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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Sextante

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Não me importa a quadratura do círculo Tampouco a triangulação da senoide Obtusas hipotenusas Melancólicas parabólicas Eclípticas elípticas.   As soluções das equações Sejam quais sejam seus graus Infinitesimais Diferenciais Integrais Nem mesmo as derivadas me incomodam. Nem primas nem secundas.   Desencaixoto-me das estruturas Oblitero as fórmulas Obnubilo os sinais do quasares   E aguardo que o sol ressurja a cada manhã (por enquanto)

Entre o real e o ilusório: resposta aos homens ocos

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Inspirado por Vera Helena Castanho O vazio avança e o real se desfaz diante de nossos olhos. Entre imagens, notícias, estímulos incessantes e promessas, o mundo se tornou um espetáculo de aparências e máscaras. T. S. Eliot já havia vislumbrado esse cenário quando descreveu seus "homens ocos", aqueles seres "empalhados" que sussurram vozes dessecadas como "vento na relva seca". Mas onde Eliot via paralisia, podemos encontrar movimento. Onde ele percebia "forma sem forma, sombra sem cor", ainda é possível detectar potências. O ilusório não encanta mais: agora corrói. Dissolve contornos, confunde referências e deixa um espaço silencioso e inquietante, onde antes a realidade se sustentava no bom combate. Os "homens ocos" de Eliot habitam essa mesma terra morta, "esta terra do cacto" onde as imagens de pedra recebem súplicas de mãos mortas. Contudo, diferente da resignação elioteana, cabe reconhecer que não estamos condenados à p...

Embriaga-te de Baudelaire

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  Existem livros que lemos na juventude e por mais que tenhamos gostado acabamos nunca voltando a eles.  Outros aos quais voltamos e nos perguntamos por que diabos eu tinha gostado disso? Nos últimos tempos voltei a ler Baudelaire. E me pergunto por que diabos demorei tanto para relê-lo? O "Spleen de Paris", também chamado de pequenos poemas em prosa é algo que deveria  viver na minha cabeceira.  Spleen, na acepção francesa da palavra (não confundir com o inglês onde quer dizer baço, ou sentimento de contrariedade) tem o sentido de melancolia.  A melancolia do vadio Charles pelas ruas e salões de Paris é doce, amarga, leve, dolorosa, compassiva e cruel. Precisa na escolha das palavras e infinitamente mais poética ( resgatando o sentido helênico de poiesis como atividade que revela a beleza do espírito, envolvendo, portanto, prazer e satisfação) que muita coisa escrita em verso que circula por aí. Deixo aqui uma amostra, o pequeno poema XXXIII (na tradução de Jos...

A cigarra hodierna

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Tendo a cigarra em folguedos Veraneado o feriado final, Achou-se em doença extrema Sentindo-se muito mal. Não lhe restava fagulha De oxigênio, a tagarela Quis valer-se da formiga Que morava perto dela. Rogou-lhe que lhe ajudasse, Pois tinha saúde e brio, Algum ar com que manter-se Té voltar-se o são feitio. "Amiga – diz a cigarra – Prometo à fé d'animal. Cuidar-me até agosto Com u´a máscara cabal." A formiga nem uma fresta, Abre, nem se junta. "Durante a peste em que lidavas?" À pedinte ela pergunta. Responde a outra: "Eu passeava Noite e dia, a toda hora." – Oh! bravo, torna a formiga; Passeavas? Pois então, e agora? A partir da tradução de Bocage para Jean de La Fontaine (1621-1695), poeta e fabulista francês. Descrição da imagem: gravura mostrando a cigarra conversando com a formiga, de Grandville para a edição de 1847 de La Fontaine

Soneto do lugar comum

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  Eu caminhava em busca de um propósito Que tornasse   a minha vida disruptiva A coach me atendeu toda festiva A polímata pedia de um depósito   O valor era um imenso despropósito Mas ela retrucou bem assertiva Clamou de forma doce e emotiva Usando a resiliência de um compósito   Construiu-se a nova narrativa Pertencimento e ressignificação Empreendendo meus últimos tostões   Hoje clamo pelas redes, compaixão, Empatia me sugerem aos borbotões E uma vida mais contemplativa

Caminhos difíceis e turbulentos

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Caminhos difíceis e turbulentos ( Rough and rowdy ways ) é o novo álbum do senhor Robert Allen Zimmerman, a.k.a, Bob Dylan, que bem poderia se chamar dias difíceis e turbulentos em tempos de pandemia. De qualquer forma, sua temática não é a crise mundial, mas muito da história e das referências do seu autor. Como diz meu amigo Omar Giammarco, não é à toa que esse jovem que em 2021 vai completar 80 anos, ganhou um prêmio Nobel de literatura.  Ok, é apenas um compositor popular você vai argumentar, e eu contra argumentarei que sua poesia não é nada popular, ainda que ele, como músico, seja um dos grandes ícones populares da história. É só a minha opinião, mas eu o considero o maior poeta de língua inglesa do pós guerra, coincidentemente, começa a aparecer na época em que morreram Cummings e Sylvia Plath. O disco começa, não por acaso, com I contain multitudes , verso de Walt Whitman, que nele dizia que prosseguia para completar sua próxima dobra do futuro. Dylan vai reve...

A vã filosofia

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No meio da diafonia tinha uma eidos Tinha uma eidos no meio da diafonia Tinha uma eidos No meio da diafonia tinha uma eidos Nunca me esquecerei dessa aporia Na minha vida de doxas isostheneias em epokhe Nunca me esquecerei que no meio da diafonia Tinha uma eidos Tinha uma eidos no meio da diafonia No meio da diafonia tinha uma eidos.

Um ano de perdas

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Eu sei, todos anos nascem pessoas e morrem pessoas. E nós nem sabemos disso, exceto por aqueles mais próximos de nós. Nesse ano tive apenas uma pessoa mais próxima que se foi. E pouquíssimos nascimentos entre conhecidos. Do ponto de vista de herança cultural, no entanto, foi um ano terrível. Muitos se foram. Alguns, provavelmente, a seu tempo. Outros, cedo demais. Janeiro começou bem mal. David Bowie, o camaleão que me ensinou que é possível mudar de estilo sem perder a qualidade. Pierre Boulez, um gigante entre os maiores. Ettore Scola, que me fez dançar os mais variados ritmos no “Baile”. Em fevereiro, Umberto Eco, uma das melhores lembranças dos tempos de faculdade e que perpetuou nas minhas estantes em todos os anos depois disso. Em março se foi George Martin. E só quem é beatlemaníaco como eu é capaz de entender o que ele representou para a minha geração. Também em março Keith Emerson (meses depois, em dezembro, foi a vez de Greg Lake), de qualqu...

Um deca desafio

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Para Letícia e seus desafios de métricas   Amigos, carrapatos e formigas Correndo pelos campos de Lisboa Cantaram o aniversário das cantigas E a prosa antiquada de Pessoa O estrondo sepulcral desta garoa Em meio a tantas hostes inimigas Levanta a vela e zarpa da lagoa Singrando os mares lúdicas lombrigas Quem és que assim me entrega o desafio A luta ingrata, um metro tão ecoico, Um ritmo tão lúgubre e sombrio Compor este universo paranoico? Camões a sua mão eu parodio Soneto em decassílabo heroico

Poemeto sintagmático

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Ana lê sem tática Orações descoordenadas Que seu avô, cativo, Apostava restritivas Detido pelo agente da passiva Por contravenções sindéticas Adverbiou-se subordinado Ante seu adversativo sujeito Sou objeto sem predicados E denoto complementos Ad-hoc e ad-nominais Sem caráter explicativo.

Millorianas

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Esse mês foi aniversário do Millôr, o homenageado desse ano na FLIP. Ele faz parte da minha memória afetiva literária, e deixo aqui algumas   brincadeiras a seu estilo Quem chama de donzela a macróbia meretriz É de estirpe paralela ou só se contradiz Se a vaca tussir, a   porca vai torcer o rabo? Um mistério assim bisonho nunca desvendamos Para onde vão os sonhos quando acordamos? Uma reflexão sensata é um eco lógico? Se no botão do elevador eu comprimo a seta errada Sou sujeito sem pudor e nenhum predicado Não trate com leniência as minhas facécias

Prisão

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  De uma sugestão do José Antonio Klaes Roig Vivo aprisionado entre duas eternidades. A uma chamam passado e à outra, futuro. Duas eternas cidades nas quais me transfiguro. Vivo aprisionado entre duas infinitudes. A uma chamam cuidado e à outra, paixão. Duas longas juventudes constante fecundação.

Tzarice

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Piratas piravam em Piracaia paravam em Paraíba pulavam em Paulinía Sobre as ondas Sombras fundas Sobrancelhas Carrapetas pululavam Carrapatos e ósculos ciciavam. Piratas pairavam em Paris açodando em tapires mumificados o adeus dos pintassilgos.

O samba do taitiano doido

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Corria o ano de 1968 (aquele que dizem que não acabou) e o genial Lalau* colocava nas paradas de sucesso o “ Samba do Crioulo Doido ” , uma paródia para ironizar a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem nos seus sambas de enredo somente fatos históricos. Eu soube que depois de tomarem 24 gols em uma semana e, mesmo assim, comemorarem e distribuírem loas aos brasileiros, os jogadores do Taiti (o Taití é aqui?) um tanto zonzos dos gols e do noticiário nacional, sairam cantando coisas do tipo: Um tal de ato médico Agora obriga a cura gay Por médicos cubanos Que pedem ao paciente Que repicta** 37 Ou desconte 20 centavos A nossa salada coitada Ficou mal temperada Vinagre foi proibido E a pimenta exagerada De sobremesa éclair Pois a bomba era imoral. Nas histórias em quadrinhos O herói é mascarado O batman dessas plagas Não é nem nascituro E já está condenado Olerê, olará, squidum... Esse samba não rima E muito menos solução Olerê, olará, squid...

Autômato

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Ligue seus botões. Deixe a energia elétrica correr dentro dos seus transístores. Deixe óleo escorrer Nas sua engrenagens. Mecanicamente raciocina Reflexos são condicionados Automatizados. Passos são medidos Milimétricamente iguais. O homem-máquina não se percebe não se sente não se manifesta. Desobediência - não tem registro Ele não é programado para viver Mas para produzir E, quando a máquina falha, Não há problemas É artigo de consumo Usa-se e joga-se fora No ferro-velho de nós mesmos.

Desafiando Neruda

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Posso escrever os versos mais felizes essa noite. Escrever, por exemplo: "A noite está nublada e se escondem, ao longe, todas as angústias" O vento da noite aquietou e o céu está em silêncio. Posso escrever os versos mais felizes essa noite. Eu a quero e todas as vezes ela também me quer Em noite como essa a tenho em meus sonhos e a beijo sem parar sob o céu infinito Ela me quer e todas as vezes eu a quero também Impossível não amar os mais lindo de todos os olhos. Posso escrever os versos mais felizes essa noite. Saber que a tenho. Sentir que nunca a perderei Ouvir a noite imensa, ainda mais imensa com ela Os versos caem na alma como uma tromba d´água Que me importa se a noite está fria e chuvosa Se a guardo no meu coração. Isso é tudo. Ao meu lado a música continua Minha alma está contente de tê-la Como para me achegar a ela meus olhos a vem Meu coração a tem e ela está comigo Na mesma noite que escurece todos os gatos Nós, desde sempre, nos tornamos um Eu a quero, é cert...

Um só coração

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Mensa Não me venha Vinicius com essa história de amor infinito enquanto dure... se é infinito é também eterno. Não me venha Drummond com essa história de o primeiro amor passou....se passou não era amor. Não me venha Rachel de Queiroz dizer que o amor começa a morrer no dia que nasce, o amor não é apenas uma célula (ou, como diria Deleuze, são organismos que morrem, não a vida). Não me venha Gautier dizer que só a arte é eterna, nenhuma arte se constrói fora do amor. Não me venham tantos outros falar do amor verdadeiro, amor falso não é amor O que o meu coração se lembra todas as manhãs são as palavras do mais sábio de todos os homens, Salomão, que escreveu: " As muitas águas näo podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam. " O que meus poros exalam em todos os momentos são os versos de Becquer Podrá nublarse el sol eternamente; Podrá secarse en un instante el mar; Podrá...

Perguntas à moda de Neruda

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Se a banana é maçã, a bananada é amassada? Se um triângulo pode ser retângulo um hexágono pode ser quadrado? Quando aquele sol resolve sair para onde ele vai? No caso anterior, do que vivem os heliófagos? Quebrar galhos ainda é permitido com o novo código florestal? Quando a chuva cai as gotas se contundem? Com quantas andorinhas se faz um verão? Um instinto extinto reencarna como lógica estruturada? As perguntas de Neruda estão aqui

Scintilla

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Pequena luz Scintilla entre azuis. Celestes, cerúleos, Ultramarinos Brilhante luz Scintilla e reproduz Aromas, sabores Sensações Pequena luz Scintilla e reconduz A manhãs, tarde e noites, De amor eterno Imagem por SlaveDruid

Ora vá para o Catimbau!

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Mensagem Nada de sol, nem bacalhau Chovia muito no arraial Não caiu o nosso astral Pelas gambas do Catimbau Muita pedra, nenhum areial Nem pera nem bananal Olvidamos o cacau Traçando as gambas do Catimbau Nenhuma dor existencial Paisagem fenomenal Um olhar emocional Antes as gambas do Catimbau Declarei amor imortal Genuflexo no degrau Recebi amor igual Com as gambas do Catimbau