terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amarradona

Marilda olhou para a placa presa no poste e achou que não custava muito arriscar. Amarração para o amor, dizia, efeitos garantidos. 200 reais.

Há tempos que ficava com Antonio, mas nada dele pensar num namoro mais firme, pelo contrário, o rapaz era um mulherengo que trocava de companhia todas as semanas.

Marilda queria casar antes dos 30 e o prazo estava correndo rapidamente. Ligou para o amarrador.

Dois dias depois estava no consultório do mágico do amor levando o que ele pedira. Uma foto de Antonio, uma folha qualquer onde estivesse sua caligrafia, uma lista de gostos e preferências e seu endereço.

Explicaram que o trabalho demoraria alguns dias para surtir efeito e que ela poderia deixar um cheque pré-datado, se em um mês não acontecesse nada poderia sustar o cheque.

O mágico era dos bons e menos de uma semana depois Antonio apareceu com uma caixa de bombons e pediu Marilda em namoro. Ela ligou para o consultório dizendo que podiam antecipar o depósito do cheque.

Além de arranjar um namorado, Marilda ainda ficou famosa por ter colocado Antonio na linha. Todos perguntavam o que ela teria de tão bom para fazer o Don Juan largar a vida pregressa.

O que Marilda não esperava era conhecer José, um novo colega de trabalho, e se apaixonar perdidamente por ele. Pior, saber que José também se apaixonara por ela.

O problema é que Antonio estava amarrado e ela era a culpada pela situação. Como resolver a questão sem ferir os sentimentos do menino? Ligou para o bruxo, precisava urgente de uma desamarração.

Não acreditou quando ele disse que não existia desamarração. Uma vez feito o serviço, os efeitos eram irreversíveis. Ela chorou, pediu, implorou e nada. Até o momento que disse que estava disposta a pagar qualquer preço para resolver a situação.

O amarrador disse que ia ver o que podia fazer e ligava depois. Ela esperou dias até que ele desse sinal de vida.

Quando finalmente ligou, disse que tinha encontrado um outro mágico que poderia fazer o serviço, mas que ia custar muito caro. Ela nem discutiu preço e pagou os 5 mil que ele pedia.

Passou-se uma semana e nada. Antonio parecia ainda mais apaixonado. Duas. Três. Nada.

Até que um dia ele chegou e disse que precisava conversar com ela. Concluíra que o que ele queria mesmo era viver livre, leve e solto. Ela fingiu tristeza, mas comemorou por dentro.

Ligou na mesma hora para José para dizer que estava livre e desimpedida. Ele não estava em casa, a mãe dele disse que tinha ido comer uma pizza com amigos.

Marilda sabia que pizzaria era e foi imediatamente para lá, não podia esperar para contar as novidades. Chegou na porta, olhou para o salão e viu José sentado no fundo com mais dois homens que estavam de costas. Os três riam muito.

Conforme se aproximou reconheceu Antonio e o amarrador e, sobre a mesa, três maços de dinheiro. Virou as costas e saiu chorando.

O corpo foi encontrado boiando no Tietê, todo amarrado.

10 comentários:

Raquel disse...

...eu tô aqui matutando...qual deles,colocou o anúncio no poste...
bobinha...precisava se amarrar,pra morrer?Bastava pular no Tietê.

Que bom que voltou Fábio!!! Eu já tava ficando louca de ler tanta coisa "normal".

Lou Mello disse...

Em minha opinião, ela deveria fazer o sinal da cruz três vezes, molhando a ponta dos dedos na água do rio Tietê, antes de cada uma, talvez isso fosse suficiente para realizar seu intento.

Também acho que você não deveria mencionar sua "ausência". Poderia tratar como uma longa viagem ao Tibet para refletir ou uma missão especial ao Afeganistão, enfim, um desses eufemismos que os escritores utilizam no lugar de durezas da vida não previstas.

Welcome back!

clau disse...

Uau, super...!
Olha que esta sua "amarraçao" toda dava até que um bom "script".
Bentornato, Fabio.
Bjs!

Vilma A. de Mello disse...

Eba! café forte... Que bom que voltou!!!

beijos

neli araujo disse...

Nossa...tô arrepiada!
Parabéns pelo post!
Adoro tua escrita!
bj

Neli

Taty disse...

Que bom que você voltou....na minha opinião é bom dar umas sumidas, de vem em qdo, senão fica tudo no mesmo...Esse texto foi ótimo e muito divertido, aliás qdo leio nos postes os anuncios das amarrações, me pergunto quantos otários já não se estreparam por aí. Beijos livres, leves e soltos...

Bel disse...

Diante desse texto, só tenho UMA coisa a dizer:

HOMENS... Ô RAÇA!!!

kkkkk

Beijo, querido, seja bem-voltado!!!

Ana disse...

Eu senti sua falta sim, ou melhor, falta de você na tela do meu pc...mas como quando uma rotina é quebrada há um porque por trás disso tudo, eu nem enviei mensagem cobrando que você atualizasse seus blogues...uahahaha...quem sou eu para exigir algo de você? uahahahaha...Que bom que voltaste.

Rubinho Osório disse...

me amarrei na história!
vc voltou em grande estilo!!!
Valeu!!!!!!

Arimar disse...

BOM DEMAIS!!!!!!!!
Beijos