sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estranho amor

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
Manuel Bandeira

Ela começou a estranhar suas atitudes no dia em que ele disse que tinha esquecido algo no carro e demorou quase meia hora para voltar da garagem.

Ele andava com um olhar estranho, ou melhor, o olhar até que não era tão estranho assim, mas há mais de 20 anos que ela não o via daquele jeito. E a última vez tinha sido com ela.

O mais estranho é que não dava nenhum sinal clássico. Pelo contrário, começou a chegar em casa mais cedo que o normal. Passava mais tempo com as crianças no play ground. Estava mais social com os vizinhos.

O cúmulo do absurdo foi o dia em que ele resolveu ir na reunião de condomínio, depois de mais de uma década sem ir. Aí tem coisa, ela pensava.

Começou a fazer uma marcação mais cerrada e não demorou muito para ver que ele sempre estava nos mesmos lugares que a ruiva do oitavo andar.

A ruiva levava as crianças para o salão de jogos do prédio...e logo depois ele convidava as crianças para brincar. Quando ela saia para levar as crianças na escola, ele estava na portaria, saindo para sua caminhada matinal. Entendeu até a história do condomínio, a outra tinha sido eleita sub-síndica.

Mas ele não havia nenhuma prova de que os dois estivessem tendo um caso.

Até o dia em que ela olhou pela janela e o viu acariciando a perna da ruiva. Entrou no elevador pronta para detonar com os dois.

Saiu bufando em direção ao páteo. Quando estava perto dos dois ele levantou a a mão...onde tinha uma bola peluda.

"Olhe que lindo !" ele disse, mostrando o porquinho-da-índia. Ela ficou roxa de vergonha. Não era a perna da ruiva que ele acariciava, era o bicho.

"Eu tive um quando era pequeno, quando morreu fiquei tão triste que meu pai nunca mais me deixou comprar outro..."

Ela não sabia se se escondia ou se morria de dó do marido apaixonado pelo roedor.

Por via das dúvidas, no dia seguinte marcou consulta no oculista.

5 comentários:

clau disse...

Estoria bem legal, esta: gostei!
Nada mal descobrir que a paixonite do marido é por um porquinho-da-india ja que, na realidade, a estoria é sempre muito pior que isso, rss.
Bom fim de semana para vcs, Fabio!
Bjs!

alealb disse...

amei!
muito bom!
:)
beijos,
alê

Anônimo disse...

Às vezes a gente vê coisas que não existe. Eu já "apanhei" na vida por conta de cíumes.Não valeu a pena.Quanto a seu texto, está um primor como sempre.
Beijos de fevereiro a julho.

Vilma

Fábio Adiron disse...

Vilma

Bem vinda de volta ao antro das insanidades.Ciúme não deixa de ser uma delas. Beijos retroativos.

Ana disse...

Ainda bem que irei ao oculista na semana que vem!!rs