quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Estamos em férias


O ano de 2008 foi cheio de idéias que se espalharam em todos os meus blogs. Durante 366 dias foram 447 publicações sendo

310 textos aqui no Mens Insana

61 textos no Calvinistas, graças a Deus

39 textos no Inclusão: ampla, geral e irrestrita (além de mais uma coleção de textos escritos por convidados)

37 textos no Espicaçando o Marketing ( além dos textos do Volney e de outros escritos por convidados)

Acredito que você possa aproveitar as minhas férias para colocar suas leituras em dia....risos

Um abraço aos meus leitores e comentaristas. Volto no final de janeiro.

Fábio Adiron

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Nosso cartão de Natal

O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a luz. Isaías 9:2

Muita gente confunde reverência com mau humor. Ao invés de demonstrar sua alegria pela vinda do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores acabam por transmitir a idéia de que nós, crentes, somos apenas um monte de gente chata e triste.

Graças a Deus, ainda podemos comemorar o Natal de um forma alegre e bem humorada, porque Cristo veio para ser a nossa paz.

Por isso proclamamos a alegria para o mundo, certos de que aquele que tem o governo sobre os seus ombros. E Ele reinará para sempre.

Que essa alegria possa encher o seu coração.

Não deixe de ver (ou ouvir) até o fim.

Feliz Natal

Um lance de dados


Un coup de dés jamais n'abolira le hasard. Stephanne Mallarmé



Mesmo que eu quisesse eu não poderia fazer nada. Apenas olhar atentamente dentro dos seus olhos, às vezes, desviar a atenção do fogo lento que me consumia. Poemas sobre a mesa. Vinho.

Você falando, sem medo, sobre inspiração. Eu revivendo, sem medo, a inspiração. O limite do medo é a coragem absoluta. A vida correndo sobre a margem dos limites.

Chuva de primavera. Gotas de oportunidade, escorriam o desejo sem planos, pintando em telas internas um quadro imprevisto.

Surrealista. Crescimento e despertar do desejo líquido. Límpido. Anseios subconscientes, surrealistas, mais fortes que medos reais. Corações se derramando.

Você falava me olhando. Certeza se derramando em gotas de primavera. O ambiente cobrando de nós uma decisão.

Um lance de dados. Sem chances, ganha-se ou perde-se.

Um lance de dados é apenas outro lance.

Por mais que se possa prever. Mesmo sendo as mesmas mãos. Sejam os mesmos dados
e a mesma superfície onde são jogados.

Jamais.

Um lance de dados , mesmo quando lançados em circunstâncias eternas. Jamais abolirá o acaso.

Por acaso o acaso se completou em nós. Em olhares. Em limites. Em gotas.

Liquidamente surrealista.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O ingênuo e o cafajeste

Não se sabe se por criação ou por timidez inata Marcelo era um moleque ingênuo. O que não o impedia de ser um romântico fora de época, mesmo na sua época. Como tantos outros, amava os Beatles mais que os Rolling Stones e decorava poemas do Vinicius e do Neruda. Puedo escribir los versos más tristes esta noche, às vezes se pegava falando sozinho no quarto.

Apaixonava-se amiúde. Inevitavelmente era rejeitado. Curtia as suas fossas que duravam o exato tempo de se apaixonar pela próxima. Nada muito diferente de outros adolescentes.

Não que deixasse de participar das atividades dos outros meninos. Jogava bola, pulava muros, participava arduamente das guerras de mamona. E mais de uma vez sua mãe o pegou na praça em frente à escola no meio de uma briga, no melhor estilo "te espero lá fora..." Mas era mais sensível que os demais e, diferentemente dos colegas, tinhas mais amigas que amigos.

No colegial mudou de escola. A distância o afastou de algumas amigas, mas trouxe outras. Assim como novas paixões. Mais que isso, pela primeira vez uma paixão duradoura. Valéria.

Ela também era nova na escola. Seus pais tinham vindo do Chile, ninguém sabe exatamente por que, mas imaginava-se que fugidos do pinochetismo. Era uma menina bonita e, assim como Marcelo, também muito tímida, na percepção dele. Tornaram-se amigos.

Ele escrevia sonetos de pé quebrado e acrósticos piegas para ela, que sorria sem graça quando os recebia. Os pais dela gostavam dele. Aliás foi com o seu pai que ele descobriu Violeta Parra e Gabriela Mistral.

A indecisão de Marcelo o impedia de tomar a iniciativa para efetivamente namorarem. Ele acreditava que Valéria era muito tímida e, por isso, não encontrava o caminho para se declarar de vez.

Um dia, ao chegar na escola, quase caiu de costas. Em sua direção, caminhando na calçada de mãos dadas, vinham Valéria e Silveira. Foi um choque.

O Silveira ? Por que o Silveira ? Justamente aquele cafajeste da turma do fundão ? Um cara grosso, falava palavrões um atrás do outro, fumava escondido no banheiro, bebia cerveja na padaria da esquina e roubava o carro do pai. Um sujeito que já tinha sido suspenso um par de vezes. Como assim o Silveira ?

Vai durar pouco, pensou. Daqui a pouco ela vai descobrir que ele é grosso demais para ela. Enganou-se mais uma vez. No ano seguinte continuavam juntos.

Quando chegou no último ano do colegial Marcelo se conformou. Caiu na real que nem toda menina queria romance e poesia. Foi uma experiência dolorosa, mas muito útil para o seu futuro.

Trinta anos depois encontraram-se numa festa de ex-alunos. Ela continuava bonita e com o jeito falsamente ingênuo. E casada com o Silveira há mais de 20 anos, com quem tivera 3 filhos. O cafajeste tinha virado um senhor respeitável e sério.

Marcelo continuava um romântico incorrigível. Dias depois mandou para ela os poemas que escrevera na escola, não porque se tivesse ainda alguma esperança, mas por puro deleite pessoal.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Desaforismos insanoqüentes

As máscaras, por melhor que estejam fixadas, uma hora caem.

Que tem carpete não consegue esconder o lixo debaixo do tapete.

Muita semântica, pouco significado.

Bater na mesma tecla só serve para machucar os dedos.

Além de egoísmo, querer o melhor de dois mundos me soa meio esquizofrênico.

Uma nova praga assola as ciências e os negócios, atende pelo nome de maisdomesmismo.

Podem reclamar da linguagem chula do presidente. Mas todo mundo que vota e paga imposto sabe o que significa aquele expressão.

No brilho dos olhos se revela toda uma cosmogonia.

Talvez essa seja uma das últimas chances que terei de usar o trema.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A morte dos amantes

Tudo bem que o homem não era um exemplo de conduta. O que esperar de alguém que escreve sobre as flores do mal ?

O que não significa que não tenha escrito algumas das mais belas páginas da poesia francesa.

Essa já foi vítima de várias traições (traduções). A minha é apenas mais uma :

Deitaremos em lençois perfumados
No mausoléu profundo de um sofá
No mármore uma flor que já não há
Aberta sob céus embelezados

A fogueira arde quente inda por lá
Nas brasas de corações inflamados
Inúmeros beijos cristalizados
Espelho ardente a iluminará

Aquela tarde mística, envolvente
Acesa num relâmpago fremente
Depois um incontido e breve adeus.

Depois virá um anjo abrir a porta
Reavivando todos sonhos meus
Reacendendo a chama quase morta

Para quem prefere os originais, o texto é :

La Mort des Amants

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

— Charles Baudelaire

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sexta-feira 13


Tudo bem, eu sei que hoje é sábado e não sexta-feira, mas a data a que me refiro caiu numa sexta-feira e não poderia ser mais sombria que o mito das sextas-feiras 13 de terror.

Há 40 anos, na calada da noite, o presidente Costa e Silva assinou o Ato Institucional nº 5, que deu a ele poderes absolutos e suspendeu garantias constitucionais. O Congresso Nacional foi fechado por que se recusava permitir que o Deputado Márcio Moreira Alves fosse processado.

O marechal Costa e Silva, no rádio do carro que o conduzia do aeroporto ao Palácio Laranjeiras, ouviu, atônito, a notícia da votação na Câmara. No palácio, trancafiou-se em companhia dos generais Garrastazu Médici, chefe do Serviço Nacional de Informações; Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; e Lyra Tavares, ministro do Exército. Estava convocada para o dia seguinte importante reunião do Conselho de Segurança Nacional.

Ela marcaria o fim da “crise dos 100 dias” e o início do “ano zero da revolução”.

O que aconteceu dai em diante todos sabemos. Os que não sabem deveriam se informar, para entender o que significa estar debaixo de uma ditadura. Perseguições, mortes, desaparecimentos. Desrespeito aos direitos humanos, tortura, prisões arbitrárias e uma folia de cassações de direitos políticos de todas as pessoas que minimamente se opusessem ao regime.

Até mesmo a mídia conservadora de direita foi objeto de censura.

Somente 10 anos depois que o Ato 5 foi revogado, mas só depois que o governo cassou todas as pessoas que lhe convinham.

Triste é saber que ainda hoje temos pessoas saudosas desse tipo de governo.

Nesse sábado 13, não temos nada a comemorar. Exceto que vivemos em tempos bem melhores que aqueles.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Concorrência desleal


Enquanto eu me esfalfo cotidianamente para escrever, publicar e divulgar os meus textos, meus filhos me passaram a perna e já foram editados. Que geração....

Recebi ontem o meu exemplar do livro "Poetas do Batista" (no caso, o Colégio Batista Brasileiro onde eles estudam) editado pela e-Leva Cultural.

Pior que não é a primeira vez... Quando publiquei um poema dadaísta do Samuel ele bateu todos os recordes de leitura do blog...


O leão
Letícia Ribeiro - 2o ano

Lá na escola eu vi um leão no chão
Seu rosto tinha um bocão
Estava comendo macarrão e feijão com pão
Que era o lanche do João.


O lobo e o filhote de homem
Samuel Adiron Ribeiro - 4o ano

Era uma vez um lobo
Cuidando do seu filhote de homem

Enquanto Mogli viu a pantera
Ele viu o urso, o macaco e o elefante

Ele estava cantando tão forte
Que o chefe disse meia volta volver

Quando ficou muito escuro
Ele viu o tigre, o urubu e a cobra
O mato cresceu ao redor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Contículo sinestésico

"Os carinhos de Godofredo não tinham mais o gosto dos primeiros tempos." (Autran Dourado)



Raquel mirou-me com o seu olhar frio, desesperador.

Eu senti um áspero sabor de indiferença na sua voz que sempre fora repleta de colorido.

Uma melodia cinzenta tomou conta da sala. Acordes menores de cromatismos e perfumes.

Sua voz, que nos primeiros tempos, era macia, agora soava como um verde azedo. Apenas luz crua da manhã que invadia os meus ouvidos.

O olhar não era mais doce, nem tinha mais o sabor vermelho da fruta.

Senti saudades amargas de indefiníveis músicas, supremas harmonias de cores e odores. Do tempo em que o seu cheiro verde combinava com a sua beleza áspera. Tempo do delicioso aroma do amor.

O perfume agora tinha um cheiro doce, mas sua voz áspera era intimidadora.

Olores gritantes, nem de longe lembravam o brilho macio dos seus cetins, nem seu doce afago maternal.

Chegaram as horas do ocaso, trêmulas, extremas, como o réquiem do sol que a dor da luz resume.

Sinestesia: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tia Jovita

Não tem nada que me escape, costumava dizer tia Jovita todas as vezes que a família se reunia para o almoço de domingo. Solteirona, morava com a irmã que tinha uma coleção de filhos e netos, o que sempre proporcionava um bom público para as suas descobertas.

Sempre que começava atraía a audiência. Afinal, todos gostavam da percepção da velhinha a respeito de fatos prosaicos que ninguém notara antes. Era como se estivessem ouvindo uma Miss Marple engraçada. Identificava cortes de cabelo quase imperceptíveis, sabia quando as sobrinhas estavam na TPM ou quando o time de futebol dos sobrinhos tinha ganho ou perdido. Semanas antes do time de um deles ser rebaixado ela vaticinou : avisa o Fernando para não confiar nesse time senão ele vai ter um enfarte.

O que ninguém nunca esperara é que ela começasse a identificar questões mais sérias.

Um dia, no meio de macarronada, ela perguntou : "- Quando é que nasce o bebê da Verinha ?". Márcio, o pai da Verinha engasgou de uma forma que quase teve de ser socorrido por uma ambulância. Verinha saiu da mesa chorando e se trancou no banheiro. Os demais olhavam para a anciã estarrecidos. Ninguém sabia que a menina de 17 anos estava grávida.

A família ainda não tinha se recuperado do escândalo, nem o nenê nascido, quando tia Jovita se saiu com outra : "- Por que é que o Carlos perdeu o emprego?". Sobre o fato alguns da família sabiam, mas como é que ela tinha descoberto ? "Simples, meu filho - respondeu - repare que ele não tem mais aparecido cada domingo com uma roupa nova, nem está com aquele telefone cheio de balangandans..."

A preocupação passou a rondar os almoços. Especialmente os mais velhos. Os sobrinhos-netos, apesar do episódio da Verinha, não encanavam tanto com suas travessuras. Poucos conseguiam olhar diretamente nos olhos da tia. Alguns passaram a não ir almoçar todos os domingos.

O que não impediu a tia Jovita de continuar falando. Em pleno almoço de páscoa atacou novamente : "- Marina, esse negócio de bigamia não funciona. Cuida direito do seu marido." O marido era o Fernando e, se o time não tinha provocado o enfarte, a traição de Marina atingiu-lhe em cheio o miocárdio. Ele sobreviveu, o casamento não. Além disso levou Tia Jovita como testemunha na audiência da separação quando ela explicou para o juiz que mulher da idade de Marina, quando começa a se pintar demais e carregar aquele sorriso dissimulado no rosto é porque tem outro. Ganhou a causa.

A família agradeceu a tia por ter ajudado o Fernando. O que não queria dizer que tinham perdido o medo dela. Dessa vez tinha sido a favor, mas poderia ser contra. A irmã tentou convencê-la a ser mais discreta. Ela ficou ofendidíssima. Durante um mês não abriu a boca durante nenhum dos almoços. Os jovens começaram a provocá-la dizendo que ela tinha perdido o poder de detetive.

Até que um dia não se conteve. Olhou para Luiz Antonio, o marido de uma das sobrinhas, e disparou : "- Luiz, até quando você vai enriquecer recebendo suborno de fornecedores ?" Ele ficou roxo de raiva e respondeu em termos que esse blog se recusa a publicar. Saiu batendo a porta e cantando os pneus de sua Mercedes conversível.

Alguns meses depois, numa segunda-feira, Tia Jovita morreu. A empregada a encontrou dormindo e não conseguiu acordá-la. Já estava avançada em anos e o seu geriatra atestou uma parada cardíaca. O velório estava repleto. Até os ex-membros da família participaram. As feições misturavam consternação e alívio.

No momento em que se preparavam para fechar o caixão um senhor de terno que estava sentado no fundo da sala pediu a palavra. Ninguém o conhecia.

"- Em homenagem à dona Jovita e atendendo o pedido que ela me deixou por escrito, deixei para me manifestar só agora. Gostaria de informar que a sala está cercada e que eu vim aqui para prender o Sr Márcio, assassino da defunta."

Márcio até tentou fugir, mas foi barrado por dois guarda-roupas que estavam na porta. Uma balbúrdia se instalou no ambiente.

"Ha três meses, Dona Jovita me procurou na delegacia e pediu que eu tomasse um depoimento. Contou que notara que o Márcio queria se livrar da mulher e planejava algo. Só que ele percebeu que ela sabia, mas ela não falou nada pois estava brigada com todos. Ele achou que estava seguro, mas a fulminou com o olhar quando ela voltou a falar. Ela percebeu que estava condenada."

A irmã teve uma crise de choro, a mulher de Márcio gritou um viva para a Tia Jovita. O delegado concluiu:

-" Já temos o laudo em mãos. Foi estricnina. Aliás, o médico que assinou o atestado de óbito também está preso. Ele recebeu dinheiro do Sr. Márcio para alegar uma causa mortis inexistente."

Dentro do caixão, Tia Jovita parecia sorrir. Na lápide, a ironia dos sobrinhos-netos : Nada me escapa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Saudades do Caudas Aulete*

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Manuel Bandeira)

Sinhama se contorcia com sua hiperestesia. Entre um iridocinésia e um antorismo até mesmo o triságio a trateava.

A família temia por sua alodialidade.

Chamaram o polímata que chegou numa reda cheia de rizes.

Este logo questionou se a situação era semelincidente ou se chegava a teteté. Constatou que o mal não provocava eupnéias. Por epagoge supôs um inoma sinistrogírico.

Pegou o cibório ao lado da cama e lançou nele tufos de coerana e ásaro, além de uma pitada de melanocerita.

Inseriu a mistura por uma rímula, como quem executava uma epêntese. Mandou alimentá-la com cibos e apterigianos que trazia em sua fáretra.

Nada funcionou.

Mandou chamar os tamaracá para executar a zarzuela. Tudo que restava era o encomendamento.

*Francisco Júlio de Caldas Aulete (Lisboa, 1826 — Lisboa, 23 de Maio de 1878) foi um professor, lexicógrafo e político português, autor de diversos livros didáticos e iniciador do Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa cuja primeira edição apareceu em 1881.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Velhas bicicletas, outra traição

Tom Waits é um daqueles compositores/cantores considerados malditos, mas que todo mundo adora gravar.

Não é para menos. Suas músicas são sempre jóias a serem guardadas com cuidado. Broken Bycicles é uma delas.

Velhas bicicletas

Velhas bicicletas, correntes no chão
Guidão enferrujado, tudo ao relento
Alguém deveria ter um orfanato
Para tudo que ninguém mais quer

Setembro me lembra o calor
É hora de dizer adeus
Foi-se o verão, ficou a paixão
Velhas bicicletas esquecidas na chuva

Velhas bicicletas, não fale não
Papeleta de barulho, aros ao vento
No jardim, são apenas esqueletos
Uma roda não anda sem o seu par

Estações mudam num pensamento
Eu sempre me esqueço, alienação,
O que você me deu ficará, sentimento
Quebrado, mas sempre no coração.

O original é

Broken bycicles - Tom Waits

Broken bicycles, old busted chains

With rusted handle bars, out in the rain
Somebody must have an orphanage for
All these things that nobody wants any more

September's reminding July
It's time to be saying goodbye
Summer is gone, but our love will remain
Like old broken bicycles out in the rain

Broken bicycles, don't tell my folks
There´s all those playing cards pinned to the spokes
Laid down like skeletons out on the lawn
The wheels won't turn when the other has gone

The seasons can turn on a dime
Somehow I forget every time
For all the things that you've given me will always stay
Broken, but I'll never throw them away




domingo, 7 de dezembro de 2008

Pequeno poema em prosa


Entre luas, luvas e carpetes ela me olhava como se tudo tivesse sentido sem ter razão

Tinha os óculos largos, as lentes grossas e rosto de menina. Tudo olhava, como se captasse alucinações.

As pernas eram finas, pálidos gambitos. Corpo de mulher, que me provocava e convocava, quase sem querer. Mesmo não querendo.

Um dia chegou cedo. Saiu tarde. Dominou o tempo como quem aspira dálias perfumadas.

Me levou. Me deixou. Como um passatempo.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Por que blogam?



Eu pensei, pelo menos, em três textos diferentes que justificassem usar essa imagem.

Não gostei de nenhum deles. Nem a versão séria, nem a bem-humorada e, muito menos a insana, chegaram aos pés do humor do cartoon.

De qualquer forma, a piada me trouxe à mente muitos dos blogs que eu leio (no conceito, no conceito...você e essa sua mente suja) e a convicção de que é exatamente esse tipo de blogueiro que eu não quero ser quando crescer.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Desanalogias

À noite todos os gatos são pardos

À tarde todos os patos são sapos (ou será o inverso ?)

À sopa todos os caldos são pratos

À popa todas as ondas são altas

À tona todos os corpos são rotos

À cama todos os sonhos são natos

À caserna todos aspiram generalato

Se não é ximango, é maragato

Naturalista prefere o mulato

No blog todo texto é abstrato

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O ralo


O ralo é um buraco escuro ,feio e fedido que fica no fundo da pia. Geralmente é usado como referência pejorativa : "algo foi pelo ralo", "fulano entrou pelo cano (depois do ralo)" e, mesmo nas artes, o cheiro de ralo não era exatamente elogioso (por melhor que fosse o filme).

O que poucos sabem é a origem histórica dos ralos, os melhores amigos das torneiras e das pias, cuja função é escorrer a água para dentro das fossas e dos esgotos.

As primeiras referências sobre o ralo datam dos tempos das termas romanas. A idéia de algum tipo de coletor de água suja surgiu entre os escravos que tinham de carregar a água usada nos banhos em baldes de água até os esgotodutos romanos. Além de cansativa, essa prática provocava a deterioração gradativa das narinas.

O mecanismo ainda não tinha sido criado quando a queda do império romano do ocidente interrompeu bruscamente os desenvolvimento tecnológico. Nessa época, Ovídio já questionava : "ralidae tradis ovile lupae?", se bem que alguns do seus detratores achavam que sendo ovídio apenas se preocupava em causa própria.

Considerada como uma idéia herética na Idade Média (o procedimento de recolhimento de esgotos servia como uma forma de indulgência), a pesquisa formal só foi retomada durante iluminismo.

Os primeiros ralos eram feitos de cerâmica e continham furos imensos, que colocavam em risco quem deles se aproximasse demais. Data desse período a expressão "jogar fora o bebê com a água do banho", uma vez que, dependendo do tamnho do bebê ele poderia realmente sair pelo ralo.

Mas o maior problema nem eram os furos. Mas as inundações caseiras, uma vez que o ralo foi inventado alguns anos antes do encanamento de esgoto, ou seja, a água lançada no ralo regurgitava de volta ao ambiente de onde fora lançada.

Até quando Joanin de Ampesser, um engenheiro da baixa Saxônia se lembrou da teoria dos vasos comunicantes e dos líquidos imiscíveis, criando a primeira tubulação de escoamento de esgotos em 1526.

A partir daí, o ralo alcançou um desenvolvimento tecnológico avançadíssimo. Da cerâmica foram ao ferro, desse ao aço, às ligas nobres e já se discute a possibilidade de produzirem-se ralos de silicone que possam além de escoar água e detritos, também eliminem bits e bytes.

Todos os ralos,a partir daí, sirvam eles a banheiros, cozinha, área de serviço, ou mesmo a terraços, passaram a ter um sistema de proteção que evita que detritos maiores caiam em seu interior, entupindo-os com material mais grosso. Esta proteção é feita por grelhas de metal ou plástico e por um sistema de sifão, instalado em seu interior.

O que não significa que ralos não continuem entupindo continuamente, o que nos leva, muitas vezes, de volta ao questionamento dos escravos romanos : "De duobus malis, minus est deligendum ?"

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ditados impopulares


A cordilheira engendrou um murídeo

A indolência é genitora de todos os pústulas

A lábia é argêntea, mas a quietude é aurífera

Discurso insano tímpano inano

Traje dessasseado purga-se domiciliarmente

Melhor ermo que entre maus acólitos

Permanece a saburra revezam-se os dípteros

Caninas açodadas geram sabujos oblíquos

Infortúnio na peleja, ventura no afeto

Líquidos pretéritos não fomentam moagens

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A parafernálica antologia de Novembro

Essa é a minha escolha pessoal dos melhores comentários do mês passado. Se você é novo por aqui, a intenção é ler as frases fora dos seus contextos e, a partir delas, imaginar suas próprias histórias:


Tive uma portátil, laranja...

Pô, cadê o glossário obrigatório para esse caliconto???

Vou procurar meu caliléxico para tentar desvendar esses calimistérios!!

..prescrevo: banho de lua diário e café extra forte.

Que desperdício de munição.

E os tubarões vem até mesmo antes dos arrecifes.

Na média: vinagre balsâmico.

Beijos sem ratos...

Pelo jeito família de enforcado o merece.

Será que vendem em quantidade?Dão nota fiscal?

terei que ser socorrida por um dieta enteral....

perdi dois quilos em uma semana comendo amêndoas...

O telefone que fugiu, já voltou?

temos um prefeito que acabou de ser eleito e já está cassado

Acho que moro na anti-Itu

Só uma correção pra mór de perfeiçoá o qui já tava bunitu

A hermenêutica da seta

Como é de conhecimento do vulgo, a hermenêutica é a ciência filosófica voltada para o meio de interpretação de um objeto.

Depois de quase 30 anos de habilitação como motorista, resolvi publicar meus profundos estudos interpretativos filosóficos sobre a seta (em alguns locais chamada de pisca-pisca), aquele aparato dos carros que, segundo se supõe, deveria servir para sinalizar as mudanças de direção.

Quando eu aprendi a dirigir, a seta já era de uso comum, ainda assim os instrutores insistiam em nos ensinar a sinalização com o braço que, inclusive, era requerida no exame. Não seria capaz de traçar um paralelo entre a seta e o braço, uma vez que esse caiu em total desuso, especialmente por motivos de segurança - ninguém mais anda com o vidro aberto (é verdade que eu gostaria de saber como é que a sinalização de braço funcionava em dias de chuva).

Mas deixemos de lero-lero, aqui vão as conclusões

Seta nihilista : os adeptos dessa corrente se recusam a utilizar a mesma. Partem do direito inalienável da privacidade e acreditam que o carro de trás não tem nada que saber para onde ele está indo. É uma das correntes com mais praticantes nas ruas.

Seta estruturalista : esses motoristas crêem que cada um dos elementos só pode ser definido pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com os demais elementos, dessa forma só acionam a seta quando percebem alguma tendência natural do tráfego, seja para seguí-la, seja para negá-la.

Seta pragmática : é caracterizada pela descrença no fatalismo e pela certeza de que só a ação humana, movida pela inteligência e pela energia, pode alterar os limites da condição humana. Seus usuários, movidos pela sua convicção de que , em algum momento irão entrar a direita, mantém a seta permanente ligada, como uma demonstração de que são eles e não as placas que definirão os seus destinos.

Seta existencialista : essa corrente seto-filosófica e literária destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. Por isso costumam sinalizar para o lado contrário que pretendem virar como uma forma de enfatizar essa subjetividade.

Seta marxista : já foi mais popular, mas tem perdido adeptos para os pós-modernos neo liberais. O sinesíforo materialista histórico interpreta a vida conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo. Seu uso da seta manifesta-se em função dos contexto do trânsito preferindo seguir as massas nos ônibus que seguir a rota escolhida pelas vans importadas, mesmo que isso signifique uma multa por trafegar na faixa exclusiva. Só usa setas que sejam vermelhas.

Seta utilitarista: o utilitarismo nada mais é que uma forma de conseqüencialismo, ou seja, ele avalia uma ação unicamente em função de suas conseqüências. Os adeptos da seta utilitarista só costumam ligar a seta depois que já começaram a fazer a curva.

Seta fenomenológica : de acordo com os motoristas que seguem Husserl, as coisas caracterizam-se pela sua não finalização devida, pela possibilidade de sempre serem visadas por noesis novas que as enriquecem e as modificam. Para demonstrar sua tese costumam ligar a seta muito antes do local onde pretendem virar e a desligam assim que se aproximam da conversão. Algumas noesis ocorrem quando são abalroados pela traseira.

Seta pós moderna : o uso da seta por esse grupo de motoristas resulta da dificuldade de se examinarem processos em curso com suficiente distanciamento e, principalmente, de se perceber com clareza os limites ou os sinais de ruptura nesses processos, dessa forma, eles nunca sabem exatamente para que lado vão entrar e, na dúvida, ligam o pisca alerta.

domingo, 30 de novembro de 2008

Baladas no fogão

Claro, você já percebeu pelo horário das publicações que eu sou coruja mesmo. Funciono melhor de madrugada do que de manhã.

Meu sono segue rigorosamente a lei da inércia. Quando estou acordado, tendo a continuar acordado. Em compensação, depois que durmo... costumo dizer que eu me levanto às 7, mas só vou acordar depois das 9. No intervalo sou, literalmente um zumbi.

Ultimamente dei para cozinhar de madrugada. Acabo a minha lide virtual e vou para o fogão ou, pelo menos, para a pia temperar algo para o dia seguinte.

A família não costuma reclamar, desde que eu não invente de usar o liquidificador. Se bem que outro dia minha mulher levantou dizendo que tinha sonhado com molho de tomate e qual não foi sua surpresa ao encontrá-lo pronto em cima do fogão.

Amanhã vai ser dia de fraldinha. E não é dos meus filhos que já passaram dessa fase e agora ao invés de usá-las devoram-nas

A carne foi temperada com flor de sal e pimenta do reino. Num recipiente à parte misturei salsa, cebolinha, louro em pó e alho em flocos e azeite. Reguei a carne com essa mistura. Cobri a carne que passará a noite nesse caldo.

Amanhã é só aquecer o forno à temperatura alta. Colocar a carne numa assadeira, com a gordura voltada para baixo e levar ao forno por 20 minutos, ou até dourar. Retiro do forno e deixo descansar por 5 minutos. Levo ao fogo uma frigideira com dentes de alho e o azeite de oliva. Frito, mexendo de vez em quando, até dourar.

A fraldinha fatiada vai para os pratos onde será regada com o alho frito no azeite de oliva. Ainda não resolvi se vou de batatas fritas ou farofa com banana.

O vinho será um Morgon, um vinho da região do Beaujolais feito com uvas gamay. Uma das variedades mais encorpadas da região junto com o Chénas, o Julienas e Moulin-à-vent.

sábado, 29 de novembro de 2008

Hai Kais em Camelot

Arthur

Espada na cinta
Amor lançado no chão
Inverno real

Guinevere

Seus cachos dourados
contrastando o mar de jaspe
Brilham no meu céu

Lancelot

Nunca fui herói
Exceto aos olhos da amada
que me é rainha

Galahad

Só os puros podem
lhe alcançar o coração
missão natural

Excalibur

Poderes brutais
Levaram-me ao seu dossel
Plena primavera

*Haikai (Haïku ou Haicai) é um forma poética de origem japonesa, surgida por volta do século XVI, que valoriza a concisão. O haikai é a arte de dizer o máximo com o mínimo. Cada haikai capta um momento de experiência, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida. O grande mestre haikaista foi Matsuô Bashô (1644-1694). É um poema de três versos, escrito em linguagem simples, sem rima, com dezessete sílabas poéticas (sendo cinco no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro), e com uma referência à natureza expressa por uma palavra (o chamado kigô), que deve representar também a estação do ano.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Síncope amorosa



Síncope

procuramos
procuramos
procuramos

encontramos infinitos becos
apagamos infinitos beijos
voamos infinitos brejos

precisamos
precisamos
precisamos

desvendamos inocentes votos
desdenhamos inclementes vates
desenhamos insolentes vácuos

choramos
gritamos
dançamos

o tema
o lema
cinema

a prova
aprova
deplora
deflora o sonho

parecemos
parecemos
parecemos

brilhantes cores
instantes dores
amores

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Nossa (??) língua portuguesa? O retorno

João era ladino desde bacuri. Nunca dava trela para panca marrudo nem fazia picuinha por meia-pataca. Mesmo sendo um caboco do cafundó não costumava se estorvá.

Na roça era um pé-de-boi, nem fastiava nem se metia em fuá. Punha a fuça na enxada, que não dava para ganhar os tufos.

Um dia, avuado, deu um tropicão e se arranjou um unheiro de trincá, quase ficou zambeta. Mas ficar em casa como pata-choca não ornava com ele.

Antes que batesse a gastura e acabasse numa sororóca, mandou chamar o boticário da vila, uma mistura de charlatão com curandeiro.

O janota chegou desgueio, carregando um emborná e um jacá cheio dos trem.

João, acabrunhado, contou que tinha feito uma bestagem pros lado da grota, que parecia um quebranto no cambito.

O facultativo do arraiá achou que era xurumela, e começou a relá, entre um trelê e outro, até que mexeu no táio e João soltou os cachorros :

"- Quá ! ocê num tá vendo que eu tô escangaiado ? Já vai fincando...módequê ?

O farmacêutico se acoitô e quase deu o pira, mas era intojado e não queria deixar serviço pela metade. Deu uma gaitada, enquanto campiava o táio, pichou fora a casca e tacô iodo na xixilenta que deixou João sem fôrgo.

" - Num tô aqui para adular tôco nem para fazer agrado. Vou arrumá a nódia, depois inté pico a mula, mas só saio sem questã."

João sentiu a quentura enriba da perna e, mesmo enfezado e birrento, viu que não adiantava pelejá. O cara era papudo, mas era mais forte que quebra peito, não dava para gorá. Enxoxou.

O boticário acabou o serviço. Tomou uma caneca de café prá boca de pito e foi embora.

Dois dias depois João já estava trabalhando de novo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Conticulóides minimalistas

Lembrança tênue

Quando Fernando chegou em casa naquela noite só encontrou um fio de cabelo no chão do banheiro impecavelmente limpo. Armários, gavetas e penteadeira, tudo estava vazio. Descobriu que, dessa vez, Carolina tinha falado sério.

Brilho

Henrique nunca deu muita bola para cor de olhos. Oftalmologista, sabia que era apenas uma questão de pigmentação. Até o dia que, enquanto examinava uma das suas pacientes começou sentir tonturas. Dois meses depois estava casado com Íris.

Queratina

Carla entrou no salão de beleza avisando que precisava de um serviço impecável. Naquela noite seria apresentada à família de Rafael e não podia errar em nenhum detalhe. A manicure, depois de quase duas horas de trabalho recomendou : use sapato fechado, você é a primeira pessoa que eu conheço que rói as unhas do pé.

Melanina

Antonia gostava de usar roupas que deixassem os seus ombros nus. A pinta redonda e perfeita no ombro esquerdo era o seu orgulho, além do que a usava como instrumento de sedução. Um dia, no cinema, notou que o homem na fileira de trás não tirava os olhos do seu sinal particular. Sorriu para ele. Ele retribuiu o sorriso e lhe entregou um cartão dizendo que era melhor ir até o seu consultório tirar aquilo. Era câncer de pele.

Politelia

Marcinha entrou na adolescência como se entrasse num convento. Enquanto todas as colegas usavam e abusavam de decotes, ele se vestia do calcanhar ao pescoço. Ninguém entendia, afinal, seus pais eram bem liberais e ela tinha o corpo bem feito. As meninas começaram a ficar e Marcinha não ia para nenhuma balada, nenhum garoto podia tocá-la. Apaixonou-se por André durante uma aula de biologia, quando ele teve coragem de dizer que tinha 3 mamilos. Ela também.

sábado, 22 de novembro de 2008

Ao infinito, e além

Dizem os italianos que "traduttori traditori" - Tradução é traição. Traduzir decassílabos da língua que me acusa de traição é muita petulância : vindo de um insano, tudo é possível.

Considerando que o poeta era, ele mesmo, um exímio tradutor/traidor, tenho certeza que não virá me puxar os pés à noite.


O infinito



Sempre querido foi o ermo monte
Este arbusto, que de todas as partes
Do último horizonte, levo aos olhos
Sentado, olhando, infindável espaço
além dela, sobrehumano silêncio
Em calma e paz profunda quietude
Finjo que penso, por muito pouco*
Não me para o coração. Com o vento
Ouvindo o murmurar triste das folhas
De infinito silêncio vem a voz
Tudo comparo, vejo a eternidade
Mortas estações. Viva, esta presente,
com os seus ruídos. Face à imensidão
meu pensamento suavemente afunda
É doce naufragar neste oceano.

Versão original

L'infinito
Giacomo Leopardi

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Onomatopaixão

Há algum tempo publiquei um poema dadaísta do Samuel. Seguindo os passos do meu filho, ofereço agora a minha versão pessoal, diferentemente dele, não inclui as legendas que eu deixo por conta da imaginação de cada leitor:

Flic, flic, flic...pá !
Flic, flic ?
Flic !
Zóóóim. Pum !
Bzzz, bzzz, flic, bzzz
Uóck, smóck, uuuóóóck
sss...hum, uock, humm
ã ã, á , ú, humm, á, á, á
Uauauauau. Aúúú
uó..ck, uó...ck, uó...
zzzzzz

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Nós somos os maiores

Toda cidade precisa ter algo onde é a maior, para contar isso para os turistas. A referência é sempre quantitativa, nunca qualitativa.

Não tem a menor graça dizer que uma atração é a maior da cidade. Maior do estado também não chega a emocionar os guias. No mínimo precisa ser a maior do Brasil. se for da América Latina é um plus a mais adicional. Quando é a maior do mundo é a glória.

Em Recife fui apresentado à maior avenida em linha reta da América Latina (sic). Fiquei pensando qual deve ser a maior em linha curva...será a Av Sapopemba ?

Imagino que o turista clássico deva adorar esse discurso ainda dizer : ohhhhh. Daí resolvi criar o meu roteiro paulistano:

Começaria mostrando o maior canal de esgoto a céu aberto da América, formado pelo eixo Tietê-Pinheiros.

Claro que para chegar nele, seria obrigado a passar pela maior concentração de congestionamento da América Latina, pelo menos 100km de vias congestionadas nos dias de trânsito light.

O clima mais imprevisível do hemisfério sul é facilmente notado. Também temos a maior xepa do mundo ocidental em dias de sacolão no Ceasa.

A maior estátua multiétnica é aquela do empurra-empurra no Ibirapuera. Em frente temos a assembléia legislativa com índices de fisiologismo incomparáveis.

Em compensação perdemos o título de maior poluição visual depois da lei da cidade limpa.

E a sua cidade ? É a maior em que ?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Contículo Prosopopéico

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador.
Drummond


Quando a lua me disse que se recusaria a brilhar naquela noite imaginei que ficaria naquele frio inteligente até o galo cantar.

Olhei para o peixinho que, silencioso e levemente melancólico lembrava dos seus rios carregando as queixas do caminho.

Ele me olhou com desdém quando o sofá me acolheu e peguei uma antiga versão do Morro dos Ventos Uivantes.

Na cabeça a canção, a lua, tal qual a dona de um bordel, pedindo brilhos de aluguel às estrelas desnudadas.

No telhado do vizinho, os morcegos faziam a ronda habitual e os grilos, como numa mesa redonda, discutiam os destinos do mundo.

O longo braço das nuvens retinham os ventos. E nada de lua.

A essa altura da noite apenas os murmúrios do relógio da sala me mantinham acordado. Foi quando o telefone me chamou.

Quem poderia ser aquela hora ? Algo importante ou um engano prosaico ?

Era ela.

O maestro dos grilos levantou a batuta para uma pausa. Os morcegos me encararam emudecidos. Até o relógio pensou melhor antes de executar a baladada da meia-hora

Como o vento entoando sua ária solitária num canyon a lua assoprou no meu ouvido sua mensagem.

Sinta o meu canto na boca do vento. Minhas ilusões gemem entre os rubores da aurora. Mesmo na escuridão o céu está mostrando sua face mais bela.

O peixe arregalou os olhos mostrando grande sisudez, sua água não parava de chorar.

Ela continuou : Quando o meu corpo esmaecer e eu for nova, continuará o jardim, o céu e o mar. E como hoje igualmente hão-de bailar as quatro estações à sua porta.

O aparelho de telefone fugiu das minhas mãos. Drummond estava certo ou então eu andava lendo Esopo demais

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saindo pelo cano

Mais de uma vez eu fiz dieta. Todas elas com acompanhamento médico e sempre evitei as bombas químicas que aceleram o processo. Conheço bem o meu metabolismo e o método mais eficiente sempre o foi a dieta do zíper atlético, ou seja, a combinação de boca fechada com atividade física.

Conheço pessoas que já fizeram todas as dietas da moda. Passaram dias tomando sopa ou shakes. Em outros momentos tinham cardápios de acordo com a fase da lua (a Cecília Meirelles tinha fases amorosas, essas dieta induz a fases nutricionais). Tentaram aquela de só ingerir proteínas. Depois a outra onde se come tudo, menos proteínas. A do médico americano, a do endocrinologista russo, e até a da nutricionista de Galápagos (também conhecida como dieta Rapa Nui).

Nenhuma delas funcionou como a minha nova descoberta dessa semana. Em 6 dias perdi quase 2 kg, sem fazer nenhuma escolha direcionada de alimentação. Foi a dieta do canal.

Eu poderia ficar rico com a fórmula, mas como um sujeito generoso, deixo abaixo a orientação gratuitamente para quem quiser usufruir da mesma :

a) Numa sexta-feira qualquer (é importante que seja nesse dia) sinta uma vaga dor de dente, sem importância, em algum dos últimos molares.

b) Acorde no sábado com a dor um pouco mais forte, começando a refletir em direção ao centro da arcada dentária. Ainda nada tão forte que pareça uma emergência.

c) No domingo de manhã saia para passear com as crianças e comece a sentir terríveis dores de dente. Chegou a hora de procurar um dentista, em pleno domingo de sol. Se der azar vai sofrer até a segunda de manhã. Se der mais azar vai achar o dentista que vai tratar o molar como se fosse apenas uma infiltração numa restauração antiga. Primeira dose de anestésico.

d) Durante o resto do domingo e toda a madrugada da segunda-feira sinta dor em todos os dentes da arcada afetada. Volte no dentista logo na segunda cedo. Depois de uma coleção de raios-X (primeira exposição à radiação) ele não vai achar nada no molar. Vai tirar outra chapa do dente onde a dor reflete (segunda exposição à radiação) e descobrir um problema no canino. Abre o dente (segunda dose de anestésico) e descobre que é canal. Põe um curativo e manda voltar de tarde para ser tratado pelo encanador (como é que se chama quem trata de canal?)

e) Volte à tarde. O canista vai abrir o dente (terceira dose de anestésico) e tratar do canal. A essa altura a boca já está toda dolorida de tanto mexeram e você já começa ter uns baratos de anestesia. Não dá nem para tomar café, o que, para mim, é a suprema heresia.

f) Quando passa o efeito da anestesia a dor recomeça. Pior do que era antes naquele molar e, como já é de noite, não terá a quem recorrer, exceto aos analgésicos caseiros que não fazem a menor diferença.

g) Terça de manhã você deve estar sentado de novo na cadeira do dentista que tratou o molar. Ele acha que o serviço do domingo foi superficial e resolve tratar com mais profundidade. Quarta dose de anestésico e prescrição de um antiinflamatório daqueles que a gente precisa fazer um boletim de ocorrência na farmácia. Efeito zero. Passe mais uma noite sem dormir.

h) Na quarta feira avise o dentista do canal que ou ele abre o outro dente ou arranca de vez. Ele abre. Trata o canal do molar depois da quinta dose de anestésico em 4 dias. Claro que, a essa altura, a boca é um campo de batalha e tudo dói um pouco. Exceto à noite, quando dói muito.

i) Claro que o dentista vai te atender logo no dia seguinte, ele mesmo já está se sentindo frustrado. Ele olha, admite que não há nada o que fazer a mais no dente e, de repente exclama : "- Ah...uma fístula..." . Assim como eu, olhe para a cara dele e pergunte o que é uma fístula e descubra que é um ponto branco parecendo uma afta, na verdade um ponto de infecção. Claro que depois dessa aventura toda não dá para saber se existia uma infecção que provocou os problemas de canal ou se o problema do canal provocou uma infecção. Antibiótico e analgésico.

j) Aos poucos a dor foi diminuindo, mas não o medo de comer ou beber qualquer coisa. Resultado final, entre domingo e 5a feira, dois kilos a menos na balança do banheiro.

Posso garantir que funciona. Se você vier com aquele papo furado de que não quer sofrer, só posso citar o ditado americano : No pain, no gain.

domingo, 16 de novembro de 2008

Trucidando analogias

Tema :

Os fins não justificam os meios

Variações:

Pitanguis reformam os seios

Cavalo bravo não aceita arreios

Passarins com seus gorjeios

Amor, mais que meros galanteios

Nem tão bonitos nem tão feios

Air bags não dispensam os freios

Não tem e-mail use os correios

Pessimista não tem anseios

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O assassino do biotério


Para Lucila e seus roedores de estimação

Maria e João, professores da universidade, eram os responsáveis pelo biotério. Lá eram os encarregados de reproduzir e manter animais de laboratório destinados às pesquisas da instituição.

Apesar do asco de alguns colegas, especialmente aqueles que se dedicavam somente às plantas e levantavam argumentos éticos contra a pesquisa com animais.

João e Maria nutriam uma paixão pessoal pelos seus Rattus norvegicus.O nascimento de cada ninhada era uma festa. Mas nos últimos dias, o clima do laboratório era de luto e pavor.

Depois de várias manipulações eles já contavam com uma criação de mais de duas centenas de bichinhos e começaram a fase de desmame. Os primos do Mickey eram extremamente ativos e alegres. É verdade que, de vez em quando, alguém acabava deixando um ou outro escapar, e o local virava um verdadeiro caos de caça ao rato. Isso sem contar as eventuais mordidas, nada sério, tirando a dor momentânea, os roedores eram muito bem tratados e não transmitiam nenhuma doença.

Uma manhã, quando chegou ao biotério, João notou uma excitação anormal entre seus animais de estimação. Em várias gaiolas os bichos pulavam loucamente. Foi ver o que era. Encontrou sete deles mortos. Separou os corpos, o que acalmou um pouco as gaiolas, mas não acalmou João.
Não havia nenhum sinal de violência, nem de doença aparente. Maria chegou um pouco depois e começou a aventar hipóteses. Teria sido a temperatura ? Tinha sido uma noite mais fria. Providenciaram um aquecedor.

No dia seguinte, outros cinco estavam mortos. Também sem nenhum sinal. Maria começou a pegar os filhotes vivos para examinar. Reparou que pouco tinham da sua habitual vivacidade. Alguns salivavam e tinham os olhos lacrimejantes. As perspectivas eram ruins.

Naquela noite resolveram deixar o computador ligado com a webcam conectada. Não podiam pedir câmeras para a reitoria, improvisaram. Cada um na sua casa gravou os sinais da câmera. Nenhum movimento durante a noite toda, exceto os espasmos dos ratos. No dia seguinte tinham perdido mais uma dúzia de filhotes. Para agravar a situação as fêmeas pararam de reproduzir.

Chamaram um amigo veterinário para fazer uma necrópsia. Os ratos estavam sendo envenenados com algum anticolinesterásico que ele não conseguiu identificar.

Imaginaram que a ração pudesse estar contaminada, afinal os bichinhos só começavam a dar sinais de doença depois de desmamados. Pediram um exame num laboratório oficial. A ração tinha alguns problemas de qualidade, mas não tinha veneno. A água vinha direto de um filtro, mesmo assim também examinaram. Nada.

No final da semana, mais da metade dos animais tinha morrido. Foram obrigados a sacrificar os demais. Teriam de começar tudo do zero.

O que deixava os dois mais inconformados era o fato de que se não era um envenenamento acidental, que é que poderia estar fazendo isso ? Pensaram em algum aluno. Mas os que ajudavam no laboratório eram de confiança dos professores. Algum funcionário ? Talvez o seu Almeida que uma vez fora mordido por um dos fujões. Mas uma mordida não seria o suficiente para gerar tanto ódio.

Resolveram só pensar no assunto depois do fim-de-semana. Mesmo porque no domingo teriam o churrasco dos professores na casa de campo de Adelaide, uma das colegas da botânica que se opunha as pesquisas com animais, não queriam dar a ela o gosto de saborear esse desastre.

Durante a festa tentaram disfarçar o desânimo. Apesar do assunto ser de conhecimento de toda a faculdade ninguém tocou no assunto. Nem os opositores.

Depois do café Adelaide convidou os colegas para conhecerem as suas estufas. Passaram de uma em uma ouvindo a respeito de rubiáceas, a especialidade da colega. Uma das estufas era o orgulho de Adelaide, era a sua plantação de espécies de Guettardas, flores belíssimas de várias cores. Nesse momento João coçou a cabeça e, sem querer, balbuciou algumas palavras que Maria não entendeu. Ele disse que não era nada.

Quando chegou em casa João foi procurar seus livros dos tempos da graduação. Desde que se formara, nunca mais se interessou por botânica, seu negócios eram os bichos. Os livros estavam encaixotados. Cada um que ele pegava olhava o índice para ver se achava o que queria. Arrancou uma página que lhe interessava e sorriu. Chegara o momento da vingança.

No dia seguinte chegou cedo à faculdade e foi direto para a sala do diretor. Pediu que chamasse uma reunião com todos os professores, ele tinha informações importantes sobre um crime que afetava a todos. As aulas foram suspensas e todos chamados ao auditório. Maria perguntou o que é que ele tinha descoberto. Ele pediu que ela aguardasse. No auditório todos olhavam com um misto de medo e curiosidade. João falou :

"- Como todos os colegas sabem, perdemos todos os ratos do biotério que foram dizimados por algum veneno de origem desconhecida. Apesar de termos conduzido todas as investigações sobre as fontes alimentares nenhum traço de veneno foi encontrado. Concluímos que o envenenamento não foi acidental, mas não conseguímos descobrir nenhuma prova."

Os professores se olharam com um ar de menosprezo, como se dissessem, se não achou provas, para que nos trouxe aqui ?

"- Até ontem ! - continuou João - ontem, durante o nosso churrasco de final de ano eu descobri como é que os ratos foram envenenados. E o assassino está nesta sala !"

A agitação foi geral. Alguns gritavam com João dizendo que aquilo era um absurdo, todos falavam com todos. O diretor teve de gritar pedindo silêncio. João continuou.

" - Como os senhores e as senhoras sabem, os ratos foram vítimas de um anticolinesterásico. O que não sabem é que essa toxina foi produzida aqui na faculdade. Mais especificamente no laboratório de botânica ! "

Um silêncio profundo tomou o auditório. Só foi cortado pelo grito de Adelaide :

" - Desgraçado ! Você não tem respeito pelo sofrimento que todos os seres são capazes de ter ! Viva a libertação animal !" e tentou sair do auditório, mas foi barrada pelos seguranças.

" - Colegas - continuou João - a Profa. Adelaide é a responsável pela chacina do biotério. Ontem quando vi sua coleção de Guettardas me lembrei que tinha ouvido algo a respeito das mesmas nas aulas de botânica da graduação onde, por sinal, fui aluno da professora. Encontrei meu velho livro de farmacobotânica onde achei que algumas espécies medicinais de rubiáceas frequentemente causam intoxicações pois grande parte dessa família é tóxica. Uma delas tem um teor tão alto de anticolinesterásico que é chamada de erva-de-rato. Também descobri que esse foi o tema da tese de doutorado da assassina.."

"- Mas como é que ela fez isso ? " perguntou um dos professores

" - Muito simples, a serragem que usamos nas gaiolas vem do departamento de botânica, que mistura folhas secas na mesma. Só que a única folha usada era da erva-de-rato..."

No dia seguinte o diretor da faculdade soltou um comunicado de esclarecimento a todos e condenou a professora raticida a trabalhar 4 horas por semana no biotério. Sem luvas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Aforismos temáticos


Do complexo de superioridade

Nunca conte uma desgraça para um pernóstico, ele vai sempre ter uma desgraça maior para retribuir

Da oximorose do tráfego

A forma que a CET encontrou de "melhorar" a fluidez do trânsito é fazendo os carros pararem em mais semáforos (sic)

Da relação de poder

Levo uma grande vantagem em relação a Proust: eu sei o que ele escreveu e ele nunca vai saber o que eu falo a respeito dele.

Do desrespeito à cultura popular

Entrou na casa do enforcado gritando "corda". Levou 3 tiros no peito e um na cabeça.

Das cosmogonias diversas

Muitas pessoas preferem ter um mundo particular todo seu que compartilhar um mundo coletivo que é de todos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Traição lunar

Eu tenho o hábito de trair com freqüência, desde que comecei esse blog já foram quase 20 vezes.

Já traí com sofisticação e com simplicidade. Sempre usando a língua como ferramenta.

Hoje eu cometo uma traição popular, uma letra de música simples mas, ao mesmo tempo bem elaborada. Alguns talvez a achem piegas. Particularmente eu gosto muito

Leve-me prá lua

Leve-me prá lua
Num romance que não parte
Ver a primavera
Seja em Júpiter ou Marte
Quero dizer, dê-me a mão
Quero dizer, te beijar

Encha-me a canção
Neste canto sempiterno
Tudo que eu queria
Do teu jeito assim moderno
Quero dizer, eu proclamo
Quero dizer, eu te amo.

O original de Bart Howard é

Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On a-Jupiter and Mars
In other words, hold my hand
In other words, baby, kiss me

Fill my heart with song
And let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you



segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Comendo em Recife e Olinda

Meus roteiros de viagem sempre passam por restaurantes, não é a toa que eu peso o quanto peso (se valesse quanto peso estaria rico).

A mais recente foi para Recife onde falei duas vezes num evento do GAPP - Grupo de Apoio Psico-Pedagógico, uma no Centro de Estudo Inclusivos da UFPe e ainda numa reunião da ASPAD (a associação de Síndrome de Down). Depois tem gente que diz que eu só passeio...

A vantagem é que sempre existe um tempo para se almoçar e jantar. Eu comecei jantando, na noite que cheguei, num boteco ao lado do hotel, cujo nome era Boteco. Um bom arroz de camarão que, senão estava excepcional, era saboroso e bem servido.

No dia seguinte o almoço foi no hotel do evento (uma tristeza) e fui compensar meu estômago de noite num restaurante português (não são poucos por lá) : a Tasca. Aí sim, o local era muito agradável, as donas e os garçons simpáticos e o lombo de bacalhau com crosta de alho estava supimpa, a batata ao murro estava no ponto. Poderiam ter um pouco mais de capricho para tirar a pele e os espinhos do bichinho e o vinho mereceria mais cuidado com a temperatura, deixar a garrafa na temperatura ambiente e refrigerá-la em balde de gelo na hora de servir não é exatamente uma boa prática.

Como não quis arriscar mais um almoço no hotel, na 6a feira escapei para um restaurante no bairro da Graça chamado Porto Ferreiro. O ambiente é lindo e espaçoso, o serviço também de primeira e a comida excepcional. Mas é um restaurante como tantos outros em outras cidades, culinária genérica sem grandes invenções. Valeu pela sobremesa, uma banana frita com queijo de manteiga derretido e cobertura de canela açucarada.

Mesmo sem ter planejado dessa forma, o melhor ficou para o fim. No sábado, depois da reunião, fui até Olinda, na Oficina do Sabor. Frutos do mar, especialmente camarões e lagostins, usando os frutos e temperos regionais. Não me arrisquei no Jacamarão (acho jaca muito enjoativa), mas fui de camarão com molho de tamarindo, purê de banana e arroz de coco. Claro, bebendo suco de cajá.

Depois tive de caminhar muito nas ladeiras da cidade para compensar o tanto que comi. Um dia ainda volto lá para outras experiências.

domingo, 9 de novembro de 2008

Notas recifenses

Eu aproveitei muito minha estada de 4 dias em Recife há duas semanas: trabalhei bastante, comi bem e passeei um pouco. E, claro, como bom insano, observei com atenção algumas coisas do comportamento local:

Que a praia (estava de frente para uma) até o sábado é de quase ninguém. No domingo é praia é do povo, assim como a Praça Castro Alves. As pessoas descem em grandes blocos da avenida onde devem passar os ônibus em direção ao mar.

Se a praia é do povo, o mar é dos tubarões. Fui alertado mais de uma vez sobre isso : não passe dos arrecifes. Se não tivessem me avisado as placas na praia não deixam dúvidas a esse respeito. Por que isso acontece exatamente em Recife ninguém soube me explicar. Deve ser algo no tempero do pernambucano que atrai os selaquimorfos.

Nunca deixe de colocar agasalhos na mala se for para Recife. Eu não coloquei e passei frio várias vezes. O clima pode ser tropical nas ruas, nos demais locais (incluindo os carros) o ar condicionado é programado para congelar os ossos.

No final de semana a cidade não acorda. Tudo, ou quase tudo, funciona depois das 12h. No guia da cidade tinha uma sugestão de local para tomar café da manhã, horário de abertura : 11h30.

Esqueça a batida, a caipirinha e a cerveja. Recifense gosta mesmo é de whisky. Basta olhar as prateleiras dos restaurantes e bares com as mais variadas marcas e tempos de envelhecimento. Eles tem até um equipamento para levar o whisky e o gelo para a praia.

Não procure frutas e verduras no mercado central. Se quiser esses produtos eles são vendidos nas barracas da rua. Dentro da área de alimentação do mercado só tem a mistura (carnes, frango, frutos do mar).

Diferentemente da maioria das cidades nordestinas, não encontrei sorveterias. Devem existir, é claro, mas bem escondidas. Em compensação, bolo de rolo com os mais variados recheios tem em todo lugar.

sábado, 8 de novembro de 2008

Historinha vulgar

Joana estava desempregada há quase seis meses quando viu o anúncio : precisa-se de recepcionista, não é necessária experiência. Pegou a bolsa, ajeitou o cabelo e foi para a agência de empregos.

A entrevistadora gostou dela, mas fez questão de ressaltar que o emprego exigia absoluta discrição, independentemente do que ela pudesse presenciar. Joana concluiu que isso seria fácil. Era tímida e detestava qualquer tipo de fofoca. Foi aprovada e encaminhada diretamente ao local de trabalho para acertar os detalhes.

Ao chegar tomou um susto : era um motel. Justo ela, a recatada e pudica. Pensou em desistir e ir embora. Mas lembrou da conta de luz atrasada, mais um mês seria cortada. Tinha também o carnê dos tênis das crianças. Ficou.

Mas não contou para ninguém o que era o trabalho. A quem perguntava dizia que era um escritório de contabilidade.

O chefe avisou que ia ver coisas estranhas, mas que ela só podia se manifestar se aparecesse algum menor de idade. Esses, disse ele, de jeito nenhum, pode dar cana. Ele também lhe mostrou a caixa secreta para casos de emergência.

Nos primeiros dias só se escandalizou. Ficava corada a cada situação que ela julgava indecente, o que a salvava é que os clientes não tinham contato visual com ela.

Primeiro foi a perua, já avançada em anos, com o garotão marombado. Depois a sequência de casais do mesmo sexo. Quase teve um treco quando chegou o primeiro grupo. Para piorar, de vez em quando ainda ouvia os gritos vindo dos quartos.

Aos poucos se acostumou com tudo e nem reparava mais em nada, mal olhava as pessoas.

Até o dia que ouviu uma voz conhecida e olhou : era Nestor, seu marido. Pior, quem estava com ele era a irmã. Dela. Ficou vermelha como nunca, mas dessa vez, de raiva. Conseguiu manter a fleugma, disfarçou a voz e deixou entrarem.

Uma hora depois saiu para o seu intervalo de café. Passou pela porta do quarto e ouviu os gemidos. Foi a gota d´água. Voltou para a recepção, abriu a gaveta atrás da caixa secreta.

Arrombou a porta a tiros da pistola automática. Descarregou a arma nos dois. Depois saiu pela avenida. Sem olhar para trás.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Adolescentices

Muitas pessoas se queixam da adolescência (mais da dos filhos do que das suas próprias), eu não posso reclamar da minha.

Claro que foi um período de emoções em altos e baixos, acompanhando as flutuações hormonais do período. Também tive meus momentos de choque de gerações. Tudo muito comum.

Já naquela época escrevia loucamente e, como seria de se esperar, com muito pouca qualidade. Especialmente poemas apaixonados. Como me apaixonava com frequência, a produção era alta.

De tempos em tempos releio algumas coisas que eu escrevi e, ocasionalmente, encontro alguma que tinha uma idéia razoável e uma execução ruim e tento recuperá-la.

Aí vai uma delas :


Namorados

Na praia, sós, o feio e a descabelada
Ele louco e repleto de anseio por encontrar a bela amada
A descabelada e o feio.

Vinha de orgulho assim tão cheio, de amor vinha tão carregada
Olhavam-se assim de permeio
A descabelada e o feio.

Assim se beijaram por nada, um do outro eram o esteio
Ela, bela, tímida e descabelada
Ele, louco, apaixonado e feio.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A volátil antologia de Outubro

Meus leitores/comentaristas andam insuperáveis. Cada mês é mais difícil escolher as frases para essa antologia.

Se você é novo por aqui, a intenção é ler as frases fora dos seus contextos e, a partir delas, imaginar suas próprias histórias:

...não jogaria um lustre em um ignorante...

...só não foi presa porque ainda não pegou gosto pela bebida...

Mês que vem eu recebo alta... ahuahuahuahua!

E o tempero tem um gosto de indigesto mesmo antes que se prove a mistura...

...rezando para que meus ácidos estomacais consigam digerir logo...

Bestial", como diria meu amigo Portuense!

só não serve pra quem tem companheiro ciumento...

e metionina você sabe o que é?

O cara acorda no meio da noite e manda a secretária...trazer o penico

Acho que vou comprar a merenda lá na venda onde tem uma moenda.

...eu seria uma montanha feliz.

Já pensou em incluir blogueiros?

Oba, até que enfim ela vai perder o barrigão.

E eu que nem sabia que sucupira era uma árvore...

pai de uma o quê?

nosinhoradosmeuspecados, que que é isso?

não sabia que constelações andavam para cima e para baixo com cópia no bolso

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Caliconto insanopígio

A primeira vez que ele a chamou de calipígia* ela não sabia se sorria, se lhe dava um beijo ou uma bofetada bem estalada.

Como ele parecia falar sério e num tom romântico, ela fingiu entender. E correu para o dicionário logo que chegou em casa.

Descobriu que era um elogio ousado. Mas um elogio.

Resolveu retrucar no encontro seguinte.

- "...é bom você saber que, além de calipígia, também sou calimérica e calipódica..."

Foi a vez dele ficar com cara de tacho...mais ainda quando ela completou :

-"...e, cá entre nós, acho que você é sensualmente calistomático e calichêirico !"

Nunca mais ele se deixou pegar no contrapé.

Um dia na praia revelou que descobrira que ela também era caliafálica**, além de caliauquênica, o que ele já sabia há muito tempo.

Ela nem piscou, mas gostou.

Não demorou muito para ele constatar que ela também era calimástica e calihelêica, o que a deixou embevecida.

Um dia se arriscou a dizer que estava louco para saber se ela era caliquética. Ela deu o golpe fatal :

'- Caliquética, meu amor, só vai saber casando..."

* calípígias podem ou não ser esteatopígias, depende do referencial estético de cada um
**não confundir afálos com phalos que são coisa completamente diferentes.

Imagem : Vênus Calipígia - Museu Nacional de Nápoles

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Cantada inesquecível

Eu nunca fiz o gênero machista. Nem nos tempos de moleque adolescente me agradava o papo furado dos colegas que arrotavam conquistas com detalhes absolutamente inverossímeis. Já sabia que as meninas detestavam ser "faladas" (ainda que gostem até hoje de falar...). Descobri que cão que ladra não morde, o que me foi muito favorável na minha juventude.

Nunca fui ciumento, o que incomodou uma ou outra namorada. Nunca dei ordens, nunca levantei a voz para mulher nenhuma (se bem que duas vezes fui obrigado a ouvir gritos). Abandonei e fui abandonado em namoros, em quantidades equilibradamente proporcionais.

Não posso negar que fui criado numa sociedade machista e alguns resquícios me acompanharam. Sempre tive o hábito de pagar as contas dos programas (poderia ter feito umas economias...risos), ainda dou a mão para mulheres para ajudá-las sair do carro (e, claro, já fiquei com a mão abanando algumas vezes) e até hoje gosto de comprar flores (inclusive para mim mesmo).

Mas a situação em que me senti mais surpreso foi quando, certa vez, levei uma cantada (a primeira e única da minha existência). Fiquei encantado, mesmo com a cara de bobo que me acompanhou. E foi, literalmente, uma cantada musical. Ganhei um disco com um cartão que dizia que as palavras da primeira música eram a dedicatória.

Apesar de existir uma certa atração pairando no ar, nada indicava aquele desfecho, ou melhor, aquele começo. As circunstâncias eram desfavoráveis. Eu e ela estávamos com outras pessoas e, nessa situação, não seria eu a fazer algum tipo de investida.

Ela fez. Apostou na zebra e acertou. Olhando a capa do disco, o nome da música saltou aos meus olhos. Não lembrava a letra toda, mas o que lembrava era suficiente para entender tudo. Cheguei em casa e fui direto para vitrola (tudo bem, já se chamava toca-discos...) e, usando uma expressão da época, ouvi a música até furar o disco (It might as well be swing).

Sempre que ouço a música me lembro do fato e do romance musical. Como se pudesse descobrir as sensações da primavera em Júpiter e Marte.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Contículos boreais

Andrômeda

Seus pais nunca lhe deram muito valor. Mesmo assim a ofereceram a um monstro, em troca de favores pessoais e financeiros. Não contavam que um desconhecido que aparecera na cidade a salvasse do seu destino minutos antes de se consumar o casamento arranjado.

Lira

Os sonhos onde ele navegava eram tão brilhantes que a incomodavam todas as noites. Não conseguindo acompanhá-lo em seus delírios, acusou-o de negligenciar o sustento da casa e saiu carregando os filhos. Nunca entendeu que ela era o seu norte e o alimento da sua imaginação.

Perseu

Sabia que ela era perigosa. Ouvira histórias de outros homens que se perderam por seu olhar, mesmo assim resolveu enfrentá-la. Vencida ela se descabelou toda e não conseguiu impedir que ele fugisse com a primeira que encontrou no caminho de volta para casa.

Ursas: maior e menor

Eram lindas e inteligentes. Deveriam ser objeto de desejo de todos os rapazes da cidade. No entanto, ninguém sequer as flertava. Todos sabiam que a gelidez de ambas era muito maior que os boatos a respeito.

Corona Borealis

Ele leu. Pasmou. Leu de novo. Não poderia ser aquilo. Faz um cópia que carregou para cima e para baixo e tentou descobrir alguma entrelinha misteriosa que desdissese o que tinha entendido. Só se acalmou quando assumiu que, mesmo sendo tão bom, era verdade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Onde está o Antenor Nascentes* ??

Coçou o alare, ajeitou a fatiota gázea de lese e se debruçou sobre a bacineta.

A forma díscola que Marieta lhe dispensara fora um lardoeiro de causar tarsal.

Esquinado, numa analose que quase o deixou em cárus, tropeçou no angelim.

É certo que raposeara, mas a situação já era rúptil. Ela não precisava bancar a sarrônica com sua dança pírrica.

Muito menos lançá-lo no atascal epifenomênico.

Saiu à rua ao som dos mimídeos que gorjeavam nos carpelos do sarçal. Mirou a agena, parecia o adamo com sua luz titanita.

Ajeitou o abanete como se trajasse uma éfode e, mesmo parol, adentrou o bitáculo onde erodiu um pantagruélico ipim cifado com aité.

Na saída eclodiu um épodo ao romance neomorto, como se fora um cimélio de Iseu.

*Antenor de Veras Nascentes (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1886 — 6 de setembro de 1972) foi um filólogo, etimólogo, dialectólogo e lexicógrafo brasileiro de grande importância para o estudo da língua portuguesa no Brasil, havendo ocupado, como fundador, a Cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Filologia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Siri descascado

Houve um tempo em que casquinha, se não era de sorvete, era só de siri. O que fazia todo o sentido, uma vez que a carne do bicho está literalmente dentro de uma casca. Em alguns restaurantes mais pedantes era chamada de carne de braquiúros em seu exoesqueleto de quitina (dizem que até hoje esse é o nome do prato na cantina da faculdade de biologia).

A primeira deformação do acepipe foi quando começaram a servir a carne de siri em casquinhas que não eram as próprias do crustáceo (o que, por si só, já era uma afronta aos finados portunídeos), mas em conchas. Arrancam-lhes a carne e nem permitem que seu funeral seja em casca própria. Mais indecentemente ainda, alguns lugares chegam ao ponto utilizar conchas recicláveis (de plástico ou algum policarbonatos que eu não tenho competência para identificar). Quando vejo isso, fico em dúvida até se a carne é de siri mesmo.

A outra heresia é que começaram a usar a base da receita da casquinha de siri com carnes de outros seres marinhos. Até aí não haveria nenhum problema, conheço várias receitas que são derivadas de outras (não devem estar sob licença dos Creative Commons), o problema é que mantiveram o nome de casquinha...

Uma é a casquinha de lagosta que até seria algo tolerável, se servida na casca da lagosta (mas aqui surgem novamente as indefectíveis conchas de plástico). Casquinha de camarão para mim é aquela que pode-se comer, sem maiores acidentes exceto a necessidade posterior do uso do fio dental.

Agora, que raios vem a ser "casquinha de bacalhau" ?? Alguém já viu bacalhau com casca? Casquinha de lula ? Se você descobrir me avise, adoro novidades científicas.

Fica aqui a minha receita preferida de casquinha de siri. Bom proveito :

Ingredientes

4 colheres de azeite de oliva (se seu estômago não for delicado, troque o azeite de oliva por dendê)
½ xícara de cebola ralada
4 dentes de alho bem picados
3 tomates médios , sem sementes, cortados em cubinhos pequenos
1 pimentão verde grande, sem sementes picado em cubinhos pequenos
2 colheres de sopa de coentro picado
500g de carne de siri e suas respectivas cascas (não esqueça de tirar a carne das patas que é a parte mais saborosa)
1 colher de sopa de farinha de trigo
sal e pimenta do reino a gosto
½ xícara de leite de côco
¾ xícara de farinha de rosca
2 colheres de sopa de manteiga cortada em pedacinhos

Modo de Preparar

Pré-aqueça o forno em temperatura média (180°C). Numa panela, coloque o azeite, leve ao fogo alto e deixe aquecer.
Junte a cebola, o alho, o tomate , o pimentão e o coentro e cozinhe por cerca de 5 minutos, mexendo de vez em quando.
Abaixe o fogo e acrescente a carne de siri, a farinha de trigo o sal e a pimenta do reino a gosto, misture bem e deixe cozinhar por 5 minutos.
Acrescente o leite de coco e misture novamente. Tire do fogo.
Recheie as casquinhas com a mistura preparada.
Polvilhe com a farinha de rosca e por cima distribua os pedacinhos de manteiga.
Coloque em uma assadeira , leve ao fogo pré-aquecido e deixe ficarem bem quentes.
Sirva com um branco muito seco (se a verba permitir, fica ótimo com um champagne brut)

domingo, 26 de outubro de 2008

Paideuma da telona

Você pode me criticar pelo fato de não ter listado algumas das unanimidades do cinema como Cidadão Kane ou Os 7 samurais, ambos excelentes filmes, mas lembre-se que um paideuma carrega consigo uma dose brutal de subjetividade.

Se eu tivesse de escolher apenas 10 filmes de todos os que eu já vi, esses seriam os que eu deixaria para a próxima geração. Posso garantir que não foi fácil chegar só em 10.

Casablanca (1942) - de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman

Singin´ in the rain (1951) - de Stanley Donnen com Gene Kelly e Donald O´Connor

O sétimo selo (1956) - de Ingmar Bergman com Max von Sydow e Bibi Andersen

Le notti di Cabiria (1957) - de Federico Fellini com Giulietta Massina e Amedeo Nazari

Vertigo (1958) - de Alfred Hitchcock com James Stewart e Kim Novak

Breakfast at Tiffany´s (1961) - de Blake Edwards com Audrey Hepburn e George Peppard

Cria Cuervos (1976) - de Carlos Saura com Geraldine Chaplin e Ana Torrent

Apocalipse now (1979) - de Francis Ford Coppola com Martin Sheen e Marlon Brando

Crimes and misdemeanors (1989) - de Woody Allen com Alan Alda e Martin Landau

Mystic River (2003) - de Clint Eastwood com Sean Penn e Tim Robbins

Pode reclamar que não tem nenhum filme nacional nessa lista. Para mim os únicos que se aproximam dessa definição de clássicos são o Bye Bye Brasil e o Chuvas de Verão (ambos do Cacá Diegues)

Pelo conjunto da obra, os melhores diretores são, em ordem alfabética:

Alfred Hitchcok
Carlos Saura
Federico Fellini
Francis Ford Coppola
Ingmar Bergman
Woody Allen

Dos filmes infantis, os meus preferidos continuam sendo Mary Poppins e Alice nos país da Maravilhas (se bem que esse não seja tão infantil quanto parece)

Tenho certeza de que cada leitor vai fazer substituições na minha lista (conheço alguns que vão substituir apenas todas as minhas escolhas...risos), isso é inevitável - viva a diversidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Hai kais em extinção


Jacarandá

Consegui roubar
além do beijo, um olhar
mimosa paixão

Araribá

Encosta de pedra
espinhos da multidão
sem constrangimento

Sucupira

Tremores nas mãos
tratamento natural
emana do tato

Peroba

Sem uma palavra
O desejo cor-de-rosa
no pé da montanha

Pau-brasil

Momento presente
arrepio em seu olhar
sem começo ou fim