, os dingos, espécie de lobo australiano, assolavam as fazendas de criação de ovelhas do sudeste do país.

Como os animais se reproduziam mais rapidamente que a capacidade ecônomica dos fazendeiros de comprar munição, foram desenvolvidos meios alternativos para manter os bichos afastados das deliciosas costeletas de cordeiro ao molho de menta.

Uma delas, seguindo a famosa fábula de Esopo, foi a de pendurar guizos no pescoço dos dingos, numa faixa de frequência sonora que assustasse as ovelhas. Sendo a Austrália um país que fala uma corruptela da língua inglesa, os guizos foram patenteados com o nome de "dingo bells".

Assim como na fábula, isso não resolveu o problema, uma vez que nenhuma ovelha quis se arriscar a pendurar o bell no dingo, e os estoques de guizos ficaram todos encalhados nas fábricas da Nova Gales do Sul.

Anos se passaram até que, durante os pós guerra, um grupo de publicitários que foram surfar no paraíso do surf, encontraram o velho galpão de guizos abandonado. Brincando com os produtos, um deles, chamado Pierpont, percebeu que tinham uma sonoridade muito parecida com o sino do papai noel que fazia ponto na Avenida Madison, em Nova York.

Como o publicitário tinha recebido a encomenda de um jingle de Natal para a Macy´s, ele comprou todo o estoque de "dingo bells" por uma ninharia, mandou gravar o nome da loja em cada um deles e colocou um batalhão de papais noéis distribuindo os guizos pelas ruas, enquanto cantavam o jingle dos bells.

A campanha fez tanto sucesso que a canção entrou para o repertório natalino americano e, depois, mundial. Tendo sido gravada desde Elvis Ozborne até pela dupla sertaneja-MBA (um universitário pós moderno), Tico-tico e Sabiá.

Atualmente, cada vez que a música é excutada, a Fundação Surinamense de Defesa dos Dingos recebe 1 centavo de dólar australiano, o que a faz uma das ONGs mais ricas do mundo, mesmo que nunca um dingo tenha sido visto em Paramaribo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ars gratia artis


A polêmica deve ter surgido quando o primeiro australopiteco acabou seus primeiros desenhos nas cavernas de Altamira, seu companheiro de moradia olhou para aquilo e perguntou: "- Será isso arte, ou não?"

Diz a lenda que eles se chamavam Caim e Abel e que a discussão não acabou bem.


Tecnicamente, arte (Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade) é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra de arte.


Uma definição bastante ampla que poderia ser resumida em "qualquer porcaria é arte", uma vez que nesse espectro, até esse texto pode ser considerado como artístico.

No sábado passado, por indicação de uma professora de pintura fomos (eu, Virginia e as crianças) ver "Em Nome dos Artistas", um imenso panorama da arte contemporânea americana.

Fiquei sinceramente animado quando, ao pesquisar sobre a mesma, me deparei com uma matéria que definia o conjunto de artistas da mostra como o dream team da arte contemporânea.


Vou poupar meus leitores dos detalhes sórdidos a respeito do que vi mas, garanto, passei o tempo todo olhando para aquele imenso conjunto de tranqueiras me perguntando o que é que define arte.


Não sou um purista que rejeita o abstracionismo ou a música atonal, mas reconheço que aquilo ultrapassou todos os meus limites de tolerância.

Quem melhor definiu a exposição foi a Letícia. Segundo ela, a melhor parte do passeio foi a água que compramos na saída, essa, pelo menos, teve um efeito refrescante para ela.


E pensar que eu poderia ter ido à Pinacoteca ver a marinas de Fernando Lemos...(tudo bem, o próximo final de semana está chegando)

*essa foto foi tirada a caminho do carro na volta, simboliza o estilo profundamente artístico do que vi

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Constatações desaforísticas

Constatação bioquímica: meu pH está cada dia mais baixo

Constatação pragmática: quando precisam de você, você é importante, quando não precisam, você se torna invisível.


Constatação culpabilística (d´aprés Saint Exupéry) : você se torna eternamente responsável por qualquer desgraça que aconteça


Constatação telemarketelógica: Eu vou estar verificando, para estar respondendo e retornando a sua ligação.


Constatação cocinelídea : em boca fechada não entra joaninha


Constatação globalizada : o mundo gira, a lusitana roda, e a economia só derrapa

domingo, 25 de setembro de 2011

Uno

Depois de muitas aulas e muito ensaio, começa a sair alguma coisa

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Árvore geneilógica

Quando a prima do meu tio casou com o irmão da cunhada da minha mãe o caos instalou-se na família.

Ela, que era casada em primeiras núpcias com o falecido concunhado da minha sogra, repentinamente tornou-se prima em segundo grau dos próprios filhos.


Não bastasse o fato de que ela agora era nora da sua tia, ele também deixou de ser uma parente por afinidade para tornar-se irmão de sangue da minha sobrinha.


Vovó quase enlouqueceu-se ao descobrir que sua filha caçula, agora era sua sobrinha-neta por parte de pai, da enteada de sua tia-avó.

Vovô passou a chamá-lo de netinho, mesmo sabendo que ele se tornara nada menos que o irmão de seu próprio pai.

O padre que realizaria a cerimônia de casamento, nada ortodoxo, teve dificuldades em organizar pais e tios no altar, uma vez que ninguém tinha muita certeza do que era antes ou seria depois da oficialização do matrimônio.


Quando o juiz de paz, que também era parente, descobriu que essa reorganização familiar dele o irmão mais velho da sua mãe, mandou parar tudo, rasgou os papéis de casamento e disse que estava tudo anulado.

Como o amor era mais forte que a genealogia, amigaram-se e vivem em concubinato na edícula da casa do pai dela (ou será agora, o padrasto dele?)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Primaveril

Saudei-a com fosfóreos rabanetes
Entre messes e entre tantos flertes
Periféricos astrolábios acusavam
Os contos os cantos acicutavam

Dentre os ais, aí infindos gorgulhos
Desabavam noz moscada em meus orgulhos
Plácidos, ébrios, pirotécnicos
Melros flanavam esotéricos

Veio a estação, primaveril e ousada
Nabucodonosor estirado na calçada
Pintava a alho e óleo a margarida
Desentupindo o ralo dessa vida

Claudiquei claudiquei claudiquei
Absorto entre o bobo e o rei
Dormi o sono dos inocentes úteis
Trajando meus pijamas inconsúteis.

sábado, 10 de setembro de 2011

Caso de polícia

Ao chegarem ao "Verme que ri", seu restaurante preferido, Oxíuro e Filária nunca imaginaram que dariam de cara com Sólium e Saginata, na mesa ao lado.

Até porque eram dois chatos da tribo dos platelmintos e, como é de conhecimento geral, nematelmintos como Oxíuro e Filária, não toleravam a tribo rival.


Primeiro foi uma troca de olhares hostis, depois a provocação sussurada de Oxiúro, que se referiu a Solium como "aquele porco".


Foi o suficiente para Saginata atirar o conteúdo do seu copo de água suja em Filária, aos berros.


"Sua elefantinha!" bradou Saginata.


"Sua vaca!!" redarguiu Filária.


O bate boca chamou a atenção de outro casal de natelmintos que estava na mesa do fundo. Ancilostomo e Lombriga, logo vieram ao socorro dos cotribais.


Em maioria, começaram a partir para ofensas hermafroditofóbicas e hidrofóbicas.


Solium e Saginata já estavam se sentindo acuados quando viram, passando pela rua, seus amigos Esquistossomo e Planária.


Pediram socorro.


Esquistossomo já entrou dando um pescoção em Oxíuro e um chute em Ancilostomo. Planária, para não deixar por menos, puxava os cabelos da Lombriga e cuspia em Filária.


Voaram copos, pratos e cadeiras.A quebradeira foi geral.


A confusão só foi controlada com a chegada da polícia sanitária que dispersou os brigou com bombas de gás de ervas de santa maria e jatos de mentruz com leite.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Stultitiae Laus

Quando Anoia chegou em casa, sua mãe, Frescura discutia com Plutão, recém rebaixado da sua condição planetária.

A mãe acusava o pai de misoponia e destempero. Anoia, não abriu a boca, sabia que, caso o fizesse, ela seria responsabilizada pela situação.

Não era esse o seu desidério, a menina era viciada em discursos laudatórios, quando não os recebia vitimizava-se e, não raramente, exaltava-se.

Frescura olhou para a filha, esperando a oportunidade de transferir a culpa do bate boca para a filha. Plutão, desviou o olhar, como se não percebesse o que estava acontecendo.

Nada falando, além de saudar os pais, Anoia foi diretamente para o quarto, onde encontrou sua irmã Philautia que, por sua própria natureza, também não quis saber da retórica materna.

Anoia recostou-se na cama e mandou um torpedo para o seu namorado, Kolakia, um jovem grego versado na arte da adoxografia.

Chamou-o para sair, ela estava carente de sua loas, especialmente as que eram temperadas com sal. Kolakia não pensou duas vezes, em minutos se dirigiu para Anoia.

A garota, para não enfrentar novamente os pais, saiu pelas portas dos fundos, repleta de inebriação e paramentos, em busca dos seus objetivos hedonistas.

Kolakia, com seu jeito satírico pleno de abusos supersticiosos, levou Anoia a gargalhadas e espirros.

Naquela noite, Anoia dormiu em paz e sonhando com todos os elogios feitos à sua loucura.

domingo, 4 de setembro de 2011

Um amor de Babel

Conheceram-se na cabine de tradução simultânea da ONU.

Bora, croata, falava além da sua língua, alemão, inglês e albanês.

Carolina, equatoriana, falava espanhol, francês e italiano.

A paixão foi à primeira vista, mas mão conseguiam se comunicar.

Bora matriculou-se num curso de espanhol, mas teve de abandonar pois o emprego exigia que falasse russo em três meses.

Carolina tinha dificuldades em línguas não latinas e, para aumentar sua renda foi aprender romeno.

Só conseguiram marcar um primeiro encontro graças ao tradutor etíope que falava inglês e espanhol.

Foram jantar num restaurante judaico, sem saber o que pedir, ficaram um olhando para o outro enquanto um borsht esfriava à frente deles.

Voltaram para casa em silêncio, mas o beijo de despedida misturou as línguas.

No dia seguinte, o embaixador alemão reclamou que não conseguia entender uma só palavra falada por Bora.

O adido militar do Panamá ficou sem saber exatamente o que Carolina quis dizer com "kemijskog oružja bit će izbrisan sa Tripoli"

Foram chamados pelo coordenador geral da tradução, um chinês que falava 18 línguas e, mesmo assim, não conseguiu entender nada dos que os dois falavam.

O chinês resolveu colocar o casal apaixonado em licença, dando-lhes 90 dias para que se recuperassem da confusão mental.

Bora e Carolina aproveitaram para se casar em Sri Lanka.

A cerimônia foi conduzida por um sacerdote azerbaidjano que falava urdu.

Abandoram a carreira e foram plantar cebolas em Pitcairn, onde a única língua que precisavam era a do amor.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Novos aforismos


Mensagem
Maus jogadores são sempre maus perdedores

Não se surpreenda com as minhas ações, elas são apenas a execução das minhas convicções

A liberdade de expressão é a liberdade de dizer a verdade (e com educação)

Nada mais oximórico que um verdadeiro mentiroso

Quem não tem cão caça sem precisar levar saquinho para recolher cocô.

Mais dia menos dia e você acaba sem dia nenhum

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Rapidinhas

Lógica estruturada

No meio da lua de mel
ele não resistiu e declarou:

"- Meu bem, agora eu posso te beijar em qualquer lugar..."


"- É verdade querido, mas não qualquer lugar ao quadrado."


"- Como assim? Ao quadrado?"


"- Não pode ser em qualquer lugar em qualquer lugar."


"- Você bebeu muita champagne, docinho?"


"- Pensa um pouco. Você pode me beijar em qualquer lugar em poucos lugares e se quiser me beijar em qualquer lugar nao poderá ser em qualquer lugar."


"- Hein?!?"


Naquela momento ela percebeu que o casamento não ia durar muito.

Semântica

Ela sempre confundia alhos com bugalhos.

Abastecia a despensa com excrescências da azinheira do fundo do quintal e, não poucas vezes, cozinhou o spaghetti ao bugalho e óleo.

Já o alho que a mãe insistia em trazer da feira, era lançado no jardim para alimentar as vespas.

Teria levado a vida sem sobressaltos se não tivesse sido atacada por um vampiro que a esbugalhou.

Desarticulações

Quando ele disse que iria colocar as mãos na água para secar ela achou que era mais uma de suas piadas sem graça.

Ao perceber que ele não saia do banheiro e que a torneira estava aberta, acreditou que era provocação, só para vê-la com sua expressão de desgosto*

Bateu na porta do banheiro, ao que ele respondeu que estava ocupado. Ela perguntou o que é que ele estava fazendo.

" - Oras, estou aqui abrindo antes que feche! O que mais poderia fazer num lugar como esse?"

No dia seguinte ligou para o reumatologista e perguntou que remédio ele recomendaria para casos de reumatismo sináptico.

*Não encontrei uma palavra melhor para o termo, em inglês, disgusted.

domingo, 28 de agosto de 2011

Pelo telefone


José já era bem passado dos trinta anos quando resolveu que estava na hora de morar sozinho.

Sua mãe lhe deu todo o apoio, mas os amigos acharam que ele estava fazendo uma maldade deixando-a sem companhia. Os irmãos, mais velhos e casados, não falaram nada, mas também não ficaram satisfeitos com a mudança.


Para não causar muito stress, José foi morar a poucos quarteirões da mãe. Ajeitou-se bem num pequeno apartamento e, com a ajuda de Rosana, sua namorada, decorou-o sem exageros e com bom gosto.


Assim que sentiu que estava devidamente instalado avisou os amigos sobre o novo endereço e o novo telefone.


O que ele não esperava é que o telefone nunca tocasse. Não que não funcionasse, ele fazia ligações normalmente e quando ligava do celular para o fixo era bem sucedido.


Depois de 6 meses ele era capaz de contar nos dedos das mãos as ligações recebidas. Duas ligações de televendas, uma por engano e uma de Rosana (que preferia ligar no celular) e uma da mãe avisando que iria passar o final de semana na casa de um dos seus irmãos.


Acostumou-se com o fato e, num determinado momento, esqueceu do assunto. Até o dia em que Rosana veio passar o primeiro fim de semana com ele.


Diferentemente do telefone de José, os de Rosana tocavam o dia inteiro. Fazia sentido, médica pediatra, sempre tinha alguma criança com otite ou rotavírus ou, pelo menos, alguma mãe fresca em pânico sem nenhum motivo.


José já se acostumara a ser interrompido durante os momentos mais inusitados pelos telefones de Rosana inclusive, nesse final de semana, ela chegara em casa receitando colutórios.


Quando entrou, ela deixou seus três telefones na mesa da sala. Ajudou a preparar o jantar, comeram, lavaram a louça, assistiram a um filme na TV e foram deitar.


Rosana, nesse momento, percebeu que não recebia ligações há mais de três horas. Checou os telefones. Todos com baterias carregadas e sinal das operadoras.


Foi deitar preocupada mas depois pegou no sono e dormiu profundamente, como há muito não acontecia.


Assustou-se ao acordar. Achou que tinha dormido tão pesadamente que não ouvira os telefones. Mas não havia nenhuma chamada.


Ligou o computador de José já supondo que algum desastre tivesse derrubado o sistema telefônico nacional. Nada. Vida normal.


José, de tão acostumado ao silêncio, nem tinha percebido. Pegou seu telefone e ligou para os celulares de Rosana, todos tocaram.


Pior, mal colocaram o pé na calçada para ir à padaria e começaram as chamadas para Rosana.


José ligou para um amigo, alto funcionário técnico da tele. O amigo disse que poderia ser um problema de subtensão, surto de tensão ou falha de comutação. José não entendeu nada e o amigo disse que mandaria um técnico verificar.


O técnico veio no mesmo dia, examinou os aparelhos, verificou a rede do prédio, chegou mesmo a examinar a caixa telefônica na rua. Não achou nada.


Levou o problema ao comitê técnico da empresa. Ninguém conseguiu resolver. O caso era realmente incomum. Resolveram fazer um conference call com técnicos de outros países.


Dias depois, José recebeu um pacote pelo correio, era do seu amigo. No pacote, uma carta e um grosso calhamaço com um laudo.


O problema tinha sido identificado por um engenheiro cingalês.


A casa de José estava cercada por uma nuvem de raios epsilon que impediam a propagação de sinais telefônicos.


O nome do problema era "Ego vos ignorare" e atingia qualquer telefone que estivesse no local.


Nunca mais tocou no assunto.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Conto sem fada

Era uma vez um formoso príncipe, de longos cabelos morenos cacheados e olhos verdes que morava num reino muito muito muito distante.

Um dia, sem querer, deixou cair no lago do palácio a sua peteca de badminton. Pensou que as trutas do lago deglutiriam a sua peteca e começou a chorar.


" - Príncipe, não chore, vou pegar a peteca para você." - disse uma rã.


" - Você faria isso para mim? perguntou o príncipe sem se dar conta que estava conversando com um anfíbio anuro.


" - Claro, mas só farei isso em troca de um beijo."


O príncipe que estava ansioso para retomar o seu jogo concordou.


Então a rã pegou a peteca e ficou esperando o beijo, mas o príncipe pegou a sua peteca e voltou para a quadra para terminar o último set.


A rã, furiosa, começou a gritar que queria o seu beijo.


Cada vez que gritava o príncipe errava a sua jogada e já estava quase perdendo o jogo quando seu pai, o rei, o interrompeu.


" - Do que está falando esse batráquio?"


" - Estou só cobrando uma promessa, alteza. O príncipe me prometeu um beijo depois que eu recuperasse a peteca no lago."


O rei encarou o filho com um olhar de reprovação. Promessas reais deviam sempre ser cumpridas.


O príncipe, então, pegou a rã em seus braços e levou-a ao palácio.


Naquela noite jantaram rã à provençal e o príncipe, antes da última mordida estalou os lábios de satisfação e beijou o último pedacinho do prato.