sábado, 22 de novembro de 2008

Ao infinito, e além

Dizem os italianos que "traduttori traditori" - Tradução é traição. Traduzir decassílabos da língua que me acusa de traição é muita petulância : vindo de um insano, tudo é possível.

Considerando que o poeta era, ele mesmo, um exímio tradutor/traidor, tenho certeza que não virá me puxar os pés à noite.


O infinito



Sempre querido foi o ermo monte
Este arbusto, que de todas as partes
Do último horizonte, levo aos olhos
Sentado, olhando, infindável espaço
além dela, sobrehumano silêncio
Em calma e paz profunda quietude
Finjo que penso, por muito pouco*
Não me para o coração. Com o vento
Ouvindo o murmurar triste das folhas
De infinito silêncio vem a voz
Tudo comparo, vejo a eternidade
Mortas estações. Viva, esta presente,
com os seus ruídos. Face à imensidão
meu pensamento suavemente afunda
É doce naufragar neste oceano.

Versão original

L'infinito
Giacomo Leopardi

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare

4 comentários:

Lou Mello disse...

Não tenho como julgar o trabalho de tradução/traição. Algumas vezes (raras) servi de interprete para gringos e fiz um trabalho digno de um traidor, especialmente quando o cara dizia coisas com as quais discordava. Agora, a foto é ótima e o texto, em bom português, idem.

Fábio Adiron disse...

Lou : a foto é mais uma da maravilhosa oficina do Francisco Brennand em Recife.

Juliana disse...

Leopardi é grandioso. Muito além do infinito.

Vilma disse...

Entre traídos e traidores, melhor ficar com os dois...