sábado, 31 de dezembro de 2016

Um ano de perdas

Eu sei, todos anos nascem pessoas e morrem pessoas. E nós nem sabemos disso, exceto por aqueles mais próximos de nós.

Nesse ano tive apenas uma pessoa mais próxima que se foi. E pouquíssimos nascimentos entre conhecidos.

Do ponto de vista de herança cultural, no entanto, foi um ano terrível. Muitos se foram.

Alguns, provavelmente, a seu tempo. Outros, cedo demais.

Janeiro começou bem mal. David Bowie, o camaleão que me ensinou que é possível mudar de estilo sem perder a qualidade.

Pierre Boulez, um gigante entre os maiores. Ettore Scola, que me fez dançar os mais variados ritmos no “Baile”.

Em fevereiro, Umberto Eco, uma das melhores lembranças dos tempos de faculdade e que perpetuou nas minhas estantes em todos os anos depois disso.

Em março se foi George Martin. E só quem é beatlemaníaco como eu é capaz de entender o que ele representou para a minha geração.

Também em março Keith Emerson (meses depois, em dezembro, foi a vez de Greg Lake), de qualquer forma, the show will never end.

Ainda em março (que mês...), foi a vez de Johann Cruyff, aquele cara que todos nós, na adolescência, queríamos ser.

Em abril foi a vez de Fernando Faro, que fez de um mero ensaio, uma antologia da música brasileira.

Maio levou Cauby Peixoto que, mesmo não sendo da minha geração, era uma referência da história da nossa música.

Também levou Boris Schnaiderman, o homem que permitiu o meu acesso a dezenas de textos da literatura russa. O que não é pouco.

Em junho foi a vez de Muhammad Ali, o eterno Cassius Clay. Com ele aprendi minhas primeiras lições sobre o que significa o racismo, que jamais vou esquecer.

Bud Spencer também se foi em junho, como dei risadas nos filmes de Trinity.

Assim como Alvin Tofler, um dos primeiros gurus que levei a sério.

Hector Babenco em julho levou com ele grandes momentos do cinema nacional, e Sérgio Machado, responsável por publicar muito do que tenho nas minhas estantes.

Agosto foi muito triste com a ida de Toots Thielemans, que conheci ao vivo num jantar do clube escandinavo nos anos 80.

Assim como outro que me fez rir demais: Gene Wilder.

Não sei se para aliviar meu aniversário, setembro passou em branco.

Mas outubro levou Dario Fo, um anarquista de primeira. E o grande Carlos Alberto Torres, o homem que deu fecho de ouro na copa de 1970, a primeira que vi pela TV.

A partida de Leonard Cohen, em novembro, foi uma das que mais me entristeceu (junto com a de Bowie). Suas canções e seus livros fazem parte da minha construção como ser humano.

Dezembro nos levou Ferreira Gullar, um dos primeiros poetas sujos que me encantou. Também foi a vez de Villas Boas Corrêa, vou sentir saudade da picardia e da inteligência dele.

Mais do que Carrie Fisher, me chateou a morte de Debbie Reynolds, sua mãe. Singin´in the rain deve ser um dos filmes que mais vezes vi na minha vida.

Muitos podem citar algumas dezenas de nomes que eu não mencionei. São suas referências.

Pode até ser que eles descansem em paz. Só Deus pode afirmar isso.

Nós, que ficamos, perdemos. Muito.

Que 2017 seja mais leve.

domingo, 28 de agosto de 2016

Uma frustração genial

A vida é uma comédia escrita por um comediante sádico (Bobby Dorfman, personagem principal)
Café Society é um filme frustrante.

E é genial justamente por isso, um filme cujo desenrolar vai frustrando cada uma das nossas expectativas sobre os desfechos da trama principal e de cada uma das subtramas.

Inclusive os desfechos que o próprio Woody Allen nos ensinou a esperar em outros filmes seus.

Alguns vão dizer que é um filme menor. Talvez seja mesmo. De qualquer forma, um filme menor de Allen ainda é melhor do que a grande maioria das tranqueiras que são exibidas nas telonas e telinhas.

O argumento do filme é bastante simples. Não tem nenhum ator saltando da tela nem nenhum personagem viajando no tempo. Nem camaleões.

Os personagens são seres críveis que vivem situações corriqueiras e têm sentimentos comuns a qualquer outro ser humano. Até os bandidos são bandidos comuns.

Não há nenhum ator ou atriz de beleza estonteante.

Os atores dão a impressão de serem seus próprios personagens na vida real. Nenhuma careta, nenhum exagero, nenhuma lágrima derramada para provocar reações melodramáticas.

A narrativa é linear. Nenhum flash back que obrigue o espectador a realizar sinapses complexas para entender.

Os diálogos, como sempre, são geniais. Especialmente os travados entre o pai e a mãe do personagem principal.

A mãe, não poderia deixar de ser a típica yiddishe mama, senão não seria um filme de Woody Allen.

A cinematografia é fabulosa, seja nos grandes planos, seja nos closes finais. A fotografia é deslumbrante, especialmente os jogos de cor da ensolarada Califórnia (a cena azulada da abertura do filme é emocionante).

E ninguém ainda conseguiu mostrar Manhattan como Woody Allen.

E ninguém consegue melhores trilhas sonoras do que ele.

Há humor? Claro, se você é daqueles que entende o humor de Allen.

Há romance? Sim, o filme é um grande romance.

Assim como há drama e há a eterna discussão ética sobre a culpa.

Se você gosta de Woody Allen, não perca. Vai se encantar.

Se não gosta, não perca seu tempo. Você vai se frustrar.


Imagem: Allen, Vittorio Storaro e Eisenberg (e um fotógrafo não identificado)

quinta-feira, 17 de março de 2016

As moscas estão vencendo

Quem sabe um mínimo de história (infelizmente são poucos), sabe que a política sempre viveu de jogos de interesses, manobras legais ou não, golpes baixos e alianças espúrias. Sem contar o uso de venenos, traições e manipulação de grupos de suporte.

Assim como sempre foi financiada por grupos que lucram com as suas práticas e sustentada por massas de ingênuos e idealistas que acreditam que líderes políticos podem transformar o mundo.

Não é à toa que Monteiro Lobato já definia a política como uma gamela cheia de estrume onde se nutrem grupos de moscas. Alternam-se as moscas, mas o estrume continua sempre o mesmo.

Eu sou daqueles que entendem que, sem mudar o conteúdo da gamela pouco importa a cor das moscas que a sobrevoam.

Justamente por isso que sou contra as moscas domésticas, varejeiras, de fruta, de estábulo, do vinagre, típulas, crisopas, de enxame, amarelas e, até mesmo, contra as moscas brancas.

Em momento em que as pessoas se sentem obrigadas a se incorporar a um mosquedo ou outro eu, que não me interesso por nenhum deles, sou considerado como um alienado ou favorecedor do lado onde o estrume fede mais (e ele fede mais sempre do lado oposto de quem esteja falando).

Quem me conhece um pouco melhor sabe que posso ser chamado (e o sou) de um monte de coisas, menos de alienado.

O que não significa que seres inflamados pelo ódio, vingança e desprezo de todos os tipos, não o façam e infelizmente o tem feito contra tudo e todos que não estejam alinhados ideologicamente com a sua farândola.

Pessoas que costumam fazer discursos piedosos e religiosos, mas não hesitam em ofender os seus semelhantes.

Pessoas que militam em causas que defendem a diversidade, mas, nessas horas, não aceitam diversos das suas ideias.

Pessoas que rugem ferozmente pela aplicação da lei e da justiça, desde que ela só seja aplicada contra os seus adversários.

Pessoas que discursam pela liberdade de opinião somente dos seus asseclas.

Pessoas que acreditam que podem distorcer, fraudar e manipular informação de acordo com o que lhes convém.

Pessoas que acreditam que a intolerância e o conflito são as únicas ferramentas de debate.

Tenho amigos praticamente em todo o espectro político-ideológico. Alguns conseguem argumentar de forma racional e educada sobre as suas convicções. E eu os admiro por isso.

Infelizmente muitos se deixaram levar pela turba massa ou pelas notícias plantadas nas mais diversas mídias da extrema esquerda à extrema direita, e adotaram um discurso de ódio e ofensas aos demais.

Pior, quando questionados indiretamente por esse tipo de postura, aproveitam para ofender de novo os adversários (o que, certamente, vai aparecer nos comentários desse texto).

Pessoas que exigem um respeito que não têm. Uma honestidade que não praticam. Uma educação que perderam no meio do caminho.

Enquanto perde-se tempo com esse bate-boca inócuo, o estrume da gamela se multiplica, e as moscas refestelam-se. Tristes tempos.