domingo, 10 de dezembro de 2017

Algoritmos osmados e assunados




Depois de muitas voltinhas no grande Hadron, que parou de se debater para seu descanso habitual de festas natalinas e neoanualinas, meus amigos cérnicos confirmaram a validade e precisão do algoritmo que desenvolvi nas últimas décadas e, cuja eficiência, já havia dado sinais inequívocos de pertinência nas redes sociais.

Não sem, como sói acontecer, alguns ressaibos dos oponentes vorazes de minhas elucubrações.

Outrossim, e sem outros nãos, nem mesmo nosso petiz alcaide dignar-se-ia a entrar nesse tipo de disputa.

Mas deixemos de patacoadas e vamos aos números finais.

O principal resultado é que, caso 58,7% da população tivesse como práxis, 18,34% do que fala ou escreve, o mundo seria 4,16p melhor do que é hoje.

No caso das redes sociais os valores chegam a ser mais assustadores, conseguiríamos uma evolução nos padrões mundiais de ética e reduções de carraspanas, além dos suso mencionados, de 67,34p para cada:

2% de frases de autoajuda que realmente ajudassem em algo

5% de redução de citações falsas (se forem de Clarisse Lispector, melhor ainda o resultado)

5,14% das tentativas de levantar a baixa estima (a alta estima não precisa de ninguém que a levante e a autoestima, como se vê no prefixo, caminha sozinha)

Em breve estarei publicando um artigo acadêmico completo, nos melhores 
padrões da ABNT (claro, NBR6023) em indisputadas revistas científicas da Terra Média.

Assim que o fizer, executo as devidas proclamas do evento.

PS: eventuais queixas quanto à formatação desse texto, não as sei responder, tem horas que o blogger tem vontade própria...

domingo, 7 de maio de 2017

Quem não conhece, inventa.


Como diria o mais que conhecido provérbio português: “o papel aceita tudo”. Já os meios digitais aceitam tudo e mais um pouco (já diria Umberto Eco, mas há quem se ofenda com essa opinião).

O que pode provocar dores no pâncreas e desconfortos no astrágalo esquerdo.

Em mim provocaram.

O jornalista que resenhou o show de Sting para um dos grandes veículos de mídia nacional deve ter nascido quando o Police nem existia mais. É verdade que, como jornalista, não precisava ter a mesma idade do cantor e do seu público, bastava ser um pouco mais sério e se informar antes de escrever.

Ele começa dizendo que o comportamento do público foi morno e comportado nas cadeiras. Na minha frente estava sentada uma senhora de uns 70 anos (super pop, de calças jeans rasgadas), ele queria o que? Que ela desse gritinhos e escândalos como a garotada que foi ver o Justin Bieber?

O pessoal que estava na pista dançou bastante. Que estava nas cadeiras e dançou se preocupou em fazê-lo nas escadas para não atrapalhar a visão de quem queria ficar sentado (ainda bem que essa geração ainda tem respeito pelo próximo).

A besteira seguinte foi dizer que as pessoas tiveram de aguentar músicas desconhecidas para poder ouvir as canções do Police. Quem desconhece é ele.
Quem gosta de Sting sabe muito bem (e a maioria cantou junto) coisas como Desert Rose, Shape of my heart, Fields of gold, I hung my head, Fragile, She´s too good for me.

E, mais que óbvio, quem é fã conhece as músicas do novo disco que já está nas prateleiras das lojas (e no Spotfy se você for moderninho) desde o final do ano passado. Ele bem que poderia ter ouvido um pouco antes de ir ao show.

De todas as besteiras, a mais genial, foi se referir a The last bandoleros, a banda que abriu o show e acompanhou Sting durante boa parte do seu show como um trio. O jornalista acabou de inventar o trio de quatro.

Aliás, muito bons os Bandoleros. Rock´n´roll sem frescura e de excelente qualidade.

Já os seus comentários sobre Joe Stumner, filho de Sting, que participou antes e durante o show são, para dizer o mínimo, indelicados. O cara não tem a qualidade do pai, mas está longe de ser um músico ruim. Ouça aqui o que eles fazem com Ashes to ashes, o filme continua com a ótima 50,000, uma das músicas “desconhecidas” do jornalista e a policealesca Walking on the moon.

No mais, ele se preocupou em comentar a forma física e a tintura do cabelo do cantor. Imagino que tenha uma longa experiência em jornalismo de fofocas.


Ah...o show foi uma delícia do começo ao fim. Sting está mais do que em forma (e aqui me refiro à sua competência musical e não à sua falta de barriga), o repertório logicamente privilegiou o disco novo (é o tema da tounée) mas passou por toda a carreira do cantor. 

domingo, 30 de abril de 2017

Carregado pelo zonda


Zonda é o nome que se dá a um vento argentino do lado oriental da cordilheira do Andes que, diz a lenda, ocorre quando alguém desobedece a Pachamama, a mãe natureza da mitologia inca.

Também é o nome original do filme de 2015 de Carlos Saura que está em carta na Reserva Cultural com o nome de “Argentina”.

Desde a sua trilogia flamenca, Saura se dedica, de tempos em tempos a retornar à música. Fados é um belíssimo filme sobre a alma portuguesa. Tango, explora a fundo a essência portenha.

De volta à Argentina faz um mapa extenso e detalhado dos ritmos folclóricos dos hermanos.

E é um filme fabuloso, ou melhor, é mais um filme fabuloso de Saura.

Praticamente nenhuma fala. Música do começo ao fim de sua quase hora e meia de duração.

Tomas Lipan, Luis Salinas, Pedro Aznar, Jaime Torres, Chaqueño Palavecino, Mariana Carrizo, são apenas alguns dos muitos intérpretes. Além de homenagens emocionantes a Mercedes Sosa e a Atahualpa Yupanqui.

O filme ganhou prêmios como documentário. Mas não é um documentário na melhor acepção da palavra.

Não existe um discurso explícito e, exceto por alguns segundos iniciais em que um texto fala das origens dos diversos ritmos folclóricos argentinos, não temos mais nenhuma orientação histórica ou didática a respeito do que vamos ver.

Dentro de um espaço teatral, três paredes translúcidas dentro de um galpão, acontece uma sucessão de apresentações musicais (zamba, cuyo, baguala, chamame, chacarera, malambo, cueca, gato, carnavalito) que dão uma bela amostra de todas as regiões do país.

Ainda que alguns mais puristas possam reclamar a falta de um loncomeo.

Muitas das apresentações têm a participação de uma companhia de ballet moderno que estiliza as danças com uma cara inconfundível do Saura das danças flamencas. 

Não espere um galpón criollo. Você não vai ver as prendas de tranças, nem gauchos de botinas (ainda que a dança com as boleadeiras seja, plasticamente, um dos pontos altos do filme.

Some-se a tudo isso a fortíssima paleta de cores de Saura e a experiência sensorial está completa.

Aos amigos brasileiros que sejam realmente fascinados por música, eu recomendo muito. Aos que conhecem nada ou muito pouco da música argentina, eu recomendo mais.

Com a ressalva de que não vai ouvir nenhum tango, nem nenhuma milonga. Tão pouco vai assistir bailarinos acrobáticos dos shows de turistas.