terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Carta à amiga


As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.


Cinza escuro, um dia qualquer de um ano comum.
Amiga,

Fiquei feliz ao saber que, apesar dos tombos, a fase é a de recomeçar. April is the cruelest of the months.... would say Mr Elliot. Ele se referia a outras sensações e sentimentos, mas não deixa de ser verdadeiro para você. E não deixa de ser verdadeiro para mim... Esta carta talvez reflita mais o que sou do que o que tenho feito. Os temas são simples de mencionar, difíceis de compreender e impossíveis de explicar.

A cabeça do seu amigo está em parafuso. na verdade não sei se a minha intenção é a de buscar orientação , pois sei toda a lógica do que me poderia ser aconselhado ; se é a de buscar solidariedade , mesmo porque não seria fácil para você ser solidária naquilo que você não conhece ; ou se apenas busco alguém que possa me ouvir.

Aos poucos, em almoços com temas variando de “psicologia barata“ (diferenças entre amor e paixão, ou sobre as bengalas que usamos para compensar a falta de pernas emocionais), passando por Cole Porter, até amizade e poesia, descobri uma pessoa que passei a amar como amiga. Alguém que eu queria ajudar e ao mesmo tempo que me entendesse (portanto me ajudando). Um amor muito parecido com o que sinto por você.

Como você pode notar mesmo se você não me conhecesse como você me conhece, alguma coisa além de amizade estava acontecendo. Ela percebeu sem perceber, pois preferiria não acreditar que isto pudesse estar acontecendo. Do ponto de vista racional eu também não queria acreditar. Eu queria não dizer, mas sentia e este sentimento me apertava. Eu queria que não acontecesse, mas cada vez menos conseguia resistir a mim mesmo. Pode parecer engraçado, mas o amor-amigo era e é tão forte, que meu maior medo era e é deixar o amor-eros machucá-la. Era melhor que eu me machucasse do que ela. Mas sabe o que o apalermado do seu amigo fez ? Entregou para ela um poema que ela nunca deveria receber.

Pior. Ou melhor, quem poderia dizer : ela gostou . E apesar de todos os seus medos e traumas ela também não foi capaz de evitar... Neste meio tempo, entre uma parte e outra chegamos a escrever um poema a quatro mãos (ou serão apenas duas ?) , sobre nossas experiências de degustação de vinho. Rituais. Nos pegamos em plena temporada de acasalamento, “ abril é o mais cruel dos meses “ - despertar de sonhos e desejos....

O mais delicioso dos rituais do amor e da paixão....O que que isto significa ? Tudo o que você pode imaginar, romântico e apaixonado. Assustador não é ??? E daí ? E daí cada dia me sinto mais apaixonado. E daí ? E daí que você tem tantas coisas mais sérias para se preocupar e eu fico te enchendo a cabeça com imaturidades e falta de juízo. E daí ? E daí que eu precisava te contar tudo isto...

Não vou te fazer, ainda, uma descrição mais detalhada dela, mas uma coisa eu preciso te contar. É a identificação dela com você. Como ? Primeiro por tudo que eu já contei a seu respeito - e não foi pouco. Aliás , ela é a pessoa que conseguiu chegar mais perto da compreensão da nossa amizade (será que nós compreendemos ?) . Ela é a primeira pessoa para quem eu falo de você tudo o que eu sinto , sem me preocupar com “ afterthoughts” . Depois , ela leu todos os poemas que eu escrevi para você e, notei que ela captou a minha intenção ao escrevê-los.

Finalmente, eu fiz uma coisa incomum , mostrei para ela a última carta que eu te escrevi (permitida pelo fato de eu ter a carta em arquivo - será que esta informatização torna as coisas menos românticas ou permite explorar o romantismo em outras latitudes ?). Outro dia ela comentou : “ parece que eu conheço sua amiga há tanto tempo...” E é verdade, ela fala de você como se realmente te conhecesse (conhecendo a minha versão a seu respeito) .

Realmente eu gostaria de saber mais sobre a sua nova leitura dos poemas, de qualquer forma, não se preocupe em responder as minhas cartas no mesmo ritmo que eu as escrevo, principalmente porque eu escrevo demais. Take your time... Antes de mais nada cuide da sua cabeça e do seu coração que são mais importantes para mim do que cartas. Mesmo escrevendo continuo com muitas saudades.

6 comentários:

Vilma disse...

Continuando com minha crise de insensibilidade...você é muito cara de pau...não se surpreenda se sua amada estiver lendo as cartas à quatro olhos ( sem contar os óculos...rsrsrs). Sou muito latina para textos assim.

jayme disse...

Duas coisas que me vieram à mente no livre pensar à leitura desta carta: 1. A palavra "amiga" e a palavra "amante" têm exatamente a mesma raiz etimológica, sendo usada com freqüência com o mesmo significado (cf. Camões ou John Donne). 2. Caetano Veloso, o mais genial dos chatos, cunhou a frase-razão não menos genial: "dizem que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade -- e quem há de negar que esta lhe é superior?"
Como eu disse, livre pensar. Abração,

Cristiana Soares disse...

Que confusão! Não entendi nada...

malmal disse...

bem, levando em consideração que sua imaginação é fértil, que vc mesmo pede, desesperadamente pra que seus leitores não confundam ficção com realidade, então posso comentar aqui que vc é um grande escritor, afinal, só pelo fato de vc criar esse rolo pseudo-amoroso-platônico é ainda duplamente infiel hahahhahah, com vc mesmo e com elas duas...
aliás que fôlego.

e agora quase falando sério, amizade pra mim não é amor, não esse amor romântico que vc diz , as partilhas são totalmente distintas.
mas eu falei em amor e não sexo.

bijim, derretendo de calor

Fábio Adiron disse...

Vilma : o problema que é o óleo de peroba acabou

Jayme : por isso que Aristóteles escreveu uma poética e não uma prosódica.

Cris : pergunta pro Jayme, ele entendeu tudo.

Mal : ajuda o Jayme explicar para a Cris...risos

Juliana disse...

Nesse contexto eu prefiro ser a amiga, ainda mais depois dessa declaração de amor escancarada na descrição da outra...