sábado, 4 de julho de 2009

A mulher do capitão

Todos os dias no fim do dia, Rachel ia até o porto para se despedir de seu namorado, o capitão da balsa que liga a ilha ao continente. Todos os dias pela manhã, ela voltava para receber o seu namorado, o capitão da balsa que chegava. Uma rotina que durou anos a fio.

O que o capitão da balsa não sabia era que ele não era o único na vida de Rachel, havia um outro, que era o capitão da balsa.

Na verdade, duas balsas faziam a ligação entre aquele fim de mundo e a cidadezinha do litoral, alternadamente. Quando uma delas estava indo para a ilha, a outra voltava para continente. Menos aos finais de semana. A balsa que chegava na sexta feira só voltava no domingo à noite. A outra chegava só na 2a feira de manhã.

Como que Rachel conseguiu seduzir Antonio e Henrique ninguém nunca soube. Mas todos na ilha sabiam o que acontecia. Como os dois só se encontravam no meio da travessia, mas nunca pessoalmente, não sabiam que eram amantes da mesma mulher.

Mesmo os moradores do continente, que chegavam a passar alguns dias na ilha, acabaram entrando no jogo daquele segredo público.

Rachel recebia seu capitão da manhã, o levava para casa onde lhe oferecia comida, amor e repouso antes da viagem de volta. Como eram homens de portes similares, ela se encarregou de comprar roupas e pijamas que os dois compartilhavam sem saber. Quando um deles não encontrava alguma roupa que procurava ela dizia que estava lavando.

Antonio e Henrique amavam Rachel, que amava os dois, sem distinção.

Até o dia da grande tempestade.

Numa quinta-feira, um vendaval assolou a ilha no fim do dia e continuou noite adentro. Henrique estava acostumado a navegar na chuva, mas naquele dia concluiu que o risco seria exagerado. Foi até o navio, chamou sua base no continente pelo rádio e avisou que não voltaria naquela noite.

Voltou para casa e avisou Rachel que tinham ganho um fim-de-semana prolongado, já que ele só voltaria no domingo. Rachel até que gostou.

O que ela não contava era com o fato de que a tempestade não chegara ao continente, e a balsa de Antonio zarpou normalmente naquela noite.

No dia seguinte ela acordou com o apito da balsa entrando na enseada. Olhou para o seu lado na cama e Henrique estava lá. Como não esperava o outro barco dormira até mais tarde.

Empalideceu quando se deu conta de que as duas embarcações estavam na ilha. Pelos seus cálculos não teria mais do que uma hora para pensar no que fazer.

Levantou com cuidado para não acordar Henrique. Foi até a cozinha. Não, não daria tempo nem de tomar um café. Pegou a bolsa, encheu com o dinheiro que guardava no fundo da geladeira, pegou algumas roupas que estavam para passar e desapareceu.

Antonio chegou na casa aborrecido porque Rachel não o estava esperando no cais. Foi direto para o quarto e deu de cara com Henrique roncando, pior, usando o que ele julgava ser o seu pijama. Os vizinhos só ouviram os gritos e o quebra-quebra. Depois o silêncio.

Naquela noite a primeira balsa voltou para o continente sem capitão. Dentro dela Rachel recordava os seus anos de felicidade, mas sabia que tudo tinha acabado.

Quando chegou ao continente, para onde não ia desde que começara seus romances, pegou o primeiro ônibus para o interior.

Nunca mais viu o mar.

4 comentários:

clau disse...

Nossa... isto é que é um relato de açao e suspense!
Precisava pensar muito para poder continuar escrevendo os paragrafos antes que viesse o final: uma coisa davvero hiticoquiana...rss
E todos sabemos que nunca foi bom negocio ser mulher de capitao.
E assim, a pobre da Raquel foi comprar seus pijamas em uma outra freguesia.rss
Bjs, Fabio!

Anônimo disse...

eh.... muito pródiga ela, talvez queria estar sempre acompanhada- dar muito amor e receber- Penso que deveria ser pródiga com ela mesma, e não se privar do mar e do amor.
beijos

Anônimo disse...

Uma história bem contada e triste...

Beijos de sábado

Vilma

Ana disse...

Que triste....mas quem mandou aprontar?? hehehe