sábado, 26 de novembro de 2011

Meia luz

Morocha era uma mulher de luz. Luz natural, é claro, detestava lâmpadas quentes ou frias. Não morria de amor por velas nem lamparinas.

Sempre dormiu de janelas escancaradas, luz da lua, luz do sol e até a luz fugaz do cometa Halley iluminaram sua cama.

Só colocou uma cortina translúcida quando construíram um prédio ao lado do seu e, mesmo assim, exclusivamente para preservar sua privacidade.

Alfonso era o homem das trevas. Engenheiro de túneis, só tolerava iluminação artificial e, mesmo assim, só da casa para dentro.

Odiava qualquer feixe luminoso que lhe atingisse exogenamente.

Morocha usava roupas estampadas e coloridas, sempre muito leves.

Alfonso só se vestia de preto, da sola dos sapatos aos colarinho das camisas.

Encontraram-se numa praça, num dia de chuva forte.

Morocha tinha sido pega de surpresa pela tempestade. Alfonso tinha saído justamente para aproveitar o clima sombrio.

Sabe-se lá por que, sabe-se lá como, apaixonaram-se.

Sabe-se lá como, sabe-se lá por que resolveram enfrentar, cada um, suas manias, para agradar o outro.

De tempos em tempos, Morocha usava um tubinho preto.

De tempos em tempos, Alfonso usava uma gravata colorida.

Ele comprou um óculos escuros para enfrentar a luz do sol.

Ela comprou um óculos escuros para agradar o namorado.

Casaram-se num dia de sol e chuva, ou seria chuva e sol?

Moram até hoje em Corrientes 348

3 comentários:

Taty disse...

Alguém tem que ceder......Beijos

Rubinho Osório disse...

Ah, a atração dos opostos... por que será, não?

clau disse...

Um caso de paixão eletrostática, creio...