quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Velhos como vinho



Se você já passou dos 40, duvido que tenha conseguido evitar dizer ao menos uma vez que você é como vinho, quanto mais velho melhor. É um dos clichês mais clássicos e batidos dos nossos dias, repetido até por quem nunca experimentou um gole de vinho. Mas sou obrigado a dar uma má notícia, nem todo vinho melhora na medida em que envelhece. Pior do que isso, pouquíssimos são os vinhos que envelhecem com classe.

O envelhecimento do vinho é um elemento importante para se aproveitar o melhor dele, mas apenas um pequeno grupo de vinhos se beneficia do envelhecimento na garrafa. A grande maioria dos vinhos deve ser consumida dentro de um ano, ou no máximo dois, após ser engarrafado. Quase todos já passaram por processos naturais ou artificiais de envelhecimento em barris ou tanques e a permanência na garrafa não vai trazer mais qualquer benefício.

Entre os vinhos brancos, aqueles com PH mais baixo (mais ácidos) e, entre os tintos, aqueles que apresentam mais taninos, são os que tem mais chances de melhorar pois, à medida que o tempo passa, esses excessos de acidez e de taninos tendem a se abrandar e tornar os vinhos bem mais agradáveis. Se o vinho branco tiver pouca acidez ou o tinto poucos taninos, com o passar do tempo eles perdem o pouco da personalidade que tinham. Entre os brancos que se enquadram nesse possível envelhecimento, estão os feitos com uvas Riesling e os grandes Chardonnay. Dentre os tintos, os feitos a partir de uvas Cabernet sauvignon, Nebbiolo e Syrah.

De qualquer forma, para deixar um vinho envelhecer em casa, além de um bom vinho que permita isso, existem alguns outros componentes que vão ser decisivos no amadurecimento produtivo da bebida. O primeiro deles é a qualidade da rolha. Um vinho fechado com rolhas de má qualidade, mal cortadas ou minimamente porosas, só consegue produzir vinagres de boa qualidade (claro, se o vinho for de boa qualidade). Por mais insignificante que seja o contato do vinho com o ar, a oxidação é inevitável. Se, ao abrir uma garrafa a rolha quebrar ou soltar pedaços, pode ter certeza de que o vinho vai estar intragável. No fundo, algumas pessoas também são comos esses vinhos - quanto mais velhas, mais azedas.

O segundo componente importante é o armazenamento do vinho. Por melhor que seja uma rolha, se ela não ficar em contato permanente com o líquido da garrafa ela irá ressecar e, conforme isso acontece começam a surgir trincas e "buracos" - o resultado é o mesmo que foi citado acima, com a diferença que o vinagre ficará pronto muito mais rapidamente.

Alguns outros detalhes podem ajudar ou atrapalhar no processo de envelhecimento, mas costumam ser filigranas técnicas que não fazem parte do nosso dia-a-dia. Nem os enólogos mais competentes são capazes de fazer previsões exatas sobre o tempo ideal de maturação de um determinado vinho de uma determinada safra. O ideal seria podermos testar um vinho abrindo uma garrafa a cada ano até descobrirmos o ponto ideal, mas isso é um esporte para poucos seres que podem investir comprando várias caixas de um mesmo vinho.

Na dúvida, beba o vinho antes que ele estrague - afinal, os vinhos são realmente como as pessoas, com o tempo realçam suas qualidades e defeitos. Se forem bons, ficarão melhores. Se forem ruins, passe longe.

9 comentários:

Ellah disse...

Adorei, aprendo muito com você.
Uma pergunta: e a Adega climatizada? Vale a pena o investimento? Uma pequena é claro. Risos.
Um abraço.
Ellah.

Vilma disse...

Vinagre, só na salada, estou aprendendo a viver aos 40... está muito tarde?

Lou Mello disse...

Xiiiiii! Você acabou comigo agora. Primeiro porque sempre acreditei que estivesse ficando cada dia melhor. Depois, há algum tempo, vinha guardando umas garrafas de vinho, aqui em casa, esperando que eles ficassem melhor. Mediante sua orientação, fui examinar as rolhas e, batata, estão mais secas e rachadas que pé de velho, ou seja, nessa altura, estou com um monte de vinagre estocado e a Dedé só tempera salada com limão.

Ana Paula disse...

Tenho lido constantemente esse blog, mas especialmente hoje resolvi aparecer, porque gosto dessas projeções etílicas.
Como se tratam de insanidades perguntas que não querem calar: a idade para você Fábio está realçando quais características?
O armazenamento da vida está oxidando? E as filigranas técnicas ajudam ou atrapalham?
Bom, na minha avaliação pessoal e intransferível, vou ficando por perto para testar esse sabor.
Beijos

Pessoa Comun disse...

muito bom, o tempo pode ser um aliado, ou não
mas nada como sempre aproveitar as coisas quando elas estão à mão. Em casa, só se costuma guarda vinho, até a vontade de beber chegar, aprendi recentemente a guarda-lo da maneira correta, aprendo tb a saborea-lo.
Não se esquece o sabor de um bom vinho.

bijo

Fábio Adiron disse...

Ellah : se o orçamento permite, a adega é sempre o melhor lugar...

Vilma : nunca é tarde

Lou : sorry...põe o vinagre no mercado livre

Ana : as duas coisas. Minhas virtudes estão cada vez melhores, mas os defeitos....melhor nem entrar em detalhes

Mal : bons sabores sempre ficam na memória gustativa

Drezza disse...

Aprendi muito sobre o clichê do vinho, mas fiquei na dúvida se o clichê "os melhores perfumes estão nos menores frascos" é verdadeiro ou falso. Já ouvi essa frase devido à minha baixa estatura...rsrsrsrs

Taty disse...

Lendo este texto, comparei a mulher que adora usar todos os tipos de cremes para se manter jovens e sempre há cremes e Cremes, tal qual vinho e suas rolhas.....Hoje também ouvi o Ciro Lilla, o texto foi um complemento.

Bel disse...

Hummm... Não sou dada ao vinho, embora tome uma taça nas grandes comemorações. Mas, sinceramente... acho que fiquei melhor depois dos 40!!! hehehehe
Agora nem é hora de deixar de ser clichê!!!