segunda-feira, 23 de junho de 2008

Contículo anafórico

Quando não tinha nada, eu quis. Chico César

Nem tudo que ronca é porco, nem tudo que berra é bode, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo falar se pode.

Mas contarei essa história fatal.
Ah homens… Ah moradores… Quantos, correndo… Quantos, embarcados… Quantos, navegando… Quantos na nau…

Pelos mares singrando, só um chegou vivo à ilha. Ilha cheia de graça. Ilha cheia de pássaros. Ilha cheia de luz. Ilha verde onde havia mulheres morenas e nuas.

Mulheres que ao verem o náufrago navegante se perguntavam : será que ele vem me ver? será que ele me deixa viver? será que posso aquecê-lo?

Ele adorou os cabelos, adorou as vozes, adorou o calor a ponto de reconhecer que era fogo que ardia sem se ver, era ferida que não sentia , era um contentamento descontente, era uma dor desatinada sem doer.

Mas um dia chegou outra nau, um dia chegou o resgate, um dia chegou a salvação que ele não mais desejava.

E o levaram da ilha deserta, e o levaram de volta à patria, e o levaram de volta aos seus.

Nunca se recuperou, nunca se conformou, nunca, nunca mais voltou à razão.

E murmurava nos cantos, e murmurava nos becos e murmurava à beira do cais.

Depois o areal extenso... Depois o oceano de pó... Depois no horizonte imenso...

Desertos... desertos só...

Com as colaborações involuntárias de Cassiano Ricardo, Camôes e Castro Alves
Anáfora: consiste na repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.

2 comentários:

Vilma disse...

Estar perdido nem sempre significa infelicidade.

clau disse...

Oi Fabio!
Eu, pessoalmente, gosto e acho muito valido lançar mao deste recurso para dar enfase àquilo que se pretende sublinhar ou ressaltar.
E além de tudo, fica muito bonito tb...
Bjs!