sábado, 13 de outubro de 2007

Solilóquios vulgares


...pessoas que pedem um norte, e evidentemente como um poeta eu dou o sul (Fabrício Carpinejar)


Ela nunca o entendeu. Não que tivesse feito algum esforço para isso, muito pelo contrário, ela tinha aquele hábito de perguntar e ela mesma criar aquilo que imaginava que seria a resposta. Pior, a resposta criada nos seus delírios criativos tornavam-se verdade absoluta, independentemente das respostas dele que eram solenemente ignoradas. Até mesmo aquelas que tinham lógica. Até mesmo as que eram acompanhadas de provas concretas. Nada valia, só as palavras que ela tinha colocado na sua boca ou nos seus pensamentos.

Quando ele apelava para respostas documentais, ela rasgava as cartas (nunca se soube se lera ou não) e alegava nunca terem sido recebidas. Uma vez ele chegou a usar o aviso de recebimento dos correios. Ela ameaçou ir à polícia dizendo que a assinatura que constava no documento era uma fraude que precisava ser denunciada. Desistiu. Afinal ela concluíra que fora ele mesmo que forjara a sua assinatura.

Na maioria das vezes isso nem o incomodava tanto, muitos temas eram irrelevantes que merecessem ser corrigidos. Mas em outros ele não queria deixar margem à dúvidas. Um dia a paciência dele se esgotou e ele passou e ignorar as respostas que ela inventava para ele. Emudeceu. Aí o caldo engrossou. O silêncio a incomodou mais ainda e ela passou a inventar respostas cada vez mais agressivas, como se partissem dele uma série de ofensas que ela supunha estar sendo vítima. Mesmo assim ele não abriu a boca.

Ficou pensando. Como poderia dar um fim nessa situação ? Faltava muito pouco para ela dizer que ele tinha dito que não a amava mais, e aí seria o fim. Aliás, já era o fim, de que adiantaria ele dizer alguma coisa ? Se em todo esse tempo ele nunca fora ouvido, por que o seria agora ? Em todo caso, ao menos ela precisaria saber que ele a tinha abandonado.

Numa manhã de domingo ela acordou com uma barulheira na sua porta. Os moleques passavam por sua janela, gritavam seu nome e corriam dando risadas. Abriu a janelas e no outdoor que ficava em frente à mesma, ao invés das tradicionais mensagens publicitárias estava escrito em letras garrafais :

"Elvira . Adeus. Eu te amo, mas não há mais monólogo entre nós. Dagoberto".

4 comentários:

Taty disse...

A questão do silêncio.....complicado; monólogo...pior ainda. Vou pro Norte e você vai pro Sul...mas podemos nos encontrar no Centro, depois de passarmos pelo Leste e Oeste...Lembrei do filme "O Feitiço de Áquila".

Vilma disse...

Pessoas como a Elvira são vampiros emocionais conduzindo uma carroça vazia, o barulho é tanto que não percebem o abismo onde estão caindo.

Anônimo disse...

Existem pessoas que simplesmente ignoram a felicidade, aquela tal coisa de só dar valor quando se perde, ou talvez a Elvira nem note que se perdeu, tão centrada no próprio umbigo que vive.
Eu particularmente feliz, indicaria a ela uma bússola.
Talvez a referência do norte a ajude a reconhecer o centro em que vive a caminhar em círculos e seguir em alguma direção mais segura atraída por algum pólo magnético mais forte.

Bijim de sábado feliz e com sol

malmal

lully disse...

Muito bacana e profundamente real!
Eu já sofri com monólogos e emudecimentos. Acho que por isso tenho sido mais direta. Deixei para devanear nas ações e não mais nos pensamentos.