terça-feira, 30 de setembro de 2014

Corredor de ônibus


Mariana morava no Grajaú e todos os dias acordava às 5 da manhã para ir trabalhar num escritório de contabilidade na Libero Badaró onde estava há mais de três anos.

A viagem de ida não costumava ser muito sofrida, mas a de volta era uma tortura. Mesmo quando saía pontualmente às 18h não chegava em casa antes das 21h.

O trajeto incluía uma pequena caminhada até a praça do Correio onde embarcava, às duras custas, no 5317. Uma viagem de quase 33 km e depois mais um trecho à pé até a estrada do Capoeira, onde tinha a sua casinha com Horácio.

Os dois estavam juntos há cinco anos. Ela o conhecera numa festa de bairro e, não pouco tempo depois juntaram os trapos e as panelas.

Horácio era um sujeito trabalhador e carinhoso. Tinha uma oficina de motos na Teotônio para onde ia e voltava de casa caminhando. Não acordava tão cedo quanto Mariana e, como sempre chegava em casa antes dela, preparava o jantar para a companheira exausta do dia de trabalho e da jornada de ônibus.

Todo dia, quando chegava em casa, Mariana encontrava Horácio já de banho tomado e no fogão. Algumas vezes estava tão cansada que nem chegava a jantar. Ele a entendia.

A vida de Mariana era tranquila. Gostava do trabalho e era feliz em casa. As horas de viagem de ônibus eram apenas um detalhe desagradável com o qual ela aprendera a conviver.

Até o dia em que foi inaugurada a faixa exclusiva de ônibus no corredor norte-sul.

Como todos os dias, ela saiu do trabalho, caminhou até o ponto de ônibus que, para sua surpresa, estava menos lotado que de costume. Mais surpresa ainda ficou quando seu ônibus chegou em 5 minutos e ela conseguiu embarcar sem ficar com a sensação de sardinha na lata.

Mais surpresas ainda estavam por vir.

Em menos de quinze minutos já estava no Campo Belo. Em seguida ela avistou o Borba Gato. A viagem não tinha ainda uma hora e ela já deixara o autódromo de Interlagos para trás. Parecia um sonho.

Ficou com vontade de voltar para o centro e dar um beijo no prefeito que implantara os corredores de ônibus. Até pagaria os 20 centavos a mais na tarifa.

Não passava muito das 19h30 quando Mariana apertou o botão para o ônibus parar no seu ponto.

Começou a fazer planos. Iria surpreender Horácio e, quando ele chegasse do trabalho iria encontrar a janta pronta. Só ficou frustrada ao ver que as luzes da casa estavam acesas e que não conseguiria fazer esse mimo para o companheiro.

Abriu a porta. No sofá da sala, completamente nus estavam Horácio e Adriana, a vizinha que morava na casa da frente.

Nem ouviu o que Horácio tentou dizer. Virou as costas, voltou para o ponto de ônibus e embarcou, sem destino, no primeiro que passou.

E jurou que nunca mais votava naquele prefeito.

4 comentários:

Taty disse...

É, nem tudo que reluz é ouro!!! Beijos

Marcos Ribeiro disse...

Muito boa crônica . Pode ser realista mas comove !

Ki disse...

Maior mobilidade urbana, gerando boas relações...um dia ela irá agradecer...

Anônimo disse...

Que pena... Mariana até podia ter participado da brincadeira com Horácio e Adriana... rsrsrsrsrs, além de surpreender ela iria relaxar e gozar, como recomendam alguns políticos