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Mostrando postagens com o rótulo mulheres

Corredor de ônibus

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Mariana morava no Grajaú e todos os dias acordava às 5 da manhã para ir trabalhar num escritório de contabilidade na Libero Badaró onde estava há mais de três anos. A viagem de ida não costumava ser muito sofrida, mas a de volta era uma tortura. Mesmo quando saía pontualmente às 18h não chegava em casa antes das 21h. O trajeto incluía uma pequena caminhada até a praça do Correio onde embarcava, às duras custas, no 5317. Uma viagem de quase 33 km e depois mais um trecho à pé até a estrada do Capoeira, onde tinha a sua casinha com Horácio. Os dois estavam juntos há cinco anos. Ela o conhecera numa festa de bairro e, não pouco tempo depois juntaram os trapos e as panelas. Horácio era um sujeito trabalhador e carinhoso. Tinha uma oficina de motos na Teotônio para onde ia e voltava de casa caminhando. Não acordava tão cedo quanto Mariana e, como sempre chegava em casa antes dela, preparava o jantar para a companheira exausta do dia de trabalho e da jornada de ônibus. To...

Aparições

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A foto parecia ser apenas mais uma daquelas tantas que se encontram em exposições. Preto e branco. Composição geométrica alternando curvas e retas. Um ser vivo aparentemente perdido em meio a um contexto domiciliar comum. Bem ao estilo casual de Marina.   O que a diferenciava de outras não era o espelho no meio da imagem, mas o fato de Marina ter se deixado aparecer nele. E, definitivamente, não tinha sido nem um acidente, nem uma distração pois, mesmo entrecortada, a imagem dela ocupava um lugar nobre na foto.   Exatamente por isso é que Audálio se transtornou ao passar diante daquele painel. Sua vontade foi de falar imediatamente com ela e exigir que a foto fosse retirada da exposição. Aquilo era uma indecência.   No entanto, ao ir em direção da namorada percebeu que ela estava cercada de gente. Amigos, colegas de trabalho do jornal e até algumas pessoas da empresa que patrocinavam a mostra. Audálio tinha o estopim curto...

Uma mulher cabal

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"...o que quero dizer é que deixei uma boa parte de mim mesma inacabada porque desperdicei demais meu tempo. Não  obstante..." (Lillian Hellman) Quando Amanda acabou de ler essas linhas sentiu-se arrasada. Como uma mulher daquelas poderia se dizer inacabada. Era uma afirmação totalmente descabida. Tomou uma decisão para a sua própria vida. Ela seria uma mulher cabal, jamais inacabada. Iria ao fim e ao cabo de todas as coisas. Na manhã seguinte começou a levar a cabo seu intento. Fez uma faxina geral na casa e recolheu todos os cabos existentes dentro do imóvel. Eram tantos que achou que nunca acabaria, mas acabou com uma caixa de fios emaranhados em cima da mesa da sala. Começou a separá-los por tipo. Cabos de força, cabos paralelos e seriais, cabos de som, cabos USB...cabos e cabos. Dentro de cada tipo passou a separá-los por calibre, por potência, por categoria e, finalmente, por cores. Ao final do dia tinha todos os seus cabos classificados, etiquetados e guardados em ca...

A calcinha da discórdia

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Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória. No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie. Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer. Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso. Entrou no shopping, re...

Im- previsões

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Davam-se como o vinho e a toalha de mesa (Fabrício Carpinejar) Ninguém entendeu quando ele entrou à esquerda ao invés da direita. Não era aquela a direção que os levaria de volta para casa. A irmã perguntou o que é que ele estava fazendo, ele disse que estava indo até ali. Mistério. A namorada olhou para ele com um misto de curiosidade e cumplicidade. Poderia até não saber das suas intenções mas confiava no que ele fazia. Ele poderia até ter a intenção de surpreendê-la, mas sabia que era algo que beirava a impossibilidade absoluta. Além de nunca terem tido segredos entre eles eram tão parecidos que algumas vezes se assustavam com isso. Pegou outra rua que levava em direção oposta à da casa. A irmã se inquietava a cada nova troca de rota. Ela e o cunhado tinham sido convidados para um almoço, algo comum desde que o irmão e a namorada moravam juntos. Ele parou o carro num estacionamento. Pediu para todos descerem. Caminharam meio quarteirão e entraram no cartório. Só a irmã e o cunhado...

Um paradigma a menos

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Mensagem Ela achava que tinha saído com ele apenas para tomar um café. Quando muito uma caminhada pelo shopping   Não se surpreendeu quando ele perguntou se poderia levá-la a um lugar diferente, sabia que ele era um sujeito criativo e aceitou o convite.   Tomou um susto quando ele embicou o carro na entrada do estabelecimento. Chegou mesmo a corar, em seus não poucos anos de vida ela nunca tinha entrado num lugar daqueles.   Era uma mulher extremamente pudica e recatada, nunca imaginou que poderia fazer aquele tipo de programa fora das quatro paredes da sua casa.   Não era tão ingênua a ponto de não saber o que iria acontecer mas, para ela, aquilo era uma coisa de mulheres muito diferentes dela, mulheres liberais...ou liberadas, como definir melhor?   Ao mesmo tempo sentiu, sem tentar demonstrar, um certo entusiasmo com a ousadia dele.   Ele percebeu a mistura de desconforto e excitação nos seus olhos. Elegante, an...

A professora de sueco

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Ernani conheceu Linnea numa festa das nações no clube. Ele estudante de direito, ela secundarista e filha do cônsul sueco no Brasil. Paixão à primeira vista. Mal ele se formara, ela disse que o pai estava sendo transferido para Seychelles. Ele não teve dúvida, pediu-a em casamento, que aconteceu poucos meses depois. Tiveram três filhos Lennart, Ingrid e Axel. Todos educados de forma bilíngue, falavam fluentemente português e sueco. Para que não perdessem a prática, a mãe só falava com eles em português se fosse em algum papo sério com a presença do pai. Ernani nunca se importou com as conversas corriqueiras numa língua que não entendia e, quando iam para Malmö visitar a família a mulher e os filhos lhe serviam de intérpretes. Até o dia em que descobriu que no mesmo prédio da firma havia uma professora de sueco. Foi conversar com ela na hora do almoço. Queria aprender a língua, mas ninguém poderia saber que ele ia lá, queria fazer uma surpresa para a família na próxima vez que viajassem...

O que os olhos não vêem

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Ernesto sempre admirou as mulheres. Adorava observá-las em todos os lugares onde estava, num nível de detalhes que não lhe era sempre possível externar. Fazia isso quase que como um esporte, sem nenhuma intenção adicional. Até o dia em que, reparando nas colegas de trabalho, percebeu que Sônia era especialmente bonita e atraente, além de manter uma elegância impecável. Apaixonou-se. Não demorou muito para que começassem a namorar. Ernesto, que não era bobo, refreou seus instintos voyeurísticos. Não que tivesse deixado de olhar as mulheres, mas procurava ser o mais discreto possível e, claro, guardava seus comentários para si mesmo. Sônia, que conhecia sua fama, não queria reprimí-lo totalmente. Aos poucos foi deixando o namorado mais à vontade, inclusive trocando comentários sobre as mulheres que viam. Ernesto relaxou e, sem perceber, voltou a olhar acintosamente para todas as mulheres, mesmo quando estava com Sônia. Um dia, num café, Sônia não se conteve...

A cor da vida

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Mário sempre afirmava que mulher, para ele, tinha de ser loira de olhos verdes. Poderia até aceitar uma mulher de olhos azuis ou castanhos claros, mas fazia questão de evitar morenas e mulheres de olhos escuros. Por isso ninguém entendeu quando começou o namoro com Belinda, uma mulata de cabelos negros e olhos de jabuticaba. Verdade se diga, não durou muito tempo, mas o rompimento nada teve a ver com a coloração da moça. Mário a deixou por uma ruiva de olhos castanhos. O namoro com Clara durou mais tempo e também acabou quando ele se encantou por outra mulher. Isabelle era alta, magérrima, cabelos longos e muito pretos, olhos negros e fundos. Pálida, parecia um espectro ambulante a quem ele chamava de minha mulata loira. Os amigos não resistiram e, durante uma rodada de chopp perguntaram para onde tinha ido a convicção sobre as loiras de olhos verdes. Mário não hesitou em responder que todas as suas namoradas eram loiras de olhos claros. Não tolerava outra opção. Perplexos, os amigos s...

Quente, muito quente

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Arnaldo bateu o olho na geladeira da mercearia e seus olhos brilharam: salsichas Frigor Éder, aquelas mesmas que comia na sua infância. Salsicha fresca, não aquelas porcarias de pacotinhos que continham muita soja e quase nenhuma carne. Mostrou para a namorada e disse que aquela noite ia comer cachorro quente. Marilda, que também gostava do acepipe lamentou que já tinha se comprometido com a irmã de jantar na casa dela. Fez Arnaldo prometer que voltariam outro dia à mercearia e comprariam mais salsichas. Salsichas frescas, como é de domínio público, não devem ficar guardadas de um dia para o outro e, em hipótese alguma, podem ser congeladas. Continuaram as compras e, já no caixa, Arnaldo falou para Marilda que o que ele queria mesmo era que ela fosse para a casa dele comer o seu cachorro quente. Marilda não teve tempo de responder, quando a moça do caixa falou que estava com inveja dela, bem que gostaria de comer aquele cachorro quente, até porque estava morrendo de fome. Marilda foi f...

Crítica teatral

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Alguns autores buscam em sua vida real ou imaginária os temas para desenvolverem suas produções artísticas. Esse fato é mais ou menos perceptível a cada novo texto e varia muito de autor para autor. Por outro lado, existem escritores que conseguem extrair de fatos corriqueiros todo um edifício ficcional que beira o delírio lisérgico. Esse é o caso da nova obra do teatrólogo galês Oso von Bach, o monólogo "Uma mulher exaltada", atualmente em cartaz no teatro da Aldeia Circular. A protagonista, interpretada magistralmente pela atriz Elisabeth Bell estrutura-se sobre uma série interminável de pequenos fatos e cada uma das reações ensandecidas da personagem. A forma como von Bach cria situações absurdas alterna momentos hilariantes e deprimentes. Nem na mais profunda alucinação de uma mente corroída por ácidos nefelibáticos tais situações beirariam sombras de uma existência factual. O auge da peça e da interpretação de Bell acontece no momento em que ela descreve como se exaltou ...

Cefalalgia

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Não era nada diferente do que acontecia entre outros casais. Mariana algumas vezes estava com dor de cabeça e, quando isso acontecia, Jorge ficava desconcertado olhando para o teto. Acontece que, num dia em que Mariana realmente estava com uma dor de cabeça infernal Jorge não se conteve e disse que ia ser com ou sem dor de cabeça. Mariana ensaiou um protesto, mas acabou cedendo. Era melhor aguentar a dor de cabeça do que se arranjar outra. O que ela não esperava é que mal tinham acabado, a dor de cabeça desaparecera completamente. Quando comentou isso com Jorge ele deu um riso irônico, até parecia que ele tinha acreditado na tal da dor. Mas Mariana sabia que a dor era real antes e inexistente depois. Tentou entender o que tinha acontecido, não conseguiu e resolveu que aquela situação precisava de uma comprovação científica. Dias depois Mariana teve um dia cheio de reuniões externas. Ficou muito tempo na rua, debaixo de sol forte. As pontadas na cabeça começaram no final da tarde. Ao ch...

A cor do som

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Elisa chegou em casa cansada e nervosa. O dia, definitivamente, não tinha sido dos melhores. O calor acentuara a sua dor de cabeça, o chefe a culpara por um erro que não era dela e quando ela pediu ajuda a um dos colegas de trabalho ainda teve de ouvir que ele não era mágico para resolver os problemas do mundo. Olhou para o relógio e ficou ainda pior, faltava um pouco mais de uma hora para os seus convidados chegarem e ela nem tinha começado a fazer o jantar. Entrou no chuveiro, tomou um banho rapidíssimo e voou com as suas tarefas. Arrumou a mesa enquanto a carne assava no forno, arrumou os vasos de flores, escolheu os discos para tocar durante o jantar, colocou a água no fogo para cozinhar o macarrão. Estava dando os últimos retoques na salada quando seus amigos começaram a chegar. Depois de muitos anos iria rever parte da turma da faculdade. Mantinha um contato remoto com alguns deles e mais próximo com duas amigas. Ela não via André desde o dia da formatura, mas lembrava da admiraç...

As águas rolaram

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Minha amada amantíssima adorada, Eu sei que nos desentendemos a respeito de um assunto muito importante para você. Sei que não deveria ter me exaltado como aconteceu. te peço perdão. O que sei é que quando olhei aquela grelha prateada, reluzente, redondinha, eu me empolguei a ponto de quase me colocar de joelhos diante dela, tal foi minha vazão. Imediatamente você sifonou-se e reclamou que a grelha não tinha caixilho. Eu demonstrei todo o meu desdém pelo caixilho. Quem precisa de caixilho quando se tem uma grelha perfeita? Seu olhar foi fulminante. Sua reação ameaçadora. Para você, grelha sem caixilho é algo intolerável e, mesmo sabendo disso, achei que era apenas uma frescura e comprei meu objeto de desejo. Você nem falou mais comigo ontem à noite. Hoje encontrei seu armário vazio e seu bilhete cravado com um facão na porta do banheiro: "Adeus seu crápula, você jogou nosso amor pelo ralo". Volte para mim, meu amor, eu já resolvi tudo. No nosso lar, nunca mais, uma grelha fic...

Sous plat

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Quando acabou de abrir seus presentes de casamento Rogério olhou desapontado para Marisa. Não tinham ganho o jogo de sous plat que ele marcara em todas as listas de presentes. Marisa sorriu amarelo e disse que depois cuidariam disso. Os anos se passaram e, todas as vezes que Rogério via sous plats nas lojas dizia que ia comprar. Nunca conseguiu. Marisa sempre dava alguma desculpa para adiar a compra. Ora que não tinham dinheiro, ora alegava que recebiam poucas visitas. Mais de uma vez disse que sous-plat era coisa de restaurante, não de casa. Quanto mais adiavam a compra, mais frustrado ficava Rogério. Até pensou em comprar sozinho, mas sabia que a mulher ficaria exaltada se ele fizesse isso. As desculpas se sucediam. Num determinado momento a frustração começou a virar ressentimento. O ressentimento em ódio. Marisa achou que a distância de Rogério era infidelidade. Só podia ter arranjado outra. Começou a seguí-lo pela rua. Um dia viu-o entrando em um flat. Esse deveria ser o ninho de ...

Cortina de fumaça

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Arnaldo nunca fora ciumento mas, já há algum tempo, começara a desconfiar do comportamento de Veronica. Ela passava mais tempo fora de casa, alguns dias chegava tarde e, mais de uma vez, achou que ela estava com roupa diferente da qual tinha saído. Começou a questioná-la. Bo começo, de forma discreta, depois de maneira mais incisiva. Ela sempre tinha uma história, sempre envolvendo Magali, sua melhor amiga. Tinha almoçado com Magali. Ido ao cinema com Magali. Passeara no shopping com Magali. Arnaldo tinha certeza que a amiga estava acobertando Veronica. Tinham intimidade suficiente para isso e a amiga fazia o papel de cortina de fumaça. Chegou mesmo a aparecer de surpresa no restaurante preferido delas num dia que Veronica disse que ia almoçar com Magali. Quebrou a cara. As duas estavam mesmo almoçando, e riram muito dele. Arnaldo não se conformou. Alguma coisa existia e ele precisava descobrir. Todas as quartas-feiras Veronica dizia que ia passear com Magali e sempre chegava tarde. Nu...

Um duplo singular

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Esquizofrenia é um transtorno mental que caracteriza-se essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas e pela multiplicidade de personalidades de uma pessoa. Não era o caso de João, ainda que muitas vezes o diagnóstico inicial apontasse para isso, depois de algumas consultas os médicos descartavam e ssa possibilidade. A mãe de João não sabia mais o que fazer com o menino que ora se dizia ser João e, em outras, era apenas João. Quando questionado quem era naquele momento ele sempre dizia a mesma coisa: "- João... ora bolas!". Por outro lado, quando ele mudava de João ele avisava. João tinha momentos de bom e mau humor, João também. As pirraças não eram de um João específico, tão pouco as brincadeiras. O menino tinha mesmo dupla personalidade, só que as duas personalidades comportavam-se da mesma forma. Só havia uma exceção: nem todos os amigos de...

Poemeto pigmentar

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Monastra minha amada Talvez não seja nada Talvez em si seja tudo Ou mudo Monastra querida minha Não escute a vizinha Ela adora uma fofoca Na toca Monastra minha flor Nunca duvide do amor O meu nunca acaba Na taba Monastra minha vida Se alguém duvida Da nossa sina Ftalocianina

Amarradona

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Marilda olhou para a placa presa no poste e achou que não custava muito arriscar. Amarração para o amor, dizia, efeitos garantidos. 200 reais. Há tempos que ficava com Antonio, mas nada dele pensar num namoro mais firme, pelo contrário, o rapaz era um mulherengo que trocava de companhia todas as semanas. Marilda queria casar antes dos 30 e o prazo estava correndo rapidamente. Ligou para o amarrador. Dois dias depois estava no consultório do mágico do amor levando o que ele pedira. Uma foto de Antonio, uma folha qualquer onde estivesse sua caligrafia, uma lista de gostos e preferências e seu endereço. Explicaram que o trabalho demoraria alguns dias para surtir efeito e que ela poderia deixar um cheque pré-datado, se em um mês não acontecesse nada poderia sustar o cheque. O mágico era dos bons e menos de uma semana depois Antonio apareceu com uma caixa de bombons e pediu Marilda em namoro. Ela ligou para o consultório dizendo que podiam antecipar o depósito do cheque. Além de arranjar um...

Cinderello

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Durante toda a sua vida Felipe guardou com cuidado o par de sapatos de cristal que tinha herdado de sua avó. Só deveria entregá-los à mulher que ele descobrisse como sendo a primeira e a última de sua vida. Não seria uma missão fácil, ele sabia, a começar pelo tamanho dos sapatos que eram minúsculos, o que limitava seus namoros a mulheres com pés de crianças. Mariana sofreu dolorosamente com bolhas e calos antes de concluir que não o amava tanto assim para passar o resto da vida com bandaids nos calcanhares. Justina foi vítima de um encurtamento da musculatura ísquio tibial e vivia com dores na na região lombar. Claudinha, por outro lado, enfrentou a formação de neuromas e o abandonou antes que virassem uma fascite plantar. O metatarsos de Carolina não resistiram sequer uma semana aos calçados de cristal oferecidos pelo namorado. Ana Maria concluiu que cristal não era permeável e não permitia nenhum tipo de ventilação para os seus pés delicados, logo começaram a surgir fungos entre os ...