sábado, 22 de agosto de 2009

Como se fosse ontem


Buenos Aires. 21 de Agosto de 1951.

Ada não entendia nada de música, mas entendia de finanças, por isso foi contratada para trabalhar na loja de discos. Ali fazia exatamente o que gostava sem atentar muito para o que acontecia no balcão.

Bruno adorava música. Especialmente música clássica. Sempre que passava em frente à loja olhava os lançamentos. Não poucas vezes saía com um long-playing debaixo do braço e apressava o passo para casa para escutá-lo logo.

Um dia a balconista faltou. O dono da loja pediu para Ada ajudar a atender os clientes. Meio sem jeito ela concordou e desceu para substituir a faltosa.

Naquele dia, Bruno mal notou que a loja recebera o último sucesso de Tony Benett, não coincidentemente chamado "Because of you", nem que um tal de Nat King Cole cantava "Unforgettable" na vitrola. Ele só conseguia olhar para os olhos verdes de Ada.

Começou a pedir indicações de discos (como se não soubesse de nada), só para ter um motivo para ficar olhando para ela. Ela, perdida, não sabia o que dizer e não via a hora dele ir embora.

No dia seguinte ele voltou. Ela não estava lá, tinha voltado para sua mesa e para seus livros de contabilidade.

Ele passou a tarde olhando os discos. Esperando.

No fim do dia ela apareceu descendo as escadas do escritório que davam dentro da loja. Quando o viu seus lábios tremeram de uma forma quase imperceptível. Exceto para ele.

Convidou-a para tomar um sorvete, apesar de pleno inverno. Ela foi.

Ele gostava de música, ela de contas. Ele era Boca Juniors, ela River Plate.

Para impressioná-la disse que jogava rugby, mas jogava futebol. Aumentou sua idade, ela achou que era pouco provável mas, à essa altura, isso não fazia muita diferença.

São Paulo, 21 de agosto de 2009

58 anos depois, dos quais 54 casados, Ada e Bruno saíram para comemorar mais um aniversário de vida em comum.

Ele continua gostando mais de música do que ela. Ela continua gostando mais de um extrato de banco, e há muito sabe a sua idade verdadeira e que nunca jogou rugby.

Ele continua encantado com os olhos verdes. Ela continua encantada com seu romantismo.

Apaixonados, desde sempre. Para sempre

5 comentários:

clau disse...

Gozado vc contar esta sua estòria, Fabio...!
Pq sabe, bem ontem eu estava caminhando em uma calçada estreita ali no Corso Cavour, no centro de Perugia qdo, entao, escutei um alegre "com licença!?".
E fiquei observando, quase que intrigada, um casal de alegres velhinhos que passou por mim de maos dadas, em meio à uma entusiasta conversa olho no olho.
Se via o qto estavam contentes de compartilhar aquele passeio juntos.
Ainda.
Fiquei comovida...
Bjs!

Vilma Mello disse...

No balanço geral do coração de quem ama o saldo é sempre credor

beijos de sábado

Virginia disse...

Desta doce união surgiram três filhos e dois netos...eles continuam apaixonados e encantados um pelo outro...os lábios dela ainda tremem ao vê-lo, e ele ainda suspira pelos olhos verdes dela...obrigada pela linda homenagem primo...Bruno e Ada existem e são meus pais...beijos...

Juliana disse...

Infinito enquanto dure coisa nenhuma. Infinito porque dura.

Anônimo disse...

Eh...um romance na vida real.
Que lindo! Felicitações.
beijos