sábado, 26 de setembro de 2009

Conticulóides cremosos

Consistência

Quando Ana, sem querer, esbarrou na mão de Mário durante a reunião, ela sentiu algo lhe subir pela espinha. Nunca tivera aquela sensação antes e, olhando para a mão do colega, não conseguia imaginar o porquê, uma mão tão parecida com qualquer outra. Com o tempo descobriu que era muito mais que isso.

Aparência

Carlos era um esteta. Admirava as pessoas pelas suas feições, pouco importava o que elas pudessem ser, desde que fossem bonitas. Casou-se com Raquel, a mulher mais bonita que jamais tinha visto. Ela o maltratou e espezinhou durante toda a vida, mas ele só a abandonou quando concluiu que ela perdera sua beleza.

Aderência

Ele sempre dizia que a sentia penetrando nos seus poros. Ela achava engraçada a expressão mas, ao mesmo tempo, mais uma das cantadas baratas que ele insistia em lhe passar. Quando ficou grávida pela primeira vez descobriu que não. O exames pré-natais acusaram presença do DNA dela, no sangue dele.

Hidratação

Rosana sempre achou que banheira era coisa de gente fútil. Como é que alguém poderia achar aquele monte de água algo prazeiroso? Na primeira vez que passou a noite na casa de Daniel, ele encheu a banheira com sais de anis. Foi paixão instantânea, não por ele, mas pelos sais. No dia seguinte foi procurar um apartamento com banheira.

Aroma

André entrou no elevador e achou que algo estava diferente. Não era o tapete, nem o espelho. Os botões continuavam sujos e a porta riscada. Morreu asfixiado pelo gás antes de chegar ao 15º andar.

Permanência

Eu bem que gostaria de esquecê-la, ele sempre dizia. Não conseguia. Em cada canto ele encontrava algo que a trazia de volta à sua lembrança. Todas as noites dormia pensando se, algum dia, livraria disso. Não foi possível. No leito de morte, em delírios, a chamou até morrer.

2 comentários:

Vilma Mello disse...

"cremosos" é de matar de rir... hahaha, vou correndo passar meu creme...
beijos de sábado

Juliana disse...

Lindo o vidro, onde é que se encontra isso?