sábado, 21 de setembro de 2013

Prato do dia

Hermógenes sempre gostou de cozinhar. Não era um super chef do Cordon Bleu mas seus pratos sempre fizeram sucesso entre os parentes e os amigos.

Um dia, cansado de trabalhar para os outros, resolveu dar seu grito de independência e abrir o seu restaurante.

Não era um restaurante qualquer, Hermógenes não queria uma multidão de funcionários nem tinha a pretensão de enriquecer com o negócio. Para ele bastava fazer o que gostava e receber o suficiente para viver de forma confortável.

Seu restaurante tinha apenas 6 mesas e não tinha cardápio. Hermógenes se alternava entre o salão e a cozinha. Em cada um tinha um auxiliar para executar as tarefas mais operacionais.

O próprio Hermógenes atendia os clientes e, durante a conversa com eles, oferecia os pratos que mais se adequassem a necessidade de cada um.

O cliente está faminto? Hermógenes servia uma farta macarronada. Não tinha um estômago muito resistente? Servia a sopa do dia. Queria uma experiência gastronômica única? Hermógenes entregava pratos com a mais fina alquimia dos temperos.

Seu restaurante era bem frequentado. Construiu uma base de clientes fiéis e, esporadicamente apareciam novos clientes, geralmente indicados pelos habitués da casa.

Um dia apareceu um estranho. Sujeito elegante, pinta de bacana e aparência de muito dinheiro. Perguntou se aquele era o restaurante do Hermógenes, pois tinha sido muito bem recomendado a respeito.

Hermógenes, como de hábito, puxou papo com o cliente e procurou entender seus gostos e suas idiossincrasias antes de sugerir qualquer prato.

Ao fim da conversa, disse ao cliente que lhe traria torradas de alho carameladas de entrada, peito de pato ao molho marsala e mousse de tangerina com alecrim.

O comensal, literalmente, lambeu os beiços só de pensar nessa orgia gastronômica e aprovou toda a sugestão.

Hermógenes já estava a caminho da cozinha, quando uma moça chegou e sentou-se junto a seu novo cliente. Ele voltou e encontrou-os falando sobre os pratos.

A moça tinha adorarado a sugestão, mas disse que gostava muito de trufas negras e que a pessoa que recomendara o restaurante tinha dito para não perderem o maravilhoso tagliatele in nero de seppia que ele fazia..

Hermógenes concordou em trazer, além das torradas, o seu ovo poché tartufato, mas disse que o pato não iria funcionar bem com o nero di seppia, nesse caso seria melhor trocar o pato por um prato com salmão, ou comer o pato com o tagliatele branco na manteiga. Optaram pelo pato.

Quando já estava descascando o alho e preparando o caramelo, foi chamado de volta pela dupla. Tinha concluído que tudo aquilo seria muita comida só para os dois. Achavam melhor reduzir o volume de comida.

Hermógenes propôs trazer só uma entrada e trocar o pato pelo salmão, o que deixaria a refeição mais leve. Os dois optaram também por cancelar a sobremesa e tomarem só um café depois de comer.

Nesse meio tempo, o caramelo que estava no fogo, queimou, o que não era grave, pensou Hermógenes.

Minutos depois, já com o alho caramelado e as torradas quase prontas para irem ao forno, foi chamado de novo. A moça concordava com uma entrada só, mas fazia questão das trufas.

Contrariado, Hermógenes disse que ralaria um pouco das trufas nas torradas. Já ia voltar para cozinha quando o cliente disse que realmente tinha pensado melhor e que, apesar de ser mais pesado, preferia o pato. A moça olhou com olhos de pedinte e perguntou se não daria realmente para torcar o molho de marsala pelo nero di seppia.

Hermógenes suspirou... cliente sempre tem razão, ele pensou. Disse que tudo bem e voltou para a cozinha para encontrar as torradas queimadas no forno.

Hermógenes ainda estava tentando salvar sua sanidade quando o cumim entrou na cozinha e disse que o casal tinha pedido para ele trocar o alecrim da mousse que eles tinha cancelado por hortelã fresca. Foi a gota d´água.

O sempre solícito e simpático chef tinha atingido o seu limite.

Voltou ao salão. Entregou ao casal uma banana são tomé para cada um e indicou a porta da rua.

2 comentários:

Taty disse...

Palmas para a paciencia do Hermogenes...eu teria feito uma sopa de alecrim com hortelã e pato para jogar na cabeça do casal!

Fábio Adiron disse...

Eu acho que sua sugestão é uma excelente alternativa de final...