domingo, 28 de setembro de 2014

Insana convidada* - A montanha negra


 
Estamos indo para a nossa nova casa.
Minha mãe esteve procurando, por muito tempo, uma casa qualquer em Santinas, cidade da vovó. Mas nunca encontrava uma casa decente.
Um dia qualquer do mês passado, ela recebeu um e-mail da imobiliária. Nele dizia:
“Olá Srta. Marcia.
Sei que está procurando uma casa em Santinas. Infelizmente todas as casas estão ocupadas.
Porem temos uma proposta.
Foi desocupada na semana passada a casa dos Jacobs.
A filha deles desapareceu há aproximadamente um ano. Então voltaram à cidade natal.
Essa casa que lhe oferecemos fica na Montanha Negra. Um lugarzinho meio frio, com neblina, mas apenas 12km de distância de Santinas.
A estrada é asfaltada e muito acessível.
Segue uma foto da casa...
Atenciosamente                   - Fabiana. “
A casa tinha uma aparência estranha. Moderna e antiga ao mesmo tempo. Solitária no meio da montanha, sinistra.
Diferente de mim, minha mãe achou a casa perfeita, um luxo. (Vai entender).
Naquele mesmo dia:
- Mirella, comprei aquela casa na montanha. Partiremos em um mês.
- Para tudo! Como assim?
- Sim filha, vai se despedindo e arrumando as coisas, deixe as que você mais usa por último. Não esqueça dos quadros!
- Mas já? Está muito cedo!
-Filha. Sua vó precisa de nós por perto. Quanto mais cedo, melhor.
Está bom. Não gostei da notícia. Na real, odiei.
Eu concordava com minha mãe. Agora que meu avô morreu e minha vó ficou sozinha, precisamos estar por perto caso ela tenha uma emergência.
Eu sabia que o dia da mudança ia chegar, isso era inevitável. Mas tudo aconteceu rápido, e um mês não é o suficiente para eu me desapegar da “vida” que tenho aqui.
Enfim.
Um mês depois e aqui estamos, no carro, com um caminhão de mudança atrás de nós, no meio da estrada.
- Chegamos Mi.
Estava lendo meu livro, com os fones de ouvido (nem prestei atenção no caminho) e pensei “droga”.
Saindo do carro me estiquei, olhei para tudo que havia em volta da casa, arvores altas que cobriam minha visão para o céu, um riacho, e um caminho de pedras indicava o caminho para a entrada da casa.
- Onde vai ser o meu quarto? – Perguntei – Quero guardar logo minhas coisas.
- No andar de cima tem 4 suítes, escolha uma! – disse minha mãe, mais preocupada nos vasos de porcelana do que em mim, (novidade).
“Quatro suítes?” “Tudo isso?” “Caramba!”
Subi as longas escadas de madeira, que rangiam a cada passo que eu dava. Cheguei ao andar de cima.
O lugar era moderninho. Os papeis de parede aparentemente novos. No corredor paredes pretas, realmente escuras, o carpete também era preto, e as portas cor de aço.
Visitei a primeira suíte. Era toda azul, mas não aquele azul fofo que se pinta em quarto de bebê, um azul noite, escuro, sombrio até. Havia um beliche ali. Adivinha a cor? Preto. “Não, esse não vai ser meu quarto”.
No próximo, a decoração era pior. Tinha um papel de parede vermelho cor de sangue e em uma das paredes estava escrita alguma frase suicida de um famoso. Achei estranho a ideia de ter uma frase suicida para decorar o quarto, mas como dizia meu avô: Cada louco com suas loucuras. E definitivamente, algum louco morava ali.
Por curiosidade peguei meu laptop de dentro da caixa, sentei no chão mesmo, e pesquisei no Google: FAMILIA JACOBS.
As primeiras notícias que apareciam eram sobre o desaparecimento de Mandy, uma das filhas de Martin e Amanda Jacobs. Nas notícias mais antigas aparecia FAMILIA JACOBS, O MAIOR PROBLEMA DA CIDADE, fiquei curiosa e cliquei na notícia.
Família Jacobs, O maior problema da cidade
Como a cidade inteira sabe, a família Jacobs se mudou para o monte Negro.
Mas quem são essas pessoas? Por que construíram uma casa no monte?
Fui visita-los, e logo me deparei com Amanda, obviamente a dona da casa.
(Havia uma foto no fim da publicação, logo identifiquei Amanda. Uma mulher alta, magra e com cara meio pálida, batom vermelho bem “liquido” e uma sombra preta nos olhos. Bonita, sem exagerar. Sua roupa era elegante, um vestido longo cor de rubi, e um casaco de pele preto sobre os ombros)
Ela me convidou para entrar. E chamou a família para vir cumprimentar-me.
Martin, o chefe da casa, um bom empresário (de acordo com ele), estava no escritório. E as quatro crianças desciam correndo pelas escadas.
Rápido e educadamente me cumprimentaram. Primeiro o mais velho Edmundo, 17 anos, ele ficou me encarando por algum tempo, não disse nenhuma palavra. Apertou a minha mão e se retirou. Observei ele subir as escadas... última porta à direita, será lá o seu quarto?
Sim! O quarto azul com o beliche preto. Só podia ser de um “carinha” mais velho.
Fui ver a foto. Parei diante dela sem acreditar. Ele era muito lindo. Uma mistura de Zac Efron (Alto e musculoso) e Chay Suede (estranho, mas sim.). Estava de jeans e uma blusa de manga comprida da mesma cor que o quarto. Seu cabelo era estranhamente simétrico. Porém não sorria. Assim como ninguém na foto, apenas uma menina loirinha, no canto.
 Logo em seguida Hallana, 16 anos, ela me cumprimentou com um sorriso falso obviamente. –Como vai a vida? – Perguntei educadamente.
- Se a vida fosse tão boa não existiriam suicidas.
Sim! Sim! Sim! A Frase suicida. Olhei para a parede ao meu lado. Exatamente a mesma frase, esse era o quarto de Hallana. Uau. Não sabia o que fazer, sei lá, surgiu uma empolgação.
Abri mais uma aba no Google. Pesquisei Hallana Jacobs. No primeiro artigo falava que ela era acusada de sumir ou até matar a irmã. Mas ela foi liberada. Logo depois, tentou se matar e hoje está internada no Hospital de Suicidas de Maralim (HSM).  “Caramba! Que família”
Ela respondeu e logo foi para o seu quarto, primeira porta à direita. Quarto vermelho. Tentei não demonstrar o pouco de medo que já estava sentindo. Quando Amanda falou pra Gorge me cumprimentar ele me encarou. Queria estar ali tanto quanto eu. Mas de qualquer maneira Gorge, 14 anos, me cumprimentou. Falou que estava feliz pela visita mas que ia se retirar, pois estava jogando videogame. Me desculpei por tê-lo interrompido, mas ele deu de ombros.
Já podia imaginar a última filha deles, provavelmente mais uma psicopata, que me falaria coisas sobre morte, ou decapitação de bonecas. Mas ai, surgiu envergonhadamente, atrás de seu pai (que finalmente saíra do escritório) uma menina loira de cabelos compridos, vestido rosa estampado, e com muita alegria. Ela não parecia filha deles. Era tão diferente.
Essa deve ser a Mandy. A filha desaparecida. E a menina sorridente no canto da foto.
Tive que desligar o computador, além da bateria estar fraca ainda tinha que escolher o meu quarto.
Fui ver o quarto de Gorge. Nem entrei. A cor me dava nojo.
As paredes do quarto eram verdes escuro tipo musgo. Na janela, alguns adesivos sobre videogames famosos. Muitos daqueles de morte ou de bruxas. Os poucos moveis que tinham naquele quarto eram brancos. Todos limpos como se nunca tivessem sido usados.
Fui correndo para o último quarto. Teria que ser aquele. “Por favor Mandy, tenha bom gosto”.
A porta era cor de chumbo como as outras, mas estava cheia de adesivos de bandas de rock. Algumas que eu amava, outras que nem conhecia. Ao abri-la me surpreendi. O quarto era lilás, com alguns adesivos também nas paredes. Os moveis eram brancos, e cheios de espelhos e brilhos. No teto estavam escritas letras de músicas, de bandas bem famosas, como os Beatles, Pink Floyd, e Nirvana.
- Uau! Agora sim um quarto decente.
- Vai ficar com esse ai filha? – Pergunto minha mãe enquanto subia as escadas – Suas caixas estão lá embaixo, pode começar a subi-las.
- Tá mãe. Já vai.
Subi as caixas rapidinho, não via a hora de montar meu quarto ali.
Soquei todas as roupas no armário, e os livros da nova escola deixei nas prateleiras de cima. Arrumei minha coleção de cd´s em uma das prateleiras brancas perto da janela.
Coloquei o computador, o porta lápis, e algumas revistas que comprei no caminho em cima da mesinha. Fiz a minha cama com lençóis preto e branco, e coloquei as pelúcias. Em menos de uma hora meu quarto estava pronto. Ou quase.
Liguei a TV, e fiquei assistindo a tarde inteira.
- Filha?  - Minha mãe entrou no quarto – Seu jantar! – Oba! Macarrão.
- Obrigada.
- Vou passar a noite lá na casa da vovó. Você vem junto?
- Ah não. Valeu. Vou ficar aqui assistindo American Next Top Model, tá muito legal.
- Então ta bom. Depois quero saber o que acontece. Tchau!
- Tchau Mãe!
Eu tomei um banho bem quentinho, coloquei o meu pijama, liguei a televisão, e comecei a jantar.
Na TV estava passando Cake Boss. Adoro aquele programa, é cheio de ideia surreais.
A luz deu umas piscadas. Casa velha né... fazer o que.
De repente escutei um barulho, e logo em seguida a luz acabou.
- Droga! Cadê o meu celular?
- Não, você não precisa dele agora.
- É claro que eu preciso. Vou ligar para minha mãe vir me buscar.
Espera aí.
- Quem é você? – Perguntei espantada.
- Eu? Ah... você não precisa saber disso.
- SOCORRO!! – Eu disse esperando que alguém viesse me ajudar.
- Não vai adiantar gritar. – ela disse rindo – Ninguém te escuta quando se está no meio do nada. – Deu um sorriso e começou a mexer na mesa.
O que eu ia fazer agora? Fugir não era uma opção, por que não havia pra onde ir. Gritar também não ia funcionar. E ela já tinha pego meu celular. Droga!
- Eu vi quando você chegou – disse ela sentando na minha cama – Finalmente alguém veio morar aqui. A casa estava meio abandonada sabe?
- Afinal. Quem é você?
- Você sabe quem eu sou. – Disse ela abrindo o meu computador. – Você sabe de quase tudo na verdade.
- Eu? – Disse.
- Sim. – Ela abre na internet.
Ao ver a tela do meu computador sendo ocupada por aquele blog antigo, entendi quem era aquela desconhecida no meu quarto.
- Então... Você é....
- Sim. “A filha desaparecida” – Disse ela em tom irônico.
- O que você está fazendo aqui? Por que está escondida? Sua família está te procurando.
- É. Eu tenho os meus motivos para sumir.
Eu não disse nada. Não queria ser intrometida. Mas ela continuou.
- Eu era feliz. Mas nem tudo que é bom dura pra sempre.
Ela se levanta.
- Nunca me senti da família. Por que afinal, eu não sou mesmo. – ela olha pra mim – Minha mãe foi morta em um acidente de carro. Eu saí daquela cidade, e ninguém sentiu minha falta. Porém, alguns meses depois, Amanda me encontrou em um parque. Me adotou, e foi muito generosa comigo. Era a mãe perfeita, até se casar. Então eles vieram morar com a gente. Eduardo então se tornou em um monstro. Dava ordens e batia em nós. A casa se tornou triste e obscura. Então resolvemos nos mudar para o Monte.
Eu estava quieta. Olhando para ela.
- O lugar perfeito para pessoas estranhas, não havia vizinhos, e nem movimento. Eu não sei o que aconteceu, mas minha mãe ficou tão séria e depressiva, começou a parecer com a família.
Um dia qualquer, enquanto eu colava os adesivos o teto. Descobri aquela passagem – Ai então, aponta para o buraco no teto pelo qual entrara. – Comecei a andar lá por cima. E descobri que poderia me levar para qualquer lugar da casa. Mas essa minha descoberta não valeu a pena. Descobri o que eles iriam fazer.
- Temos que matá-la papai! Ela não se parece conosco. Ela não é uma de nós. – Disse Gorge
- Nem filha da Amanda ela é! – Hallana disse, com tom superior.
- Concordo com os dois. Mas não será fácil nos livrarmos da Mandy, sem Amanda saber. – Eduardo disse analisando a situação.
- Então vamos matar Amanda também! – Edmundo gritou
- Não posso. – Disse Eduardo. – Amanda não.
- Vamos envenena-la. Assim, ninguém saberá. – Gorge deu a ideia.
- Sim sim. – Hallana bate palmas. – Amanhã pela manhã.
- Amanhã. – Disse Eduardo logo depois de acender seu cigarro.
Não podia acreditar. Eles tentaram matar Mandy?
- Então eu escrevi um bilhete dizendo que ia procurar minha família biológica. E que poderia demorar para voltar. E então com um pouco de comida, me mudei para sótão. 
Então. Tinha uma menina escondida no sótão por que os pais queriam matá-la. Legal... mas eu não podia ficar sem contar isso para alguém.
- Agora que você sabe de tudo. – Ela pegou um salgadinho da minha mesa. – Obrigada.
Não deu instantes eu já não via mais ela.
Subi no sótão e nada encontrei, apenas algumas teias de aranha, e uns moveis velhos da antiga família. Nenhum sinal de vida. De repente escuto a porta do sótão bater. E atrás dela havia escrito Ela está morta.
 Não acreditei, eu tinha visto alguém no meu quarto, tinha que ter alguma coisa naquele sótão.
- Desculpa, está procurando a Mandy? – disse uma voz masculina atrás de mim – Esquece. Ela se foi.
Me virei calmamente e vi Gorge, um dos irmãos, e atrás dele Mandy, morta. Não deu tempo de perguntar o que tinha acontecido. Gorge estalou os dedos e desapareceu.
- Só me faltava essa... Bruxos.
 
*Texto de Letícia Ribeiro, escrito originalmente para um trabalho escolar

3 comentários:

Kiki disse...

Lele!! Que delícia de texto! Suspense com elementos de terror e com pitadas do humor "a la Leticia". Muito bom...
Que legal Fabio...o exemplo e a genética, misturados com as características próprias da Lele, já apontam que a menina continuará os caminhos "insanos" e criativos do papai...beijos

crisjorge disse...

Amei de paixão, muito bem escrito e não consegui parar de ler até acabar, esta história dá um bom livro.
Beijos

Taty disse...

Viajei na casa e nos quartos...a imaginação fértil da Leticia acordou a minha! Ela será convidada de novo?