quarta-feira, 7 de novembro de 2007

História banal


"La arena de los ciclos es la misma
E infinita es la historia de la arena
Así, bajo tus dichas o tu pena,
La invulnerable eternidad se abisma"
Jorge Luís Borges



Era verão, bem no seu começo. Só um almoço cotidiano. Sem compromisso, falar sobre o tudo e o nada . Era verão, fazia calor , uma ou outra pancada de chuva caía . Era verão, bom motivo (ou boa desculpa) para um passeio. Passarinhos se espalhavam pela calçada. Bem-te-vis, sabiás, garrinchas e pardais. Afinal eram bem-te-vis ou sabiás ? Era verão e eram dois olhos azuis olhando para ele. Um braço no seu braço. A mão na sua mão. Um abraço. Um beijo. Era verão. Aquele beijo transformou sua vida . Era verão, ele não ia esquecer.

Os dias seguintes foram um tal de trocar e destrocar olhares. Trocar e destrocar bilhetes e vontades de pular sobre a mesa do outro e fazer um escândalo... Dias de falar em jardins florescendo. Dias de poesia. Da troca de poemas. Da troca de olhares e de desejos foi crescendo o desejo. O desejo de tê-la nos seus braços, o desejo de estar nos seus braços . Os dias foram passando, o desejo foi crescendo e crescendo.

Era verão, uma outra sexta-feira em novembro. Foi um calor, um fogo, um vulcão... foi loucura, foi uma explosão. Beijos. Abraços. Paixão. Dentes. Suspiros. Corpos ardentes. Seiva. Êxtase. E uma antiga canção na memória : would like to swing on a star ? Ela precisava visitar clientes. Sempre que possível ele a acompanhava. Nem sempre o destino eram os clientes. Poderia visitar clientes para sempre. Não podiam esperar o final de semana. Na segunda-feira já estavam incendiados. Numa terça-feira foram passear , namorar, saciar desejos que não se controlavam mais .

E o verão foi passando, muito depressa para o seu gosto. Se passava o dia fora a trabalho, ela ficava com saudades do rosto maroto. Mesmo quando não diziam nada acabavam dizendo tudo. Intimidade : um silêncio preenchido por subentendidos. Ele precisavam de mais do que subentendidos. Sumiram uma tarde toda. Uma tarde ao som do concerto de violino de Beethoven.Allegro molto. Uma tarde de amor . Não só de corpos se enroscando. Não só de desejos e de calor. Uma tarde de amor e da estranha sensação de estarem apaixonados. Uma tarde de amor de sanduíches. Era quarta-feira. Era verão.

Três dias depois ele iria viajar, ficaria fora 10 dias. Morrendo de saudades. Ligava para o trabalho só para poder falar com ela. Recebeu mensagens do seu bosque com sabiás e bem-te-vis. Afinal eram bem-te-vis ou sabiás ?

Quando voltou soube que ela ia embora para outra cidade. Justo quando o amor que estava crescendo. Um dia que a surpreendeu quando disse que a amava. Nunca tinham falado sobre isso, tinham medo.

Um cartão. A foto de uma lareira . Seria incendiário fazer amor naquela sala, junto aquela lareira. Um almoço em Dezembro. Mais do que um almoço . Poderia ter sido na Noruega ou na Dinamarca com aquela lareira, mas não, era verão e só sentiam falta de um aparelho de ar condicionado. O cardápio estava recheado deles mesmos . Foi um almoço gourmet , o gosto e o tempero que só eles possuiam. Um sabor que nunca se dissipou.

Mas eles queriam mais. Era fim de dezembro, bem no fim de dezembro. Em tese, estavam trabalhando, mas havia muito pouca gente no escritório. Ele, ela, uma outra moça e o chefe dela. Um andar quase vazio e ela lhe tentando com insinuações por baixo da mesa. Ela disse que ia escovar os dentes, ele esperou atrás da porta . Não havia quase ninguém por lá. Ele invadiu o banheiro feminino e lá estava ela : bonita, excitante, tentadora. Ela resistiu sem resistir. De repente um barulho, alguém entrou para a limpeza, eles se esconderam no cubículo. O alguém saiu e eles continuaram.

Um novo ano. Ela foi para um lado e ele para o outro, ainda tiveram uma última vez. Como a primeira, numa sexta-feira, em janeiro: swinging on a star again. Na semana seguinte um café na livraria que se repetiu numa sexta feira de fevereiro. Em março ainda foram almoçar juntos. Só se encontraram de novo em Junho, eles e mais 10 pessoas na comemoração de um aniversário. Alguns telefonemas trocados. O ano não foi bom para ele. Ela também se afastou, virou executiva, mulher super atarefada. Nunca tinha tempo.

Uma festa de final de ano e se encontraram de novo. De novo, mais 10 pessoas juntas. Mas ele sentiu que foi bom vê-la. Continuava linda e apaixonante. E por mais que a distância e a falta de tempo os separassem, algo batia fundo no seu coração. Mais um ano e continuaram longe. Encontraram-se quase sem querer no outro Junho. Ligações sem resposta. Convites.

Hoje ele escreve cartas que ela não vai ler. Liga para telefones onde não a encontra . Deixa recados que se perdem e espera. Espera ouvir. Espera reencontrar. Espera entender tudo o que passou e o que não passa nunca. Espera.

3 comentários:

anja disse...

Uma bela história de amor.
Gostei.
:)

Pessoa Comun disse...

vivida e vivída ao seu tempo...

perfeita com trilha sonora ou com silêncio.

bijim

Vilma disse...

Revolução feminista: Mudaram os senhorios...aumentaram os escravos.