quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Contículo sinestésico

"Os carinhos de Godofredo não tinham mais o gosto dos primeiros tempos." (Autran Dourado)



Raquel mirou-me com o seu olhar frio, desesperador.

Eu senti um áspero sabor de indiferença na sua voz que sempre fora repleta de colorido.

Uma melodia cinzenta tomou conta da sala. Acordes menores de cromatismos e perfumes.

Sua voz, que nos primeiros tempos, era macia, agora soava como um verde azedo. Apenas luz crua da manhã que invadia os meus ouvidos.

O olhar não era mais doce, nem tinha mais o sabor vermelho da fruta.

Senti saudades amargas de indefiníveis músicas, supremas harmonias de cores e odores. Do tempo em que o seu cheiro verde combinava com a sua beleza áspera. Tempo do delicioso aroma do amor.

O perfume agora tinha um cheiro doce, mas sua voz áspera era intimidadora.

Olores gritantes, nem de longe lembravam o brilho macio dos seus cetins, nem seu doce afago maternal.

Chegaram as horas do ocaso, trêmulas, extremas, como o réquiem do sol que a dor da luz resume.

Sinestesia: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.

5 comentários:

Vilma disse...

Palavras e olhares
Armas e flores
Sinestesias e anestesias
Novos amores
convidam para o sol
de todas as cores

é para vida...

Vida? melhor ir para lida...

Tô RImântica hoje...

Bom dia!

clau disse...

'To dentro: pq da muito desconfio que sou uma pessoa sinestesica...
E tanto que até doi!
Bjs!

Rubinho Osório disse...

Li algures que Vila Lobos "ouvia" cores. Deve ser isso. Cores, odores, sabores e sons estão tão próximos...
A Vilma estraçalhou, não? Tá tão inspirada quanto vc!!!

Lou Mello disse...

Isso me acontece sempre que chupo muitas laranjas, ao mesmo tempo. Tem cura?

Fábio Adiron disse...

Vilma : essa foi para o Contos ?

Clau : dói em que cor?

Rubinho : a Vilma abusou, o comentário é melhor que o texto

Lou: seja pródigo com as laranjas