sábado, 28 de junho de 2008

Cem anos de gratidão

"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa." João Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas
Cordisburgo, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967



Eu tinha relembrança do cheiro dela. Mas no atual já estou doente e dei de fraquejar as idéias que nem sei mais se a memória é do cheiro ou do corno cheio em que me encontro.

Já estou mais na saída que na chegada, o real se dispôs no meio da minha travessia e já não posso divagar com este meu miolo zanzando. Tudo é muito dificultoso. Tantas coisas se remexeram nos lugares que talvez seja só fantasia da idéia.

O fino das feições me enternecia. Mas quem era eu para tanto querer? Nunca truquei de falso na peleja, meu revólver pariu dúzias de filhotes que mamaram no couro de quem bufou que nem tigre. Bando de filho da outra que tentou me desafiar.

Mas ela. Ah...por ela me desarreganhei , me pus bêbado que nem gambá, tomei conhecimento da aragem no meio da treva espessa mesmo que sabendo que burro não pode enxergar no escuro.

Chafurdei, perdi o juízo, espadanei a água e tentei me escafeder da sua imagem. Nada, o joão corta-pau no meio da caatinga sempre me lembrava.

Eu não queria querer falar. Estou com medo de morrer hoje. Não está direito guardar. Agora vou aonde não quero, saio por embaixo e ainda escuto o pio.

De ninguém eu fui. Mas meu sentir deixa de ser do sentidor para ser do sentente. E quem é que eu fui? Divergi de todo mundo. Menos dela.

Ela foi minha neblina e seus olhos nunca me deixaram. Olhos que meus dedos, de leve pus meus dedos. Beleza verde que me adoeceu sem parolagem.

Meu corpo desejava dum jeito condenado, cheguei a estender a mão para as suas formas, bobamente. Deixei meu corpo querer tramadamente e calei qualquer palavra.

O amante apaixonado. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou, não quero ser. Deus esteja!

O que foi, foi o começo do que vai vir, a cada hora a gente está num compito.

Eu agora vou, sem mais vir, sem mais hora. Minha natureza não cabe mais em nenhuma incerteza e o nome que foi segredo hoje não acicata mais o coração.

3 comentários:

Vilma disse...

"...já não posso divagar com este meu miolo zanzando"
kkkkk
Se o dele está zanzando meu miolo está cozinhando em banho maria...

Juliana disse...

Você sabe, em caso de neblina use luz baixa.

Mariazinha_ disse...

Ela foi minha neblina e seus olhos nunca me deixaram...

Eu tenho disso ai, tenho olhos que nunca me deixaram e que trazem muita saudade. Caminhos, destinos, vidas separadas, mas aquele olhar permanece...
Beijo, Fabio.