terça-feira, 26 de outubro de 2010

O triste fim de Ananias

Quando André contou para sua irmã que tinha comprado um aquário ela estranhou. Ele nunca fora muito dado a animais de estimação e não era um homem de se preocupar muito com o que acontecia à sua volta.

Mesmo assim ela não disse nada e ficou torcendo para que ele se desse bem com seu peixe. Ele era um sujeito solitário, acostumado a viver para si mesmo, quem sabe a companhia de outro ser o transformasse num homem melhor.

De fato, nos primeiros meses André cuidou bem de Ananias (como batizara seu peixe Beta, espécie que ele escolhera justamente por ser a que exige menos cuidados do dono). Trocava a água do aquário duas ou três vezes por mês, alimentava-o com frequência (ainda que não poucas vezes esquecesse de tirar o excesso de comida) e, surpreendentemente, conversava com o bichinho.

Claro que ele deu algumas mancadas no caminho. Uma vez colocou queijo ralado no aquário no lugar de ração. Em outra esqueceu o aquário do lado da janela e quase matou Ananias de calor. Mas o peixe era realmente resistente e parecia tolerar qualquer falta de cuidados a que era submetido.

Para o azar de Ananias, tudo mudou no dia em que André saiu de férias e ficou mais de um mês fora de casa. Ele foi bem tratado pela irmã enquanto o dono viajava mas, ao voltar, André parecia ter voltado ainda pior do que sempre fora. Passou a negligenciar a alimentação do bichinho, as trocas de água foram rareando e a preocupação com a temperatura passou a ser nenhuma.

Ananias começou a dar sinais de que o descuido não lhe fazia bem, mas André não reparava em nada, só se preocupava em cuidar dos seus afazeres pessoais e em coisas que lhe trouxessem algum benefício pessoal, o peixe não era uma delas.

Quase sem comer e vivendo num ambiente poluído Ananias piorava dia-a-dia. Até o ponto em que André passou a esquecer completamente de alimentá-lo (ainda que sempre voltasse da rua com seus sacos de salgadinhos que consumia vendo televisão).

Uma manhã, ao entrar na sala, André encontrou Ananias boiando de barriga para cima. Desesperou-se. Como é que seu velho amigo fazia isso com ele? Imediatamente trocou a água do aquário, levou-o para o banheiro que era mais fresco. Descobriu que não tinha nenhuma ração na dispensa e saiu para comprar.

Nos dias seguintes fez de tudo para ressucitar o peixe. Colocava ração de duas em duas horas (as sobras eram totais), trocava a água todo dia, chegou mesmo a colocar um termômetro ao lado do aquário. Todas as noites conversava com o cadáver de Ananias, cutucava suas barbatanas e falava que ele não podia morrer, que ele não sabia mais viver sem ele. Claro, inutilmente.

Só se conformou com a morte do bicho quando esse começou a se decompor e cheirar mal.

André perdeu o humor, mas não perdeu a pose. Quando a irmã lhe perguntou o que tinha acontecido com Ananias, André foi taxativo : "Morreu por culpa dele, quem mandou ser um peixe suicida?"

5 comentários:

Vilma A. de Mello disse...

Já tivemos um desses aqui em casa, um dia Valéria encheu o aquario de farelo de pão, disse ficou com dó dele comer só uma bolinha de ração. O peixe morreu algum tempo depois de causa desconhecida... deveria ter feito uma autópsia.

Beijo de quarta

clau disse...

Este conto parece tao real que eu penso que eu ja fui testemunha de varios casos assim. rss
Existem pessoas que NUNCA deveriam ter um animal ou qq ser vivente por perto, que fosse.
Acredito nisto.
Pobre, pobre, Ananias...
Bjs!

Arimar disse...

Fábio.
A verdade é que vivemos num mundo onde cada vez mais os "Andrés" se proliferam e os "Ananias" nem sequer podem se manifestar.
O certo mesmo é ser piranha do brejo e morder tudo quanto é calcanhar.
Beijos.

Bel disse...

Esse post é uma excelente analogia para o amor... aliás, para os relacionamentos em geral!!!

Bjo!

Elis Zampieri disse...

Pois é...