segunda-feira, 29 de março de 2010

Como era bom o meu desastre

André acordou cedo e começou a se preparar para o dia que seria longo. Várias reuniões agendadas, almoço com cliente e, de noite o jantar decisivo na casa dos potenciais sogros.

Seria nessa noite que pediria a mão de Eduarda em casamento e nada poderia dar errado. Por isso mesmo que antecipara e encurtara toda a sua agenda para terminar o dia num horário em que pudesse se arrumar com calma e, de forma alguma, chegar atrasado.

Eduarda tinha feito mil recomendações. O pai detestava jantar depois das 8 da noite. A mãe implicava com alguns assuntos. Na sua casa não se recusava nenhum tipo de comida. Quando o pai desse o primeiro bocejo estava sinalizando que era hora de ir embora.

André sabia que a namorada também tinha um monte de manias parecidas, mas estava tão apaixonado que isso era irrelevante.

O dia correu razoavelmente bem, apenas uma reunião atrasou, mas ele conseguiu cancelar a seguinte e se manteve no horário. Chegou em casa com tempo suficiente para tomar banho, fazer de novo a barba e colocar seu melhor terno.

Chegou à casa de Eduarda quando faltavam 15 para as 8. E já foi levando bronca.

"- Não te disse que meu pai janta às 8?"

"- Mas ainda faltam 15 minutos..."

"- Esqueceu do horário de verão? Que os relógios adiantam uma hora?"

"- Mas o horário de verão só começa amanhã..."

"- Eu sei, mas meu pai adianta todos os relógios da casa um dia antes, aqui já são 15 para as 9".

André balançou a cabeça e entrou constrangido, já pedindo desculpas pelo atraso. Ficou tão desorientado que nem percebeu que Eduarda mudara a cor do esmalte, o que lhe custou um bico pelo resto da noite.

Sentou-se à mesa de jantar. A mãe de Eduarda pegou o seu prato e começou a serví-lo. Ele quase recusou a sopa de mandioquinha que odiava, mas pensou na noiva e partiu para o sacrifício, sem saber que, na sequência teria de comer o strogonoff vegetariano, só com palmito e champignons.

Mas ainda não foi nesse momento que ele se questionou se Eduarda valia mesmo a pena. Foi quando Dona Clotilde o olhou feio porque estava falando a respeito de futebol com o Dr Edgar e Eduarda lhe dava pontapés por baixo da mesa. Tinha escolhido um tema tão neutro...

Não era. No meio da conversa, o Dr Edgar foi se exaltando ao falar do futebol moderno, da falta de seriedade dos jogadores, da corrupção dos dirigentes. Para fechar com chave de ouro, perguntou para que time que André torcia... era o maior rival do time do Dr Edgar.

O futuro sogro emudeceu e, nem tinham chegado à sobremesa, começou a bocejar. André não sabia o que fazer, não poderia ir embora sem tocar no assunto que o levara até aquele rascunho de inferno. O futuro passou diante dos seus olhos. Levantou-se, mesmo com Eduarda puxando seu braço, agradeceu pelo jantar e se despediu. Eduarda, enfurecida, o acompanhou até a porta.

"- Você chega atrasado, não repara em nada, janta como se estivesse engolindo cicuta, provoca o meu pai e, ainda vai embora sem me pedir em casamento?? Não quero mais saber de você."

André abriu um largo sorriso e, antes de falar qualquer coisa vomitou todo o jantar no tapete persa de dona Clotilde.

Nunca antes na vida tinha sido tão desastrado. Nunca tinha cometido tantas gafes.

E nunca fora tão feliz com a vida maravilhosa que decorria desses desastres.

5 comentários:

clau disse...

Eh Fabio...
Muuuito precisa esta sua descriçao de uma perfeita situaçao "do cavolo"! rss
Pq embora sendo "ficçao", é muito proxima do que, em realidade, acontece na maior parte das vzs.
Hihihi.
Boa semana.
Bjs!

Vilma Mello disse...

Eu ando precisando de uns desastres assim, risos

beijos de segunda

Bel disse...

Adorei, especialmente a parte do vômito no tapete persa.
Ninguém deveria ser obrigado a "engolir" (real e figuradamente) esse tipo de coisas, para te ro "direito" de ser feliz no amor!!!

Lucila disse...

Hahaha!!
Ainda bem que meu pai "só" derramou TODO o feijão da travessa na mesa do jantar com o Rev. Americo alisando o bigode sentado à cabeceira da mesa...!!!!
Here I am!!

Beijos desastrados

Fábio Adiron disse...

Clau: uma ficção bastante frequente

Vilma: não tenho sugestões, hehehe

Bel: a gente engole tanto sapo para ser feliz...

Lu: a cara do tio Américo não deve ter sido tanto assim...imagino a cara dos Cavalaris