segunda-feira, 1 de março de 2010

Oásis

Hiérocles, apesar do nome, não era nada aventureiro. O típico sedentário urbano, cheio de atividades intelectuais e nenhum esporte.

Por isso mesmo todos se surpreenderam quando ele disse que ia fazer uma excursão para o deserto de Atacama com o objetivo de atravessá-lo à pé.

Contrariando todas as expectativas de que iria desistir no último momento, ele foi. Ligou de Santiago avisando que tinha chegado e, dois dias depois um e-mail de Copiapó, a travessia começaria no dia seguinte.

O primeiro dia de caminhada foi tranquilo, todo o grupo estava animado. No segundo dia começaram as defecções. Ao final de uma semana só tinham sobrado Hiérocles e o guia. Mal tinham chegado à metade do percurso.

Durante o café da manhã foram surpreendidos por uma tempestade de areia. A barraca foi arrastada e eles também. Hiérocles ainda ouviu os gritos do guia tentando avisá-lo de algo, mas não conseguiu entender. Estava sozinho no meio do deserto.

O cantil que levava amarrado ao corpo durou um pouco mais de um dia. Debaixo do sol escaldante ele começou a ter alucinações, via pessoas que ele imagina, iriam resgatá-lo. Uma, duas, três. Sumiam assim que ele se aproximava. Deixou de acreditar nelas e sentou-se esperando pelo fim.

Já era o final da tarde quando, ao longe, viu uma mulher sobre a duna que se elevava à sua frente em meio a nuvens multicoloridas. Considerou-a apenas mais uma miragem, mesmo assim caminhou em sua direção, algo incontrolável o arrastava para ela.

Conforme foi se aproximando a imagem da mulher foi ficando mais nítida. E que mulher! Definitivamente era uma miragem, mulheres como aquela não existiam na vida real.

A dificuldade para caminhar aumentava a cada passo, e a mulher continuava lá, impassível, como se fosse uma igreja esperando para acolher um fiel.

Chegou a poucos metros dela. Mesmo assim não perdia o medo de que, a qualquer momento, ela se evaporaria diante dos seus olhos. Quando estava a uma distância que praticamente dava para escutá-la respirar ele ouviu:

"- Já estava aqui há algum tempo. Pensei que você não fosse chegar, quer um café?"

Hiérocles disse que queria tudo. Café, suco, água, o sangue e o suor dela. Ela sorriu e o tomou pela mão. Levou-o para um local de repouso e cuidou dele.

E todos os dias de sua vida, Hiérocles passou a se surpreender com a sua miragem que era real como um oásis.

6 comentários:

Vilma Mello disse...

Bonito o seu oásis...

beijo de segunda feira

Chris Rodrigues disse...

Se deu bem!

clau disse...

Definitivamente nao era uma miragem arida, esta de Hiérocles...
E ser um sedentario urbano pode render um caminhao de areia! rss
Bjs!

Raquel disse...

Tadinho do Hiérocles...o nome não ajudou muito.

Arimar disse...

Fábio.
Não quero quebrar o encanto e a poesia do texto,mas, fico pensando:
Se Hiérocles era urbano,teria tanta resistencia física para tal evento?
Será que o Atacama, não seria também uma miragem?
Poderia ele estar em Praia Grande, com 40 graus a sombra, após umas e outras?
Beijos.
Arimar

Fábio Adiron disse...

Vilma : é lindo

Clau: me deu idéia para outro texto..hehehe

Raquel: fazer o que?

Arimar: Praia Grande não tem o mesmo encanto...