quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Carta da amiga


As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
(Fabrício Carpinejar)



Calor de verão. Dias de sol. Tempestades repentinas.

Amigo

Fernweh. Nostalgia. Dores de distância. Dores de regresso.

Um dia comecei um texto que iria se chamar Nostalgia (dor do regresso : “nostos = regresso ; algos = dor". Em bom grego como você gosta : νόστος άλγος), o primeiro verso dizia que o tempo curaria as dores de amores . Eu tentava acreditar naquilo. Me esforçava para acreditar naquilo. Ainda não descobri exatamente qual é a dimensão desse tempo.

Depois, com Schiller, aprendi outra palavra : fernweh ("dor= weh , no sentido de falta/ausência de algo; da distância = fern ) um termo alemão absolutamente intraduzível. Seria algo como a saudade do distante, não distância no espaço mas no tempo, ou seja, algo como uma saudade ou nostalgia de algo que ainda não aconteceu e parece que está longe de acontecer. Algo que é possível sentir, mas não achei nenhuma expressão na língua portuguesa que fosse razoável para definir esse sentimento.

Nada mudou.Tudo mudou. Algo (ou terá sido algos ?) me afastou daquele momento. Dúvidas, imaturidade, insegurança. Ou terá sido simplesmente a demanda de um cronograma amoroso ? Meu amor não tem prazo de validade que precise ser consumido antes de apodrecer. Aquele relacionamento estava recheado de prazos e datas.

Tudo mudou. Nada mudou. Não perdi nem acabou o meu amor. Mas tenho a impressão que, com o tempo, pode acabar - " not with a bang, but with a whimper ". Tenho a sensação de sentimento abundante e, ao mesmo tempo, não aproveitado.

Meus amores imaginários doem menos.

Mudou tudo nada. Sei que nunca mais vou ter os sentimentos que tive no passado e os do presente não são os que me seduzem.

Nada mudou tudo."O coração continua ". Eu continuo igual. Apesar de sofrer as consequências de ser romântica, apaixonada, poética e sonhadora, eu gosto de mim dessa forma.
Ainda bem, sou a única pessoa com quem terei de conviver até o final dos meus dias.

Tudo mudou nada. Apesar de tudo, você continua sendo um anticorpo poderosíssimo para angústia, depressão e "mal-de-coeur".

Tudo. Se for para falar de um amor sem prazo, sem distância, sem trombadas, prefiro falar do nosso.

Ósculos indizíveis

A "Carta à amiga" pode ser lida aqui

6 comentários:

malmal disse...

das duas cartas lidas, tirei uma conclusão, dois bobões que perderam algo que seria doce e bom pra alma.
por isso sempre digo, não se pode perder oportunidades e se arriscar num beijo roubado...

bijim, este dado.

Alice disse...

"Se for para falar de um amor sem prazo, sem distância, sem trombadas, prefiro falar do nosso."

... bonitoooo isso.
Amei a carta do amigo..

beijo carinhoso e vergonha pois tenho tantas coisa para ler...
Alice

Anônimo disse...

Não me inquieto
quando não recebo as respostas
das perguntas que não fiz.
Eu me conformei
em reservar alguma coisa
de ti para saber depois.
Um pouco de nosso amor
será póstumo.
É recomendável
não descobrir todos os segredos.


Fabrício Carpinejar

Ganhei este livro de um amigo.

Juliana disse...

Não disse? A verdadeira amada.

Fábio Adiron disse...

Esse é um dos livros mais bonitos que eu já li na vida.

É um privilégio tê-lo.

Vilma disse...

O que era nada mudou tudo.