sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O assassino do biotério


Para Lucila e seus roedores de estimação

Maria e João, professores da universidade, eram os responsáveis pelo biotério. Lá eram os encarregados de reproduzir e manter animais de laboratório destinados às pesquisas da instituição.

Apesar do asco de alguns colegas, especialmente aqueles que se dedicavam somente às plantas e levantavam argumentos éticos contra a pesquisa com animais.

João e Maria nutriam uma paixão pessoal pelos seus Rattus norvegicus.O nascimento de cada ninhada era uma festa. Mas nos últimos dias, o clima do laboratório era de luto e pavor.

Depois de várias manipulações eles já contavam com uma criação de mais de duas centenas de bichinhos e começaram a fase de desmame. Os primos do Mickey eram extremamente ativos e alegres. É verdade que, de vez em quando, alguém acabava deixando um ou outro escapar, e o local virava um verdadeiro caos de caça ao rato. Isso sem contar as eventuais mordidas, nada sério, tirando a dor momentânea, os roedores eram muito bem tratados e não transmitiam nenhuma doença.

Uma manhã, quando chegou ao biotério, João notou uma excitação anormal entre seus animais de estimação. Em várias gaiolas os bichos pulavam loucamente. Foi ver o que era. Encontrou sete deles mortos. Separou os corpos, o que acalmou um pouco as gaiolas, mas não acalmou João.
Não havia nenhum sinal de violência, nem de doença aparente. Maria chegou um pouco depois e começou a aventar hipóteses. Teria sido a temperatura ? Tinha sido uma noite mais fria. Providenciaram um aquecedor.

No dia seguinte, outros cinco estavam mortos. Também sem nenhum sinal. Maria começou a pegar os filhotes vivos para examinar. Reparou que pouco tinham da sua habitual vivacidade. Alguns salivavam e tinham os olhos lacrimejantes. As perspectivas eram ruins.

Naquela noite resolveram deixar o computador ligado com a webcam conectada. Não podiam pedir câmeras para a reitoria, improvisaram. Cada um na sua casa gravou os sinais da câmera. Nenhum movimento durante a noite toda, exceto os espasmos dos ratos. No dia seguinte tinham perdido mais uma dúzia de filhotes. Para agravar a situação as fêmeas pararam de reproduzir.

Chamaram um amigo veterinário para fazer uma necrópsia. Os ratos estavam sendo envenenados com algum anticolinesterásico que ele não conseguiu identificar.

Imaginaram que a ração pudesse estar contaminada, afinal os bichinhos só começavam a dar sinais de doença depois de desmamados. Pediram um exame num laboratório oficial. A ração tinha alguns problemas de qualidade, mas não tinha veneno. A água vinha direto de um filtro, mesmo assim também examinaram. Nada.

No final da semana, mais da metade dos animais tinha morrido. Foram obrigados a sacrificar os demais. Teriam de começar tudo do zero.

O que deixava os dois mais inconformados era o fato de que se não era um envenenamento acidental, que é que poderia estar fazendo isso ? Pensaram em algum aluno. Mas os que ajudavam no laboratório eram de confiança dos professores. Algum funcionário ? Talvez o seu Almeida que uma vez fora mordido por um dos fujões. Mas uma mordida não seria o suficiente para gerar tanto ódio.

Resolveram só pensar no assunto depois do fim-de-semana. Mesmo porque no domingo teriam o churrasco dos professores na casa de campo de Adelaide, uma das colegas da botânica que se opunha as pesquisas com animais, não queriam dar a ela o gosto de saborear esse desastre.

Durante a festa tentaram disfarçar o desânimo. Apesar do assunto ser de conhecimento de toda a faculdade ninguém tocou no assunto. Nem os opositores.

Depois do café Adelaide convidou os colegas para conhecerem as suas estufas. Passaram de uma em uma ouvindo a respeito de rubiáceas, a especialidade da colega. Uma das estufas era o orgulho de Adelaide, era a sua plantação de espécies de Guettardas, flores belíssimas de várias cores. Nesse momento João coçou a cabeça e, sem querer, balbuciou algumas palavras que Maria não entendeu. Ele disse que não era nada.

Quando chegou em casa João foi procurar seus livros dos tempos da graduação. Desde que se formara, nunca mais se interessou por botânica, seu negócios eram os bichos. Os livros estavam encaixotados. Cada um que ele pegava olhava o índice para ver se achava o que queria. Arrancou uma página que lhe interessava e sorriu. Chegara o momento da vingança.

No dia seguinte chegou cedo à faculdade e foi direto para a sala do diretor. Pediu que chamasse uma reunião com todos os professores, ele tinha informações importantes sobre um crime que afetava a todos. As aulas foram suspensas e todos chamados ao auditório. Maria perguntou o que é que ele tinha descoberto. Ele pediu que ela aguardasse. No auditório todos olhavam com um misto de medo e curiosidade. João falou :

"- Como todos os colegas sabem, perdemos todos os ratos do biotério que foram dizimados por algum veneno de origem desconhecida. Apesar de termos conduzido todas as investigações sobre as fontes alimentares nenhum traço de veneno foi encontrado. Concluímos que o envenenamento não foi acidental, mas não conseguímos descobrir nenhuma prova."

Os professores se olharam com um ar de menosprezo, como se dissessem, se não achou provas, para que nos trouxe aqui ?

"- Até ontem ! - continuou João - ontem, durante o nosso churrasco de final de ano eu descobri como é que os ratos foram envenenados. E o assassino está nesta sala !"

A agitação foi geral. Alguns gritavam com João dizendo que aquilo era um absurdo, todos falavam com todos. O diretor teve de gritar pedindo silêncio. João continuou.

" - Como os senhores e as senhoras sabem, os ratos foram vítimas de um anticolinesterásico. O que não sabem é que essa toxina foi produzida aqui na faculdade. Mais especificamente no laboratório de botânica ! "

Um silêncio profundo tomou o auditório. Só foi cortado pelo grito de Adelaide :

" - Desgraçado ! Você não tem respeito pelo sofrimento que todos os seres são capazes de ter ! Viva a libertação animal !" e tentou sair do auditório, mas foi barrada pelos seguranças.

" - Colegas - continuou João - a Profa. Adelaide é a responsável pela chacina do biotério. Ontem quando vi sua coleção de Guettardas me lembrei que tinha ouvido algo a respeito das mesmas nas aulas de botânica da graduação onde, por sinal, fui aluno da professora. Encontrei meu velho livro de farmacobotânica onde achei que algumas espécies medicinais de rubiáceas frequentemente causam intoxicações pois grande parte dessa família é tóxica. Uma delas tem um teor tão alto de anticolinesterásico que é chamada de erva-de-rato. Também descobri que esse foi o tema da tese de doutorado da assassina.."

"- Mas como é que ela fez isso ? " perguntou um dos professores

" - Muito simples, a serragem que usamos nas gaiolas vem do departamento de botânica, que mistura folhas secas na mesma. Só que a única folha usada era da erva-de-rato..."

No dia seguinte o diretor da faculdade soltou um comunicado de esclarecimento a todos e condenou a professora raticida a trabalhar 4 horas por semana no biotério. Sem luvas.

5 comentários:

Lucila disse...

Fora a quantidade de analgésicos que a professora precisou tomar para resolver a enxaqueca crônica que ela desenvolveu!!!
Bjos sem ratos (já que vc faz parte do grupo dos que têm asco).

Vilma disse...

O rato roeu a roupa da rainha rude, a rainha raivosa roeu o rato e ficou sem luvas...

Juliana disse...

Nada contra os rodentes, mas que fiquem longe de mim. Sou mais as flores.

Arimar disse...

Lições aprendidas com nosso Fábio Chinês, digo sábio chinês.
"Cuidado com as churrascadas que andas participando, podes descobrir coisas terríveis"...

Rubinho Osório disse...

Protesto, humildemente, contra a penalidade imposta. Muito leve. Deveria, a criminosa, ser condenada a deitar-se na cama que preparou, por assim dizer.
Tadinho dos ratinhos!!!