sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sete e sete são catorze


Seth nasceu dia 7 de julho de 1977, com 3,5kg e 49cm. Teve uma infância comum mas, aos 14 anos, sua vida virou de ponta cabeça ao conhecer os significados cabalísticos da numerologia. Coincidentemente, foi logo depois de despencar de uma escada de 7 degraus e passar 7 dias internado numa UTI. Assumiu que sua existência toda dependia do número que muitos consideram mágico, outros trágico e, não poucos, conta de mentiroso.

Passou a condicionar todas as suas ações por essa referência. Tornou-se o aluno mais estudioso da turma. Não porque queria ser o melhor, mas poder tirar nota 7 em todas as suas provas. Sabia tanto que tinha a capacidade de deixar respostas em branco nas provas com esse objetivo. No vestibular passou por uma crise de identidade ao prestar 7 concursos, ser aprovado em todos, mas não conseguiu ser o sétimo colocado em nenhum e , pior, não encontrou nenhum curso superior de 7 anos.

Formou-se com média 7 e logo conseguiu um emprego, onde trabalhava das 7 às 19h, onde trabalhou por 7 anos. Subornou funcionários das companhias telefônicas, do departamento de trânsito e até dos serviços de identificação para obter os número da sua vida para telefones, placa de carro e documentos. Mudou 7 vezes de banco até conseguir um número de conta corrente adequado. Morava na rua Sete de Setembro 777. Sétimo andar, é claro.

Era um apaixonado por cinema. Seus filmes preferidos eram : Os 7 samurais, 7 noivas para 7 irmãos, o Sétimo selo, Branca de Neve e os 7 anões, 7 homens e um destino e todos do 007. Não tinha a mesma admiração pela música mas gostava de todas as 7as sinfonias existentes e de Seven, cantada pelo Bowie. Os sete, de André Vianco, era o seu livro de cabeceira. De Borges só lia Siete Noches. Escrevia poemas, em redondilha maior ou em heptâmetros.

Tinha todas as suas roupas em múltiplos de 7. Seus sapatos tinham saltos para mantê-lo com 1,77m, se pesava todos os dias e garantia os seus 77 kg com uma dieta que variava de acordo com as perdas ou ganhos de peso. Viajou muito, singrou os 7 mares e conheceu as 7 maravilhas do mundo. Visitou o Parque Nacional das 7 cidades e os 7 Povos de Missões. Chegou a ter um sítio em Sete Barras onde construiu uma casinha heptagonal.

Assumiu que não poderia se casar pois não poderia ser heptágamo*, chegou a cogitar mudar para uma religião que isso fosse permitido, mas nenhuma das possíveis aceitava sua aritmomania**. A igreja do Sétimo dia não permitia nem uma coisa nem outra. Por desaforo, dedicou-se a continuamente cometer os 7 pecados capitais.

Desenvolveu um complexo sistema para manter-se permanentemente com 7 namoradas. Fazia planilhas de programação de encontros e, no seu Palm, versão 7, mantinha um resumo dos gostos e características de cada uma, que consultava antes de cada saída. Além disso criou um modelo de conversas génericas de forma que falava dos mesmos assuntos com todas. Na primeira vez que tomou um fora, constatou que precisava manter, além das 7, sempre mais uma em prospecção.

Já havia projetado toda sua vida para morrer aos 77 anos, mas acabou sendo atropelado na Sete de Abril, pelo ônibus da linha 1777 - Metrô Tucuruvi, às 7 da noite do dia 7 de julho de 2007.

Acabou a 7 palmos de profundidade.

*não procure, essa palavra não existe.
** essa existe sim !

10 comentários:

Bel disse...

Uau! Só faltou o conto ter 7 parágrafos...
Adorei!!!

malmal disse...

muito bom, mas fala a verdade, vc ficou com preguiça a coisa dava pra enrolar mais umas sete vezes...

bijim

Vilma disse...

hahaha, esse tem direito a trofeú, muito legal! só não entendi o que o 1777, está fazendo no texto...

Vilma disse...

Deeerrr... agora entendi... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

claudia disse...

muito bom, adorei! mas pode falar , na boa, foi uma homenagem à novela da globo, não , não? rsrs

Fábio Adiron disse...

Bel : bem que eu poderia compactar...

Mal : tudo tem limites, senão vocês iriam se encher de ler

Vilma : não existe linha 777 em São Paulo, a única com um monte de setes é a 1777

Cláudia : que novela da Globo ?

Vilma disse...

Fábio, deve ser por isso que ele morreu...

Taty disse...

7 com 7 são 14 com mais 7 = 21!

Volney Faustini disse...

Ele que se achava com 7 vidas ...

Claudia disse...

Fabio,
Tava eu no google, procurando algo sobre o número catorze, que por incrível que pareça, me persegue,rsr...Adorei o teu post.Parecia até aquele filme "23", só q no teu post é o sete,rs...
Parabéns.
Abraços
**Tomei a liberdade de linkar teu post no meu blog.