quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tia Jovita

Não tem nada que me escape, costumava dizer tia Jovita todas as vezes que a família se reunia para o almoço de domingo. Solteirona, morava com a irmã que tinha uma coleção de filhos e netos, o que sempre proporcionava um bom público para as suas descobertas.

Sempre que começava atraía a audiência. Afinal, todos gostavam da percepção da velhinha a respeito de fatos prosaicos que ninguém notara antes. Era como se estivessem ouvindo uma Miss Marple engraçada. Identificava cortes de cabelo quase imperceptíveis, sabia quando as sobrinhas estavam na TPM ou quando o time de futebol dos sobrinhos tinha ganho ou perdido. Semanas antes do time de um deles ser rebaixado ela vaticinou : avisa o Fernando para não confiar nesse time senão ele vai ter um enfarte.

O que ninguém nunca esperara é que ela começasse a identificar questões mais sérias.

Um dia, no meio de macarronada, ela perguntou : "- Quando é que nasce o bebê da Verinha ?". Márcio, o pai da Verinha engasgou de uma forma que quase teve de ser socorrido por uma ambulância. Verinha saiu da mesa chorando e se trancou no banheiro. Os demais olhavam para a anciã estarrecidos. Ninguém sabia que a menina de 17 anos estava grávida.

A família ainda não tinha se recuperado do escândalo, nem o nenê nascido, quando tia Jovita se saiu com outra : "- Por que é que o Carlos perdeu o emprego?". Sobre o fato alguns da família sabiam, mas como é que ela tinha descoberto ? "Simples, meu filho - respondeu - repare que ele não tem mais aparecido cada domingo com uma roupa nova, nem está com aquele telefone cheio de balangandans..."

A preocupação passou a rondar os almoços. Especialmente os mais velhos. Os sobrinhos-netos, apesar do episódio da Verinha, não encanavam tanto com suas travessuras. Poucos conseguiam olhar diretamente nos olhos da tia. Alguns passaram a não ir almoçar todos os domingos.

O que não impediu a tia Jovita de continuar falando. Em pleno almoço de páscoa atacou novamente : "- Marina, esse negócio de bigamia não funciona. Cuida direito do seu marido." O marido era o Fernando e, se o time não tinha provocado o enfarte, a traição de Marina atingiu-lhe em cheio o miocárdio. Ele sobreviveu, o casamento não. Além disso levou Tia Jovita como testemunha na audiência da separação quando ela explicou para o juiz que mulher da idade de Marina, quando começa a se pintar demais e carregar aquele sorriso dissimulado no rosto é porque tem outro. Ganhou a causa.

A família agradeceu a tia por ter ajudado o Fernando. O que não queria dizer que tinham perdido o medo dela. Dessa vez tinha sido a favor, mas poderia ser contra. A irmã tentou convencê-la a ser mais discreta. Ela ficou ofendidíssima. Durante um mês não abriu a boca durante nenhum dos almoços. Os jovens começaram a provocá-la dizendo que ela tinha perdido o poder de detetive.

Até que um dia não se conteve. Olhou para Luiz Antonio, o marido de uma das sobrinhas, e disparou : "- Luiz, até quando você vai enriquecer recebendo suborno de fornecedores ?" Ele ficou roxo de raiva e respondeu em termos que esse blog se recusa a publicar. Saiu batendo a porta e cantando os pneus de sua Mercedes conversível.

Alguns meses depois, numa segunda-feira, Tia Jovita morreu. A empregada a encontrou dormindo e não conseguiu acordá-la. Já estava avançada em anos e o seu geriatra atestou uma parada cardíaca. O velório estava repleto. Até os ex-membros da família participaram. As feições misturavam consternação e alívio.

No momento em que se preparavam para fechar o caixão um senhor de terno que estava sentado no fundo da sala pediu a palavra. Ninguém o conhecia.

"- Em homenagem à dona Jovita e atendendo o pedido que ela me deixou por escrito, deixei para me manifestar só agora. Gostaria de informar que a sala está cercada e que eu vim aqui para prender o Sr Márcio, assassino da defunta."

Márcio até tentou fugir, mas foi barrado por dois guarda-roupas que estavam na porta. Uma balbúrdia se instalou no ambiente.

"Ha três meses, Dona Jovita me procurou na delegacia e pediu que eu tomasse um depoimento. Contou que notara que o Márcio queria se livrar da mulher e planejava algo. Só que ele percebeu que ela sabia, mas ela não falou nada pois estava brigada com todos. Ele achou que estava seguro, mas a fulminou com o olhar quando ela voltou a falar. Ela percebeu que estava condenada."

A irmã teve uma crise de choro, a mulher de Márcio gritou um viva para a Tia Jovita. O delegado concluiu:

-" Já temos o laudo em mãos. Foi estricnina. Aliás, o médico que assinou o atestado de óbito também está preso. Ele recebeu dinheiro do Sr. Márcio para alegar uma causa mortis inexistente."

Dentro do caixão, Tia Jovita parecia sorrir. Na lápide, a ironia dos sobrinhos-netos : Nada me escapa.

5 comentários:

Arimar disse...

Fábio.
Acho que também devem existir Tios Jovitos, que estão sempre atentos e percebem TUDO.
Se cuida.
Beijos

Vilma disse...

Pobre Jovita, morreu sem ter nascido e sorriu pelo motivo errado...
Coitada das flores que a acompanharam ao túmulo...com todo respeito.

Rubinho Osório disse...

Tive uma tia solteirona, de nome Jovita, muito perpicaz. Só espero que não tenha percebido alguma ameaça e sua morte tenha sido realmente por doença!!!

Vilma disse...

Uma mistureba cinematográfica:
Conduzindo batatas verdes quentes para o inferno de Dante...

bete disse...

Será que ela morreu intacta?