sábado, 2 de fevereiro de 2008

À guisa de cartão

Floração. Um canto de pintassilgos. Roxos pintarroxos silvavam no ar escuro da mata. Tico-ticos ticoticavam as amoras recém nascidas que, em vão, tentavam amadurecer. Maturação. A floresta florida feria os olhos azuis de gatos modorrentos lagarteando à sombra dos cinamomos. Tudo som e vida. Vida em paz.

Confusão. O cantos das sirenes anunciavam o fim de mais um dia de trabalho. Sindicalistas classistas e analistas piqueteavam uma nova greve reinvindicando o fim de ano com trimestralidade. Ano novo sem aflição e abono de felicidade. Enquanto isto , mais um pacote decretava a retenção na fonte dos fins-de-semana prolongados e empréstimo compulsório da Páscoa , com devolução, sem correção, de outros carnavais.

Coração. A jovem apaixonada escrevia confidências no diário sentimental, jurando inconfidências. Tudo, tudo tão banal. Cartas enamoradas gastavam selos de Natal que poderiam ser pagos em três vezes, sem acréscimo, em qualquer liquidação. Mas só até sábado. O comércio vendia uma ilusão a cada esquina, um amor em cada rua. Descontos fabulosos para as paixões pagas à primeira vista.

Diversão. Garrafas de champagne entretiam os convidados que tentavam esquecer o passado que piscapiscava nas mémorias de todas as agendas eletrônicas. Impulsos gastronômicos consumiam estoques de sal de frutas. A realidade não subsidia as festas de fim de ano. A solidão sim.

Intenção. Esperança de um futuro melhor que o passado. Por melhor ou pior que tenha sido. O futuro é apenas um minuto adiante do que marcam os relógios digitais das avenidas da metrópole.

Floração. Confusão. Coração. Diversão. Intenção.

Tudo isto numa carta escrita à guisa de cartão.

3 comentários:

Vilma disse...

Essas histórias deixam seu blog com cara de Eclesiastes..., Se Salomão fosse vivo iria te dizer: não te falei? Tudo é vaidade...

Juliana disse...

cheio de intenções, essas também são vaidade, não?

Vilma disse...

Tudo é vaidade²