domingo, 30 de abril de 2017

Carregado pelo zonda


Zonda é o nome que se dá a um vento argentino do lado oriental da cordilheira do Andes que, diz a lenda, ocorre quando alguém desobedece a Pachamama, a mãe natureza da mitologia inca.

Também é o nome original do filme de 2015 de Carlos Saura que está em carta na Reserva Cultural com o nome de “Argentina”.

Desde a sua trilogia flamenca, Saura se dedica, de tempos em tempos a retornar à música. Fados é um belíssimo filme sobre a alma portuguesa. Tango, explora a fundo a essência portenha.

De volta à Argentina faz um mapa extenso e detalhado dos ritmos folclóricos dos hermanos.

E é um filme fabuloso, ou melhor, é mais um filme fabuloso de Saura.

Praticamente nenhuma fala. Música do começo ao fim de sua quase hora e meia de duração.

Tomas Lipan, Luis Salinas, Pedro Aznar, Jaime Torres, Chaqueño Palavecino, Mariana Carrizo, são apenas alguns dos muitos intérpretes. Além de homenagens emocionantes a Mercedes Sosa e a Atahualpa Yupanqui.

O filme ganhou prêmios como documentário. Mas não é um documentário na melhor acepção da palavra.

Não existe um discurso explícito e, exceto por alguns segundos iniciais em que um texto fala das origens dos diversos ritmos folclóricos argentinos, não temos mais nenhuma orientação histórica ou didática a respeito do que vamos ver.

Dentro de um espaço teatral, três paredes translúcidas dentro de um galpão, acontece uma sucessão de apresentações musicais (zamba, cuyo, baguala, chamame, chacarera, malambo, cueca, gato, carnavalito) que dão uma bela amostra de todas as regiões do país.

Ainda que alguns mais puristas possam reclamar a falta de um loncomeo.

Muitas das apresentações têm a participação de uma companhia de ballet moderno que estiliza as danças com uma cara inconfundível do Saura das danças flamencas. 

Não espere um galpón criollo. Você não vai ver as prendas de tranças, nem gauchos de botinas (ainda que a dança com as boleadeiras seja, plasticamente, um dos pontos altos do filme.

Some-se a tudo isso a fortíssima paleta de cores de Saura e a experiência sensorial está completa.

Aos amigos brasileiros que sejam realmente fascinados por música, eu recomendo muito. Aos que conhecem nada ou muito pouco da música argentina, eu recomendo mais.

Com a ressalva de que não vai ouvir nenhum tango, nem nenhuma milonga. Tão pouco vai assistir bailarinos acrobáticos dos shows de turistas.