segunda-feira, 30 de junho de 2008

A presença ausente

Na primeira vez que eu ouvi o nome eu também achei que era brincadeira. Não era. Minha amiga não só garantiu que o lugar existia como disse que vai para lá com freqüência - o que faz com que a população de sua cidade sinta a sua ausência (cá estou eu anfibológico de novo)

Nos Campos em Cima da Serra fica a cidade de São José dos Ausentes. Embaixo da serra, dizem, estão todos presentes.

A história conta que a Fazenda dos Ausentes foi o maior latifúndio do Rio Grande do Sul, com uma área de mais de mil km². Seus primeiros donos, ainda no século 18, não assumiram as terras, que acabaram leiloadas duas vezes pela ausência de proprietários ou de sucessores - não por acaso, esse pedaço de Campos de Cima da Serra foi batizado de Ausentes.

Hoje, o município de 3.100 habitantes vive da pecuária extensiva, do cultivo de batata e maçã, do florestamento/reflorestamento e do turismo rural. (saiba mais aqui)

Se você clicar no link acima vai ver fotos maravilhosas da região, mesmo assim ainda tenho uma série de dúvidas insanas :

Quem nasce em Ausentes (como é popularmente chamada) é o que ?

O brasão da cidade é o símbolo de conjunto vazio ?

Onde se escondem os 3 mil e poucos moradores que nunca estão presentes ?

Será que conseguem quórum em dia de eleições ou a ausência já é um padrão que nem precisa se justificar no cartório eleitoral (mesmo porque nunca deve ter ninguém trabalhando por lá)

Quando a professora faz chamada, responder "presente" é uma negação ontológica ?

Se Hamlet tivesse nascido lá, mudaria o famoso solilóquio para "estar ou não estar, essa é a questão..." ?

Dar presente de aniversário é uma gafe ?

Quando nasce um bebê, a população aumenta ou diminui ? Afinal, surgiu mais um ausente...

De que forma se correlaciona a cidade com a existência de buracos negros ?

Se uma árvore cai na floresta dos Ausentes, ela fez barulho?

As pousadas da região tem direito a cobrar "no-show" dos seus hóspedes ?

Já que nem só de filosofia vive esse blog, encerro com um poema de Rabindranath Tagore, que dedico, ausentemente à minha musa.

À musa ausente

"De tanto vigiar, meus olhos acabaram perdendo o sono. Contudo, mesmo que não te encontre, é doce ficar vigiando.

Meu coração se assenta na sombra das chuvas, esperando teu amor. Todavia, mesmo que ele se frustre, é doce ficar esperando.

Eles vão embora, cada um por seu diferente caminho, e me deixam para trás. Porém, mesmo que eu esteja sozinho, é doce ficar à escuta, esperando por teus passos.

A face nostálgica da terra tece as névoas de seu outono e desperta a saudade em meu coração. E, embora seja inútil, mesmo assim é doce para mim sentir a dor da saudade."

6 comentários:

Vilma disse...

Tá tão doce hoje... seria a presença dos ausentes, ou a ausência dos presentes?

Um beijo

Bel disse...

hahahahah
Pensei que fosse um post passional...

Vou querer visitar S. José dos Ausentes, e levar sua listinha de perguntas. Prometo trazer a resposta de todas elas (se algum ausente me responder!)

Bjo!

bete pereira da silva disse...

(não estive aqui)

ZéMoa disse...

Dentro de si mesmo, mesmo que lá fora. Fora de si mesmo, mesmo que distante. E assim por diante de si mesmo ad infinitum. Tudo de si mesmo,
mesmo que pra nada. Nada pra si mesmo
mesmo porque tudo, sempre acaba sendo
o que era de se esperar.
Tão longe, tão perto. Atendi o seu chamado e quando cheguei, cadê você?
Citando Adoniran, você podia ao menos ter punhado um recado na porta: dizendo assim: fui.

malmal disse...

Gostei de saber que agora meus ausentes tem endereço certo, mas como diria Malmal, a ausência nem é triste, é lembrança de quem faz falta.O meu?, ausente, porem presente.


Bom dia, andei ausente
bijok

Juliana disse...

Todas as musas te agradecem.