sábado, 27 de novembro de 2010

Uma rosa é uma rosa


Fernando nunca levou a sério pessoas que fossem viciadas em qualquer coisa. Achava essa história de dependência física, química ou psicológica uma besteira. Coisa de gente fraca que não tinha autocontrole ou capacidade de gerir suas próprias vidas. Pessoas como ele não permitiam que nada fosse mais forte que a razão.

Chegou mesmo a perder alguns amigos por isso. Suas críticas nunca eram leves e seus comentários, mesmo em tom de brincadeira, eram ferinos. Outros relevavam, afinal, tirando essa mania, ele não era um mau sujeito.

Fernando só perdeu as estribeiras no dia em que um colega de trabalho disse que ele tinha dependência psíquica de falar mal das dependências dos outros. Para contrariar esse tese ficou mais de dois meses sem tocar no assunto.

Foi nessa época que, num sábado, foi tomar chá na casa de uma velha tia que ele sempre visitava. Entre chás, torradas e biscoitos, ela trouxe uma novidade que ganhara de uma neta: um vidro de geléia de rosas.

Fernando achou estranho comer flores, mas experimentou. Gostou. Pegou o pote, examinou as informações, perguntou à tia se ela sabia onde aquilo tinha sido comprado.

Saindo da visita foi direto ao supermercado que ela citara. Encontrou quatro potes na prateleira. Levou todos. Passou a noite comendo a geléia com uma colherinha de café para que rendesse mais. Na manhã seguinte não tinha mais nada.

Passou o dia seguinte correndo as lojas da rede de supermercados e comprando todos os potes que encontrava. Estocou a despensa e resolveu limitar o consumo a um pote por dia.

Nunca deixava o estoque baixar, até o dia em que começou a ter dificuldades para comprar sua geléia. Os estoques das lojas não estavam mais sendo repostos. Ligou para a sede do supermercado onde foi informado que tinham renovado a linha de produtos e não importariam mais aquele produto.

Entrou em desespero, chegou a tentar importar diretamente da Inglaterra, como não tinha registro de importador, seu pedido foi recusado.

A geléia acabou e ele entrou em crise de abstinência. Os amigos não entendiam nada, ele só dizia que era falta de rosas. Os amigos traziam buquês que ele despetalava, jogava dentro de um tacho com açúcar e água e cozinhava. Não era a mesma coisa.

Foi encontrado desmaiado no corredor do seu prédio. Levaram-no para o pronto socorro onde os médicos não conseguiam identificar seu mal. Seu sangue foi perdendo cor até ficar transparente.E morreu.

No velório, a tia, tristonha, trouxe café, bolachas e geléia de rosas.

6 comentários:

Vilma A. de Mello disse...

O que vc fez com as coitadas das rosas?...ahuahuahua
Elas não são minhas flores prediletas, mas são um presente certeiro para as amigas, as de ontem foram na cor salmão...
Isso lembrou um preparado que as mulheres antigamente faziam com rosas brancas e açucar para curar "sapinhos" dos bebês... Nossa eu ficaria falando das rosas o dia inteiro, mas vou te poupar, risos

Bom dia!

"Acho que sábado é a rosa da semana" (Clarice Lispector)

clau disse...

Um fim beeem doce, este do Fdo.
Os frutinhos da rosa sao aburdamente doces e, no meu caso, eu prefiro a géleia de suas primas, as amoras.
Talvez, na verdade, ele tenha terminado morrendo por causa de uma glicemia alta, mas do que pela sua inusitada dependencia, isto sim!
Hihihi!
Bjs!

Bel disse...

Ele nunca mais vai falar mal de quem tem crises de abstinência. Literalmente. :p

clau disse...

Ué!...
Onde estao as suas "atualidades psicossomaticas" mencionadas ali no facebook? Em um outro seu blog, penso.
Mas falando nela, fica patente que era mm sò o personagem quem tinha acordado para fazer o que fez.
Hihihi!
Bjs!

Rubinho Osório disse...

Huuummm, muita estranha essa geleia... era só de rosas mesmo?

Taty disse...

Mmmmm, fiquei com vontade de comer geleia de rosas, mas será que terei o mesmo fim? Beijos