sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Inadjetivamente*


Sentei na calçada da avenida com as mãos à cabeça. Já tinha passado por essa situação mais de uma vez. Por quê então a dor ? Por quê o ceticismo e a desilusão ? Chegarei em casa, contarei para a mãe , ela me ouve. Ela vai fazer aquele chá de camomila e me mandar dormir. Amanhã é outro dia e a vida continua, vai dizer. Vai recitar o poema do Drummond. Sete faces, acho que é esse. Ou serão sete torres ? Não, sete torres é o romance que ela gosta, o poema é faces mesmo. Como se fosse um eco.

A frase do adeus ecoa nos meus ouvidos. A desculpa foi a mesma de sempre. Não é você, a culpa é minha. Se não sou o culpado qual será o motivo que sempre acabo sozinho ? Essa foi a quinta namorada em menos de um ano. Me apaixonei por todas elas. Todas diziam estar apaixonadas também. Paixões que não duraram mais que algumas semanas. Em seguida os chavões : preciso falar com você... acho que não vai funcionar desse jeito... sabe a culpa não é sua.... podemos continuar amigos. Lágrimas.

Algumas lágrimas pingam nos meus sapatos. Precisam de graxa. Será que elas não gostam das minhas roupas ? Serão meus sapatos demonstram algo que eu não consigo ver ? Pode ser o meu trabalho. É um emprego para o resto da vida. O salário compensa a cara do chefe. Acho que mulheres não querem passar a vida ao lado de funcionários. Nada vai faltar, mas também nunca existirão sobras que permitam extravagâncias. Eu não gosto mesmo de extravagâncias, prefiro a frugalidade. Será que existem mulheres assim ?

Se existem, onde será que eu as encontro ? Preciso frequentar outros lugares. Nesses bares e festas que eu vou só tenho encontrado o mesmo tipo de mulher. O tipo que me abandona. Acho que vou começar a frequentar parques e museus. Será que as mulheres que vão a esse lugares pensam de outra forma ? Minhas exigências são poucas. Não procuro beleza em demasia. Não fico escolhendo mulheres como escolho tomates na feira. Esse sim, precisam beirar a perfeição. Mas eu não uso mulheres para fazer molho de macarrão.

Um macarrão pode ser a solução. Já é quase hora do almoço. Aquela cantina da quinta travessa costuma fazer macarrão aos sábados. Um pão de alho de entrada. Quem sabe até uma meia garrafa de vinho. Sózinho, só meia garrafa mesmo. Não vou chegar bêbado, além de deprimido. Uma coisa de cada vez. À noite, quem sabe, bebo em casa. Mas não vai ser a bebida que vai me levantar. Vou fazer igual aquele japonês que anda sobre as brasas. Eu li o livro dele. Eu consigo. É só olhar para frente e caminhar, sem olhar para os pés. Serei um herói da resistência. Vou caminhar de olhos fechados.

Eu já sinto o calor das brasas sob os meus pés. Será o fogo do inferno ? Depois que o Penha-Lapa passou por cima de mim não me lembro de mais nada.

* Inadjetivamente é uma palavra que não existe. Esse texto é um exercício de redação proposto por minha amiga Lucey. Não tem nenhum adjetivo (se encontrar algum me avise que eu reviso)

2 comentários:

Vilma disse...

Sem adjetivos, que pena... mas deu conta do recado.
Senti saudades da minha mãe, das histórias que contava, do macarrão de domingo, do abraço com cheiro de alho.

Anônimo disse...

tadinho do moçoilo desativejado, hehehe, será que essa existe? e que fim tristeeeeeeeee, justo o Penha-Lapa..o azul da CMTC ? de resto só uma coisa me faz mais triste, que esses seus post me lembram quanto tempo faz que conheço o Penha-Lapa, portanto, a idade está chegandoooooooooo...

bijim, subindo que vou ler os outros...

malmal