quarta-feira, 3 de abril de 2013

A calcinha da discórdia


Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória.

No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie.

Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer.

Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso.

Entrou no shopping, respirou fundo e começou a olhar as vitrines das lojas de lingerie.
Não sem corar a cada vitrine que via. Até que viu uma coleção de calcinhas de renda de diversas cores. 

Respirou mais fundo e entrou na loja. Pediu à primeira vendedora que encontrou uma calcinha de cada cor. 

Não contava que ela lhe perguntasse o tamanho que ele, obviamente, não sabia. Foi obrigado a ficar comparando o tamanho da vendedora ao de Amélie, o que foi o supra sumo do constrangimento.

Chegou em casa mais cedo. Colocou as calcinhas organizadamente sobre a cama e sentou-se para esperar a mulher.

Amélie estranhou sua presença em casa tão cedo. Ele se justificou dizendo que viera mais cedo para se preparar para o jantar de comemoração. Ela o beijou e foi se arrumar.

Os gritos não demoraram 20 segundos para começar:

" - Quem é a mulher brega que esteve nessa casa?!?"

" - Ninguém veio aqui meu amor..."

" - Seu mentiroso safado! Além de sair com outra mulher ainda foi arranjar uma de incrível mau gosto! "

Ele ainda tentou explicar que ele mesmo comprara o presente, mas não teve tempo.

" - Imagine só se Jerônimo Garcez alguma vez entrou, entra ou entrará numa loja de lingerie. Só pode ter chamado um "inha" para fazer isso com ele. Vergonhoso!"

Amélie arrancou a aliança, jogou em direção a Jerônimo e saiu batendo a porta.

Jerônimo não sabia se estava mais ofendido pela desconfiança da mulher ou pela sua crítica ao gosto dele.

Pegou as calcinhas. Jogou-as num balde com álcool e tocou fogo na renda.

E jurou a si mesmo que nunca mais entrava em loja nenhuma.

4 comentários:

Taty disse...

Aprendi uma lição: tomar cuidado com surpresas!

Fábio Adiron disse...

Nunca exagere na surpresa...risos

Anônimo disse...

Quadrado é um idiota multiplicado por si mesmo. ( Georges Najjar Jr )

Fábio Adiron disse...

Gostei da definição