terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O ingênuo e o cafajeste

Não se sabe se por criação ou por timidez inata Marcelo era um moleque ingênuo. O que não o impedia de ser um romântico fora de época, mesmo na sua época. Como tantos outros, amava os Beatles mais que os Rolling Stones e decorava poemas do Vinicius e do Neruda. Puedo escribir los versos más tristes esta noche, às vezes se pegava falando sozinho no quarto.

Apaixonava-se amiúde. Inevitavelmente era rejeitado. Curtia as suas fossas que duravam o exato tempo de se apaixonar pela próxima. Nada muito diferente de outros adolescentes.

Não que deixasse de participar das atividades dos outros meninos. Jogava bola, pulava muros, participava arduamente das guerras de mamona. E mais de uma vez sua mãe o pegou na praça em frente à escola no meio de uma briga, no melhor estilo "te espero lá fora..." Mas era mais sensível que os demais e, diferentemente dos colegas, tinhas mais amigas que amigos.

No colegial mudou de escola. A distância o afastou de algumas amigas, mas trouxe outras. Assim como novas paixões. Mais que isso, pela primeira vez uma paixão duradoura. Valéria.

Ela também era nova na escola. Seus pais tinham vindo do Chile, ninguém sabe exatamente por que, mas imaginava-se que fugidos do pinochetismo. Era uma menina bonita e, assim como Marcelo, também muito tímida, na percepção dele. Tornaram-se amigos.

Ele escrevia sonetos de pé quebrado e acrósticos piegas para ela, que sorria sem graça quando os recebia. Os pais dela gostavam dele. Aliás foi com o seu pai que ele descobriu Violeta Parra e Gabriela Mistral.

A indecisão de Marcelo o impedia de tomar a iniciativa para efetivamente namorarem. Ele acreditava que Valéria era muito tímida e, por isso, não encontrava o caminho para se declarar de vez.

Um dia, ao chegar na escola, quase caiu de costas. Em sua direção, caminhando na calçada de mãos dadas, vinham Valéria e Silveira. Foi um choque.

O Silveira ? Por que o Silveira ? Justamente aquele cafajeste da turma do fundão ? Um cara grosso, falava palavrões um atrás do outro, fumava escondido no banheiro, bebia cerveja na padaria da esquina e roubava o carro do pai. Um sujeito que já tinha sido suspenso um par de vezes. Como assim o Silveira ?

Vai durar pouco, pensou. Daqui a pouco ela vai descobrir que ele é grosso demais para ela. Enganou-se mais uma vez. No ano seguinte continuavam juntos.

Quando chegou no último ano do colegial Marcelo se conformou. Caiu na real que nem toda menina queria romance e poesia. Foi uma experiência dolorosa, mas muito útil para o seu futuro.

Trinta anos depois encontraram-se numa festa de ex-alunos. Ela continuava bonita e com o jeito falsamente ingênuo. E casada com o Silveira há mais de 20 anos, com quem tivera 3 filhos. O cafajeste tinha virado um senhor respeitável e sério.

Marcelo continuava um romântico incorrigível. Dias depois mandou para ela os poemas que escrevera na escola, não porque se tivesse ainda alguma esperança, mas por puro deleite pessoal.

4 comentários:

neli araujo disse...

Oi, Fábio!

Eu, como romântica incorrigível, me vi neste teu post...

Adorei! Muito lindo! Lembra um pouco da minha história!

Um abração,

Neli

Vilma disse...

Uma hipotenusa e dois catetos complementares: triângulo retângulo.

Beijos quadrados

Bom dia!

clau disse...

Fabio...amei esta estoria!
Tem um nao sei o que de familiar qdo a gente le... E seja em um senso romantico-afetivo, seja em todos os outros tb, assim eu creio.
Sortudo aquele que escapou de se ver em uma situaçao semelhante, hihihi.
Bjs!

Fábio Adiron disse...

Neli e Clau : as histórias de amor sempre lembram um pouco as nossas histórias de amor.

Vilma : a situação me soou mais para isóceles...e de certa forma com um ângulo obtuso