quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Estou em férias




Depois de 4 meses de insanidades ensandecidas e de um ano de trabalho duro, estou de férias. Volto no final de Janeiro.

O que não significa que você, que já chegou até aqui, não possa aproveitar o blog. São quase 140 posts entre crônicas, poesias, relato, música e humor.

Divirta-se, e não esqueça de deixar os seus comentários

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Um abraço e até a volta

Fábio Adiron

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Fechado para balanço


Como amanhã estarei indo para a megalópole da Juréia nas minhas férias, não sei se merecidas, mas certamente necessárias. Deixo aqui um balanço das atividades desde 24 de agosto, quando o blog foi criado, até hoje.

Em 125 dias foram publicados 137 posts. Tirando as músicas e os cartuns, todos, egocentricamente, de minha lavra.

Foram 6577 visitas, 11552 exibições de páginas. O blog foi visitado por 2540 visitantes únicos. Em média, as pessoas ficam um pouco mais de 3 minutos no site.

Mais da metade dos visitantes vêm de sites de referência, o Orkut é a principal fonte desse movimento. Depois dele, a busca orgânica do Google. De um total de 273 origens, essas duas foram responsáveis por 25% das visitas. Viva Paretto !

Clarice Lispector e variações é disparada a palavra chave que gerou mais visitas. Depois são as expressões de cunho sexual (achei que seria a primeira). Paideuma, bucinadores e catabólitos estão entre as preferidas também (coitadinhos daqueles que caíram aqui achando que iriam encontrar respostas sérias para as suas dúvidas)

O pico de visitas foram os três dias posteriores à publicação do cartão de natal, mas de duzentas visitas por dia. 22 de setembro foi o pior dia : 19 visitas , o que faz sentido, pois foi o período da minha mudança de casa e fiquei 3 dias sem publicar nada.

Macho macho man , o texto de 3 de setembro foi o que gerou mais comentários : 20 . Depois dele, Confesso que traí (meus leitores adoram um escândalo), 13 ; Vulgus vult decipi, ergo decipiatur (latim sempre tem um certo charme..), 12.

No final de janeiro eu volto.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Receitas de verão


Se você é um enólogo sofisticado ou faz parte da legião dos puristas de plantão, por favor, clique no "voltar" do seu navegador e leia outro artigo. A menos que você esteja querendo se escandalizar, o assunto deste texto são os refrescos de vinho. Dois clássicos de origens diferentes, mas com alguma coisa em comum: a sangria e o clericot.

A sangria vem da Espanha, de raízes humildes e populares, provavelmente da região da Andaluzia, onde se tornou comum e daí partiu para o mundo. Como tantas outras misturas e receitas clássicas, cada barman ou restaurante tem a sua receita "original", mas que basicamente se resume a vinho tinto, frutas picadas, açúcar e gelo. Por outro lado, é um dos refrescos de vinho que permite a cada pessoa criar um no seu próprio estilo, com as frutas que preferir ou estiverem mais à mão.

O ideal é prepará-la e bebê-la ouvindo Albeniz ou De Falla, com vinhos tintos encorpados de boa estirpe. O vinho precisa ser encorpado para resistir à mistura. Nunca use vinhos leves demais, nem vinhos de má qualidade, achando que já que vai ser misturado tanto faz - lembre-se, você vai bebê-la e a qualidade do vinho pode impactar diretamente no seu fígado. Em alguns lugares, se faz a sangria com vinho branco, em outros eventualmente usam-se espumantes, mas as melhores receitas são aquelas que usam riojas legítimos. Como esses nem sempre estão disponíveis, procure um malbec ou um tannat de boa qualidade.

Muitas frutas podem ser usadas. As mais tradicionais são laranja, pêssego , melão e morangos. Não comprometem a receita as cerejas e outras frutas temperadas. Evite frutas tropicais, como abacaxi e manga, e também as uvas de mesa, que não vão combinar com as uvas viníferas. Açúcar a gosto, mas sem exageros - é melhor ser austero do que generoso. Deixe passar a noite na geladeira e, na hora de servir, coloque a jarra em um recipiente cheio de cubos de gelo.

Como é um refresco de grande efeito visual, escolha bem a jarra na qual vai ser servida, transparente ou colorida. Ponha uma mesa na varanda (não tem uma ? pode ser no quintal...) e sirva com frutas frescas.

Já o clericot não é um refresco qualquer de vinho e frutas que se combinam para beber nas festinhas de novos ricos. É um costume rural inglês de grande tradição, ao contrário da festiva sangria. Quando for prepará-lo, saiba o que está fazendo. Quando for servi-lo, faça-o com dignidade.

Seu verdadeiro nome é "claret cup" e, segundo George Watt, foi inventada por funcionários ingleses do Raj (administração colonial inglesa na Índia) na região de Punjab, que sofriam com o calor, as moscas e o tédio. No Punjab, a estação quente começa em 15 de março, às 4 horas da tarde, e só acaba com a chegada das fortes chuvas de monções em meados de junho. Durante esses três meses, em que tem-se a impressão de que o tempo não anda e que o sol vai derreter até a alma, os ingleses se entregavam ao bridge, aos romances de verão e ao "claret cup".

O Clericot pode ser feito com vinho branco seco (riesling ), rosé ou, para manter a tradição, com um tinto clarete. Para cada garrafa de vinho, se adicionam 12 cubos de gelo, rodelas de laranja, uma pêra picada, oito morangos, uma dose de Maraschino, outra de Grand Marnier e um pouco de água mineral com gás. Está pronto. O primeiro brinde sempre deve ser à Rainha da Inglaterra, os demais ao que der na telha.

Bom verão !

domingo, 23 de dezembro de 2007

Esses blogueiros chatos


Los Tres varrendo o sol

Los tres, grupo de rock chileno, assim como os mosqueteiros, são 4, Álvaro enriquez, Angel Parra (neto de Violeta Parra) e Roberto Lindl. o D´Artagnan do grupo é o baterista Manuel Basualto.

He barrido el Sol
De este lugar
Arrastré el Calor
Del basural
Que brillaba sobre tí
No sé si fue tan así

Con mi voz de plata
Haré temblar
Romper los cristales
Llorar, esperar
Y en tu cama brillará
El sol que no volverá
No es tan fácil
Ser feliz
Cuando opacaste el barniz
Que pintaste Verde, Azul y Gris
Que quitaste a espaldas de mí
Que pintaste Verde

sábado, 22 de dezembro de 2007

Filosofia sem sentido


Conforme nos aproximamos das festas natalinas e do final do ano já dá para notar uma queda sensível no acesso das pessoas à internet. Muitos porque acessam dos seus locais de trabalho, outros porque estão tão ocupados ou estafados fazendo compras que nem olham para o computador. O espaço virtual se torna quase um deserto, o que me remete questão sobre realidade e percepção : Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém por perto, ela faz barulho ?

Aí eu me pergunto : se ficar inventando hipóteses absurdas, será que isso é filosofia ?

Se o ladrão rouba algo que ninguém dá falta, houve crime ?

Se eu não lembro dos meus sonhos, será que realmente eu sonhei ?

Se eu me declaro de joelhos e ela não está por perto, existe o amor ?

Se o Joaquim trai a mulher com a Marieta e ninguém fofocou, houve conjunção carnal ?

Se chove no meio do mar, é só chuva no molhado ?

Se o solitário chora no quarto fechado, existe tristeza ?

Se eu não tenho mais o que fazer, posso escrever qualquer besteira ?

Se ninguém ler essa mensagem, será que o texto existe ?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Você anotou o telefone ?


No vidro traseiro de um camburão da polícia estava o aviso : "Incentive a doação de órgãos" . Confesso que achei a mensagem um tanto sinistra. Não que eu tenha algo contra a doação de órgãos, aliás, como já escrevi aqui, quando morrer peço que doem tudo o que ainda tiver alguma utilidade e queimem o resto para não ocupar espaço. Fiquei imaginando qual seria a mensagem subliminar. Os assassinos estariam participando da campanha ? Isso seria uma forma de justificar as represálias da própria polícia ? Quem mata está cometendo um crime ou salvando a vida de um possível receptor daquele par de rins ?

O uso de para choques e vidros traseiros como espaço de comunicação é bastante antigo, que o digam os bem humorados caminhoneiros com suas frase clássicas. A mais famosa, imagino, é a que diz :"Feliz era Adão que não tinha sogra e não dirigia caminhão". Uma das minhas preferidas é "Se você sempre tem tempo para parar e cheirar as rosas, mais cedo ou mais tarde você vai inalar uma abelha". Geralmente são frases primorosas sobre a filosofia do dia a dia. Por sinal, os caminhoneiros também estão preocupados com a doação de órgãos, uma das frases diz : "Não leve seus órgãos para o céu. O céu sabe que precisamos deles aqui..."

Os americanos são os reis dos adesivos de parachoques (bumperstickers). Por sinal usam adesivos que podem ser trocados com frequência, diferente das pinturas de caminhão. Alguns engraçados, outros de gosto extremamente duvidoso. Existem os de mensagens políticas, religiosas, ideológicas, sexuais e até de doação de órgãos também... Como tudo na América, a quantidade e a variedade é um exagero.

Mas não só de corações, córneas e outras partes transplantáveis vivem os parachoques. Uma vez, na traseira de um ônibus em Brasília vi uma imensa propaganda de banco. Na parte baixa à direita a assinatura : Banco do Brasil , milímetros abaixo - Mantenha distância. Aposto que o criador do anúncio nunca andou atrás de um ônibus.

De todas elas, a minha preferida foi a que vi no vidro traseiro de carro. Um adesivo dizia : "Propriedade Exclusiva de Jesus". No mesmo vidro, logo ao lado, uma plaquinha escrita à mão : "Vende-se. Tratar fone XXX-YYYY". Juro que fiquei tentado a ligar, mas não anotei o número e perdi a única chance que tive até hoje de falar com Jesus pelo telefone.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Isso lá é hora de poesia ?


Olhos, bocas, mãos, cabelos
Memórias que eu inventei
Por favor, me conte agora
A história que eu te contei.

Luz, imagens, sons, palavras
De sonhos que eu não sonhei
Seja rápida, me conte
A história que eu te contei

Degusto sabores cores
Idéias que cobicei
Conto, canto, sinto, vejo
Momentos que não gozei
Dizendo ao longe, me conte
A história que eu te contei.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

As garotas do Leblon não olham mais para mim


Eu até que resisti bem, foram 47 anos me esquivando como um bom lutador de boxe. O problema é que essa era uma batalha perdida contra o tempo.

No exame para minha carta de motorista, aos 40, o médico me disse que eu estava enxergando mais do que precisava. Aos 42, depois de muita insistência do oftalmologista, repeti o exame. Nada. Ou melhor, o mesmo astigmatismo pífio que tenho desde os 13 anos que nunca justificaram o uso de óculos.

Aos 45 ele voltou à carga e, como levava meu filho a cada 3 meses para ajustar seus óculos, cada consulta era um sermão de Vieira a respeito da minha idade e da consequente perda de visão. Um dia concordei. Vamos fazer o exame. Resultado : um olho apresentou uma alteração de +1, o outro de -1. O japonês ficou desconcertado. Nessa situação um olho compensava o outro, nada de óculos.

Dessa vez não teve jeito, até porque eu mesmo já vinha sentindo a falta de lentes. Especialmente à noite, as letras miúdas já sumiam. Pior eram os textos que certos diretores de arte ainda inventam de imprimir em negativo. Acredito que o único objetivo de fazerem isso é o de impedir a leitura. Aí eu apelava para a ignorância. Nunca tive uma lupa, mas tenho um conta-linhas que sempre me socorreu na hora do aperto.

E o exame não poderia dar outro resultado. Mais de 1 grau na visão de perto (nunca sei se essa é a miopia ou a hipermetropia), um pouquinho na visão de longe. E o sempre ridículo astigmatismo. Senti um certo ar vitorioso da parte do oculista (eu sei, eles detestam ser chamados de oculistas, mas essa é a minha vingança pessoal). Saí de lá pensando nas garotas do Leblon que nunca olharam para mim, agora é que não vão olhar mesmo.

Como miséria pouca é bobagem, para não correr o risco de fazer uma coleção de binoculares - um para perto, outro para longe e outro para a visão média (será a visão que se tem na Terra Média ?), já vou atacar de multifocal, Já me pintaram o Belzebu a respeito da adaptação a essas lentes. Como geralmente quem fala isso é quem costuma andar com os óculos dentro da caixa, eu vou arriscar. Se fossem assim tão ruins não teria tanta gente usando. No futuro escreverei a respeito.

A armação escolhida foi bem nerd. Larga, quadrada, imitando casca de tartaruga. Eu pensei em mandar uma mensagem para o Elvis Costello perguntando onde ele compra seus óculos, mas sei que ele é pai fresco e não vai ter tempo de ficar respondendo essas coisas. Uma amiga, escandalizada, me sugeriu óculos a la Elton John. Vou privar meus leitores da resposta que dei. Vocês não merecem.

Os óculos só ficarão prontos depois do Natal quando estarei na praia, quem sabe as garotas da Juréia ainda terão a chance de olhar para mim. Vou ter de esperar algumas semanas para estreá-lo. Enquanto isso sigo cantando : por que você não olha prá mim ? me diz o que é que tenho de mal. Por trás dessa lente tem um cara legal....

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Espaço aéreo gourmand


Num dos discos do MPB4, em plena ditadura militar, no comentário da capa, Millôr Fernandes escreveu : "Duro vai ser se, daqui a alguns anos, olhando para essa época, a gente diga - bons tempos, hein ?!"

Me lembrei dessa frase na minha mais recente viagem áerea. Há alguns anos, um dos comentários típicos de quem viajava de avião era falar mal da comida. Pior que essa só comida de quartel, diriam alguns. Outros apostavam como o prato seria o indefectível filet de frango com um molho misterioso e legumes cozidos no vapor. A comida sempre vinha coberta por um papel alumínio e, supostamente, estava quente. Além disso, mesmo na classe econõmica ainda serviam cerveja e, pasmem, vinho nacional.

Algumas companhias aéreas mais metidas a besta ofereciam opção de cardápio, podia ser carne ou....o bom e velho filet de frango. A Transbrasil chegou a ter aviões com classe executiva em vôos nacionais e, nesses, ainda serviam entrada e vinhos estrangeiros. O frango, provavelmente era importado. O molho era o mesmo. Caso você fosse vegetariano ou tivesse uma dieta religiosa, bastava ligar para a companhia uns dias antes do vôo e pedir um prato diferente - acho que na vegetariana vinham os legumes cozidos no molho misterioso, sem o frango. Na dieta judaica, o frango deveria ter feito o bris.

Hoje também te oferecem opções. E mais do que duas. No meu vôo eu podia escolher entre côco, banana e castanha do pará. Não, não se tratava do molho do frango, mas dos sabores das barras de cereais (se bem que um filet de frango com um molho de castanha do pará deve dar um bom prato, vou pensar numa receita...). Imaginei se seria possível ligar para a empresa e pedir uma barra de cerais não vegetariana. Na próxima eu vou tentar.

Barra de cereais também me levam de volta ao passado. Aos antigos filmes e desenhos animados de ficção científica, onde toda a comida era em barras ou pílulas. Eu mesmo experimentei a tal comida liofilizada quando estava no exército - se bem que esse não vale, como disse antes, era o único lugar onde se comia pior que em avião.

Não sei qual serão os próximos passos da gastronomia aeronáutica, a tendência é só de piorar mas, lembrando os "bons" velhos tempos do passado, será que não dá para inventar um barra de cereais sabor filet de frango ?

Nosso cartão de Natal


“Mas o meu Papai Noel não vem. Com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem...” (Assis Valente)




Hoje é dia de matar o Papai Noel.

Não, não pense que eu estou aqui promovendo um surto de serial-killers que vão atacar todos os shopping centers em busca de pobres velhinhos barbudos.

Também não espero que você compre um lança chamas para incendiar barbas postiças e roupas vermelhas, os coitados já passam calor suficiente nesse nosso Natal tropical.

Agora, aquele Papai Noel que, mesmo você que deixou de acreditar nele, ainda guarda na expectativa e na ansiedade de receber presentes e fazer festas, esse você pode matar de forma rápida e indolor.

Natal é dia de felicidade sim, mas de uma felicidade que não é de brinquedo, nem acaba após a euforia das festas. A felicidade de celebrar o único motivo pelo qual deveríamos nos lembrar dessa data. Ah...você é daqueles que não comemora o aniversário de Jesus Cristo ? Bem, nesse caso eu sinto muito, talvez a única saída nesse caso seja mesmo acreditar no Papai Noel...

De qualquer forma, sempre é o momento de descobrir que o bom velhinho não existe e de aprender que só em Cristo é que você vai encontrar a verdadeira felicidade, aquela que fez Paulo escrever ao Filipenses que “aprendeu a viver feliz em qualquer situação”.

Desejo a você um Feliz Natal e que essa descoberta possa fazer do seu ano novo, o ano mais feliz da sua vida.

Um abraço

Fábio Adiron, Elza, Samuel e Letícia

“ E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes, em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:7)

Síndrome de pódio


Em 1972, quando Emerson Fittipaldi ganhou o seu primeiro campeonato mundial de Fórmula 1, as corridas ainda não eram televisionadas ao vivo, o que não impedia alguns jornais televisivos de mostrar a tradicional festa do pódio. Desde então, os brasileiros se acostumaram a ver seus corredores ganhando corridas e, talvez por isso mesmo, tenham adquirido com o passar dos anos a “síndrome de pódio”, ou seja, aquele péssimo hábito de fazer voar as rolhas de champagne espalhando o líquido sobre tudo que há em volta, o que, além de ser bastante brega, é um desperdício brutal desses grandes vinhos.

Vinhos? O champagne nada mais é do que um vinho espumante. Mas também não é um espumante qualquer. Diz a lenda que um certo frade beneditino que se chamava Dom Perignon esqueceu algumas garrafas de vinho branco em sua adega e, por uma conjugação de condições propícias, um belo dia elas começaram a espocar, atirando longe as suas rolhas. Ao verificar o que acontecera, o frade teria exclamado: “Estou bebendo estrelas!”. O vinho tinha sofrido uma segunda fermentação dentro da própria garrafa, fazendo o teor de gás carbônico aumentar sensivelmente – estava inventado o champagne.

O método de produção que foi desenvolvido a partir disso pode parecer simples, mas está longe de sê-lo. Depois de produzido o vinho através dos métodos tradicionais de prensagem (no caso do champagne, são três etapas) é feito o assemblage, utilizando-se três tipos diferentes de uvas: pinot noir, pinot meunier e chardonnay. A partir daí é que se inicia o processo de gaseificação. O vinho é colocado em garrafas muito grossas (capazes de resistir a pressões de até seis atmosferas), recebe uma mistura de açúcar com fermentos que induzem à segunda fermentação e permanecem de cinco a seis semanas gaseificando. Depois disso, passam por um processo de decantação dos restos de leveduras – as garrafas são colocadas de cabeça para baixo e, quando todos os resíduos sólidos se acumularam no gargalo, a garrafa é colocada numa solução a 20 graus negativos, congelada, e os resíduos são extraídos. Está pronto.

Esse é o método “champenoise”, também chamado de método tradicional.Se você pretende tomar um champagne ou qualquer outro espumante nas festas de final de ano ou naquela jantar romântico com a desejada namorada, uma recomendação importante: não saia por aí estourando garrafas – tira muito do gás e, portanto, da qualidade do espumante. Não chacoalhe a garrafa, depois de tirar a armação de metal da rolha segure-a firmemente (se possível com um guardanapo de pano) e desatarraxe aos poucos. Se você pretende saborear a bebida, espere que ela soe no máximo como um “póp” bem suave, e nunca uma explosão barulhenta. Ou seja, ao melhor estilo de T.S. Eliot : "not with a bang, but a whimper".

Por outro lado, se a sua intenção é fazer uma grande bagunça com o espumante, eu recomendo uma garrafa de qualquer sidra vagabunda. Vai explodir e pelo menos você não desperdiçou muito dinheiro – a menos, é claro, que você seja um campeão mundial de fórmula 1.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A passageira ao lado


Era só mais uma viagem de ônibus, como fazia todos os dias. Ele já estava começando a considerar seriamente a hipótese de mudar de cidade. Essa vida de viajar todos os dias para trabalhar a mais de 100 km de distância já estava cansando. No começo hesitara, não sabia se o emprego seria estável. Depois de dois anos já se sentia seguro. Ainda se sentia preso à casa dos pais. A mãe sempre adoentada era uma preocupação permanente. Qual seria sua reação se ele, filho único, fosse morar em outro lugar ?

Entrou. Sentou no fundo, como era habitual. Abriu o jornal, repleto de notícias velhas que ele não lera pela manhã. Na ida sempre estava dormindo, tentanto completar as horas de sono que lhe faltavam. Quase todos os demais passageiros, que não eram muitos, eram conhecidos de rota, já se cumprimentavam só com um aceno de cabeça. Mal reparou quando ela entrou e sentou na outra janela da mesma fila. Com a cabeça enfurnada na seção de esportes, só percebeu um vulto passando ao lado.

Não havia ninguém sentado ao seu lado. Nem ao lado dela. Mesmo assim demorou para reparar. Estava procurando outro caderno do jornal quando a viu. Ela dormia com o rosto virado na sua direção. Linda, leve e suave. Parecia uma pintura. Cabelos claros, traços finos, lábios rosados. Travou de êxtase. De onde surgira aquela Vênus ? De repente se tocou que ela poderia acordar a qualquer momento e poderia surpreendê-lo. Começou a olhar com o canto de olho. De vez em quando se virava para admirá-la.

Quando entraram na cidade, cheia de buracos no asfalto, ela acordou no primeiro solavanco. Esbugalhou os olhos, se virou para a janela para ver onde estavam. Nem olhou para o lado dele. Ele arriscou mais uma espiada. Que decepção. Onde estava aquela mulher linda que estava dormindo até há pouco ? Acordada não parecia a mesma pessoa. Será que os músculos da face tinham se rearranjado depois do relaxamento do sono ? Não que fosse feia. Mas era uma pessoa comum, nem bonita, nem feia. Comparada à visão anterior, era um desastre.

O pior, no entanto, ainda estava por acontecer. Ela se virou para ele e perguntou se era fácil pegar um táxi na rodoviária. Tinha a voz de uma araponga. Ardida, estridente, como um martelo batendo numa bigorna. Ele demorou alguns segundos para responder, tamanho foi o choque. Foi curto e grosso para não prolongar o papo e ser obrigado a ouví-la novamente. Tentava entender a metamorfose.

Desembarcaram, ela na frente dele. Ele a seguiu de perto. Quando já estavam perto da catraca de saída ele não resistiu e falou : -"se você fizesse um juramento de nunca acordar, eu te pediria em casamento...". E desapareceu no meio da multidão.

Autobiografia - plagiando Millôr


Fábio Adiron foi extraído a fórceps. Na mais tenra infância conseguiu. Aos 15 anos conheceu aquela que seria. Porém mais tarde convenceu-se de que. Na faculdade de rádio e televisão criou e produziu. O que não significa que tenha deixado de. Seu estilo forjou nas melhores e piores tradições. Quando, porém, casou-se, abandonou temporariamente. Entre 1991 e 1996 teve. Mas foi apenas em 1998 que conscientizou-se de. Sempre acreditou que as melhores safras e os melhores textos. Até suas convicções políticas nunca foram. Até diante dos militantes. Uma vez na Iugoslávia, ainda sobre o domínio de Tito. Assim como no Chile pós-Pinochet. Certa vez, entrevistado na TV disse. Coerentemente repetiu no rádio as palavras. Seu discurso de posse, recheado de algaravias, foi brutalmente apupado. Isso sem falar dos termos inconsequentes que. De todos os marketeiros brasileiros. Seus filhos sempre o julgaram em termos, o que não significa muito nas condições. Acredita que algum dia alcançará. Já têm preparadas suas últimas. De resto, nunca, até algum dia.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Scripta ferunt annos


Cecília Meirelles dizia que escrevia por seu canto existia e sua vida estava completa. Pessoa se dizia um fingidor. Drummond fazia crônica da não notícia e da notícia. Afinal, porque escrevemos ? Ou, pelo menos, por que é que eu escrevo ? E por quê diabos é que insisto nesse ponto de interrogação solto no espaço ?

Algumas pessoas me perguntam se a minha vida é assim agitada como os textos do Mens Insana. Crêem que cada uma das histórias é um experiência autobiográfica. Tenho de admitir que se assim fosse, eu seria o próprio paxá num harém de odaliscas, só comeria manjares e beberia néctar no Olimpo (pode reclamar, eu acabei de misturar tradições otomanas com mitologia grega, mas não esqueça que gregos e otomanos são vizinhos, além do que eu sou insano mesmo).

Já cheguei a ser repreendido pela minha infidelidade e por estar bebendo demais. Já recebi mensagens preocupadas com a tendência suicida e necrófila em algumas mensagens. Alguns têm pena dos meus filhos, por terem um ogro como pai.Claro, também não tenho a capacidade de criar ex-nihilo, essa é uma prerrogativa da essência de Deus. Posso ser metido a besta, mas nunca vou ter a pretensão de me equiparar ao Criador.

Todas as minhas histórias nascem de pequenos detalhes, cenas fugazes, frases perdidas. Pode ser a pedra na vesícula de um amigo, uma cena observada no trânsito, um sachê de açúcar na cafeteria. A partir de um detalhe começo a imaginar um situação qualquer. A situação vira história. A história vem para o blog.

Já aconteceu de eu ter ouvido uma frase engraçada e criar um texto só para justificar o uso da mesma : "Eu te amo, mas não há mais monólogo entre nós".

Muitas vezes me vi obrigado a pesquisar origens ou significados de expressões e palavras (ou você acha que eu sempre soube o que era um catabólito ou um bucinador ?), tenho de admitir que tenho aprendido um monte de coisas novas com essa minha persona blogueira.

Meus poemas, por outro lado, se enquadram numa vertente mais realista. São ou foram escritos para alguém. No passado ou no presente. Não coloco as datas intencionalmente, para não reprimir a imaginação dos meus leitores.

A prosa sempre é ficção, inclusive essa.


Scripta ferunt annos : frase de Ovídio, que significa : "Os escritos desafiam os anos"

Biscoito fino de domingo

What's cute about little cutie
It's her beauty, not brains
Old father time will never harm you
If your charm still remains
After you grow old, baby

Keep young and beautiful
It's your duty to be beautiful
Keep young and beautiful
If you want to be loved

If you're wise exercise all the fat off
Take it off, off of here, off of there
When you'er seen anywhere
With you hat off
Wear a marcel wave in your hair

Take care of all those charms
And you'll always be in someone's arms
Keep young and beautiful
If you want to be loved

If you're wise exercise all the fat off
Take it off, off of here, off of there
When you'er seen anywhere
With you hat off
Wear a marcel wave in your hair

Keep young and beautiful
It's your duty to be beautiful
Keep young and beautiful
If you want to be loved

Keep young and beautiful
If you want to be loved
Boopie doo, ah

sábado, 15 de dezembro de 2007

Batalha naval


O que acontece quando o seu oponente é a mesma pessoa que você ama ?


I - Submarino

Um em cada ponta
Um em cada papel
Um em cada quarto
Um em cada final
O tiro certeiro o pega
sem resguardo
sem proteção
sem companhia.

Vem à tona a paixão.


II - Destróier

Os dois juntos caminham
Indecisos
É possível que atrás ,
de tudo isso ,
haja o amor ?


III-Hidroavião

Voam como pássaros
Avião
Mergulham no espaço
Decisão
Elevam seus olhares
Avião
Juntam-se na certeza
União


IV- Cruzador

Caminhando em meus passos
Tu passas
Furtando os teus dias
Eu vivo
Cada dia , cada hora
Sou livre
Liberto teu prazer em ser minha.
Somos nossos sem dor,
Cruzador,
Juntou os destroços.


V- Couraçado

Na dureza do aço me protejo
e te guardo
O sal do mar quer corroer...
Abro o aço
Solto teu corpo e o amo no espaço
És minha como sou teu
Libertação
Dispo-me do couraçado
Visto teu coração

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Qual é o seu motel ?


Tenho viajado bastante nos últimos tempos. Comecei a reparar que as entradas e saídas das cidades, assim como as rotas dos aeroportos estão recheadas de motéis. Comecei a anotar os nomes, alguns engraçados, outros bizarros.

Em qual deles você se arriscaria a entrar ?

Afogados – a hidro era funda demais e eles não sabiam nadar...

Baby - deveria ser fechado imediatamente por crime de pedofilia

Beiruth - fiquei em dúvida se é o sanduíche ou a cidade, se for a cidade vive em guerra civil, pode ser o mais adequado para casais em conflito

C Q sabe - quem deveria saber ? saber o que ? como agir ou as possíveis consequências ? É um convite ou uma ameaça ?

Comanche - será um programa de índio ? os quartos são tabas ? serei resgatado pelo Rin-tin-tin ?

Eclipse - dura pouco tempo e você não pode olhar diretamente para o outro

Esquimó - os quartos devem ser iglus e o ar condicionado só funciona no máximo

Immortality - deve se originar do conceito que a reprodução é uma forma de se alcançar a imortalidade

Jumbo - só para aqueles que adquirem drogas aumentativas pela Internet

Makaku´s – para casais cujo estágio de evolução ainda não chegou ao homus erectus (ops)

Panda - especialmente para casais casados, essa espécie em extinção

Pasion (assim mesmo com um S só) - esse não só é o país do neologismo, como somos os reis da criação de neologismos em outras línguas. Ou será só um problema de ortografia mesmo ? Na mesma linha tem o Egytus (sic)

Senzala : deve ser exclusivo para sado-masoquistas que adoram um pelourinho e umas chibatadas

Tai-Yo : ele vira para ela e diz : taí ó !

Twister - provoca ou é acometido por furacões ?

White House - deve fazer propaganda com testemunhais do Clinton, do Kennedy....

Zapt - quando você pensou em ir já foi.

Você conhece outros ? Deixe seus exemplos nos comentários.

Esperança do ano novo


Clique sobre a imagem para ampliá-la
Áudio descrição :
Manolito observa dois homens dizendo "tomara" e comenta com a Mafalda : "as pessoas esperam que o ano que começa seja melhor que o anterior". Mafalda pensa e responde : "Aposto que, por sua vez, o ano novo espera que o que seja melhor sejam as pessoas"

Contículo ecóico


Meu irmão sofria do coração naquela ocasião em que, acusado, foi interrogado pelo magistrado. No momento do julgamento voltando-se para mim assim falou o Serafim : será que o coordenador dava grande valor a seu superior ? Imagino que sim, disse eu enfim, ele também era um cara do bem e não ofendia ninguém. Serafim me olhou com desdém. Você sabe que nada o detém.

No dia seguinte, como que por acinte, ele ofendeu um pedinte, mas a decisão da ação não causou comoção na população. O homem pedia alimento para fomentar seu desenvolvimento e, naquele momento, sentado no cimento apenas soltou um lamento. Logo criou-se uma aglomeração para admirar a acareação do cidadão mas, por afobação ou erro da administração, um deles caiu em contradição o que impediu a apuração da agressão. O sentimento da massa pedia o apedrejamento, sem direito a arrependimento. Um homem virulento gritou : eu te arrebento seu sebento.

O evento quase teve um final sangrento quando um guarda sardento, saiu em defesa do homem que morava ao relento, mas o sargento do policiamento, promovido por merecimento, chamou o grupamento e levou todos para o estacionamento. Meu irmão fez um juramento , que logo cairia no esquecimento, de nunca mais causar constrangimento. Pegou seu equipamento e afastou-se pachorrento.

Ele nunca teve a grandeza de evitar qualquer tristeza à família, fosse por fraqueza ou malvadeza, sempre tivemos a certeza que era uma torpeza tipicamente burguesa de quem nadava em riqueza. Eu fiz esforços para incitar seus remorsos, os amigos traziam reforços em corsos.

Até o final da vida foi um sujeito mau e nunca deu sinal que mudaria. Assim como o aluno repetente que mente alegremente, ele sómente se declarava ciente que, naquele ambiente ele bateria de frente em qualquer vivente só para ser congruente. Era sua alegria provocar agonia sem nenhuma diplomacia. Sua verborragia recheada de tirania só acabaria no dia que cessasse toda rebeldia.

Acabou assassinado ao ser apunhalado por um albergado que ele tinha achincalhado e estava alcoolizado. Seu corpo foi traslado sem cuidado, como gado preso ao arado, para a necrópole de nossa metrópole no topo da acrópole. Sua coroa de flores, sem cores nem odores, desmanchou-se nos corredores. O matador, sem nenhum pudor, conhecedor de sua fama de agressor, mostrou-se um aproveitador, mesmo sendo um contraventor sem valor. Pagou o suborno para que acendessem o forno e não existisse retorno.


Se você quiser ler os contículos anteriores são o Cacofônico e o Tautológico

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Um banana sem pijamas


Nem todas as invenções humanas são úteis. Existe uma série de prêmios para invenções idiotas, o mais famoso é o Ignóbel. Para você ter uma idéia do que se trata, entre os estudos vencedores de 2007 encontram-se : a descoberta de que hamsters se recuperam de jet lag mais rapidamente quando lhes são ministradas doses de Viagra, ou a fabulosa constatação que ratos não podem distinguir entre gravações em japonês e holandês quando são tocadas de trás para frente.
Depois vocês acham que o insano sou eu.

Por outro lado, existem invenções que a maioria da humanidade acha útil mas que alguns seres como eu julgam absolutamente dispensáveis.
No fim do século XVI quando a moda dos ricos impunha o uso de um monte de roupas durante o dia, o fino do luxo era chegar ao fim do dia e colocar algo mais confortável. Nessa época surgem as camisolas que eram unissex e iam do pescoço até os pés, abertas na frente e com mangas compridas, quando fazia frio e a casa não tinha lareira eram de lã. O pouco que diferenciava as camisolas de homens e mulheres eram eventuais enfeites no pano. Dois séculos depois é que surge o negligée, só para as mulheres e de tecidos mais sofisticados como a seda, claro, nada tinha de sexy, era uma roupa para ser usada à noite ou relaxar em casa, ou seja, uma roupa para não fazer nada, em bom latim "neglegere" , se descuidar. Na mesma época, os homens começam a dividir e camisola em duas peças, encurtando o "camisão" e usando um tipo de calça largona vinda da Pérsia (a origem da palavra pijama, em persa é "roupa para as pernas"). Ou seja, o pijama levou 6 mil anos de história escrita para ser criado.

Eu me livrei dele em menos de 15 anos.

Os primeiros indicativos desse costume se manifestaram no meu primeiro dia de vida. Logo após meu nascimento a enfermeira da maternidade devolveu todas as roupinhas de bebê que haviam sido levadas para a minha avó, quase provocando uma síncope na velhinha. Nenhuma servia pois eram para recém nascidos e o moleque aqui chegara ao mundo pesando mais de quatro quilos e meio. Passei minha primeiras horas de vida sem pijama.

Mamãe bem que se esforçou nos anos seguintes comprando seguidamente pijamas bem tradicionais listrados e com botões. Ao atingir a adolescência minha rebeldia começou a se manifestar. Primeiro comecei a usar pijama sem cuecas. Passada a resistência abandonei a camisa do pijama. Demorou um pouco mais mas um dia a calça do pijama se foi. Não chegou a chocar apesar de ter causado um certo desconforto materno. Durante muitos anos eu ainda tive um pijama guardado, que eu chamava de pijama social, só apelava para ele quando ia dormir fora em algum lugar que meu hábito pudesse incomodar. Os últimos pijamas que tive foram dois que ganhei no meu enxoval, supostamente para a minha lua-de-mel (e quem é quer pijamas em lua-de-mel ??). Foram doados, não por estarem gastos mas pela constatação de só ocupavam lugar na gaveta.

Não é só em mim que eu dispenso o pijama (a camisola, o negligé, o baby doll, seja lá o nome que tenha), nunca achei que pano fosse mais sensual que pele. Talvez isso também seja um tipo de fetiche. Os corpos são sempre mais bonitos que o design de moda. Sei que um dia vão tentar me colocar num pijama de madeira, mas até esse eu dispenso, já orientei a família para doar o que prestar e queimar o resto.

Nem o que sobrar dos meus ossos estará sujeito a essa tortura.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Trair e coçar....confesso que cocei


Continuo a minha série traidora. É inevitável. Pior, volto ao alemão que acabo traduzindo por meios indiretos. Dessa vez ataquei o coitadinho do Rilke que, se soubesse o que eu fiz mandaria desaforos a um velho poeta.


Solidão é como a tempestade
Que do mar vem ao entardecer
Das grandes planícies da saudade
Sobe ao céu, cai sobre a cidade

Gota à gota cai sem esmorecer
Enquanto sujos becos aguardam
A aurora e a partida dos amantes
Tristes, com essa dor, se retiram.
Homens sufocam ódios distantes
Lado a lado em leitos arrogantes.
Parte a solidão nesse instante

Doce deslizando como os rios


Einsamkeit
Rainer Maria Rilke

Die Einsamkeit ist wie ein Regen.
Sie steigt vom Meer den Abenden entgegen;
von Ebenen, die fern sind und entlegen,
geht sie zum Himmel, der sie immer hat.

Und erst vom Himmel fällt sie auf die Stadt.
Regnet hernieder in den Zwitterstunden,
wenn sich nach Morgen wenden alle Gassen
und wenn die Leiber, welche nichts gefunden,
enttäuscht und traurig von einander lassen;
und wenn die Menschen, die einander hassen,
in einem Bett zusammen schlafen müssen:

dann geht die Einsamkeit mit den Flüssen...


Se quiser conhecer minhas traições anteriores você vai decobrir que eu já traí em francês , em alemão medieval e até um clássico do jazz

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Ipioca, picuí e embolada de liete



Pessoas fazem turismo pelos motivos mais variados. Alguns gostariam de ter nascido leitão para serem assados a pururuca e passam o dia todo debaixo do sol, até a pele começar a pipocar. Outros são ratos de museu ou de edifícios históricos (eu mesmo já fui um desses). Já é clássico o turismo busca marido (ou mulher), geralmente praticado em cruzeiros marítimos. Alguns apelam para o turismo sexual que não se restringe, como se pensa, aos homens e é alvo de uma campanha que, apesar de correta, é muito hipócrita. Afinal que adianta espalhar cartazes pelas cidades contra o turismo sexual e depois carregar os turistas para espetáculos e eventos com apelo explicitamente erótico ?

Nos últimos tempos eu tenho me dedicado ao turismo gastronômico e, quando o local permite, enológico. Não deixo de visitar os museus. Claro que vou às praias onde não me deixo cozinhar. Espetáculos pseudo-sensuais nunca me seduziram, para mim essa sempre foi uma prática de caráter privado, não vai ser nessa altura do campeonato que vou mudar de idéia. Assim, antes de ir para qualquer lugar eu dou ma pesquisada no Guia 4 Rodas para ver os restaurantes recomendados. Nessa minha viagem a Maceió não foi diferente.

Não poderia deixar de ir a um local tradicional. Fui comer carne de sol no Retiro do Picuí , a palavra quer dizer "pomba", mas muitos restaurantes de carne de sol usam esse nome porque a Carne de Sol, é originária da cidade de Picuí, na Paraíba. Fui basntante conservador. Comi carne de sol com farofa e macaxeira frita. Prato simples gostoso e barato. O que não quer dizer que não possa ser melhorado, e quem faz isso muito bem é o Divina Gula, um restaurante de mineiros em Maceió. A embolada de liete é composta de um bom pedaço de carne de sol assado, servido sobre um purê de macaxeira e acompanhado de couve com toucinho. A mistura fica ótima e combinou com uma meia garrafa de um cabernet sauvignon chileno - modesto, porém honesto.

E você vai me perguntar : esteve na praia e não comeu frutos do mar ? Claro que sim e foi o melhor dos três restaurantes. Chama-se Oca e fica no lugarejo de Ipioca (palavra que, em tupi, significa primeira cabana). O local é onde nasceu o Marechal Floriano Peixoto. No ambiente, cores fortes, paredes com tijolos aparentes e quadro de autoria do Chef e uma única e imensa janela de onde se tem uma deslumbrante vista para o mar. Mas a comida ainda era melhor que a paisagem (o que é um feito difícil). Primeiro uma tapioca de camarão com molho de tomate e azeitonas, depois camarões empanados na banana com molho de castanha de caju acompanhado de macaxeira cozida. Um prato para comer de joelhos em sinal de reverência. Faltou a sobremesa. No cardápio só existiam aqueles doces industrializados. Para compensar, depois de visitar as praias do norte parei numa sorveteria onde montei uma taça com sorvetes de cajá, mangaba, tangerina e pitanga. Um exagero de sabores.

Sobraram dois para próxima visita, justamente os estrangeiros, um francês e um peruano (não, não sei o que vem a ser a culinária peruana em Alagoas). Na próxima eu descubro.

Além do arco íris

Para quem nunca viu (eu vi no Pacaembu) é uma experiência inesquecível.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Aforismos cada vez mais inconsequentes


O tempo que me falta é o mesmo que me aprisiona.

A intimidade é um silêncio preenchido por subentendidos

As besteiras sempre são reais, enquanto besteiras, é claro.

As práticas obsessivas não tem começo nem fim.

O limite do medo é a coragem absoluta.

Como os vinhos, nem todas as pessoas envelhecem com classe.

A vantagem de se ser absurdo é que poucos ousam contestar sob o risco de ganharem a mesma pecha

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Vaticínios da União


SERÁS PRÓSPERO SE GUARDARES PARA O FUTURO (frase de biscoito da sorte chinês)



Tradicionalmente os biscoitos chineses trazem dentro de si uma papeleta com alguma frase de efeito, comumente lida como um vaticínio. São chamados de biscoitos da sorte. Sempre na segunda pessoa, com frases otimistas, como contou uma vez um cara que era revisor numa fábrica desses biscoitos (você nunca imaginou que a inóqua sabedoria dos biscoitos chineses empregassem revisores, não é mesmo ?). Claro que também existem aqueles que tentam ser originais, nos EUA já existem versões pessimistas das frases, afinal a China é uma ameaça econômica real para a terra do tio Sam. Outros já tentaram, sem sucesso, ser irônicos com frases do tipo "Você acaba de comer uma comida gordurosa" ou "Socorro, estou em cativeiro numa fábrica de biscoitos", mas não foram bem sucedidos.

Já vi algumas pessoas mais gulosas e apressadas, literalmente engolirem e engasgarem com seu destino. Alguns engasgos foram metafóricos, outros reais. Alguns foram divertidos, outros provocaram a imediata execução da manobra Heimlich (e, depois de expelidos, também geraram boas risadas). Claro, além de gulosas e/ou apressadas, também eram absolutamente neófitas na culinária oriental. O mais interessante é que, segundo a lenda, a idéia do biscoito da sorte nem chinesa é, mas de um paisagista japonês que morava em São Francico no começo do século passado. Se a história for real, em 2009 estaremos comemorando o primeiro centenário dos bilhetinhos que viraram objeto de plágio.

Outro dia estava tomando café quando minha companheira cafeínica foi pegar açúcar e reparou que os sachês do açúcar União agora vem com frases no melhor estilo biscoito da sorte. Com a vantagem de que a pessoa não corre o risco de engolir o saquinho. Ao reparar nisso pegamos todos os sachês e lemos: "Sempre abrace os seus amigos", "Beije mais", "Sempre ria de si próprio", "Diga menos não". Claro que o assunto mudou imediatamente para essas sugestões. Pensei, bem que poderia estar escrito : "beije mais e imediatamente", "diga sim ao que ele está pensando". Infelizmente acho que ela pegou o "ria mais de si própria" pois nem um abraço eu ganhei.

Claro que já estou tramando estratégias para o próximo café. Na hora que ela for ao banheiro trocar os saquinhos de forma que todos tenham a mensagem que me convém e inventar história de como as pessoas devem seguir as previsões que lhes são feitas. Ressucitar lendas virtuais sobre o sujeito da Indochina que não obedeceu o conselho e foi devorado por uma manada de lacraias azuis, ou da mulher que obedeceu o vaticínio e ganhou 18 vezes em seguida a loteria de Antigua e Barbuda.

Eu sei, eu sou um cara pragmático que não acredita em nenhuma dessas bobagens. Mas nada como usar as bobagens para alcançar objetivos totalmente pragmáticos, não é mesmo ?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A nobre podridão


O consumo de vinho no Brasil é absolutamente incipiente. Cada brasileiro bebe aproximadamente 2 litros por ano, o que é quase nada, em comparação aos 50 litros dos argentinos, ou principalmente em relação aos nossos ascendentes portugueses, que já ultrapassaram a marca de 85 litros, sendo, até as informações mais recentes*, os maiores consumidores do mundo. Talvez seja por isso que, para a maioria dos brasileiros, esse negócio de tomar mais de um tipo de vinho em uma mesma refeição seja considerado um luxo.

Se, além de tomar mais de um vinho, ainda mencionamos o fato de escolhermos um específico para a sobremesa, deixamos o limite do luxo e passamos para o ponto da frescura. Mesmo assim, eu recomendo que você faça essa experiência de vez em quando, seja por luxo, seja apenas por frescura. São vinhos geralmente doces, leves e com teor alcóolico um pouco maior que os vinhos comuns. Se você virou o nariz apenas pela menção do termo doce, esqueça tudo que você já bebeu anteriormente - especialmente se a sua referência de alto teor de açúcar for daqueles abomináveis vinhos licorosos de São Roque.


Os vinhos de sobremesa são um capítulo à parte dentre os processos clássicos de vinificação. Existem várias maneiras de se obter maior teor de açúcar residual - a mais óbvia é adicionar açúcar, e também a que gera os produtos de pior qualidade. Outra forma é adicionar suco de uvas adocicadas que, em contato com o vinho, aumentam sua doçura e, por fermentação adicional, também o teor alcóolico. Ainda não são esses os bons vinhos de sobremesa.

Os bons vinhos da categoria são aqueles produzidos com métodos que permitem que a própria uva vinífera acabe com mais açúcares do que seria o normal. O primeiro método é o de provocar a desidratação natural na uva - no pé ou após colhida -, fazendo com que a fruta perca líquidos e a proporção açúcar/água em cada bago seja favorável aos açúcares. São os vinhos chamados de "colheita tardia" (vendage tardive) O segundo, típico de países mais frios, como a Alemanha e - acredite - o Canadá, é o do congelamento dos cachos após a colheita, o que provoca o mesmo efeito desidratador. São os "eiswein" alemães ("ice wine" no Canadá).

Os melhores vinhos de sobremesa, no entanto, são aqueles que as uvas foram atacadas por fungos, ou melhor: o Fungo - um bichinho chamado Botrytis Cinerea que provoca microperfurações na casca da uva, fazendo com que a desidratação ocorra natural e lentamente enquanto o cacho ainda está no pé. É chamada de podridão nobre. Dentre esses temos os vinhos Tokaj húngaros e, acima de todos os vinhos de sobremesa, os Sauternes. Os vinhos Sauternes são uma experiência inigualável depois que você experimentou outros vinhos de sobremesa. Feitos predominantemente com uvas sauvignon blanc (que atraem mais o Botrytis e de alta acidez), são vinhos doces e ao mesmo tempo ácidos a ponto de não deixar a impressão do açúcar no paladar.

O único grande defeito desse vinho é o seu preço. Como os produtores sérios limitam muito a sua produção para manter os níveis de qualidade - chegando a simplesmente não produzir em determinados anos se considerarem que o resultado final não for o desejado -, a própria lei da oferta e da procura se encarrega de jogar os preços um pouco além da Lua, podendo ir de 40 dólares por uma meia-garrafa de um déuxieme cru até cerca de 700 dólares por uma garrafa de Château d'Yquem - o top do top dos Sauternes. Se você puder, tente comprar uma meia-garrafa de um premier cru que vai custar por volta de 70 dólares. No caso dos Sauternes, é grande a diferença de qualidade entre um premier e um déuxieme.

Outra dica: sempre é melhor comprar meias-garrafas desses vinhos (como de qualquer vinho de sobremesa), a menos que você costume oferecer jantares para um grande grupo de pessoas - vinhos de sobremesa são tomados em cálices, e não em taças, e uma garrafa inteira rende muito.

É um luxo, pode ser uma frescura - mas uma daquelas para nunca mais esquecer.

Antologia de Novembro


O mês de novembro foi pródigo em comentários antológicos, a seleção dos melhores dos melhores está cada vez mais difícil e devo ter cometido injustiças. Continuo recomendando que eles sejam lidos fora do contexto - imagine a sua história para cada um deles.

Meu ! tentei ler antes do café, deu não !!! só com baldes e baldes de cafeina pra traduzir tanta leseira...

Dá pra explicar o comentário machista?

...olhos de pitanga que engraçado...

...tinta vermelha já é terrorismo...

...realmente eu gosto de repetir a palavra realmente...

Será que é o que eu conheço por outros nomes menos bizarros?

A mansão mal assombrada para amigos imaginários...

...vc é muito moleque!

Se o seu não é tímido, manda ver...

...afinal, velhinha como estou, o tempo pesa...

Mudaram os senhorios...aumentaram os escravos

Pensei que o bicho papão não descesse do telhado...

... e os descafeinados???

...agradecemos de joelhos (em profundo silêncio), a educação institiva,o bom senso e as cafeterias....

..sem palavras ou cem palavras?

Sim. Um pouco além de frágil. Perto da margem ouvi canções de sim e contos de um oceano topográfico.

Tô de vinho tinto suave em garrafões de 5 lts telados...

...ela é útil pra tentar entender os desmandos das cabeças masculinas.

...você é um grande tradutor da ignorância masculina...

...sua insanidade é tão real que chega a ser absurda...

...será que dá pra dividir o colo dele comigo??

...mãos que quase se encostam mas nunca se encontram....

... exposto assim, parece mais frágil que ela.

...uma vez na corda bamba, sempre na corda bamba...

...você é um baita traidor.

...gosto dessas projeções etílicas...

.....está no meu kit junto com o livro de figurinhas.

Eu explico: Mané! Otário!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Nossa (???) língua portuguesa é um cão chupando manga


" - Abriram a porta do cemitério ! " gritou Dodô abestalhado quando assuntou as quengas que estavam chegando. Dermeval achou que Dodô já estava chamando cachorro de cacho, até porque ele costumava falar mais que nega do leite. Não era mentira, chegou a fazer enxame na porta da bodega para ver, uma zuada. Era uma ruma de chave de cadeia e lambisgóias. Pensou em tirar o pé de banda, mas teve de quetar para não se arrombar.

Dodô também ameaçou abrir o gás pois sabia que iam lhe abusar. Sem quê nem pra quê resolveu provocar : " - cêis não servem nem prá quebrar cabresto..."

Uma delas respondeu : " - ô cabra arrochado, não adianta arrastar asa, é melhor ficar de bocapiu."

Mas Dodô continuou curiando, tomou outra fubuia e deu uma gaitada. : " Óxente, e você acha que eu furunfo jaburu a facão ? Só tô malinando. Lá ele , que tá de maresia, pode ser..." apontando o Dermeval. " - Ele tá de botuca, mas acho que não dá no couro não. Nem se botar pilha, já tá brôco mesmo."

Dermeval que não era de gastura, nem de perder chance de fofar, mirou uma das tribufus e, virado no cão, pegou a que tinha sinal e resolveu não botar gosto ruim. Buliu com os cambitos da moça e, mesmo azuado, falou que Dodô só sabia jogar cinco contra um, que era um chibungo cheio de pau. Mas que ele sim tinha tripé e que mesmo mulher xôxa não ia tomar um chelp com ele. " - Vamos acabar com essa xurumela que tenho arte do cão. Umbora tabaroa. que não carece nem apreçar ! "

A tabacuda nem piscou quando viu que não tinha nove horas e que Dermeval era banda voou. " - Só, meu rei..." avexada se abriu antes que o cabeça de arromba navio fizesse o balão.

A galera do mal viu que a quenga ia tirar taboca do Dermeval que mesmo tendo cara de barão estava na pindaíba. Sabiam que ele era atoleimado, nunca fora canguinha e que em qualquer cerca-lourenço ele caia. Foram tirar pergunta e segurar no pé : " - Se saia, rapa! " dizia um. " - Se prante bróder", dizia o outro. Mas nada do Dermê tomar um chá de se pique. O varapau podia bater a caçuleta mas não ia cair na taca de jeito e qualidade. Ia se queixar a migué.

Antes que ele picasse a porra e metesse um cachação em alguém, a turma tomou tenência na vida e parou de tirar idéia.

"É comer com farinha" , berrou Dodô, sempre sacrista, continuando a consumição, "vai lá, Dermê, não conta conversar que ela vai queimar a rodinha , não tem errada, tá mangaba..."

Dermeval pegou a armengue de cabelo-de-arapuã, arrodeou a carteira e emborcou na calçada cheio de pau.



Se você não viu, depois leia as duas versões anteriores : "Nossa (???) língua portuguesa" e "Nossa (???) língua portuguesa - o retorno"

domingo, 2 de dezembro de 2007

Você continua me dizendo talvez - Eu prefiro essa

Apesar da música também ter sido gravada pelos Beatles, tenho de admitir que essa versão ficou melhor.

Você continua me dizendo talvez - versão original

Well that'll be the day
When you say goodbye
That'll be the day
When you make me cry
You say you're gonna leave
You know it's a lie
Cause that'll be the day that I die

Well you gave me all your loving
And your turtle doving
All your hugs and kisses
And your money too
You know you love me baby
Still you tell me maybe
That someday when I'll be true

When Cupid shot his dart
He shot it at your heart
So if we ever part then I'll be blue
You kiss and hold me
And you tell me boldy
Well that someday that I'll be true

sábado, 1 de dezembro de 2007

Plágio livre, porém honesto


Ana Mello é uma escritora gaúcha que eu conheci pelo Multiply. Não sei se foi ela que inventou os mini-contos, mas é especialista nisso, um dos seus blogs é o Minicontando. Abaixo meu exercício de plágio estilístico.

Efeito Bumerangue
Pegou o disco de fossa na prateleira para ter companhia na sua amargura.
A música era tão deprimente que ele se recompôs. Perto daquilo sua vida até que não era tão ruim.

Educação
Nunca foi um bom aluno, mas acabou sendo um bom gestor.
Um dia, contratado como diretor da escola, demitiu todos os professores que lhe deram aula.

Democracia
Ela lutou ferozmente pela democratização da conferência e o direito de todos à fala.
Assim que foi eleita relatora do tema cortou o som do microfone.

Diagnóstico
O menino comeu manga no alto da árvore durante todo o verão. Um dia caiu e quebrou o braço.
Crescido e médico passou a dizer que manga fazia mal para os ossos.

Conto de fadas
Ela tomava banho todos os dias antes de se deitar e dormia nua esperando o príncipe encantado.
Quando ele chegou, com a ambulância, mandou interná-la imediatamente. Pneumonia e cianose.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Uma linda mulher


Sabores tão delicados
Temperos que não provei
Os gostos desperdiçados
Nos anos que me atrasei

Se fosse me apaixonar
Seria só por você

Meigos risos intocados
De lábios que não beijei
Desejos sofisticados
Retratos que não sonhei

Se fosse só por você
Seria me apaixonar

Sabores desperdiçados
Retratos que não beijei
Meigos risos delicados
Nos anos que não sonhei

Se fosse só por você
Seria me apaixonar

Os gostos tão intocados
Temperos que eu me atrasei
De lábios sofisticados
Desejos que não provei

Se fosse me apaixonar
Seria só por você

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sem penas


Bipes implumis (atrib.Aristóteles )


Não sei exatamente o por quê mas, certas vezes, eu tenho a impressão de que tudo em volta gira perigosamente em torno de mim. Talvez seja culpa do whisky, mas é difícil acreditar que apenas duas garrafas em uma hora possam provocar esse tipo de efeito. Como agora, após passar o dia ouvindo música dodecafônica, bateu-me a irresistível necessidade de cortar as unhas. Minha namorada dizia que eu estava ficando pinel, mas acho que isso era só uma desculpa para dizer que arranjara outro.

Outro dia mesmo fomos ao cinema e, no meio da sessão, ela resolveu me dizer que eu havia esquecido de colocar as meias. Achei a observação inoportuna pois foi no exato momento em que eu ia lhe beijar. Quando olhei para os meus pés notei que ela murmurava algo para o cara sentado do outro lado, algo como o seu número do celular. Fingi que não havia notado nada mas, na saída, ela foi ao banheiro e demorou quase duas horas para sair. Se o filme não fosse tão chato eu teria assistido outra sessão. Ao sair se desculpou dizendo que não conseguia alcançar o fecho do vestido. Na hora nem me toquei que ela estava de jeans.

Resolvi contratar um advogado para entrar com uma ação de divórcio, mas nós não estávamos casados e ele recusou a causa. Achei que era melhor acabar com tudo mas depois pensei : onde é que eu vou arranjar outra maravilha como ela ?

Laura era o nome dela até nos conhecermos. Depois que começamos a namorar ela resolveu abandonar o nome de guerra e usar o verdadeiro que era Admirtes. Tipo fantástico de mulher que só é gerado uma vez a cada mil anos. Alta, morena, olhos verdes, com as gordurinhas certas nos lugares certos. Deliciosa é o adjetivo mais discreto que eu poderia usar. Conheci-a numa reunião da Associação Nacional de Admiradores de Colibris. Foi paixão à primeira vista. Falava de beija-flores como quem discutia Kant na universidade. Total espontaneidade. Sua primeira frase para mim foi : “que gracinha, você parece meu iguana de estimação “.

Começamos a sair pouco tempo depois. Para impressioná-la, depois do teatro (Gerald Thomas, é claro) levei-a para jantar no Fasano. Tirei todas as minhas economias da caderneta de poupança e até hoje arroto faisão com lagosta. Que ela comeu. Tentei discutir os problemas existenciais do discurso metalingüístico de Saussure e ela riu na minha cara. Não entendi a piada.

Meses depois fomos para a cama. Eu no quarto de empregada e ela no meu quarto. Acho que foi excesso de champagne que deixou as coisas daquele jeito. Fizemos outras tentativas mas o máximo que consegui foi dormir no sofá com ela na cama. Ás vezes ela diz que tem uma vida sexual intensa. Será que é isso que chama de sexo virtual ?

O mais engraçado dessa nossa história é o irmão dela. O rapaz é estudante de comunicação e trabalha numa central telefônica no Pari, aparece de vez em quando. Cada vez que chega fica umas duas ou três semanas na casa dela, quando ela se recusa a sair comigo, só se for para jantarmos a três. Eu pagando, é claro. O pior é que eu nem sei direito o nome do sujeito, achei que era Alberto, mas outro dia ela me disse pelo telefone que o Artur estava na casa dela e não poderíamos sair. Ontem ela me pediu dinheiro emprestado para viajar com o Antonio. Muito estranho.

Hoje fui ao aeroporto levá-la, quando cheguei ela me disse que o André ia encontrá-la dentro do avião. Ela não sabe quando vai voltar. Enquanto espero vou estudar as obras completas de Freud. Alguém me disse outro dia que ele explica.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Velhos como vinho



Se você já passou dos 40, duvido que tenha conseguido evitar dizer ao menos uma vez que você é como vinho, quanto mais velho melhor. É um dos clichês mais clássicos e batidos dos nossos dias, repetido até por quem nunca experimentou um gole de vinho. Mas sou obrigado a dar uma má notícia, nem todo vinho melhora na medida em que envelhece. Pior do que isso, pouquíssimos são os vinhos que envelhecem com classe.

O envelhecimento do vinho é um elemento importante para se aproveitar o melhor dele, mas apenas um pequeno grupo de vinhos se beneficia do envelhecimento na garrafa. A grande maioria dos vinhos deve ser consumida dentro de um ano, ou no máximo dois, após ser engarrafado. Quase todos já passaram por processos naturais ou artificiais de envelhecimento em barris ou tanques e a permanência na garrafa não vai trazer mais qualquer benefício.

Entre os vinhos brancos, aqueles com PH mais baixo (mais ácidos) e, entre os tintos, aqueles que apresentam mais taninos, são os que tem mais chances de melhorar pois, à medida que o tempo passa, esses excessos de acidez e de taninos tendem a se abrandar e tornar os vinhos bem mais agradáveis. Se o vinho branco tiver pouca acidez ou o tinto poucos taninos, com o passar do tempo eles perdem o pouco da personalidade que tinham. Entre os brancos que se enquadram nesse possível envelhecimento, estão os feitos com uvas Riesling e os grandes Chardonnay. Dentre os tintos, os feitos a partir de uvas Cabernet sauvignon, Nebbiolo e Syrah.

De qualquer forma, para deixar um vinho envelhecer em casa, além de um bom vinho que permita isso, existem alguns outros componentes que vão ser decisivos no amadurecimento produtivo da bebida. O primeiro deles é a qualidade da rolha. Um vinho fechado com rolhas de má qualidade, mal cortadas ou minimamente porosas, só consegue produzir vinagres de boa qualidade (claro, se o vinho for de boa qualidade). Por mais insignificante que seja o contato do vinho com o ar, a oxidação é inevitável. Se, ao abrir uma garrafa a rolha quebrar ou soltar pedaços, pode ter certeza de que o vinho vai estar intragável. No fundo, algumas pessoas também são comos esses vinhos - quanto mais velhas, mais azedas.

O segundo componente importante é o armazenamento do vinho. Por melhor que seja uma rolha, se ela não ficar em contato permanente com o líquido da garrafa ela irá ressecar e, conforme isso acontece começam a surgir trincas e "buracos" - o resultado é o mesmo que foi citado acima, com a diferença que o vinagre ficará pronto muito mais rapidamente.

Alguns outros detalhes podem ajudar ou atrapalhar no processo de envelhecimento, mas costumam ser filigranas técnicas que não fazem parte do nosso dia-a-dia. Nem os enólogos mais competentes são capazes de fazer previsões exatas sobre o tempo ideal de maturação de um determinado vinho de uma determinada safra. O ideal seria podermos testar um vinho abrindo uma garrafa a cada ano até descobrirmos o ponto ideal, mas isso é um esporte para poucos seres que podem investir comprando várias caixas de um mesmo vinho.

Na dúvida, beba o vinho antes que ele estrague - afinal, os vinhos são realmente como as pessoas, com o tempo realçam suas qualidades e defeitos. Se forem bons, ficarão melhores. Se forem ruins, passe longe.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Lá em cima do piano


Nada poderia fazê-lo supor que algum dia acabaria sozinho. Tudo parecia levá-lo ao amor eterno. Não fosse a decisão dela até hoje estariam juntos.

Sempre que recordava o passado Pedro pensava como tudo poderia ter dado certo. Sentava-se ao piano e tocava todas as músicas que lembrassem dela. Mesmo depois de tantos anos, depois de tantas mudanças ainda era ela que comandava as suas emoções.

Era um bom profissional. Bem empregado e bem remunerado. Casara com outra e tiveram três filhos que já estavam adultos, uma família exemplar. Tudo desaparecia quando começava a tocar.

Conheceram-se no colégio onde nunca foram mais que colegas cordiais. Uma vez foram ao cinema. Nada sério. Quando estava acabando a faculdade foi convidado para uma festa, estava sem companhia. Vasculhando velhos cadernos de telefone encontrou o seu nome. Arriscou ligar. Ela ficou surpresa. Aceitou o convite.

Ela não mudara muito. Não era exatamente bonita. Elegante, delicada, agradável. Dançando beijaram-se. Apaixonados. Tudo muito sem razão. Muito sem querer. Aconteceu.

Com o tempo conheceram-se melhor. Quanto mais se conheciam mais se convenciam que tinham sido feitos um para o outro. Eram vistos como o casal perfeito, nada dava errado para eles. Nunca brigaram. Sempre cultivaram a liberdade do outro. Depois de dois anos de namoro foram morar juntos. Nada afetou a perfeição do lar. Pensaram em se casar, mas não precisavam disso.

Um dia ela chegou e disse que não era mais aquilo que queria. Sem motivos. Não tinha outra pessoa. Não acontecera nada que provocasse a atitude. Ela apenas foi embora.

Pedro passou meses amargurado. Não com ela, com a vida. Ele sabia que se não existisse amor era melhor não haver nada. Sempre fora um idealista. Tornou-se um idealista amargurado. Conseguiu se recuperar, mas nunca a ponto de esquecê-la.

Agora, mesmo com a família, sentia-se sempre só. Casara por interesse, mantinha uma distância suportável da mulher, apenas o suficiente para manter as aparências.

Parou de tocar. Tomou o último gole do vinho que estava em cima do piano e foi dormir.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Minha mais recente traição


Nesse blog eu já traí em francês e até em alemão medieval, mas é a primeira vez que me arrisco a trair um compositor popular americano, com o agravante de você saber a melodia e tentar cantar com a minha versão.



Morrer um pouco
(Ev’ry time we say goodbye - Cole Porter)

Cada vez o teu adeus
Me mata um pouco
Cada dia o teu adeus
Provoca um sonho louco

Será que anjos ao longe
Não tendo como sorrir
Me maltratam tanto
Te deixando partir ?

Quando estás por perto
Há um ar de primavera
O som de cotovias
Cantando uma quimera

Canto igual não existe
Me quando o tom
Vai de alegre ao triste

Todo dia o teu adeus
Também existe

Ah....o texto original diz o seguinte

Everytime we say goodbye, I die a little
Everytime we say goodbye, I wonder why a little

Why the gods above me, who must be in the know
Think so little of me, they allow you to go.

When youre near, theres such an air of spring about it,
I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,

Theres no love song finer,
but how strange the change from major to minor

Everytime we say goodbye.

domingo, 25 de novembro de 2007

Eu e você

Jon Anderson, Chris Squire, Steve Howe, Rick Wakeman e Alan White (que a essa altura tinha substituído Bill Bruford) para quem, em 1973, vivia perto das beiradas da Terra

And you and I climb, crossing the shapes of the morning.
And you and I reach over the sun for the river.
And you and I climb, clearer, towards the movement.
And you and I called over valleys of endless seas.

sábado, 24 de novembro de 2007

Alucinações anacrônicas


Eu nunca fui consumidor de drogas, exceto aquelas prescritas por médicos. Só tomei um porre na vida e, como passei diretamente do estado sóbrio para aquele que encontramos o amigo Hugo, sem as etapas "alegre" e "engraçadinho inconveniente", foi o primeiro e o último, nunca mais me arrisquei depois disso.

No entanto, descobri que já tive alucinações. Remexendo meus alfarrábios encontrei o texto abaixo que eu escrevi em 1984. Não consegui me lembrar nem o por quê, nem para quem. Procurei nas agendas velhas e não encontrei nada que me explicasse o sentido do mesmo. Não sei por onde eu estava viajando...


Declaração de amor/pavor


Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer nada. Apenas olhava atento dentro dos seus olhos. De vez em quando desviava a atenção. A sensação de estar sendo consumido em fogo lento me incomodava. Poemas sobre a mesa. Vinho e cigarros.

Você falava calmamente sobre o medo. O mesmo medo que me corroía. Vontade de explodir e despencar num temporal. O limite do medo é a coragem absoluta. Eu andava no fio da navalha. Se você tivesse insistido um pouco mais, não sei o que teria acontecido.

Eu me contorcia em argumentos e fugas. Nem sei bem do que. A oportunidade ressurgiu e, novamente, me calei. Poema mudo. Pinto as cores do desejo em papéis interiores escondidos em porões.

Meu amor é completamente surrealista. Despertar e crescimento do desejo líquido. Os anseios subconscientes mais fortes que os medos reais. Explodindo em raios, despencando em temporal.

Você olhava. Falava. Me dava a impressão de que percebia tudo, que a motivação dos meus medos era completamente infundada. Ou absolutamente correta.

O momento cobrava uma decisão rápida. Sim ou não. Um lance de dados, só uma chance : ganha-se ou perde-se. Outro lance seria apenas outro começo, mesmo que sejam o mesmo dado e a mesma mão a lançá-lo. Jamais. Mesmo lançado em momentos eternos, jamais abolirá o acaso (ah...Mallarmé....)

Por caso, ou pelo acaso, nasce o medo. Medo de amar.

O papel explica tudo. O teclado da máquina não tem seus olhos a me perscrutar. Só palavras.

19/09/1984

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

100



Cheguei ao post número cem do blog. Achei que mereceria uma comemoração estrepitosa, quem sabe uma Roederer, mas o bolso sofreria um desfalque perigoso. Também pensei em colocar as estatísticas de visitação. Me pareceu um tanto entediante.

Resolvi ser mais simples e deixar um agradecimento às pessoas que têm tolerado meus e-mails, visitado e comentado o Mens Insana. No começo achei que não conseguiria manter o ritmo de publicação mas vocês me estimulam todos os dias a pensar em alguma coisa nova.

Forte abraço a todos e todas. Amanhã tem mais.

Ah ! Essa mensagem tem 100 palavras, incluindo essas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Soneto do desconforto


Ela disse que eu a quebrava ao meio
Mas a queria inteira, delicada,
Conduzindo o meu barco sem receio
No rumo de uma angra abrigada

Como se ela temesse seu anseio
A pele em outra pele afagada
De um tempo num desejo que não veio
Levamos nossa nau na madrugada

As vísceras expostas do seu seio
A faca no meu peito encostada
O sangue jorra intenso em devaneio

Nas horas da vigília bem guardada
Desconforto é só um peso fugaz
Carinho mesmo nunca se desfaz

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A alma feminina


Ontem navegando por poemas, hábito antigo meu, me deparei com a trágica Alfosina Storni. Não que todos seus poemas sejam trágicos, mas o foi a sua vida. Um dia entrou no mar. Entrou e entrou para nunca mais voltar (a Violeta Parra fez uma música linda dessa história).

Mas não é só de quando se foi que surgiram obras de arte, ela mesmo escreve a respeito de quando chegou num soneto chamado "Quando cheguei à vida" onde perscruta a alma feminina.

Não sei se as mulheres, da perspectiva feminina acham a mesma coisa....mas eu me encanto com essas variações da alma feminina. Algumas são assustadoras, outras deliciosas.

Já me disseram que a alma feminina não é nada objetiva, que é regida pelas emoções, muitas vezes fica quase que à deriva, correndo o risco de sucumbir à loucura. Até tenta se manter vigilante como se realmente segurassem o leme, mas as ondas e pedras do caminho acabam provocando desvios inesperados e, não poucos, beirando o abismo (ou serão as beiradas da Terra ?) .

A vigília, como no poema de Alfonsina é questão de sobrevivência para continuar tateando o perfume do ar.

Os olhos, se são as janelas da alma, precisam vigiar. A vigília é constante, a alma variante.

Mesmo quando se é a mesma, incompreensível, flutuante, sujeita aos ventos, temente ao mar.

Sói que velem amores imensos, que valham as viagens pela alma.

Alma feminina, meu abrigo, luz e sombra. De onde vem essa esperança ? Que anseios esconde ? Qual é a tua essência , ou será transcendência ?

Meu olhos espreitam e admiram. E continuam a vigília.


A imagem é uma pinup do Vargas

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Contículo cacofônico


Quando eu vi ela a vez passada achei que parecia uma moça fada. Pelo menos como a concebo não poderia imaginar outra cena que não a de Eva e Adão , eu paraninfo dela e ela, alma minha.

Eu havia dado a essa fada um prêmio por ter me tido em seus braços. Uma mão de pelica e a boca dela cheia de batom.

Por cada momento eu, antes um homem de pouca fé no amor, comecei a oscilar entre episódios de fé de mais e fé de menos. E até nos dias em que meu coração por ti gela, ela tinha o hábito de usurpar os sentimentos que por ti são.

Ela tinha voz de rouxinol. Nosso hino ela trinava muito bem. Como ela nenhuma ouve. Eu que nunca ganho no amor via-a partir dizendo : vou-me já !

Hoje ela confisca gado no sertão e não me pergunta mais do que : como está tu ?


Essa apenas uma brincadeira em cima dos vícios de linguagem, a anterior foi sobre Tautologia

sábado, 17 de novembro de 2007

Swing no supermercado


Outro dia fui fazer compras no Sam´s Club. Para quem não sabe, o Sam´s é um supermercado semi atacadista da rede Wal Mart. Como toda loja de atacado ela é feia e confusa. O atendimento é próximo do zero, o check-out não tem nem esteira para colocar os produtos que o caixa vai passando pelo leitor de código de barras do carrinho cheio para outro vazio, não existem sacolinhas e, a grande maioria dos produtos só pode ser comprada em lotes (alguns de apenas 3 unidades, mas outros como açúcar e sal, só em pacotes de 10 quilos - o que é que vou fazer com 10 quilos de sal ?). O benefício de comprar lá é que os preços são realmente muito mais baixos que em qualquer outro lugar. Muito mesmo (o merchandising, nesse caso, não foi patrocinado pelo Sam Walton)

Uma das características do local é que os carrinhos são imensos. Como os corredores de gôndolas sempre estão abarrotados de produtos no meio deles é impossível entrar com o carrinho. Você para na ponta da gôndola, entra no corredor, pega os produtos e leva de volta ao carrinho. Eu já tinha feito mais da metade do meu roteiro quando ao voltar para a ponta da gôndola cadê o meu carrinho ? A primeira reação foi olhar para os outros lados, será que deixei mais para lá ou para cá ? Nada. A segunda foi ir até a outra ponta da gôndola. Nada. O carrinho sumiu.

Você deve estar perguntando : quem roubaria um carrinho de compras não pagas ? Eu também me perguntei isso. E perguntei a um funcionário local que me disse que, de vez em quando, as pessoas saem dos corredores e pegam carrinhos por engano e, quando percebem, largam-no no meio do caminho. Resolvi dar uma volta. Nem sinal do carrinho e das minhas compras. Achei mais fácil pegar outro e começar de novo e, ao invés de entrar num corredor e minha mulher em outro, nos revezamos na guarda do carrinho.

Fiquei imaginando uma cena possível das trocas de carrinhos que, pelo jeito, são frequentes :

- Engraçado, eu sempre achei que você não gostava de atum...

- Eu odeio atum.

- Então por quê comprou esse pacote de 6 latinhas ?

- Eu não peguei nada, foi você que pegou.

- Mas só eu como atum em casa, não ia pegar um pacote.

- Não é para comer com essas torradas de centeio ?

- Que torrada de centeio ? Eu tenho intolerância a glúten, será que depois de 20 anos de casado você não sabe disso ?

- Nunca se sabe, ainda mais com essas caixas de farfalle e passata de tomate...

- Agenor ! Você está me traindo com alguma carcamana ? Poderia pelo menos ter a sutileza de não comprar presentes no meio das minhas compras...

- Matilde ! Acho que você é que está recebendo gente em casa... café gourmet ? Quem é o grã-fino ?

A discussão rola, a fila aumenta, o caixa chama o supervisor que não chega. Subitamente ouve-se o barulho de estilhaços. Agenor estrebuchando no chão. Matilde ainda na mão com um pedaço do que sobrou da garrafa de cerveja que quebrou na cabeça dele :

- O resto eu ainda tolero, Agenor...mas 12 dúzias de camisinhas !?!?!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Novos hai-kais


Essa é a minha segunda tentativa com Hai Kais. Vale a comparação com a primeira . Também naquela deixei uma breve explicação do que eles são.


Alimento sóis
Cena de brilho fugaz
Intenção no ar

Libera a alma
A bandeira distante
Da maresia

Incenso ronda
Acende flor girassol
Um pouco depois

Celacantos sós
Na imensidão gelada
Dores ancestrais

Espero o canto
Inda que chovam hoje
pedras lilases

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Le Beaujolais Nouveau est arrivé



Em uma de suas cartas à igreja de Corinto, o apóstolo Paulo escreve: "Quando eu era menino falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem desisti das coisas próprias de menino" (Carta de Paulo aos Coríntios capítulo 13, versículo 11). Todos os anos, quando é lançada mais uma safra do Beaujolais Nouveau, me vem à mente esse texto. Quando eu era menino, enologicamente falando, eu gostava de um vinho levíssimo, frutado, um pouco mais do que um suco de uva. Quando eu deixei de ser menino, ele passou a ser apenas um grande sucesso de marketing.

Todo mês de novembro é lançada a nova versão do Beaujolais Nouveau, um vinho que surgiu da ansiedade que os vinicultores da região do Beaujolais (extremo sul da Borgonha) tinham para experimentar os seus vinhos recém-colhidos e produzidos. Acabou se tornando um vinho cheio de regras para a sua produção: a única uva que pode ser utilizada é a gamay (gamay noir à jus blanc, uma variedade diferente da que conhecemos como gamay beaujolais) e precisa, obrigatoriamente, ser colhida à mão.

Além disso, têm de ser uvas exclusivamente das regiões controladas de Beaujolais e Beaujolais-Villages. O processo de vinificação, chamado de maceração carbônica, deixa a uva fermentando por pouco tempo para que o suco não receba a influência da casca da uva e tenha quase nenhum e, preferencialmente, nenhum tanino - para saber qual o teor de tanino de um vinho, basta passar a língua no céu da boca: quanto mais áspera for a sensação, maior a intensidade dos taninos.

A regra final é que o Beaujolais Nouveau - por lei - deve ser lançado exatamente na terceira quinta-feira de novembro - ou seja, hoje ! (nem antes, nem depois) de cada ano - o que significa, aproximadamente dois meses depois de colhido. Muitas vezes, os vinicultores se apressam exageradamente para tê-lo pronto nessa data e, já chegaram a ser acusados de chaptalizar o vinho (adicionar açúcar ao mosto para atingir mais rapidamente o teor alcóolico necessário).

O seu lançamento anual tornou-se o maior sucesso de marketing do mundo dos vinhos. É a maior fonte de renda da região e a que permite a entrada de dinheiro imediato no fluxo de caixa dos produtores. Os restaurantes do mundo inteiro colocam cartazes sobre a chegada do primeiro vinho da safra e, principalmente durante o auge da geração yuppie, era um diferencial de status quem já havia conseguido beber o primeiro gole do Nouveau.

Para quem já se acostumou a beber vinhos de verdade, o Beaujolais Nouveau pode ser divertido, mas não é um vinho sério. É um vinho para quem está recém entrando no universo dos vinhos tintos. É tão leve que chega a ser mais suave que alguns brancos secos, é muito frutado, quase uma sangria, e é um vinho para ser consumido rapidamente. A recomendação dos próprios produtores é que não se guarde o vinho além de maio do ano seguinte.

Se você é uma pessoa acostumada a beber vinhos tintos, nem passe perto de uma garrafa de nouveau. Se, ao contrário, você ainda é um "menino" nessa experiência, não deixe de prová-lo, daqui a alguns anos você vai se lembrar dele como se lembra hoje da sua primeira cartilha.