terça-feira, 7 de julho de 2009

Lavender blues

Lavender's blue, dilly dilly, lavender's green,
When I am king, dilly, dilly, you shall be queen.
(Canção folclórica inglesa do séc XVII)



Marcelo estava naquela fase em que os meninos viram poetas. Apaixonava-se uma vez por mês. Tomava um fora com a mesma frequência.

Fosse para conquistar alguma garota, seja para afogar as suas mágoas, ele escrevia. Aos borbotões.

Em alguns poucos intervalos entre uma desilusão e a paixão seguinte, ele dedicava-se a procurar as melhores frases, as palavras justas, o soneto perfeito.

Para isso lia os clássicos da poesia, um atrás do outro, fazia anotações e enchia o seu caderno de rascunhos.

Um dia, em um dos livros, deparou-se com a foto de um campo de lavandas. Ficou encantando com a cena provençal.

Não só a flor era bonita, como também fornecia um dos perfumes mais suaves do mundo.

Depois de várias tentativas, chegou aquela que considerou sua melhor metáfora : "Como flores de lavanda seus olhos se espalham pelos campos da minha alma..."

Além de ter todas as palavras no lugar, ainda poderia ser usada em uma redondilha. Resolveu guardá-la para o dia que encontrasse a mulher perfeita.

Claro, no caso de Marcelo, a mulher perfeita era a próxima paixão, e não demorou muito para aparecer.

Conheceu Sônia numa festinha da escola. Era irmã de um dos seus colegas.

Depois de umas semanas de flerte resolveu declarar-se, com um poema, é claro. Convidou-a para ir ao shopping e depois de tomarem um sorvete, sentaram para conversar.

Foi a sua deixa, Tirou o papel do bolso e disse que tinha feito um poema para ela. Ela sorriu envaidecida.

Nem bem ele tinha começado a ler, Sônia levantou-se chorando e foi embora. Perplexo, Marcelo correu atrás dela, perguntando o que tinha acontecido.

Ela olhou nos seus olhos e disse: " - Eu estava gostando de você e, de repente, você me mostra essa poesia dizendo que gosta de outra".

"- Como assim, de outra? Eu fiz o poema para você..."

Sõnia chorou ainda mais alto, a ponto de chamar a atenção das pessoas que passavam por eles.

" Para mim ? Seu hipócrita..., para mim? Campos de lavanda? Meus olhos são castanhos, você já viu lavanda castanha?

E foi embora.

Naquele dia Marcelo descobriu que a melhor metáfora não resiste à realidade.

6 comentários:

Anônimo disse...

Eu gostaria de ter sido o carteiro de Pablo Neruda... tenho dificuldades com algumas metáforas, mas sem dúvida nenhuma todos os olhos castanhos são azuis quando se está apaixonado.

Beijos de terça


Vilma

clau disse...

O pobre do Marcelo!
Aquele sorvete tinha deixado a Sonia muito fria...
As metaforas sempre sao melhor que a realidade!
Bjs!

Anônimo disse...

Talvez ...a paixão, não resista à relidade.Por isso, prefiro o amor antigo... que transcendeu as apaixonites...como aquela história do leite que sempre estará lá para a gata...heheheh
beijos

Bel disse...

Pra você ver que droga é uma mulher inteligente e com os pés no chão!
Melhor seria ela pintar o cabelo de loiro, e não fazer idéia de que cor seria um campo de lavandas!

Juliana disse...

Não me lembro de nenhuma flor castanha que pudesse ajudar o menino.

Ana disse...

Sônia estava insensível, ou sensível demais....