sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Com açúcar, sem afeto


Quem te ver passar assim por mim, não sabe o que é sofrer, já diriam os hermanos.

Da mesma forma, muitos que me lêem podem ser levados a acreditar que eu sou um daqueles conhecidos do Fernando Pessoa que nunca levou porrada na vida. Eu gosto de cozinhar. Modéstia às favas faço isso bem (tenho testemunhas várias), o que não significa que, de tempos em tempos, eu não cometa um desastre culinário qualquer.

O primeiro que eu me lembro já tem quase 30 anos. Tinha ido para New Orleans e me esbaldado com as culinárias creole, cajun, italiana e francesa. Um paraíso gastronômico, muito mais do que de jazz (se você quiser ouvir jazz de primeira mesmo, vá para Nova York ou Chicago). Estava nos primórdios da minha educação como piloto de fogão e resolvi fazer um jantar baseado num livro de receitas que trouxera de lá. A jambalaya ficou muito boa, até porque tinha trazido junto alguns ingredientes. Para a sobremesa fui fazer uma mousse de chocolate branco que era a coqueluche de um restaurante chique da cidade.

Com sobremesa não se brinca, já diria meu amigo Tadeu Masano, se estiver escrito 27 gramas e meia...arranja uma balança que permita medir isso. Segui a receita ao pé da letra. Converti as medidas americanas para os padrões nacionais, contei os segundos dos tempos de cozimento e congelamento. E apareci na sala com aquela obra de arte.

Como sempre faço, esperei meu convidados se servirem e experimentarem. Gosto de observar as reações. Não poderia ser pior. Caretas com tentativas de disfarces, pessoas se esforçando para pegar uma segunda colherada menor (muito menor) que a primeira. O mais sincero só disse : "...é , acho que eu já estou satisfeito, comi muita jambalaya".

Ataquei a minha porção. Intragável. Parecia que eu tinha errado a medida do açúcar e colocado duas xícaras no lugar de duas colheres. Mas eu não tinha feito isso. Que raios tinha acontecido ? Avisei os amigos que não precisam se submeter àquela tortura glicosada. Servi o café e assunto encerrado.

Encerrado ? Nada disso, devo ter relido a receita algumas vezes, repassei os meus passos na confecção do prato e nada. Um belo dia, muitos dias depois, me deu um estalo de Vieira (o padre, não os moluscos) : o chocolate ! No Brasil não tem (ou pelo menos não tinha) chocolate branco amargo, ou seja, a principal matéria prima do prato já vinha adoçada (e bem adoçada, diga-se de passagem) e eu ainda coloquei mais duas colheres de açúcar.

Claro que refiz a receita. Só para mim, para não dar outro vexame. Deu certo. Até hoje está lá no livro, em letras garrafais : Não adicionar o açúcar.

7 comentários:

Vilma disse...

Isso que chamo de confiança, servir os convidados primeiro..., ou seriam cobaias? hahahahaha

Estrela disse...

Ai... sofri do começo ao fim de sua narrativa, rs.
Não tem nada pior do que dar algo errado na comida que fazemos, para quem gosta de cozinhar.

Taty disse...

Ah, vc deve ter pensado que estava inventando uma receita baseada na Tarte Tatin.....experimentos fazem parte da vida, mas nunca vi você interessado em sobremesa.....O vinho subiu à cabeça ou foi a falta dele?

malmal disse...

eu quero !!!!

ZéMoa disse...

Um dia te conto, se ainda não contei, do meu risotto de morango...

Andre Mosse disse...

Olá Fabio!!
Vc tem a receita da mousse em português?
Abraços!!!

Fábio Adiron disse...

250 g de chocolate branco
3 xícaras de creme de leite fresco
2 ovos (separados gema e clara)
1 colher de sopa de água quente
1 colher de sopa de conhaque

Derreta o chocolate
Bata com o creme de leite até formar um creme (chantilly)
Numa vasilha separara bata as claras em neve
Em outra vasilha bata as gemas, a água e o conhaque
Na vasilha das gemas acrescente o chocolate, depois as claras e finalmente o creme batido
Coloque numa vasilha (ou em potinhos se quiser porções individuais)
Deixe na geladeira pelo menos uma hora antes de servir

Sirva com uma geléia de frutas vermelhas

Boa sorte