segunda-feira, 16 de junho de 2008

Basium, osculum e suavium

Eu admito que sou um beijoqueiro. Não que eu saia aplicando beijos em qualquer um no meio da rua, mas tenho o hábito de cumprimentar amigas e mesmo alguns amigos de forma oscular.

Mais que isso, costumo mandar beijos nas minhas mensagens por e-mail. Claro, só para as pessoas que eu considero amigas. E gosto de adjetivar meus beijos, assim como meu amigo MAQ que costuma enviar abraços "acessíveis", "inclusivos" - eu geralmente retribuo-os com abraços em desenho universal.

Raramente tenho algum tipo de queixa. Mas já tive. Uma vez uma pessoa me pediu para parar de mandar beijos no encerramento dos meus e-mails porque o marido não gostava. Passei a mandar abraços. Ela reclamou de novo. Parei de mandar e-mails - seria ridículo mandar apertos de mão digitais. Quem não pode nem receber abraços virtuais merece ficar no isolamento.

Os mais antigos relatos sobre o beijo remontam a 2.500 a.C., nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia. Diz-se que na Suméria, antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses. Na Antiguidade também era comum, para gregos e romanos, o beijo entre guerreiros no retorno dos combates. Era uma espécie de prova de reconhecimento.

Aliás, os gregos adoravam beijar. Mas foram os romanos que difundiram a prática. Os imperadores permitiam que os nobres mais influentes beijassem seus lábios, e os menos importantes as mãos. Os súditos podiam beijar apenas os pés.

Eles tinham três tipos de beijos: o basium, entre conhecidos; o osculum, entre amigos; e o suavium, ou beijo dos amantes. Para evitar situações desagradáveis como a narrada acima, talvez passe a mandá-los em latim. Se o marido for culto o suficiente, vai saber que o basium quem mandei, é apenas de um conhecido.

Por outro lado, acredito que o suavium é apenas para a mulher amada. Beijo na boca é, definitivamente, um gesto erótico. Esse negócio de selinho, de beijar criança na boca, está totalmente fora das minhas práticas. Beijo na boca, ou é para valer ou é dispensável. Beijar criança na boca, uma forma de pedofilia e de erotização infantil.

Na Escócia, era costume o padre beijar os lábios da noiva ao final da cerimônia. Alguns se tornaram célebres ao quebrar o recorde do Guiness cerimônias de casamentos. Acreditava-se que a felicidade conjugal dependia dessa benção - não encontrei nenhum artigo científico com teste duplo-cego que comprovasse a tese. Já na festa, a noiva deveria beijar todos os homens na boca, em troca de dinheiro (dependendo da noiva, daria um belo financiamento da lua-de-mel).

No século XV, os nobres franceses podiam beijar qualquer mulher. Na Itália, entretanto, se um homem beijasse uma donzela em público, era obrigado a casar imediatamente. Franceses costumavam ser presos na Itália e as italianas se divertiam nas suas férias na Côte d´Azur.

Existem centenas de beijos poetados por aí. Gosto de muitos. Detesto todos os mal escritos e piegas. Meu preferido ainda é o do português Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.

Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.

É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Deliciosamente escandaloso, não é mesmo ?

Antes que me censurem, fico por aqui.

Ao conhecidos, beijos respeitosos...

Aos amigos, ósculos afetuosos...

Só para ela : um suavium, sem adjetivos.

8 comentários:

clau disse...

Ola Fabio!
Muito sucinto mas esclarecedor este seu artigo!
Pq é duro ter que ficar explicando, justificando, ou, pior, se desculpando, por todos os nossos atos, ufa...
Pq o melhor, mm, é classificar-los!!
Assim, fica a sugestao de sempre se colocar um "post scriptum "explicativo, para remediar um email que possa ser mal interpretado. Evitando, assim, sofrer reaçoes truculentas de um marido boçal, hihihi...
Bjs!

arimarcampos disse...

Querido Fábio.
Compartilho totalmente desse seu artigo ( dos outros também, mas nem sempre dá tempo para palpitar).
Já passei também por muitas situações embaraçosas por me despedir nas minhas correspondências com o famoso "beijão".Também tenho o hábito de beijar meus amigos, mas não chego a fazer concorrência para o "beijoqueiro"(lembra dele?aparecia toda hora na TV). Abraços e beijos. Arimar

Bel disse...

Adorei a explicação. Só conhecia do grego o "osculum". E já aprovveitei pra encaminhar ao meu amado o link, com muitos "suaviuns" (é assim o plural???)

Bjo! (de amigo virtual é qual??? kkkkkk)

Vilma disse...

Pensei que só aqui em casa que não era permitido crianças beijarem na boca, apesar da Victória ter beijado de supetão a professora na boca esses dias, ainda bem que a professora me contou..., mas beijar é bom e receber beijos por email, carta ou sms, faz a gente se sentir leve e amada. Beijo na boca só para pessoa que a gente tenha muito mais que uma amizade, e que confie tanto, a ponto de não ficar lendo nossos emails... se mexer nos meus emails sem autorização, não ganha beijo e ainda arruma consfusão...kkkkkkkk

Um beijo! ( para não perder o costume hehehe)

Fábio Adiron disse...

Clau...não faltam truculentos por aí...risos

Arimar: o beijoqueiro continua solto

Bel : imagino que o plural seja "suavia"

Vilma, sem confusões...

Ósculos a todas

malmal disse...

Elucidativo ...agora sei o nome dos beijos de meu namorado...

Juvenal manda apenas abraços..

bijok de internauta

Juliana disse...

Ando precisando de uns suaviums. Mas anda difícil encontrar o suavizador.

nilsdacruz disse...

Kra, ficou muuuito bom. Gostei de como postou suas ideias bem fundamentadas sem deixar que se tornassem piadas. Muito bom!