sábado, 24 de novembro de 2007

Alucinações anacrônicas


Eu nunca fui consumidor de drogas, exceto aquelas prescritas por médicos. Só tomei um porre na vida e, como passei diretamente do estado sóbrio para aquele que encontramos o amigo Hugo, sem as etapas "alegre" e "engraçadinho inconveniente", foi o primeiro e o último, nunca mais me arrisquei depois disso.

No entanto, descobri que já tive alucinações. Remexendo meus alfarrábios encontrei o texto abaixo que eu escrevi em 1984. Não consegui me lembrar nem o por quê, nem para quem. Procurei nas agendas velhas e não encontrei nada que me explicasse o sentido do mesmo. Não sei por onde eu estava viajando...


Declaração de amor/pavor


Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer nada. Apenas olhava atento dentro dos seus olhos. De vez em quando desviava a atenção. A sensação de estar sendo consumido em fogo lento me incomodava. Poemas sobre a mesa. Vinho e cigarros.

Você falava calmamente sobre o medo. O mesmo medo que me corroía. Vontade de explodir e despencar num temporal. O limite do medo é a coragem absoluta. Eu andava no fio da navalha. Se você tivesse insistido um pouco mais, não sei o que teria acontecido.

Eu me contorcia em argumentos e fugas. Nem sei bem do que. A oportunidade ressurgiu e, novamente, me calei. Poema mudo. Pinto as cores do desejo em papéis interiores escondidos em porões.

Meu amor é completamente surrealista. Despertar e crescimento do desejo líquido. Os anseios subconscientes mais fortes que os medos reais. Explodindo em raios, despencando em temporal.

Você olhava. Falava. Me dava a impressão de que percebia tudo, que a motivação dos meus medos era completamente infundada. Ou absolutamente correta.

O momento cobrava uma decisão rápida. Sim ou não. Um lance de dados, só uma chance : ganha-se ou perde-se. Outro lance seria apenas outro começo, mesmo que sejam o mesmo dado e a mesma mão a lançá-lo. Jamais. Mesmo lançado em momentos eternos, jamais abolirá o acaso (ah...Mallarmé....)

Por caso, ou pelo acaso, nasce o medo. Medo de amar.

O papel explica tudo. O teclado da máquina não tem seus olhos a me perscrutar. Só palavras.

19/09/1984

3 comentários:

Vilma disse...

uma vez na corda bamba, sempre na corda bamba...não olhe para baixo que dá vertigem...

Pessoa Comun disse...

O porque até se justifica,agora pra quem?Penso cá com meus botões que apesar de ter rendido um belo escrito, (que bom que guardou), nada valeu além disso.
Como apenas a lembrança do doce na vitrina, sabe-se o sabor, imagina-se, mas não se prova aquele...

bijim, gostei do 101

Alice disse...

..o risco assusta, não corre-lo paralisa.. lindo texto!
Agora entendo as agendas..rs
Beijo!