quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A cor do som

Elisa chegou em casa cansada e nervosa. O dia, definitivamente, não tinha sido dos melhores. O calor acentuara a sua dor de cabeça, o chefe a culpara por um erro que não era dela e quando ela pediu ajuda a um dos colegas de trabalho ainda teve de ouvir que ele não era mágico para resolver os problemas do mundo.

Olhou para o relógio e ficou ainda pior, faltava um pouco mais de uma hora para os seus convidados chegarem e ela nem tinha começado a fazer o jantar. Entrou no chuveiro, tomou um banho rapidíssimo e voou com as suas tarefas.

Arrumou a mesa enquanto a carne assava no forno, arrumou os vasos de flores, escolheu os discos para tocar durante o jantar, colocou a água no fogo para cozinhar o macarrão. Estava dando os últimos retoques na salada quando seus amigos começaram a chegar.

Depois de muitos anos iria rever parte da turma da faculdade. Mantinha um contato remoto com alguns deles e mais próximo com duas amigas.

Ela não via André desde o dia da formatura, mas lembrava da admiração que nutria por ele. Sempre fora um aluno acima da média e, mais do que isso, era o único rapaz da turma que gostava de jazz. Através dele ela descobrira Benny Goodman, Artie Shaw e George Shearing. Nunca esquecera do dia em que ele apareceu com um programa do Free Jazz e ficou explicando sobre cada um dos shows.

Nesse momento se tocou que não tinha colocado nenhum disco de jazz na sua seleção e, com os convidados em casa não dava para ficar procurando algum que agradasse André.

Os amigos conversaram bastante, comeram bastante e beberam bastante. Elisa só acompanhava o jantar sem muito ânimo. Questionada por uma das amigas respondeu que estava com um pouco de gripe, desculpa que funcionou bem para quase todos, menos para André. Ele percebeu que existia algo além daquilo.

Aliás, não foi só nisso que reparou. Passou a maior parte do jantar olhando para Elisa. Tinha lembranças da menina tímida da faculdade, na época ele nunca sentira nada por ela. Naquele momento reparou que era uma mulher fabulosa e que precisava saber mais a respeito dela. Lamentou que a circunstância não ajudasse.

Já passava da meia noite quando os amigos começaram a ir embora. Elisa, que tinha percebido a forma como André a olhava sentia um misto de alívio (ia descansar) e de decepção (queria entender melhor os olhares dele).

André, que ainda ia levar outras duas colegas para casa, começou a despedir-se de todos. Ao chegar na porta para despedir-se de Elisa, a abraçou e disse no seu ouvido: "- Adorei a trilha sonora!". Elisa derreteu-se toda por dentro. Estava apaixonada.

No dia seguinte André ligou para Elisa para saber se ela estava melhor. Convidou-a para irem a um show no Bourbon Street no fim de semana seguinte. Começaram a namorar ouvindo Pizzarelli. Casaram dois anos depois.

E durante o casamento colocaram a trilha sonora daquele jantar, acabando de vez com todos os anos de solidão.

5 comentários:

Bel disse...

Cabei de crer que Marido e eu estávamos destinados um ao outro há tempos, vide Chico e Caetano, nossas paixões musicais. ;)

Rubinho Osório disse...

Faltou a trilha!!!!

Vilma A. de Mello disse...

A música às vezes faz toda a diferença...

Beijo

clau disse...

Fabio, mas que estoria mais realista esta sua!
Fica até como que a curiosidade de se adivinhar onde termina a ficçao e onde desponta a realidade.
Bravo!
Bjs!

Taty disse...

Ai que lindo, viajei e me apaixonei, agora só falta achar o bem amado. Beijos