Cenas reais de um presente distópico



Há uma promoção que o século XXI oferece sem anunciar: compre um pesadelo e leve outro de graça. O cliente nem percebe a oferta, porque ela não é feita no balcão, é feita no bolso, no feed, no pulso, na recomendação que aparece antes de você saber que queria alguma coisa.

Fábio Betti, num texto recente sobre George Orwell e Aldous Huxley, resume com precisão o que cada um dos dois conseguiu fazer ao leitor incauto: Orwell assustou pela brutalidade declarada, pela bota que pisa o rosto sem pedir licença; Huxley assustou de modo mais refinado, pelo prazer que adormece sem deixar marca. O que Betti nota, e que me parece o ponto central, é a suspeita que já rondava a geração dele: "o futuro talvez não escolhesse entre os dois, e fosse capaz de costurar a bota de Orwell ao sorriso de Huxley num mesmo e único tecido." (Fabio Betti, Diálogo transtemporal — George Orwell e Aldous Huxley, Substack, 26 jun. 2026.)

O futuro não escolheu. O futuro terceirizou.

Você paga para ser vigiado

Em 2019, Shoshana Zuboff publicou A era do capitalismo de vigilância e teve o trabalho de explicar, em mais de 700 páginas, o que qualquer pessoa com um smartphone já vivia na pele sem nome para colocar. O argumento central é simples na crueldade: as plataformas digitais não vendem produtos a você; elas vendem você, mais precisamente, a predição do seu comportamento  a quem paga para influenciá-lo. (Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism, PublicAffairs, 2019.)

Orwell imaginou a teletela como instrumento de Estado: um aparelho que vigiava porque o Partido mandava instalar e ninguém ousava recusar. A versão contemporânea é mais elegante. O aparelho, você compra. Você atualiza o sistema operacional quando o fabricante pede. Você aceita os termos de uso sem ler (você mesmo que está lendo esse texto, já leu algum?) e entrega, de bom grado, a localização, os contatos, o histórico de navegação, o ritmo cardíaco, as horas de sono e, se usar o microfone liberado, boa parte das conversas de mesa de jantar. O Grande Irmão do século XXI não precisou de decreto. Precisou de um plano de dados razoável e de câmera boa.

Zuboff chama esse processo de "modificação comportamental em escala": não basta registrar o que você faz; a arquitetura da plataforma é projetada para que você faça o que é mais rentável para ela. O feed não reflete seus interesses — ele os fabrica, calibrando-os para maximizar o tempo que você passa conectado. A Novilíngua de Orwell encolhia o vocabulário para estreitar o pensamento. O algoritmo contemporâneo não estreita o vocabulário: estreita o campo de visão, e faz isso com tanta suavidade que você sente estar, pelo contrário, mais informado do que nunca.

A felicidade não custa nada e cobra tudo

Do lado de Huxley, o negócio é ainda mais refinado. O soma do Admirável Mundo Novo era uma droga de Estado: distribuída, regulada, administrada para manter o cidadão num estado de contentamento que não perturbasse a ordem. A versão atual não precisa de governo. Ela tem notificação.

A indústria de autoajuda (cursos, podcasts, aplicativos de meditação, conteúdo motivacional, coaches de toda espécie e de nenhuma espécie) fatura dezenas de bilhões de dólares por ano prometendo o que Huxley descreveu como a tragédia central do seu mundo novo: a felicidade como estado permanente, acessível, democrático e, acima de tudo, conveniente. O sofrimento é enquadrado como falha pessoal. A angústia é um problema de mindset. O fracasso é falta de disciplina (os neo-estoicos que o digam), não de estrutura. E se nada disso funcionar, há o próximo curso, o próximo método, a próxima promessa de que desta vez, com o comprometimento certo, a transformação vem.

No diálogo imaginado por Betti, o Huxley construído com auxílio de inteligência artificial diz que "a mais completa das servidões é precisamente aquela que se experimenta como liberdade, e que nos chega, ainda por cima, embrulhada em felicidade." (Fabio Betti, op. cit.) A autoajuda não é exatamente isso, mas chega perto com espantosa eficiência: vende a servidão à produtividade como realização pessoal, a servidão à positividade como saúde mental, e a servidão ao consumo como autocuidado. Você não está sendo explorado. Você está investindo em si mesmo.

O mais irônico e, talvez, o mais huxleyano, é que boa parte desse conteúdo é consumido voluntariamente, com entusiasmo, às vezes com gratidão. Ninguém proibiu os livros: ninguém quer lê-los. Ninguém escondeu a verdade: basta que ela seja menos estimulante do que o próximo vídeo.

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O que torna o presente singular não é a vigilância, nem a promessa de felicidade. É a combinação dos dois, operando em camadas que se reforçam.

A plataforma sabe que você está ansioso porque monitorou seu padrão de sono, seu histórico de busca às três da manhã e o tempo que você passou olhando para postagens sobre síndrome do impostor. Com esse dado, ela entrega, na hora certa, o anúncio do curso de autoconhecimento, o podcast sobre produtividade ou o retiro de meditação com parcelas sem juros. A vigilância alimenta o mercado de felicidade. O mercado de felicidade justifica a vigilância: afinal, como a plataforma te conhecesse tão bem se não fosse para te ajudar?

O Orwell de Betti, interrogado sobre a técnica, adverte: "a pior das correntes é justamente aquela que a gente não sente no pulso." (Fabio Betti, op. cit.) É uma descrição muito precisa. A corrente não pesa porque ela foi desenhada como acessório. Tem boa interface. Tem modo escuro. Tem opção de personalização.

O Huxley do mesmo diálogo vai um passo além e toca no ponto que me parece mais difícil de encarar: "o que declina, entre os senhores, não é a liberdade; é o desejo dela." (Fabio Betti, op. cit.) Uma tirania que precise de muros ainda deixa evidente que há algo do lado de fora. A tirania que funciona é aquela em que ninguém, de fato, quer sair, porque do lado de dentro há wi-fi, entrega rápida e uma lista de reprodução que sempre sabe o que você quer ouvir antes de você saber.

O que Orwell e Huxley fariam com um smartphone?

A resposta provável é que nenhum dos dois teria um. Mas como os dois já estão mortos e não têm direito a voto sobre o próprio aparelho, a pergunta útil é outra: o que cada um veria nessa combinação?

Orwell veria a estrutura de poder com a nitidez que sempre teve. Ele notaria que os dados não são coletados por acidente, que os algoritmos não são neutros e que a assimetria entre quem sabe tudo e quem não sabe nada sobre o próprio rastro digital é exatamente a assimetria que, em qualquer sistema político, define quem manda. Ele também notaria, com a ironia seca que lhe era característica, que as pessoas que mais falam em privacidade são as que menos mudam de comportamento, e que isso não é hipocrisia mas a evidência de que o custo de sair do sistema superou, para a maioria, qualquer benefício imaginável de estar fora dele.

Huxley veria a perfeição do mecanismo com o desconforto de quem reconhece a própria criação em forma de produto. Ele notaria que o soma digital tem uma vantagem sobre o original: não precisa ser distribuído pelo Estado, porque as pessoas o compram, o assinam em planos mensais e reclamam quando o servidor cai. E ele provavelmente diria, com o mesmo sorriso semicerrado que Betti lhe empresta no diálogo, que o maior prodígio não é a máquina que vigia ou a que distrai, mas a que consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo enquanto o usuário a chama de "minha".

Sobre o dever de estar desperto

Betti encerra seu texto com a palavra que ficou suspensa no ar entre os dois escritores imaginados: dever. Não esperança fácil, não otimismo de palco, mas dever. O Orwell do diálogo diz que se resiste "não porque tem certeza de vencer, mas porque é a coisa certa a fazer." (Fabio Betti, op. cit.) O Huxley diz que "a barbárie pode ganhar cem batalhas; mas, enquanto uma única alma for capaz de acordar, a partida não está encerrada." (Fabio Betti, op. cit.)

Nenhum dos dois, nem mesmo no diálogo imaginário, oferece consolo. E é exatamente isso que os torna úteis.

O presente distópico não vai se desfazer porque alguém escreveu sobre ele, nem porque dois escritores mortos há décadas foram ressuscitados numa conversa com auxílio de inteligência artificial, o que não deixa de ser uma ironia que Betti registra com honestidade exemplar. Ele vai persistir enquanto a combinação entre vigilância e promessa de felicidade for mais cômoda do que a alternativa: pensar, desconfiar, suportar o desconforto de estar, mesmo que por um instante, fora do feed.

Zuboff argumenta que o capitalismo de vigilância "representa uma lógica econômica que instrumentaliza a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, predição e vendas." (Shoshana Zuboff, op. cit.) É uma frase longa. Para fins práticos, ela significa que você não é o cliente. Você é o produto. E o produto, em geral, não sabe disso.

Orwell queria que disséssemos que dois e dois são quatro. Huxley queria que déssemos ao homem o direito de ser infeliz. A indústria digital quer que sejamos quatro mais quatro e que nos sintamos ótimos com isso.

A oferta é boa. O problema é o que está escrito no verso da embalagem, naquela letra que ninguém lê.

Imagem: montagem original do artigo de Fábio Betti no Substack

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