sábado, 21 de dezembro de 2013

Aparições

A foto parecia ser apenas mais uma daquelas tantas que se encontram em exposições. Preto e branco. Composição geométrica alternando curvas e retas. Um ser vivo aparentemente perdido em meio a um contexto domiciliar comum. Bem ao estilo casual de Marina.
 
O que a diferenciava de outras não era o espelho no meio da imagem, mas o fato de Marina ter se deixado aparecer nele. E, definitivamente, não tinha sido nem um acidente, nem uma distração pois, mesmo entrecortada, a imagem dela ocupava um lugar nobre na foto.
 
Exatamente por isso é que Audálio se transtornou ao passar diante daquele painel. Sua vontade foi de falar imediatamente com ela e exigir que a foto fosse retirada da exposição. Aquilo era uma indecência.
 
No entanto, ao ir em direção da namorada percebeu que ela estava cercada de gente. Amigos, colegas de trabalho do jornal e até algumas pessoas da empresa que patrocinavam a mostra. Audálio tinha o estopim curto mas, ao mesmo tempo, detestava dar vexame em público.
 
Resolveu esperar até o final do evento.
 
Quando saíram, mal entraram no carro e ele começou a disparar cobranças contra ela. Que palhaçada era aquela foto. Como ela podia expor e se expor daquela maneira e, o pior de tudo para ele, como é que ela poderia expô-lo daquela maneira?
 
Marina o ouvia tranquilamente, sem refutar uma única palavra que ele dizia, o que o deixava ainda mais furioso. Quando já estavam perto de casa ela pediu que ele fosse com ela até o estúdio, o que ele fez, mesmo sem entender o por quê.
 
Entraram em silêncio. Ela sorrindo, ele bufando.
 
Ela começou a abrir as gavetas das pranchas das suas exposições fotográficas e a mostrar para ele fotos que tinham sido expostas desde que eles estavam juntos.
 
Da primeira mostra depois que começaram a namorar ela mostrou uma onde apareciam os seus pés. Da seguinte, a foto onde estavam o seu umbigo. A que tinha um decote, que era o dela. A cada nova exposição suas aparições, ainda que não explícitas, eram mais ousadas.
 
À medida que Marina mostrava as fotos, Audálio ia ficando mais furioso. Como ela tinha feito aquilo com ele? Era um abuso, uma enganação, uma traição. Para ele era o fim, não podiam continuar juntos depois disso.
 
Marina olhou com firmeza para ele e disse:
 
" - É verdade, não faz mais o menor sentido continuarmos juntos. Durante todo esse tempo eu sempre fazia uma aparição nas minhas fotos com o objetivo de te agradar. Você não me reconheceu em nenhuma delas, ou melhor, só reconheceu hoje as minhas nádegas. Já que isso é tudo que eu represento para você, adeus".

sábado, 21 de setembro de 2013

Prato do dia

Hermógenes sempre gostou de cozinhar. Não era um super chef do Cordon Bleu mas seus pratos sempre fizeram sucesso entre os parentes e os amigos.

Um dia, cansado de trabalhar para os outros, resolveu dar seu grito de independência e abrir o seu restaurante.

Não era um restaurante qualquer, Hermógenes não queria uma multidão de funcionários nem tinha a pretensão de enriquecer com o negócio. Para ele bastava fazer o que gostava e receber o suficiente para viver de forma confortável.

Seu restaurante tinha apenas 6 mesas e não tinha cardápio. Hermógenes se alternava entre o salão e a cozinha. Em cada um tinha um auxiliar para executar as tarefas mais operacionais.

O próprio Hermógenes atendia os clientes e, durante a conversa com eles, oferecia os pratos que mais se adequassem a necessidade de cada um.

O cliente está faminto? Hermógenes servia uma farta macarronada. Não tinha um estômago muito resistente? Servia a sopa do dia. Queria uma experiência gastronômica única? Hermógenes entregava pratos com a mais fina alquimia dos temperos.

Seu restaurante era bem frequentado. Construiu uma base de clientes fiéis e, esporadicamente apareciam novos clientes, geralmente indicados pelos habitués da casa.

Um dia apareceu um estranho. Sujeito elegante, pinta de bacana e aparência de muito dinheiro. Perguntou se aquele era o restaurante do Hermógenes, pois tinha sido muito bem recomendado a respeito.

Hermógenes, como de hábito, puxou papo com o cliente e procurou entender seus gostos e suas idiossincrasias antes de sugerir qualquer prato.

Ao fim da conversa, disse ao cliente que lhe traria torradas de alho carameladas de entrada, peito de pato ao molho marsala e mousse de tangerina com alecrim.

O comensal, literalmente, lambeu os beiços só de pensar nessa orgia gastronômica e aprovou toda a sugestão.

Hermógenes já estava a caminho da cozinha, quando uma moça chegou e sentou-se junto a seu novo cliente. Ele voltou e encontrou-os falando sobre os pratos.

A moça tinha adorarado a sugestão, mas disse que gostava muito de trufas negras e que a pessoa que recomendara o restaurante tinha dito para não perderem o maravilhoso tagliatele in nero de seppia que ele fazia..

Hermógenes concordou em trazer, além das torradas, o seu ovo poché tartufato, mas disse que o pato não iria funcionar bem com o nero di seppia, nesse caso seria melhor trocar o pato por um prato com salmão, ou comer o pato com o tagliatele branco na manteiga. Optaram pelo pato.

Quando já estava descascando o alho e preparando o caramelo, foi chamado de volta pela dupla. Tinha concluído que tudo aquilo seria muita comida só para os dois. Achavam melhor reduzir o volume de comida.

Hermógenes propôs trazer só uma entrada e trocar o pato pelo salmão, o que deixaria a refeição mais leve. Os dois optaram também por cancelar a sobremesa e tomarem só um café depois de comer.

Nesse meio tempo, o caramelo que estava no fogo, queimou, o que não era grave, pensou Hermógenes.

Minutos depois, já com o alho caramelado e as torradas quase prontas para irem ao forno, foi chamado de novo. A moça concordava com uma entrada só, mas fazia questão das trufas.

Contrariado, Hermógenes disse que ralaria um pouco das trufas nas torradas. Já ia voltar para cozinha quando o cliente disse que realmente tinha pensado melhor e que, apesar de ser mais pesado, preferia o pato. A moça olhou com olhos de pedinte e perguntou se não daria realmente para torcar o molho de marsala pelo nero di seppia.

Hermógenes suspirou... cliente sempre tem razão, ele pensou. Disse que tudo bem e voltou para a cozinha para encontrar as torradas queimadas no forno.

Hermógenes ainda estava tentando salvar sua sanidade quando o cumim entrou na cozinha e disse que o casal tinha pedido para ele trocar o alecrim da mousse que eles tinha cancelado por hortelã fresca. Foi a gota d´água.

O sempre solícito e simpático chef tinha atingido o seu limite.

Voltou ao salão. Entregou ao casal uma banana são tomé para cada um e indicou a porta da rua.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Auto escola paulistana

Você é um motorista à moda antiga? Venha descobrir regras de trânsito que você desconhecia. Você é um neófito? Bem vindo à vida selvagem.

Se você é de fora de São Paulo, abaixo seguem umas dicas de como exercer suas habilidades sinesíforas na metróple.

Aqui nós temos uma instituição chamada CET, a companhia de engarrafamento do tráfego que, diferentemente do Tiririca (pior do que está não fica), tem como lema: "não há nada tão ruim que não possa ser piorado".

Caso você aviste os carros da CET organizando alguma coisa, pode ter certeza que o trânsito na região vai piorar muito.

Se você avistar seres vestidos de uniforme marrom, prepare-se, vai ser multado.

Se estiver dirigindo à noite, com chuva e os semáforos estiverem quebrados, pode ficar tranquilo, você não vai ver nenhum ser de uniforme marrom.

Em relação às práticas dos motoristas locais:

Caso você se depare com um radar limitando a velocidade a 60 km/h lembre que o carro na sua frente vai reduzir bruscamente a velocidade para 20 km/h. Essa regra é conhecida como a lei do terço.

Paulistano acredita que ultrapassar uma viatura da polícia é pecado mortal. Mesmo que ela esteja estacionada.

Ciclistas, motoqueiros e motoristas de táxi se acham acima das leis de trânsito. Espere qualquer coisa deles.

Caminhões de coca-cola ou de cervejarias tem direito a estacionar em qualquer lugar.

Usar seta é sempre um risco. Se você não der seta te xingam, se der, aceleram para não te dar passagem.

Aqui existe uma coisa chamada rodízio. É uma lei válida para todos os veículos, a não ser que você estiver enquadrado em uma das 2.387 exceções previstas na lei.

Não siga carros que estão usando GPS. Eles estão perdidos e vão brecar à sua frente em cada cruzamento ou bifurcação de vias.

E, principalmente, evite seguir à risca o código de trânsito, se fizer isso não vai demorar para um educado motorista paulistano te chamar de caipira.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tzarice

Piratas piravam em Piracaia
paravam em Paraíba
pulavam em Paulinía

Sobre as ondas
Sombras fundas
Sobrancelhas

Carrapetas pululavam
Carrapatos e ósculos
ciciavam.

Piratas pairavam em Paris
açodando em tapires mumificados
o adeus dos pintassilgos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O samba do taitiano doido

Corria o ano de 1968 (aquele que dizem que não acabou) e o genial Lalau* colocava nas paradas de sucesso o “Samba do Crioulo Doido” , uma paródia para ironizar a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem nos seus sambas de enredo somente fatos históricos.

Eu soube que depois de tomarem 24 gols em uma semana e, mesmo assim, comemorarem e distribuírem loas aos brasileiros, os jogadores do Taiti (o Taití é aqui?) um tanto zonzos dos gols e do noticiário nacional, sairam cantando coisas do tipo:

Um tal de ato médico
Agora obriga a cura gay
Por médicos cubanos
Que pedem ao paciente
Que repicta** 37
Ou desconte 20 centavos

A nossa salada coitada
Ficou mal temperada
Vinagre foi proibido
E a pimenta exagerada
De sobremesa éclair
Pois a bomba era imoral.

Nas histórias em quadrinhos
O herói é mascarado
O batman dessas plagas
Não é nem nascituro
E já está condenado

Olerê, olará, squidum...
Esse samba não rima
E muito menos solução
Olerê, olará, squidum...


*Stanislaw Ponte Preta
**Não foi erro de digitação




sábado, 15 de junho de 2013

Reflexões sobre a 5a feira 13


É sintomático que depois de 4 rodadas de manifestações em São Paulo (e a eclosão de outras no Rio, Porto Alegre, Maceió, Manaus, Belo Horizonte, Brasília)) nenhum, ou melhor, para ser mais exato NENHUM vereador, deputado, senador de NENHUM partido tenha se posicionado sobre o tema.

Nem o Suplicy que adora carregar faixas em manifestações para aparecer na capa dos jornais, nem o proto-partido da Marina que se autodenomina como nova forma de fazer política, nem a esquerda pseudo-radical do PSOL, nem a direita, nem o centro...todos de rabo preso com o status quo que está sendo questionado (se você acredita que a manifestação é por R$0,20 é melhor começar a se informar melhor).

Com a opinião pública dividida e a mídia, depois de apanhar na rua, começando a tender para a defesa das manifestações, estão todos esperando para ver de que lado eles ganham (ou perdem menos) votos.

Aqueles que se dizem representantes do povo não representam ninguém, não se colocam ao lado de ninguém, não se comprometem com nenhuma posição ideológica. Não assumem nenhum risco político.

Aliás, oss muitos relatos das agressões de 13 de  junho deixam claro que havia uma ordem muita específica de alvejar jornalistas ou quem parecesse ser jornalista (ou seja, que tivesse uma câmera ou filmadora na mão). A mesma mídia que até a 4a feira ainda defendia o governo que controla a polícia. (claro, investem milhões em publicidade nos seus veículos).

Também nenhuma palavra da ABI, nem do sindicato dos jornalistas, sempre tão ativo na hora de garantir a sua reserva de mercado de trabalho.

Só hoje, no sábado, depois de muita movimentação nas redes sociais é que começaram a aparecer, muito timidamente, algumas frases perdidas e, assim mesmo, com uma demonstração clara de que os políticos estão morrendo de medo de se comprometer.

Por falar em sindicatos...alguém ouviu falar de sindicatos? Nem o sindicato dos professores (que vive apanhando da polícia) abriu a boca. Claro, todos os nossos sindicatos estão apelegados a  algum partido. Todos os partido estão coligados ao PT (que detém a prefeitura de São Paulo), ao PSDB (que controla o governo do estado de São Paulo e a sua polícia) ou a ambos (a isso se chama "convicção ideológica" no dicionário político da pós-modernidade, no meu tempo chamava-se de fisiologismo mesmo)

Eu admiro esses meninos que estão indo às ruas, me lembro de quando eu mesmo fiz isso, só fico com um receio:

Nos anos 60 e 70 eram os militares que marchavam sobre as nossas cabeças.

Nos anos 80 marchamos pelas diretas já e acabamos recebendo como prêmio o Sarney.

Nos anos 90 os carapintadas saíram às ruas contra a corrupção e o prêmio foi o Itamar e depois os 8 anos (que deveriam ser 4, mas também foram comprados votos) de neoliberalismo tucano.

Nos anos 00 não fizemos nada e acabamos com o neoliberalismo e o velhocorruptismo que temos até hoje.

Meninos que marcham nessa década, por favor, não repitam os nossos erros.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Dia notável

Hoje é o centésimo quinquagésimo dia do ano. Não é um dia como outro qualquer.
 
É o dia em que Tito cercou Jerusalém e o dia em que Joana D´Arc ardeu um chamas.
 
É o aniversário de nascimento de Dante Alighieri e o de morte de Voltaire e de Peter Paul Rubens.
 
Para o bem do swing, também é o aniversário de Benny Goodman.
 
Para o bem da humanidade é o aniversário de Bakunin.
 
Para o meu bem e minha felicidade é o dia quem nasceu o meu amor.
 
E quando eu comemoro o aniversário da mulher que transformou a minha vida pouco me importa se Jerusalém caiu ou se a Joana cremou-se.
 
A divina comédia pouco significa e Cândido não passa de um ingênuo. Nenhumas das 3 graças tem a graça que só ela tem.
 
A anarquia se organiza e nem Sing, sing, sing é capaz de superar a voz que é música para meus ouvidos.
 
Em mais um dos seus aniversários que passamos juntos eu agradeço pela sua existência.
 
E pela certeza que comemoraremos todos os 30 de maio vindouros para sempre

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Autômato




Ligue seus botões.

Deixe a energia elétrica correr

dentro dos seus transístores.

Deixe óleo escorrer

Nas sua engrenagens.



Mecanicamente raciocina

Reflexos são condicionados

Automatizados.

Passos são medidos

Milimétricamente iguais.



O homem-máquina não se percebe

não se sente

não se manifesta.



Desobediência - não tem registro

Ele não é programado para viver

Mas para produzir



E, quando a máquina falha,

Não há problemas

É artigo de consumo

Usa-se e joga-se fora

No ferro-velho de nós mesmos.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma mulher cabal

"...o que quero dizer é que deixei uma boa parte de mim mesma inacabada porque desperdicei demais meu tempo. Não  obstante..." (Lillian Hellman)

Quando Amanda acabou de ler essas linhas sentiu-se arrasada. Como uma mulher daquelas poderia se dizer inacabada. Era uma afirmação totalmente descabida.

Tomou uma decisão para a sua própria vida. Ela seria uma mulher cabal, jamais inacabada. Iria ao fim e ao cabo de todas as coisas.

Na manhã seguinte começou a levar a cabo seu intento. Fez uma faxina geral na casa e recolheu todos os cabos existentes dentro do imóvel.

Eram tantos que achou que nunca acabaria, mas acabou com uma caixa de fios emaranhados em cima da mesa da sala.

Começou a separá-los por tipo. Cabos de força, cabos paralelos e seriais, cabos de som, cabos USB...cabos e cabos.

Dentro de cada tipo passou a separá-los por calibre, por potência, por categoria e, finalmente, por cores.

Ao final do dia tinha todos os seus cabos classificados, etiquetados e guardados em caixas específicas para cada segmento.

Fez o acabamento de sua obra, colocando diferentes etiquetas adesivas para identificar o conteúdo de cada caixa.

Sentou no sofá, ligou a TV que passava o Cabo do Medo. Deu uma risada apesar do filme ser de terror.

Foi para o quarto, pegou a camisola no cabide e foi dormir.

Estava acabada.

domingo, 14 de abril de 2013

Contículo parequêmico, com algumas colisões



Foi num 31 de dezembro, em plena véspera do ano novo que Paulo Loupa carregou um cone negro de corpo poroso certo de que enfrentaria um crepúsculo longo.

Pensou consigo mesmo, é bom que seja já que se manifeste a erótica cacofonia da garota taluda, aquela imaculada dama, vestida de grife feminina.

Sabia que poderia criar um impasse sensual diante da possível gafe feminina e, como um pato tonto, desceu o fosso social e fez o ataque que queria na natureza.

A infame menina, de roupa parda, não resistiu ao menino nostálgico. Era uma malhada das cores, admiradora do sintagma masculino sem regra gramatical.

Tinha noção de que aquela era uma faca cara para pouco coco e, se esperasse segundos mais ele, sendo muito tolo, se enroscaria num tabu burocrático como se fora gado doente.

Não perderia a oportunidade de nenhuma maneira.

Dançou um samba baiano de importante tempo e guardou a tenra rama de lembranças num saco colorido.

Saiu convicto de viver uma matemática cheia de felicidade.

Parequema é nome duma repetição dum som ou duma duma sílaba do final de uma palavra e começo de outra. O parequema pode criar cacófatos. Parequemas viciosos chamam-se colisões.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O hemófobo

Olhando em retrospectiva, os pais de João começaram a entender uma série de atitudes dele durante a sua infância e adolescência.

A começar do seu nascimento. Os médicos da maternidade tinham falado que nunca um bebê tinha chorado daquela forma, mesmo antes de sair da barriga da mãe. E que nunca tinham visto um bebê parar de chorar tão imediatamente quanto quando ele acabou de ser lavado.

E continuou chorando lancinantemente a cada vez que se machucava, mesmo que fosse a mais leve arranhada. Os pais lembram quando foram chamados às pressas na escola pois João estava passando muito mal. Ficaram perplexos ao descobrir que o menino tinha começado a vomitar ao ver um colega se cortar com uma tesoura.

Em casa João se isolava. Não mexia numa série de objetos e, mesmo à mesa, tinha dificuldades em usar o garfo e a faca. Dificilmente assistia e televisão e saia correndo se a película tivesse alguma cena de violência.

Foi no princípio da adolescência que, finalmente, a família descobriu qual era o seu problema. O médico pediu uma série de exames para checar se os hormônios estavam se comportando bem e João desmaiou durante o exame de sangue.

Levaram-no a um psicólogo que depois de muito explorar a mente de João diagnosticou: o menino é hemófobo! A única cura seria fazer análise por tempo indeterminado. A família não tinha verba para isso, o jeito era administrar a situação da forma que desse.

E foi dando. Com alguns episódios de crise, como quando a irmã mais nova teve a primeira menstruação e, ouvindo a explicação, João resolveu que jamais se casaria, um ser sangrando em casa todos os meses seria intolerável.

O único custo que a família foi obrigada a carregar foi o da anestesia geral cada vez que João precisava fazer algum exame de sangue.

Já na juventude João descobriu os efeitos da vitamina K, e começou a comer verduras verdes em doses cavalares. Mais tarde passou a tomar suplementos da vitamina.

Chegou a tentar resolver o problema frequentando um grupo de apoio, os Fóbicos Anônimos. Não passou do primeiro encontro. Quando disse que era hemofóbico foi expulso da sala pelo mediador do grupo que o escorraçou gritando que hemofobia não era transtorno psicológico, era discriminação. João não teve tempo de explicar.

Continuou convivendo com seu medo e, além da vitamina K, começou a tomar medicamentos para hemofilia.

Morreu aos 30 anos com trombose generalizada, provocada por overdose de coagulantes.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A calcinha da discórdia


Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória.

No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie.

Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer.

Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso.

Entrou no shopping, respirou fundo e começou a olhar as vitrines das lojas de lingerie.
Não sem corar a cada vitrine que via. Até que viu uma coleção de calcinhas de renda de diversas cores. 

Respirou mais fundo e entrou na loja. Pediu à primeira vendedora que encontrou uma calcinha de cada cor. 

Não contava que ela lhe perguntasse o tamanho que ele, obviamente, não sabia. Foi obrigado a ficar comparando o tamanho da vendedora ao de Amélie, o que foi o supra sumo do constrangimento.

Chegou em casa mais cedo. Colocou as calcinhas organizadamente sobre a cama e sentou-se para esperar a mulher.

Amélie estranhou sua presença em casa tão cedo. Ele se justificou dizendo que viera mais cedo para se preparar para o jantar de comemoração. Ela o beijou e foi se arrumar.

Os gritos não demoraram 20 segundos para começar:

" - Quem é a mulher brega que esteve nessa casa?!?"

" - Ninguém veio aqui meu amor..."

" - Seu mentiroso safado! Além de sair com outra mulher ainda foi arranjar uma de incrível mau gosto! "

Ele ainda tentou explicar que ele mesmo comprara o presente, mas não teve tempo.

" - Imagine só se Jerônimo Garcez alguma vez entrou, entra ou entrará numa loja de lingerie. Só pode ter chamado um "inha" para fazer isso com ele. Vergonhoso!"

Amélie arrancou a aliança, jogou em direção a Jerônimo e saiu batendo a porta.

Jerônimo não sabia se estava mais ofendido pela desconfiança da mulher ou pela sua crítica ao gosto dele.

Pegou as calcinhas. Jogou-as num balde com álcool e tocou fogo na renda.

E jurou a si mesmo que nunca mais entrava em loja nenhuma.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tifalentices

Panacópios entosados polpatavam as crídias remacorentes dos bregórdios da curbina.

Caticantes e plínicos os grantetos se aclainaram nas simálias.

Piricintos e culticalos abrosaram os sespos enquanto tripentes divratavam os grutis jenesilados.

Inestiladamente Netente mesodou: "- Poriva bladatinto!"

Os quecos lizodaram as módinas e os telafânios abridiram as nalosidias.

Tões e destonos se mundiram palcotiquilantes nacontindo as chátanas.

E a sedona omarrou as madolivas.

domingo, 31 de março de 2013

Contículo diacópico

Amargo, o inefável chá amargo que me fora servido entre tantas e outros tantas beberragens caíram-me no esôfago, meu pobre esôfago, como se fossem litros de ácido, sulfuroso ácido.

Eu que, camonianamente cantava o amor, tão puro amor, comecei a retorcer-me em convulsões atrozes, mais que atrozes, formidandas.

Olhava-me no espelho, um deteriorado espelho que colocaram diante dos olhos, meus castanhos olhos e só via minhas rugas se multiplicando em mais rugas.

Debalde buscava um paliativo de boldo, ou algo similar a boldo mas só me esbaldava em gemidos.

Reminiscências álacres, reminiscências márcidas, reminiscências estranhas açodavam minha memória, cada dia mais fraca memória.

Subitamente ela entrou. Subitamente lançou sobre mim seu olhar, delicioso olhar e, como num passe de mágica, fez-se a mágica da regeneração completa do meu ser.

Nunca mais amargo chá. Nunca mais amargo boldo. Nunca mais amarga vida.


Diácope é uma figura de linguagem que consiste na repetição da mesma palavra em semelhante com a intercalaçao de outra. Do grego diakopé (corte)

sábado, 30 de março de 2013

Mistério na frente de caixa

Um domingo, quando ele chegou para o café da manhã ela perguntou onde ele tinha colocado as bananas. Automaticamente ele respondeu que não sabia, afinal era ela que guardava as frutas e verduras.

Durante a semana ele passou na feira perto do trabalho e trouxe uma dúzia de bananas erradas (eles comiam banana ouro e ele comprou prata, pois só lembrara que era algum metal precioso).

Coincidentemente, ou não, no domingo seguinte ele ouviu uma pergunta similar. Onde estavam os ovos? Repetiram a busca na casa e no carro. Nada dos megalécitos. Ela chegou inclusive a conferir a nota do supermercado e constatou que tinham sido cobrados.

Ele se sentiu culpado, afinal era o responsável por embalar as compras e, provavelmente esquecera os ovos no balcão do caixa. De qualquer forma, ficou com uma pulga atrás da orelha, não era um homem que acreditava em coincidências.

Na semana seguinte prestou atenção redobrada ao empacotar e, depois de colocar caixas e sacolas no carrinho ainda verificou se não tinha esquecido nada no caixa.

Ao chegar em casa, diferente da rotina habitual, ele guardou todas as compras e ela conferia o que era guardado com o ticket do caixa. A farinha de rosca tinha sumido.

Voltaram ao supermercado e foram diretamente ao atendimento a clientes. A atendente ouviu a queixa e chamou o gerente que já chegou com um pacote de farinha de rosca nas mãos, para a surpresa dos dois.

O gerente perguntou se era a primeira vez que isso acontecia e, ao saber das bananas e dos ovos, mandou um funcionário repor os produtos ao casal.

Eles queriam saber o que estava acontecendo. O gerente disse que não tinha autorização para explicar mas, caso acontecesse de novo, para avisar que todos os produtos seriam repostos.

Sairam intrigados e assim ficariam o resto da vida se, ao lado do carro não tivessem encontrado, estacionado ao lado deles, a van dos caça-fantasmas.