domingo, 31 de março de 2013

Contículo diacópico

Amargo, o inefável chá amargo que me fora servido entre tantas e outros tantas beberragens caíram-me no esôfago, meu pobre esôfago, como se fossem litros de ácido, sulfuroso ácido.

Eu que, camonianamente cantava o amor, tão puro amor, comecei a retorcer-me em convulsões atrozes, mais que atrozes, formidandas.

Olhava-me no espelho, um deteriorado espelho que colocaram diante dos olhos, meus castanhos olhos e só via minhas rugas se multiplicando em mais rugas.

Debalde buscava um paliativo de boldo, ou algo similar a boldo mas só me esbaldava em gemidos.

Reminiscências álacres, reminiscências márcidas, reminiscências estranhas açodavam minha memória, cada dia mais fraca memória.

Subitamente ela entrou. Subitamente lançou sobre mim seu olhar, delicioso olhar e, como num passe de mágica, fez-se a mágica da regeneração completa do meu ser.

Nunca mais amargo chá. Nunca mais amargo boldo. Nunca mais amarga vida.


Diácope é uma figura de linguagem que consiste na repetição da mesma palavra em semelhante com a intercalaçao de outra. Do grego diakopé (corte)

2 comentários:

Taty disse...

Senti um gosto de boldo que terminou num saboroso chá de rosas.....Beijos

Arimar disse...

Se o estrago foi esse todo no esôfago, que dirá no estômago.
Ah Fábio, o estômago.
Pobre estômago !!!
Vou ficar aguardando o próximo texto com um pepsamar do lado.
Beijos